Anthony Graymane foi obrigado a abandonar seu copo de bourbon sobre a primeira mesa que encontrou. Anthony havia prometido deixar de lado todo e qualquer assunto remetente à Ordem durante aquela noite. Ele aproveitaria a festa, beberia bourbon e socializaria como o adulto civilizado que era. O Conselheiro, no entanto, percebeu o alvoroço entre os convidados. Pressentindo que algo havia acontecido, começou a sentir calafrios percorrendo seu corpo coberto por um caro terno preto feito sob medida. Logo um mensageiro lhe foi enviado para informar que algo tinha acontecido no laboratório leste da Ordem, e todos os Conselheiros haviam sido convocados para uma reunião de emergência. O homem estava preso numa tediosa conversa sobre as finanças da empresa e, de certa forma, ficou grato por ter tido um motivo tão educado para abandonar os senhores investidores.

Anthony, por um instante, temeu que Robert estivesse morto, feito algum experimento na Pedra ou resolvido acabar com a própria vida — e dessa vez tivesse obtido sucesso. Porém, assim que sentiu o cheiro de fumaça e ouviu as sirenes, ele percebeu que o ocorrido era muito pior do que ele havia imaginado.

Num passo apressado, o Conselheiro tentava desviar das pessoas abarrotadas pelos corredores, que ainda não entendiam a importância do que havia acabado de acontecer, que ainda perguntavam umas as outras o que teria acontecido. Nem ele próprio sabia.

Anthony foi parado diversas vezes durante o trajeto até a Sala de Reuniões da Sede – tanto pela imprensa quanto por membros curiosos. A presença da polícia e dos diversos caminhões de bombeiros não amenizava a situação. Os importantes convidados presentes na festa da Sede foram escoltados para fora do salão. Todos os membros da Ordem foram obrigados a deixar suas camas e abandonar o que estivessem fazendo, tudo por medidas de segurança. Pelos sussurros e comentários, o laboratório havia pegado fogo. Não, melhor, ele havia sido incendiado.

Seguranças da Ordem, policiais e repórteres se espalhavam pelo gramado verde e bem aparado da Sede. Já era possível prever as manchetes de todos os jornais do mundo na conturbada manhã seguinte. “Últimas notícias: um incêndio ocorreu em um dos laboratórios do Centro de Pesquisas Blue Skies de Los Angeles na noite desta quinta-feira. Eu sou Melissa Lewis, do Canal 5. Continuem ligados para mais informações.” Anunciou uma repórter alta com um forte sotaque sulista enquanto Anthony passava ali por perto.

O Conselheiro correu para longe dos flashes de câmeras e entrevistadores insistentes. Entrou apressado no prédio principal da Sede e pegou o elevador para o vigésimo e último andar do edifício. Quando chegou à Sala de Reuniões, todos os outros quatro Conselheiros estavam esperando por ele. Pegou uma xícara de café, sentou-se à beirada da comprida mesa de reuniões, ajeitou-se na cadeira e suspirou melancolicamente. Aquela seria uma longa noite.

Todos os Conselheiros estavam aborrecidos por terem sido arrancados da festa. Estavam irritados em função do estresse iminente que o incêndio traria. Ficaram constrangidos ao ver as expressões nos rostos dos investidores, senadores, empresários e todo tipo de gente importante que foi obrigada a deixar o salão – e a bebida. Maquiagens borradas, ternos amassados, cabeças quentes e rostos suados. A correria até a Sala de Reuniões não foi um trajeto fácil. Tudo tinha cheiro de queimado. A imprensa era e sempre foi a mais incomodativa das presenças. A polícia fazendo perguntas de jornalistas, os detetives e investigadores... Nenhum Conselheiro estava feliz, e mal sabiam eles o quanto a situação pioraria a partir da discussão que começaria.

– Alguém poderia explicar que diabos aconteceu aqui?

A voz estridente de Dominik ecoou pela sala. Seu vestido inapropriado parecia distrair Raphael do verdadeiro propósito da reunião.

– Eu vou resumir essa noite em um nome! – vociferou Joseph. As veias já aparentes em sua pele escura. – QUINN FABREY! Como se Robert tendo seus surtos psicóticos não fosse suficiente...

– Isso não está ajudando, Joseph. Acalme-se, por favor – disse Anthony.

Anthony era o único capaz de usar a razão numa hora dessas. Ele conseguiu esconder muito bem a sua preocupação com Robert e a garota. Joseph pareceu escutá-lo, e tentou acalmar os ânimos.

– Quem são os envolvidos? Robert está bem? — perguntou para os colegas.

– Quem você acha que está envolvido, pra variar? – ironizou Helena, revirando os olhos. — Os de sempre, Anthony, os de sempre...

Helena soava impaciente, como se coisas daquela magnitude acontecessem toda noite. Porém, a Conselheira jamais esteve tão errada.

– Robert está tão bem quanto o esperado. Deus sabe como aquele homem passou por uns maus bocados... – completou.

Anthony passou as mãos pelos cabelos. Ele já imaginava essa resposta, mas temia estar certo. Os Weston sempre tiveram um gênio bastante complicado, e Robert sofreu nas mãos da família. Hoje enlouquecido pelas pesquisas, Robert Weston tem assombrado os sonhos dos Conselheiros desde que iniciou seu último projeto.

– O que eles fizeram agora? — perguntou Anthony.

Um tanto decepcionado, Graymane ainda ficou feliz em saber que Robert estava bem. Eles cultivavam uma amizade duradoura, jamais aguentaria ver o amigo ter um fim tão simplório – por mais que ele próprio tivesse consciência de que, um dia, isso seria inevitável. Anthony não poderia impedir – e não pôde – as consequências das péssimas decisões de Robert. Com Quinn Fabrey, no entanto, ele poderia tentar.

– Eu vou lhe dizer o que eles fizeram agora: INCENDIARAM O LABORATÓRIO! — explodiu Joseph, novamente.

O Conselheiro havia levantado da cadeira. Ele apontava seus dedos grossos para Anthony, que ignorou a reação mal educada. Enquanto Graymane era conhecido por sua ternura e paciência, o mesmo não podia ser dito de Joseph. Raiva era parte do seu ser, e ele nunca fez questão de esconder tal traço das pessoas.

– Eles não podem ter feito isso de propósito... Sozinhos muito menos. — indagou Dominik.

– O que você quis dizer com isso, senhorita Wright? – retrucou Raphael.

– Nada, apenas que... Céus, eles são crianças.

– Seremos motivo de chacota! Uma piada, se querem saber. Crianças invadiram nosso principal laboratório, o maior deles! Se elas conseguiram, o que impede a Bowden de fazer o mesmo? — questionou Raphael, num tom acusatório.

– Senhores, se acalmem, por favor. Estamos todos bem cientes dos nossos termos com a Bowden. Nenhuma invasão ocorreu desde que os Louisigan assumiram, e o tratado os impede de fazê-lo — esclareceu Anthony. — De qualquer forma, como o laboratório pegou fogo? Mais importante que isso, como conseguiram acesso a ele?

– Pelo que sei, eles estavam mexendo com a Pedra. Quinn Fabrey tocou nela e agora está desmaiada na ala hospitalar, em estado de coma, segundo Derek. Sebastian não foi encontrado ainda – disse Joseph, antes de falar o que realmente o estava incomodando. — Pensem nos efeitos negativos que essa confusão causará na imagem da BS! – resmungou. — Quinn sabia todas as senhas, e o mais conveniente, e intrigante, é que todas as câmeras e outras medidas de segurança estavam desativadas no momento.

– Disseram que a garota está viva, então não deve ter... – Dominik foi interrompida por Joseph.

– Ela tocou na Pedra, minha fonte é confiável.

– E quem seria essa sua fonte, Joseph? – Helena soou desconfiada, como sempre.

– Meu filho... — o Conselheiro respondeu num tom quase inaudível, como se tivesse vergonha de compartilhar essa informação.

– Isso explica bastante coisa... – disse Helena, numa voz baixa.

– Mas não explica o suficiente! — gritou Raphael.

– Acharemos as respostas, Raphael. Tenha paciência. — pediu Dominik.

E, por mais diplomáticos que os Conselheiros tentassem ser, diplomacia não parecia ser importante para essa discussão. Eram gritos aqui, resmungos ali, lamentos de lá. Ninguém se entendia, ninguém resolvia nada.

– Chamem o menino.

Silêncio sepulcral. O Conselho não pareceu acreditar que Anthony havia sugerido isso. O filho de Joseph era um menino mau e irreverente, que não pensava duas vezes antes de usufruir da influência de seu pai para sair de confusões e obter exatamente o que queria. Por mais que o garoto fosse adotado, sua personalidade era uma cópia exata, ainda que mais perversa, de Joseph — que sorriu ao ouvir a sugestão.

– Ele estava lá, quero ouvir dele. Depois falaremos com Quinn e Sebastian, vamos saber a história toda, nem que passemos a semana inteira trancados nesta sala – continuou Anthony.

Após mais uma longa discussão sobre chamar ou não o garoto, chegou-se ao consenso de que ele deveria ser convocado. Alguns minutos se passaram e ninguém se atreveu a abrir a boca. Todos esperaram silenciosamente a chegada do filho de Joseph. Cada um dos cinco membros tinha grandes preocupações naquele momento, afinal, os filhos de nada menos que dois Conselheiros estavam envolvidos nessa situação, no mínimo, delicada. Sem contar que ninguém encontrou Sebastian, o que estava deixando Anthony extremamente preocupado. Além do fato de terem de lidar com Quinn Fabrey sofrendo efeitos colaterais e talvez processos de gente afirmando ter pego alguma doença respiratória por conta de toda a fumaça vinda do laboratório.

Mesmo com o passar do tempo, ainda era possível sentir o cheiro de queimado exalado das roupas das pessoas. Lá do alto, poucos detalhes eram distinguíveis, apesar de que os Conselheiros conseguiam identificar perfeitamente as pessoas curiosas, repórteres e sirenes brilhantes através das grandiosas janelas de vidro do último andar.

Anthony já havia tomado mais de três xícaras de café quando o filho de Joseph chegou à Sala de Reuniões com os cabelos bagunçados, rosto sujo e expressão esnobe. Ele tinha os olhos inchados e vermelhos, como se tivesse passado a noite chorando. “Ele é um bom ator”, pensou Anthony, que era mentor do garoto e sabia muito bem com quem estava lidando. O menino devia ter uns 12 anos, mas suas atitudes poderiam enganar o olhar. Apesar da cara de choro, ele parecia inabalado pelos eventos recentes, já que se aproximou da mesa central e sentou-se à ponta, sem esperar pelo consentimento dos Conselheiros. Sentado, o garoto analisava tudo e todos, frio e calculista como o pai. Enquanto os outros se ajeitavam, ele ordenou, sim, ordenou, o assistente lhe servir café. Bebeu o líquido quente com calma e esperou pelo aval de Joseph para contar a história.

E que história... Como um macaco-treinado, o menino contou os acontecimentos da noite sem delongas. Não estava abalado, chocado e muito menos compadecido pela amiga. Ao final da "trama", estavam todos pasmos, boquiabertos, não sabendo se deveriam acreditar nas palavras de uma criança. No entanto, aos olhos de Anthony, a história pareceu ensaiada. O vocabulário, as acusações, o jeito de contar os "fatos"... Tudo tinha um toque das instruções de Joseph. Pouco importava o quão maluca e fantasiosa a história soasse, porque o Conselho pareceu comprar a narração absurda, mas Anthony soube que algo estava errado. Algo estava faltando. E ele descobriria o que era esse algo.

– Precisamos puni-los... – disse Helena, calmamente. Os olhos do garoto se dirigiram para ela, com certa raiva no olhar. – Eu sugiro exílio, para os três.

– Você não pode estar falando sério, Helena! – exaltou-se Dominik – São apenas crianças!

O menino teve vontade de tapar os ouvidos toda vez que Dominik abria a boca. Sua voz penetrava os ouvidos e, se alta o suficiente, seria capaz de atordoar um homem, pensava o garoto.

– Sim, são crianças. As crianças mais encrenqueiras e problemáticas que já vi, mas crianças ainda. Exílio traria alguma paz para nós, pelo menos por um tempo. Eles seriam problema de outras pessoas! Talvez aprendessem uma coisa ou outra, e de bônus não destruiriam tudo aquilo que batalhamos tão arduamente para conseguir. A BS nunca esteve melhor, e essas três crianças estão acabando com a reputação que criamos! — explicou Helena.

– E desde quando passar nossos problemas adiante funcionou? Devo lembrar-lhes, colegas, que o Grão-Mestre está ausentado, o que significa que toda e qualquer confusão nos domínios da Ordem é também nossa confusão. – retrucou Anthony, calmamente.

– Eu gostaria de deixar claro que meu filho veio até mim, relatou o ocorrido antes mesmo de sabermos que o laboratório havia pegado fogo, logo após ter tentado impedir que a senhorita Fabrey fosse ver a Pedra. Ele fez o certo, não devemos puni-lo – disse Joseph.

Fez-se silencio absoluto. Ninguém soube como reagir. Joseph lançou um olhar ameaçador para Raphael, que acabou concordando com ele. Helena, que normalmente aproveitaria essa deixa para soltar algum comentário amargurado sobre Joseph, ficou calada, neutra. Dominik e Anthony protestaram, alegando que seria uma tremenda injustiça poupar o garoto de uma punição.

Enquanto todos ficavam imersos na discussão, o menino imaginou o que seus "amigos" pensariam dele quando descobrissem o que havia feito, o quão egoísta havia sido e o quanto eles estavam encrencados por culpa dele. O garoto sentiu uma pequena ponta de arrependimento por ter feito o que fez. Mas o arrependimento se foi tão rapidamente quanto chegou, e o garoto nem precisaria se esforçar para que ele não voltasse nunca mais.

– Sugiro que esperemos o despertar da senhorita Fabrey. Ainda não sabemos os efeitos que a Pedra pode causar, visto que ninguém jamais sobreviveu ao seu toque. Quanto a Sebastian, eu concordo com o exílio. Ele claramente apoiou a entrada no laboratório – sugeriu Joseph.

Anthony lançou um olhar hostil para o colega. Afinal, era a vida do seu filho em jogo agora. O Conselheiro podia não ser o melhor e mais presente dos pais, mas ele amava seu filho mais do que amava a si próprio, e ele temia o rumo daquela conversa. Temia por seu filho, temia que as ações mal intencionadas de Joseph chegassem até ele e acabassem com o restinho de infância que ele ainda tinha.

Na verdade, Sebastian nunca foi uma criança propriamente dita. Ele era novo, sim, mas não agia de acordo. O garoto era sagaz e esperto. Gostava de contestar e soltava comentários perspicazes e sarcásticos sempre que podia. Ele não era rude como o filho de Joseph. Muito pelo contrário, o menino era extremamente agradável. Tinha algo nele que simplesmente prendia a atenção e interesse das pessoas. Sebastian era intrigante, um prodígio na Academia e cresceria para se tornar um rapaz bonito, persuasivo e talentoso. O único problema era que ele sabia de suas virtudes, e as utilizava constantemente. Manipulador? Com certeza. Ninguém era capaz de dizer não à Sebastian Graymane.

– Fácil para você falar, não é?

Era a primeira vez que Anthony parecia ao menos um pouco abalado. Essa discussão acabaria com ele.

– Não posso concordar com isso. Nem chegamos a ouvir o que Quinn e Sebastian têm a dizer! Precisamos esperar – disse ele.

– E deixa-los causar mais “acidentes”? Não, obrigado. Voto por castigo imediato – falou Raphael.

A Ordem gostava de se considerar uma democracia. Sempre que uma decisão importante precisava ser tomada, o Conselho se reunia e votava. Por isso só se consideravam, uma vez que os membros entendiam perfeitamente o quão “democrática” a Ordem realmente era.

– Há um impasse, precisamos votar.

Joseph tinha uma urgência em se livrar de Sebastian. Tal urgência jamais foi compreendida por Anthony.

– Todos a favor do exílio de Sebastian Graymane, por favor, levantem a mão.

Para a surpresa de Anthony, todos menos ele e Dominik levantaram a mão. O rosto de Anthony se apagou conforme as discussões recomeçavam. O Conselheiro finalmente deixou a diplomacia de lado por completo. Por mais que um tentasse falar mais alto que o outro, ele sabia que não conseguiria dissolver a ideia de Joseph. O máximo que ele podia fazer era tentar dissuadir os outros. Infelizmente, Anthony não era tão persuasivo quanto gostaria.

– Um problema a menos para resolver... – resmungou Joseph.

– Eles são só crianças! Crianças que agora perderão o restante de suas infâncias sendo observadas, experimentadas e tratadas como prisioneiras! — protestou Anthony

– Aceite, meu caro. Sebastian merece, assim como aquela menina arrogante! — gritou Joseph. — Além do mais, Os Mandamentos dizem que, perante um impasse do Conselho, este deve ser resolvido pelo Grão-Mestre. Na sua ausência, o mesmo deve entrar em votação pelos Conselheiros, e a solução que obtiver a maioria dos votos deverá ser executada. – completou ele.

Os Mandamentos eram “as leis” da Ordem, e Joseph adorava citá-los para expor seu ponto de vista, já que parecia conhecer todos os 48 Mandamentos existentes até o presente momento.

– Deve haver algo menos radical que possamos fazer... — sugeriu Dominik.

– Não podemos desrespeitar Os Mandamentos — afirmou Helena, com convicção.

– Essas malditas crianças irresponsáveis não foram capazes nem de passar uma única noite sem supervisão, não há nada menos radical que possa ser feito. Elas precisam aprender a ter disciplina — disse Raphael. – Além do mais, essa não seria a primeira vez que arranjaram confusão.

– Isso é um absurdo! — protestou Dominik.

– Deve haver outra maneira! Tem de haver! Usemos o bom senso! — suplicou Anthony.

– O mais rápido que você perceber que perdeu a votação, mais fácil será de aceitar o exílio — disse Joseph. – Temos problemas maiores no momento.

– Inacreditável... Com licença.

Anthony levantou abruptamente e deixou a sala. Desacreditado e derrotado, não podia crer que seu filho seria exilado e que não havia nada que ele pudesse fazer sobre isso. O Conselho tinha decidido, os Mandamentos haviam sido respeitados, e não sobrou nada que ele pudesse usar a seu favor para mudar essa decisão. Anthony havia falhado como pai por deixar que o comportamento do seu filho chegasse a esse ponto. E falhou como Conselheiro por abandonar uma reunião dessa magnitude. O clima na sala só piorou a partir da votação e da saída do Conselheiro, que rumou para o Laboratório Leste.

– O que faremos com Quinn Fabrey se ela sobreviver? – perguntou Helena. Dominik mandou-lhe um olhar de repulsa por tratar do assunto com tanta indelicadeza. — Que foi? Alguém tem que perguntar... — justificou-se.

– Ao que tudo indica, ela sobreviverá. – disse Raphael. – Não poderemos exilá-la. Temos que observar os efeitos colaterais da Pedra, a curto e longo prazo. Robert precisará estuda-la.

– Vocês não podem estar de acordo com exilar um garoto de 12 anos, enquanto o outro envolvido não é punido – Dominik olhou diretamente para Joseph.

– Eu e Sebastian temos 13 anos! — protestou o garoto. Joseph apenas lançou um olhar ameaçador, suficiente para calar o menino.

Os Conselheiros ignoraram o comentário.

– Ele fez o que era certo, não deve ser punido — disse Raphael, apoiando a decisão de Joseph. — Talvez se Sebastian passar algum tempo em exílio, ele aprenda a ter disciplina.

– E de quanto tempo estamos falando? – Dominik estava perdendo a paciência. Seus cabelos loiros haviam desmoronado do coque improvisado.

– O tempo mínimo recomendado é de seis anos, já que... – Joseph não teve tempo de terminar a explicação, pois foi abruptamente interrompido por uma Conselheira muito irritada.

– SEIS ANOS? Vocês estão loucos, todos vocês! – vociferou Dominik enquanto tomava um gole de café. – E depois o quê, hein? Digamos que a garota sobreviva. Vamos mantê-la aqui, monitorá-la e fazer experimentos, como uma cobaia? É isso que vocês sugerem que façamos?

– Exatamente isso. A garota pode ser perigosa. Só Deus sabe o que aquela Pedra fez com ela. E ainda temos a imprensa e a polícia em cima de nós novamente. O incêndio será notícia em todos os jornais. Robert também não vai facilitar o assunto. – explicou Raphael enquanto ajeitava sua gravata.

– O que há de errado com vocês? – disse Dominik. Todos ignoraram seu protesto.

Uma melodia repetitiva invadiu a sala, ecoando pelas paredes de vidro e acabando com a concentração de todos. Era o celular de Joseph. Os Conselheiros o encararam, apreensivos e já esperando más notícias. Ele atendeu a ligação, e ficou totalmente pasmo. Ao desligar, todos estavam muito nervosos, sem saber o que poderia ter acontecido. Joseph passou as mãos pela careca lustrosa e bebeu um gole de café, tentando encontrar as palavras certas para transmitir tal notícia.

– Q-quem era, Joseph? — perguntou Dominik, sua voz trêmula.

– Anthony. Há um corpo entre os destroços... – respondeu Joseph, engolindo em seco.

– Oh céus... Conseguiram identifica-lo? – questionou Helena.

– Liz. Ela... Ela havia voltado, viu Quinn se aproximar da Pedra e foi tentar impedir. Quando o laboratório começou a pegar fogo e desmoronar e...

Joseph não conseguiu terminar. O Conselheiro estava muito abalado. Uma morte no incêndio. Isso seria publicidade negativa, e como seria. “Liz era uma mulher magnífica. Pena que não posso dizer o mesmo de sua filha...” pensou ele.

As reações à notícia variavam. Dominik, dramática, acabou derrubando sua xícara de café por todo o tapete branco da Sala de Reuniões. Raphael olhava fixo para um ponto além, indecifrável. Helena roía as unhas e Joseph parecia falar consigo mesmo, planejando.

Todos os Conselheiros ficaram pasmos, sem acreditar que a haviam perdido. Nathalie Eliza Fabrey, mais conhecida como Liz, era um dos melhores e mais prestigiados membros da Ordem. Ela sempre foi uma mulher incrível e muito habilidosa. Liz era mãe de Quinn Fabrey e estava casada com Robert há quase de dez anos. Sua perda é irreparável.

– Meu Deus... – sussurrou Helena.

– Vamos preparar uma celebração solene, algo para representar a grande perda que tivemos hoje. Devemos abrir esta celebração para a imprensa, mostrar que nos importamos. — falou Raphael.

– É com isso que você está preocupado agora?! Com a Imprensa? — esbravejou Dominik. — Um dos nossos foi morto hoje! Demonstre algum respeito. – Raphael revirou os olhos sobre esses comentários.

– Bem, para encerrar uma das discussões, Sebastian deverá partir para A Ilha o mais rápido possível. Sua presença aqui não deve ser tolerada, Anthony precisará entender isso. Quinn Fabrey continuará a ser monitorada até que acorde. Por ora, vamos nos manter ocupados tentando encontrar uma solução para os possíveis efeitos colaterais e preparando o sepultamento de Liz. Devemos nos preocupar com a repercussão do incêndio na mídia e com os questionamentos da polícia. O governo não vai gostar de saber com o que estávamos mexendo aqui na Sede. A menina está toda marcada com manchas vermelhas na pele e seus cabelos ficaram avermelhados, precisamos estudar isso também. Instruirei meu filho a não comentar sobre a reunião ou qualquer coisa relacionada ao incêndio. Ninguém sabe ao certo o que ocorreu naquele laboratório, vamos manter desse jeito – explicou Joseph.

E as discussões continuaram sem cessar pelo restante da madrugada e se estenderam até à tarde. Era preciso definir o que seria dito à imprensa e à polícia, como explicariam a situação para Robert, o que fariam para conter a ira de Anthony, o que seria feito para honrar Liz e diversos outros assuntos, mas não há nada mais que precise ser dito aqui. Para nós, a reunião foi encerrada.