Chosen: A Ascensão
23 Bowden
Arrasto Anthony para o mesmo lugar que Sebastian havia me arrastado há alguns dias antes. Não aguento mais esse drama todo. Quero conversar, resolver as coisas. Quero que eles me contem o que está acontecendo e como posso ajudar, afinal, meu treinamento não foi em vão. Sou bem qualificada para qualquer tarefa que necessite ser executada.
No dia em que vim aqui com Sebastian, as pessoas estavam se acomodando. Agora, eles estavam indo embora. Seja lá quem esteja no andar de cima da sala, é um alguém bem barulhento. Anthony ficou calado o trajeto todo. Sebastian nos seguiu em silêncio também. Minha dor de cabeça retornou no exato momento em que pisei dentro da sala, fazendo um calafrio percorrer meu corpo. Finalmente vou encarar Anthony.
– Sei porque estamos aqui, Quinn, mas quero que entenda: agora não é a hora de discutirmos sobre esse assunto...
– E quando vai ser a hora, Anthony? – interrompo. – Quando a Bowden tiver enterrado todos nós? Não, vamos falar sobre isso, e vamos falar agora. Cansei de esperar.
Anthony assente com a cabeça. Sebastian se senta num móvel. Ele sabe que essa conversa pode demorar.
– Bem, estou aqui. Do que você quer falar? – pergunta Anthony, calmo.
– Para começar, que tal falar do porquê de você ter mentido para mim quanto a ter filhos? – encaro seus olhos azuis com firmeza. Quero que ele perceba o quão traída eu me sinto.
– Quinn, entendo que pode não parecer, mas tudo que fiz, fiz pela sua segurança. Eu não lhe contei sobre Sebastian para evitar que você lembrasse. Não sei o quanto meu filho contou, mas, no seu caso, lembrar pode ser catastrófico. Essas não são minhas palavras, seu pai foi quem te diagnosticou, e não achamos ninguém qualificado o suficiente para continuar seu trabalho – explica ele.
– Que bom que chegamos ao assunto do meu pai. Quem era ele, Anthony? Sei que eles não morreram em nenhum acidente de avião como você havia dito... – digo.
Sento ao lado de Anthony no banco e passo a observar a paisagem da janela. Os móveis no andar de cima continuam a ser movidos. Sebastian apenas observa, não quer se intrometer.
– Seus pais foram algumas das melhores pessoas que já conheci, Quinn, e você herdou muita coisa deles. Sua mãe, como Sebastian deve ter dito, faleceu num incêndio. Seu pai, bem... – Anthony hesita. Ele não quer falar sobre isso, percebo.
– Ele o quê? – insisto.
– Ele está vivo, Quinn. Só não está bem. Seu pai perdeu a sanidade há muito tempo, e há muito tempo foi internado num local seguro e inalcançável....
– MEU PAI ESTAVA VIVO TODO ESSE TEMPO E VOCÊ NUNCA ME DISSE?? – interrompo novamente. – Anthony, como pôde?
– Pelo seu bem, Quinn. Seu pai não está são. Ele me pediu que nunca revelasse a sua localização, para que você jamais pudesse procurar por ele e vê-lo em estado tão depreciativo.
Pasma, simplesmente não há palavras para descrever o que sinto no momento, se é que realmente sinto alguma coisa.
– Deixe-me explicar tudo, então. Seu pai era o homem mais brilhante que conheci, e por este motivo ele foi designado para estudar a Pedra. No entanto, ele descobriu, tarde demais, eu temo, que a ela não pode ser estudada. Não por nós, pessoas comuns, pelo menos.
– Isso eu já sei. – falo, rude. Anthony ignora e continua
– A Pedra estava sendo guardada no laboratório de Los Angeles, que na época era o maior da Ordem. Robert passava dia e noite naqueles laboratórios, não dormia há dias, mal comia. E de repente, ele perdeu a cabeça de vez. Um dia, Robert começou a falar coisas sem sentido algum, coisas que ninguém entendia. Ele dizia que havia sido presenteado com o dom da Visão, e que daquele dia em diante, ele seria capaz de enxergar a verdade em tudo. Apesar da loucura, Robert continuou a pesquisar. Depois do incêndio, ele se forçou a achar a “verdade” para você, Quinn. E isso custou a sanidade dele, e de muitos outros antes e depois dele. Seu assistente também enlouqueceu, e, bem, Lana é nossa preocupação agora. Quando aceitou esse trabalho, ela estava bem ciente do risco, e é só uma questão de tempo para ela, todos sabemos disso.
– Você está dizendo que Lana vai pirar de vez e não há nada que possamos fazer? – pergunto, preocupada.
– Sim. Lana escolheu esse caminho, e ela vai enlouquecer, cedo ou tarde. Ajudar nas pesquisas foi escolha dela, Quinn. Infelizmente, sinto que parte disso foi em vão. Em poucos dias, o efeito da Solução será necessário para que você continue bem, e Lana não foi capaz de reproduzir o soro. Somente Robert era capaz de fazê-lo.
– E por que ninguém foi falar com ele? – Pergunto.
– Como eu disse, ele perdeu a sanidade, Quinn. Robert está internado numa clínica psiquiátrica secreta, e ninguém poderá usufruir da sua inteligência nunca mais.
Anthony parece abalado com isso, mas não tenho certeza se é por causa do meu pai.
– Eu não aguento tudo isso, Anthony. Sinto que vou desmoronar — digo, chorosa. Anthony passa seus braços ao meu redor e me abraça, do mesmo jeito que faIa quando eu era menor. Sinto vontade de chorar, mas me contenho. Senti falta de Anthony.
Ficamos assim por usn instantes, e eu não quero estragar o momento com perguntas. Desejei poder ficar assim por mais tempo. Anthony me confortando, dizendo que tudo vai ficar bem, assim como meu pai deveria ter feito quando eu era menor. Anthony foi a única figura paterna de que me lembro, e pensar em qualquer outra pedsoa fazendo esse mesmo papel parece estranho. Eu confio nele, sei que queria me proteger.
– O que faremos?
– Nós vamos para Los Angeles. Charles vai nos ajudar. Ele pode ser um velho rabugento, mas ainda é um habilidoso Grão-Mestre. Quinn, eu devo avisar: as coisas não vão ser fáceis pra você.
– E algum dia elas foram? – Falo. Ambos sorrimos.
– Precisamos retomar a busca pelos fragmentos. A Bowden já tem seis deles, precisamos conseguir os outros. Joseph montou um acordo com diversos países pela Pedra, agora tudo que ele precisa é você, o restante dos fragmentos e Lana. Joseph sabe o efeito que a Pedra pode causar em humanos, e usado da forma errada, bem...
– Quais seriam esses efeitos, exatamente?
– Nada bom, Quinn, nada bom. Para começar, eu me lembro perfeitamente de você quebrando os braços de um homem adulto aos doze anos. O principal sintoma pode ser a raiva. Quinn, chegava a ser assustador, ninguém além do seu pai tinha coragem de chegar perto de você quando tinha crises. Você gritava e quebrava coisas com uma força absurda. Se tornava mais rápida do que todos, mais forte e ágil. Sua raiva era incontrolável, você era incontrolável. Sua pele era toda marcada por manchas vermelhas, que hoje são apenas marquinhas ocasionais, muito semelhantes às sardas. Nada disso faz sentido, eu sei. Pode parecer loucura, mas é verdade.
– Digamos que eu fique sem essa tal... Solução o que aconteceria?
– Esses efeitos voltariam, e acredite quando eu digo, ninguém quer que isso volte. Você muito menos. – Explica Anthony. – A Pedra pode ser usada de inúmeras maneiras, Quinn, e pouquíssimas delas geram bons resultados. Eu posso garantir: Joseph não está interessado em nenhuma das maneiras que geram bons resultados, ele está interessado apenas em vender a Pedra para quem pagar mais, independentemente dos fins. Precisamos impedir isso. Lana acha que se recuperarmos os fragmentos, talvez ela consiga voltar a estudá-los e desenvolver a Solução.
Penso seriamente por uns instantes, ignorando tudo que Anthony diz. Lana está se arriscando sem motivo.
– Eu não quero. – falo.
– Não quer o quê? – pergunta Anthony, confuso.
– A Solução. Eu não vou usá-la novamente. Não me importo quais sejam os efeitos, quero minhas memórias de volta, Anthony.
Afasto-o e me levanto, querendo distância. Meu sentimento de confiança e proteção desapareceu.
– Quinn, acho que você não está entendendo...
– VOCÊ QUE NÃO ESTÁ ENTENDENDO, ANTHONY! – grito. – Eu não vou usar a Solução! Não há nada que você possa dizer para me convencer do contrário. Quero lembrar, preciso lembrar!
– Quinn, você....
Paro de prestar atenção e foco nos passos do andar superior. Não consigo me concentrar desse jeito.
– Quem está lá em cima ainda? – pergunto abruptamente para Anthony, que se surpreende com a repentina mudança de assunto.
– Ninguém. Não abrimos essa parte do castelo para os outros. – responde Anthony, impaciente.
Sebastian e eu trocamos olhares. Eu não fui a única a ouvir os passos e móveis se movendo no andar superior.
– Se ninguém ocupou essa parte do castelo, o que está fazendo esse barulho? – pergunta Sebastian. Anthony e eu paramos para escutar. Há alguém no andar de cima.
Anthony, eu e Sebastian saímos em disparada rumo ao andar superior. Subimos dois degraus por vez, até nos depararmos com uma pequena porta de madeira e alguns móveis velhos. Se esse andar não foi ocupado, como pode estar tão limpo? Não há poeira ou teias de aranha, nem cheiro de mofo. Tentamos abrir a porta, mas está trancada. Sebastian pede licença e começa a chutar a porta, e não demora muito para que ela ceda.
Nós três adentramos a sala, dando de cara com um garoto de uns vinte anos. Em seu rosto, puro terror. Seja quem for, ele não queria ser encontrado ali.
– Ele não é da Ordem... – Diz Anthony.
Sebastian se aproxima rapidamente, e antes que o garoto possa fazer qualquer movimento, ele está prensado contra a parede, as mãos de Sebastian no colarinho do rapaz, que parecia muito intimidado. O garoto tem olhos e cabelos castanhos. Altura e peso medianos. Ele não é bonito como Sebastian e Alex, mas certamente não é um desperdício. Suas roupas estão sujas e rasgadas, e seu rosto coberto por cortes.
– Eu só vou perguntar uma vez e é melhor que você responda direito: quem é você?! – Gritou Sebastian, pressionando o garoto mais ainda. Ele se encolheu todo.
– Daniel! – gritou o menino. – Meu nome é Daniel! Por favor, não me machuque! – implorou ele.
– Daniel o quê? – Perguntou Sebastian, gritando com hostilidade.
– Bowden! Daniel Bowden!
Sebastian larga o garoto instantaneamente.
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