Notas iniciais
Espero que gostem ♥

Assim como Iara, Kevin também não estava confiante que apareceriam clientes naquela data. No entanto, ele subestimava o potencial persuasivo das bebidas alcoólicas. Normalmente, Kevin recusaria clientes bêbados… Certo, isso não é totalmente verdade, ele só os recusava se a tatuagem fosse comprometedora ou em um local não muito sábio. Uma vez, um homem que mal se equilibrava em pé queria que Kevin tatuasse um desenho do gato dele no seu rosto. Kevin serviu um café e o mandou embora. Mas, agora, independente do que fosse, Kevin aceitaria. O dinheiro de clientes bêbados paga as contas tão bem quanto o dos sóbrios.

Mas os bêbados são muito mais irritantes.

— Está de cabeça para baixo! Não faça assim, conserte!

Kevin demorou para entender. O homem, Evan, falava com uma voz arrastada enquanto apontava para o papel com o desenho, que estava na posição certa para Kevin, mas para ele, parecia de ponta cabeça.

— Não está, veja. Para mim, está correto.

— Não, está de cabeça para baixo! Conserte isso, vai ficar no meu braço para sempre, não vou deixar fazer errado!

— Senhor, só parece estar de cabeça para baixo porque você está olhando de cima, mas eu, que estou olhando de frente, vejo o desenho do jeito certo, entendeu? – Kevin explicou, com toda a sua paciência. Ele tinha um jeito de falar que conquistava as pessoas, tranquilizava aqueles mais medrosos ou que nunca tinham feito uma tatuagem antes, e os convencia facilmente. Mas seu carisma deveria estar de folga pelo feriado, pois Evan continuou insistindo que aquilo não fazia sentido, estar invertido para ele e correto para Kevin.

Kevin pegou um espelho circular de tamanho médio e o segurou na frente do homem.

— Olha, no final é assim que vai parecer, está vendo?

Evan estreitou os olhos, tentando ler com dificuldade.

— Está vendo que você posicionou errado? A palavra está ao contrário!

— Cara, a imagem é sempre ao contrário nos espelhos, tanto que o desenho no reflexo está no braço errado.

— Eu não vou fazer porcaria nenhuma se você não ajeitar!

Kevin suspirou longamente, pensando em como fazê-lo entender.

Enquanto isso, no lado oposto do corredor, nem meia hora se passara e Erika já se arrependia de ter insistido pela Dolores. Que Kevin nunca soubesse disso, mas ele estava certo, ela precisava de alguém mais compreensivo. Dolores era jovem, quase uma adolescente, e estava para fazer sua primeira tatuagem. Erika não perguntou o que a levara a marcar um horário na véspera de Natal. Seus clientes eram geralmente esquisitos, então ela aprendeu a não perguntar. Mas Dolores parecia diferente dos outros. Ela encarava com nervosismo enquanto Erika preparava os materiais, apertava as mãos uma na outra e mordiscava vez ou outra o lábio.

— Vai doer? – perguntou para Erika, pela quinta vez.

— Eu já disse “sim”, “não”, “um pouco” e “talvez”. Só me diga qual resposta você quer ouvir, ok? – Apesar das respostas grosseiras ou sarcásticas, Erika não parecia irritada. Ela sempre parecia calma, apesar da leve impaciência para papo furado e perguntas tolas. Muitas vezes, Erika nem percebia que estava sendo grosseira.

— Mas dói muito?

Erika ergueu os olhos para Dolores, e, sem muito interesse em responder, pegou um cartão plastificado justamente por causa desse tipo de cliente. O cartão mostrava um mapa de dor espalhado pelo corpo, dividido em verde, amarelo e vermelho, variando de dores leves à fortes. Dolores, que queria uma tatuagem na canela, bem sobre o osso, empalideceu ao ver o sinal vermelho na região. Erika guardou o cartão, pensando que agora teria um pouco de silêncio. Voltou a preparar seus equipamentos. Ao lado da mesa, um mostrador holográfico informava as horas, a data, o clima e, mais importante, trazia um sinal identificado como “ALERTA AMARELO”. Em letras menores, o descrevia: “Aproximação de asteroides. Médio risco. Manter-se alerta.”

— Acha que teremos queda de meteoritos hoje? Ai, isso atrapalharia tanto minha noite…

Erika não achava nada, além de que Dolores falava muito.

— É só um alerta amarelo.

Por causa da proximidade de Júpiter, asteroides eram uma preocupação frequente, pois a massa do planeta os atraía bastante. Um setor do governo estava sempre mapeando as aproximações, e geralmente conseguiam desviar aqueles cuja rota era perigosamente próxima da órbita de Ganimedes, disparando densas capsulas metálicas e maciças na direção das rochas. Os que eram grandes demais para se deixarem desviar, eram explodidos, e a maioria dos destroços continuava seu caminho para Júpiter, mas alguns podiam cair em Ganimedes. Pelo menos não seriam mais tão grandes, mas ainda causavam estragos. A atmosfera gerada artificialmente no satélite não era suficiente para protegê-los dos impactos, como acontecia na Terra.

— Podemos começar? – Erika perguntou, com tudo pronto.

— Claro! – Dolores falou, com empolgação.

O ambiente logo foi preenchido pelo som do aparelho, e Erika se aproximou lentamente, com a agulha em riste. Mal tocara a perna de Dolores, quando ela se inclinou para a frente devagar. Erika não entendeu, mas Dolores bateria em seu braço, então deu alguns passos para trás. Estranhamente, Dolores continuou tombando até cair da cadeira, desacordada.

— Fala sério… – Erika murmurou, impressionada. – Dolores?

Erika largou a agulha e cutucou a cliente com a ponta do pé. Nada. Ela havia desmaiado.

— Não, sem condições. Eu nem tinha começado…

Erika meneou a cabeça, descrente, e saiu, deixando Dolores no chão sem qualquer cerimônia. Foi direto ao estúdio de Kevin, surpreendendo uma cena inusitada.

— …então preste atenção, ok? – Kevin falava, em frente a um espelho que um dos amigos de Evan segurava. – Quando eu levanto minha mão direita, o reflexo levanta a mão esquerda, percebe?

— É a mesma mão! – Evan, o cliente, gritou.

— Não é, porque o reflexo está de frente para… – Kevin se interrompeu quando viu Erika entrar. – Ah, não, o que foi que eu fiz?

— Como assim?

— Você está me olhando como se quisesse cometer um crime.

— Meu rosto é assim mesmo, você sabe. Olha, é a Dolores…

— Ah, não, você já cometeu o crime, né? Eu estou fora, não vou para a cadeia por você!

— Preciso de ajuda com ela – falou, como se as palavras fossem amargas.

— Espera… quê? – Kevin, inicialmente incerto do que tinha escutado, logo abriu um largo sorriso. – Você está admitindo que precisa da minha ajuda?

— Eu admito que talvez ela precise de alguém mais…

— Talentoso? Profissional?

— Fútil, porém amigável… Ela ficou nervosa e desmaiou.

Os olhos de Kevin brilharam de incredulidade.

— Não brinca. – Ele assentia com a cabeça enquanto pensava, Erika pedindo sua ajuda era uma situação bastante incomum. Na verdade, a última vez em que ela pedira sua ajuda, eles tinham 4 anos e Erika pediu para ele passar o lápis de cor vermelho, que estava muito distante dela. – Certo, eu atendo ela. Mas em troca, você pode ficar com o Evan? – Apontou para o homem, que agora analisava qualquer coisa no próprio reflexo. – Ele e os amigos podem estar meio fora de si, mas só estão levemente bêbados.

— Já, a essa hora? – Erika questionou. – Ainda são 9h10min!

— E como você sabe que é “” e não “ainda”? Eles podem ter começado ontem. Você, sempre tão apressada para julgar os outros… Enfim, eu acho que o Evan precisa de alguém justamente com o seu jeito. O que me diz?

Antes de fecharem o acordo, Iara surgiu na porta, com ares de quem carrega um anúncio importante, mas hesitou ao olhar para dentro do estúdio de Kevin, completamente decorado para a estação.

— Achei que você era um dos “emocionalmente fracassados” que odeiam o Natal.

— Eu gosto da estética do Natal. – Ele deu de ombros. – A obrigatoriedade da interação social é que ferra tudo. Foi o tema do meu TCC.

— O quê? Ah, que seja! Eu estou saindo agora, certo? Vocês viram o alerta amarelo? Sabem o que fazer se o governo decretar situação de emergência?

— Colocar todos os clientes para fora porque nosso abrigo só tem capacidade para quatro pessoas, e se os clientes morrerem aqui dentro é nossa responsabilidade, mas se for lá fora é apenas uma fatalidade? – Erika respondeu de uma vez só, e apesar de não parecer uma resposta séria, era exatamente a recomendação que Iara fazia sempre que havia risco de queda de meteoritos.

— Perfeito, Erika. Vocês estão bem agora, né? Posso mesmo deixá-los aqui?

— No momento, estamos bem. – Kevin respondeu. Iara revezou o olhar de um para outro, hesitante.

— Certeza? Posso ficar mais uma hora, para garantir.

— É melhor você ir logo, se o alerta se tornar grave, não ficará presa longe da sua família. – Erika disse.

— É… tem razão. Cuidem-se. Feliz Natal! Ah, desculpe, esqueci que são alérgicos ao Natal – provocou, antes de se retirar.

— É melhor nos apressarmos também. – Kevin se retirou.

Erika foi até o grupo de quatro pessoas, que conversavam barulhentamente. Kevin não tinha nem começado com Evan, e ela não sabia o motivo de tanta enrolação.

— Você é o Evan? Eu vou atender você agora.

— Certo, mas conserte a besteira que aquele magrelo fez! – Evan cuspiu, irritado. Erika examinou o desenho e não entendeu qual era o problema.

— O que tem de errado?

— Está de cabeça para baixo e invertido! Eu não vou fazer assim!

— Não está – disse, pegando os equipamentos.

— Está sim, veja…

— Não está, senta aí e cala a boca. Eu vou começar.

E, no que a paciência de Kevin havia falhado, Erika conseguira resolver. Evan pressionou os lábios, contrariado, cruzando os braços como uma criança birrenta, mas recostou-se na cadeira para começarem.

Ao mesmo tempo, Kevin ajudava Dolores, que havia acordado agora, a se levantar. Ela apoiava a cabeça com a mão, mas não parecia machucada. Porém, o rosto vermelho e a voz baixa mostravam o quanto ela se sentia envergonhada pelo desmaio.

— Desculpe, eu… acho que fiquei meio nervosa.

— Ah, não tem pelo que se desculpar! Você ainda tem interesse em fazer a tatuagem? Não tem problema remarcar, se preferir.

— Não, eu quero fazer hoje sim.

— Certo, então vamos começar.

— Vai doer? – perguntou, ansiosa.

— Um pouco, sim, mas o desenho é pequeno, então vai ser tão rápido que você nem vai notar – tranquilizou Kevin. – E se durante o procedimento você achar que não vai aguentar, é só me avisar, que paramos e marcamos outro dia para concluir. Que tal? – Dolores assentiu avidamente. – Ótimo. Então, vamos começar!

Notas finais
Obrigada por ler ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.