– Vamos farrear! – Gritou Elijay assim que apareceu na minha porta as duas da manhã, provavelmente bêbado.

Hoje ele veste calça preta, um mocassim vermelho nos pés e uma camisa bordô da Diesel. Seu corte de cabelo Justin Bieber desapareceu, dando lugar a um charmoso e volumoso topete. Ao me aproximar dele posso sentir o cheiro de álcool, mas algo me diz que bebida não foi a única droga que ele usou hoje. Seus olhos castanhos têm um tom bem avermelhado em volta da íris. Elijay está fora de controle. Ele me convence a vestir alguma coisa e ir para O Covil. Disse que Joe estava querendo animar o lugar hoje e precisava de mim. Visto minhas roupas habituais, faço um coque no alto da cabeça e, com um pouco de maquiagem, tento acabar com a minha cara de sono, mas não funciona muito bem. Sinto-me lerda e pesada. Só queria ficar na cama, porém Elijay foi bastante persuasivo e sua animação era contagiante. Quando estávamos prestes a sair do meu quarto, fui obrigada a pará-lo e perguntar:

– James, você está chapado?

– COMPLEMENTE! – Grita ele, meio tonto. Sou obrigada a rir.

– É, você está “complemente” chapado...

Saímos do meu quarto no Alojamento A e vamos direto para o B. As pessoas estão conversando e bebendo por todos os cantos. Gostaria de saber quantos anos Elijay tem. Acho que ele deve ter uns vinte e poucos...

Ao chegarmos n’O Covil, não entendo o porquê de Joe precisar de mais agito. Não há lugar para nem mais uma pessoa sequer. O Covil está atolado de gente bêbada e negociadores tentando tirar vantagem disso. Os grandes alto falantes reproduzem uma música do Flo Rida que anima a multidão e a luta no Pentágono. Mais de uma semana se passou desde que estive aqui com Lana. Acho que com tudo que tem acontecido, mereço um pouco de diversão, não é? Alex está a par da situação com a Pedra e concordou em ajudar. Anthony ainda não apareceu e ninguém quis me falar quem é esse Sebastian, mas tenho a impressão de que todos sabem quem ele é. Não falei com Jared nenhuma vez nesses últimos dias, e ele também não me procurou. Joseph não foi visto, aparentemente ele está em alguma espécie de reclusão, o que eu duvido muito. Deve estar planejando seus próximos movimentos com a Bowden e aquele tal de Luke. Só quero me distrair disso tudo, nem que seja por apenas alguns minutos.

Aproximo-me do Apostômetro, onde Joe já me encaixa para a próxima luta. Não estou 100% ainda, mas deve ser suficiente para ganhar. Entro no Pentágono e preparo-me para a luta. Faço um aquecimento rápido e espero meu oponente. A multidão vai à loucura quando adentro as cinco altas grades que cercam a arena. As apostas imediatamente aumentam e o movimento em volta do Pentágono também. Todos querem assistir, ou seja, meu oponente deve ser barra pesada, ou não haveria graça em vê-lo perder para mim rapidamente. Mexo com a multidão, peço aplausos e faço reverências. Eles gritam meu nome, vibram comigo. As pessoas não entendem a lógica dessas lutas. Não é preciso ser o mais forte para vencer, apenas o mais esperto. Eu sou muito menor que a maioria dos caras que pisa dentro do Pentágono, mas venço-os mesmo assim. Como? Pensando. Eles são maiores e mais fortes, o que significa que são mais lentos. Movimento-me de forma leve e ágil, sendo uma ameaça letal e imprevisível. Nunca repito a mesma série de movimentos, eu me adéquo a cada oponente, evitando que alguém jamais consiga prever o que farei. Grande parte das pessoas que lutam comigo acham que vou perder porque sou menor (isso quando não me conhecem), mas ser menor é exatamente o que me possibilita derrotá-los. Entretanto, tenho que estar atenta sempre. Um soco no lugar certo pode me nocautear, transformando minha força em fraqueza. Ser rápida é o que me faz ganhar, não prestar atenção pode ser minha ruína, por isso isolo totalmente os gritos e barulhos de fora da arena. Apenas foco no meu alvo, meu objetivo: derrotar o cara que está entrando na arena agora. Ele se aproxima lentamente, e seu andar revela sua personalidade potencialmente esnobe e confiante. Não demora muito para eu descobrir que essa luta vai me fazer muito, mas muito bem. Vejo Jared Henning se aproximar e sei que das duas pessoas dentro do Pentágono, uma vai parar na Ala Hospitalar depois daqui. A outra sou eu.

Henning veste um jeans, All Star e uma camiseta azul escura. Vejo Elijay vibrando atrás de mim, bem perto da grade. Ele sabe o que aconteceu, contei para ele no caminho para cá. James grita “Acabe com ele!” várias vezes antes de vomitar no pé de alguém. Jared não fala nada, nem mesmo um oi. Vejo uma expressão em seus olhos que nunca havia visto antes. Ódio. Puro e verdadeiro. Joe toca o sino e a luta inicia. Henning corre até mim, disparado. Quando ele chega perto o suficiente, apenas levanto a perna esquerda e chuto seu estômago. Minhas botas têm salto, aquilo deve ter doído. A multidão suspira um “ooh” coletivo quando o acerto. Jared arqueja, colocando as mãos na barriga, mas não cai. Aproximo-me mais ainda e aproveito que ele já está abaixado. Bato sua cabeça contra meu joelho esquerdo, deixando-o desnorteado. Ele cai para trás, porém levanta rapidamente. Jared tenta me acertar novamente, mas desvio dos seus socos e chutes. Ao me afastar um pouco, viro para a multidão pedindo mais animação, aplausos. Eles gritam meu nome novamente e continuo a provocá-lo. Volto para perto dele. Henning tenta acertar meu rosto, mas agarro seu braço. Involuntariamente forço seu cotovelo para cima, quebrando-o. Ele grita. Num acesso de raiva absurdo, chego bem perto e agarro seus cabelos, cochichando em sua orelha:

– Acha mesmo que pode me vencer, Henning?

Ele fica louco. Mesmo com o braço esquerdo quebrado, Jared continua na luta. Ele tenta, e tenta, e tenta. Mas não consegue. Sou rápida demais para ele. Fico caminhando pela arena, provocando-o, desafiando-o a me atacar. Ele corre em minha direção, mas dessa vez não consigo desviar. Jared agarra minha cintura e me joga no chão. Henning acerta meu estômago inúmeras vezes, chutando minhas costelas também. Cuspo sangue no chão, mas não desisto. Num movimento rápido, viro-me e empurro seu joelho. Ele cai também. Ficamos os dois rolando no chão sujo do Pentágono. Em certo ponto da disputa, subo em cima dele. Acerto Jared com os punhos cerrados, um lado de cada vez. Seu rosto começa a sangrar e ficar mais inchado. Porém, ele sabe que movimento precisa realizar para me fazer parar. Jared pressiona o ferimento no meu estômago, ainda cicatrizando. Ele continua a apertá-lo até ter certeza de que ele está aberto. Seus dedos ficam sujos de sangue. Dou um soco em sua mandíbula, fazendo-o largar minha ferida.

Levanto-me rapidamente. Algo me ocorre: uma das barras da grade do Pentágono está solta. Não queria que chegasse a esse ponto, mas não é culpa minha. Posso ficar bastante imprevisível quando estou com raiva, e Jared me deixou furiosa. Arranco a barra solta, ficando com um pedaço de metal com aproximadamente um metro de comprimento. Henning não teve tempo de levantar antes de eu voltar para acabar com ele. Sem dó nem piedade, acerto-o diversas vezes com a barra. Faço-o implorar para que eu pare. Seu corpo está todo marcando e sangrando. Em certo ponto, Joe aparece e tira a barra das minhas mãos. O rosto de Jared está irreconhecível e seu corpo está deplorável. É preciso dois seguranças brutamontes para me impedir de acabar com ele de verdade. Naquele momento, juro por Deus, eu o teria matado se pudesse. Foi nesse mesmo momento que percebi que minha amizade com Henning já era. Jared sai do Pentágono de maca, e eu carregada pelos seguranças, ainda bufando e esbravejando. Gritando com o cara inconsciente. As apostas foram todas a meu favor, o que rendeu um movimento enorme no Apostômetro. As pessoas nunca haviam me visto daquele jeito, com tanta... Raiva. Anthony não ficaria feliz em descobrir o que fiz com Jared, muito menos se soubesse sobre os caras que atirei em Heraklion. Nem Lana sabe disso, para ser sincera. Não tive coragem de contar. Tive medo do que ela poderia pensar se soubesse as coisas que faço. Eu teria medo de mim. Sou imprevisível e incontrolável, meus acessos de raiva são perigosos e cada vez mais frequentes.

Joe pede para os seguranças me arrastarem até o vestiário, onde eles me largam num banco sujo. Elijay vem logo atrás, mas Joe praticamente o expulsa. Depois que todos saem, Joe senta-se no banco à minha frente, com a cara preocupada. Seu rosto gordo está suado e a barba muito grande. Hoje ele usa um boné de baseball do seu time favorito, os Yankees. Joe seca o suor na blusa imunda que ele não deve trocar há uma semana e me encara.

– Quinn. Que porra foi aquela? – Diz ele, apontando para fora do vestiário. Para o Pentágono. Faço uma cara de quem não sabe do que ele está falando e vou até uma pequena geladeira velha que fica ao lado dos armários. Pego um saco de gelo e duas cervejas. Joe parece irritado. – Não se faça de idiota, garota. Você quase matou Jared, e olha que ele é seu amigo. Eu nunca te vi desse jeito. Está tudo bem?

– Sim. – Respondo, seca e direta. Joe passa as mãos rechonchudas e pequeninas pelo rosto, tentando pensar. Ele dá um gole na cerveja que entreguei.

– Você não pode fazer isso, Quinn. Conhece as regras do Pentágono. Jared já estava quase desmaiado antes mesmo de você pegar aquela barra. O que está acontecendo?

– Vá se ferrar, Joe! – Grito, já de pé. – Estava lutando, fazendo as coisas doentias que todo mundo faz nesse maldito buraco! Se não ficou feliz com o que o seu monstrinho fez aqui, pode me banir! Eu não dou a mínima! – Jogo minha garrafa de cerveja no chão sem nem ter dado o primeiro gole. Lanço o gelo do outro lado do vestiário e saio, deixando Joe falando sozinho. Abismado comigo.

Quando volto para perto da arena, todos me encaram. A coisa deve ter sido brutal mesmo... Caminho lentamente pelo chão rochoso. Minha expressão de irritada pode facilmente ser confundida com uma expressão esnobe e perigosa, às vezes sedutora. Uma das sobrancelhas levantadas e a boca retraída. As pessoas vão abrindo caminho para que eu passe. Seja por medo ou por admiração, sou respeitada aqui. Não me importo que Elijay esteja jogado em algum canto, provavelmente se metendo em alguma confusão. Sei que ele teve a decência de cuidar de mim quando estive nesse mesmo estado, porém eu não sou uma pessoa tão boa quanto James.

Saio d’O Covil. O dia está começando na BS. Há pessoas indo trabalhar, nerds estudando, combatentes discutindo. Um dia normal. Caminho pelo chão de concreto, observando as árvores e os prédios. Eu estava voltando para o Alojamento A quando escutei barulho de motor de avião. Assisto um pequeno jatinho se aproximar da pista de pouso da Ordem, cortando o céu azul. Pergunto-me quem está chegando. As nuvens têm um aspecto borrado e feio, mas os primeiros raios de sol já podem ser visto por entre elas. O bolso da minha jaqueta vibra. Tinha esquecido que meu celular estava ali. A tela está rachada, deve ter quebrado durante a luta. Há duas mensagens. Uma era de Alex, pedindo para eu encontrá-lo hoje à noite no “nosso lugar”. Bem, isso é como chamávamos um pequeno jardim perto da garagem da Ordem. Lá é quase totalmente aberto, mas é cercado por árvores e tem vista para o mar. Era onde costumávamos nos encontrar quando namorávamos, já que Anthony não aprovava. Não entendo a insistência dele em tentar me reconquistar, ele já deveria saber que isso jamais vai acontecer. A outra mensagem era de Lana e dizia:

“Me encontre no almoxarifado perto da pista de pouso, AGORA. É urgente!”

Eu só queria dormir...