Chosen: A Ascensão
2 A Reunião
Notas iniciais
Todos os músculos do meu corpo doem. O treinamento é exaustivo e Anthony parece exigir de mim mais do que eu consigo dar. Esse é um dos mais pesados treinos de resistência que já fiz. Estou correndo na chuva há mais de duas horas. Minhas pernas ardem e minha blusa está ensopada (água da chuva ou suor, já não sei mais a diferença). O dia está pálido e sem graça, exatamente como ontem e o dia antes de ontem e o resto do mês.
Continuo correndo, ofegante. Parece que posso sentir as bolhas e calos se formando nos meus pés, e ainda assim, Anthony continua me pressionando para continuar. Para ele é fácil falar, já que está me acompanhando com um carrinho de golfe, perfeitamente seco e descansado, apenas gritando palavras de incentivo que só me fazem querer afogá-lo numa das enormes poças da pista de pouso da Ordem, lugar que tenho usado para corridas. Se as minhas pragas funcionassem, aquele carrinho já teria virado na primeira meia hora de treino, mas obviamente o universo conspira a favor dele.
A Academia de Combate foi feita para treinar aqueles cuja vontade de terminar o treinamento é verdadeiramente grande, afinal, onze anos de treino não são para qualquer um. Eu, assim como todo mundo, ingressei na Academia aos sete anos. Hoje, aos dezessete, aguardo ansiosamente o dia em que minha "formatura" chegará. A Academia da Combate da Ordem é dividia em 6 estágios: 2 de treinamento físico, 2 de psicológico, 1 estágio teórico e 1 misto. O estágio final, que é o meu, é misto. Há dias em que fico as seis horas reservadas à Academia apenas correndo. Há dias em que fico lendo, estudando línguas e culturas ou História. Algumas vezes, eu sou obrigada a sentir dor, apenas para aprender a ignorá-la. Treinos de resistência, de força, de estratégia, de raciocínio lógico e todas as outras coisas macabras que alguém um dia já pensou. Aqueles em treinamento devem passar dias largados em florestas ou montanhas sem qualquer tipo de provisão. Devem superar seus medos. Devemos aprender a enxergar sem ver, a ser racional sem pensar. Sentidos e corpos treinados. Devemos saber quando arriscar, quando atacar ou defender. Nenhum soldado do mundo teve o mesmo treino. Somos uma ameça, com certeza. Uma ameaça invisível e letal.
Mantenho o ritmo por mais quarenta minutos, depois desabo no chão de concreto. Não quero andar nem mais um centímetro sequer. Anthony estaciona o carrinho ao lado de uma Quinn Fabrey estirada no chão. Ele parece estar se divertindo com tudo isso. Fico lá jogada por mais alguns minutos, apenas tentando recuperar o fôlego. O Conselheiro me entrega uma garrafa de água, que eu bebo como se tivesse passado um mês no Saara. Aprecio as gotas geladas de chuva contra minha blusa encharcada e a brisa marítima vinda do Mediterrâneo bagunçando meus cabelos ruivos. Anthony abre um largo sorriso e esboça uma expressão satisfeita. Ele estende a mão para me ajudar a levantar. Sento ao seu lado no carrinho. Minha respiração ainda está pesada, mas meus batimentos estão quase regulares novamente. Ele liga o carrinho e partimos da pista, ainda a tempo de ver um pequeno avião pousar.
– Você foi muito bem hoje, Quinn. – Diz Anthony. Ele soa orgulhoso. Claro que está orgulhoso. Sou a melhor aluna que ele já teve, e isso se deve inteiramente ao seu trabalho como tutor e professor. Anthony fez questão de ensinar absolutamente tudo que sei.
– Fico feliz que tenha apreciado a maratona... – Falo, ainda ofegante.
– Um dia acabarei com essa sua ironia, nem que seja a última coisa que eu faça. – Anthony sorri para mim. Nós dois sabemos que ele jamais vai conseguir. – Por ora, estou te dispensando do restante dos treinamentos de hoje, preciso...
– TINHA MAIS? – Interrompo.
– Quinn, querida, não interrompa. – Ele pigarreia e volta ao assunto. – Como eu ia dizendo, preciso que você esteja descansada para hoje à noite. O Conselho fará uma reunião e você tem de estar presente. – Anthony estaciona o carrinho na entrada do Alojamento A e desce.
– Do que se trata? — Digo, tentando não parecer nervosa, o que definitivamente estou. Não fiz nada de errado nos últimos dias (eu acho), até porque não tive tempo para mais nada com esses malditos treinos de resistência, o que me deixa intrigada do porquê de me quererem na reunião.
– Você verá. – Anthony dá um tapinha nas minhas costas e caminha lentamente em direção ao Alojamento, mas vira-se abruptamente. – Ah, quase me esqueci, a reunião é as sete, na Sala do Reuniões da BS. Não se atrase. – E com isso ele me deixa sozinha no pátio, encarando o nada.
Fico parada ao lado do carrinho por mais alguns segundos, apenas observando as pessoas ao redor. Quando acordo do torpor, entro no Alojamento, desejando nada além de um banho quente. Os corredores internos estão um tanto vazios. A maioria de nós ainda está treinando, trabalhando ou fazendo algo de útil. Caminho edifício adentro e pego o elevador para o meu quarto, no terceiro andar, que, por sorte, tem poucos moradores. Grande parte das pessoas prefere os quartos mais altos, para poderem observar o mar e apreciar as paisagens da Ilha. Creta é um lugar lindo, mas admito que não construiria uma empresa aqui. Uma sede da Ordem muito menos. Turistas demais, eu acho...
Vagueio lentamente pelo corredor comprido e cheio de janelas. A chuva parou, mas o tempo continua horrível. Ao chegar na porta do meu quarto, deparo-me com um bilhete grudado, os seguintes dizeres escritos numa caligrafia familiar:
Meu quarto, cinco horas.
Urgente!
JH.
Jared Henning, meu insuportável melhor amigo. Pergunto-me o que seria tão urgente e por que Jared sempre parecer esquecer que estamos em pleno século XXI, mensagens de texto não matam ninguém...
Conheci Jared há seis anos, quando entrei na Ordem. Seus pais desapareceram misteriosamente, e ele tem vivido por aqui desde então. Sou obrigada a admitir que ele é a pessoa mais agradável que conheci, juntamente com Anthony. Jared sempre sabe o que dizer e quando dizer, e eu o invejo por isso. Porém, suas atitudes podem ser um tanto impulsivas. Ele falhou várias vezes nos testes psicológicos da Ordem por agir por impulso. Eu, por outro lado, tive dificuldades em ajudar os outros. Nos treinos, aprendemos não só a valorizar as nossas vidas, mas a valorizar a dos outros também. Aprendemos a lidar com as consequências dos nossos atos, sejam elas positivas ou não. Um desses treinos incluía aprender o que Anthony chamou de “senso de sacrifício”, que é saber quando vale a pena arriscar a sua vida pela do próximo, e quando aceitar que não há nada que possamos fazer. Jared sempre se arriscava, sem pensar muito no assunto. Eu nunca consegui fazer isso, sempre coloquei as minhas necessidades na frente das dos outros. Ao final do treinamento, Jared aprendeu que a vida dele vale tanto quanto a de qualquer outro. Eu fiz o que tinha de fazer para passar no teste, mas internamente sei que quando o momento chegar, eu farei o que for melhor para mim. Não me orgulho disso, mas negar meu instinto de auto-preservação seria como tirar um peixe da água e exigir que ele nadasse. Não funciona...
Desgrudo o bilhete da porta e coloco-o no meu bolso, ignorando que ele esteja encharcado. Entro e já vou tirando as roupas molhadas e jogando em qualquer canto do meu quarto nem-tão-organizado. Admito que já tentei deixa-lo arrumado, mas todas as minhas tentativas falharam. A cama está sempre uma bagunça e às vezes eu acho que devo esquecer que tenho um armário no quarto, porque a maioria das roupas estão espalhadas por ai em pequenas pilhas. A melhor parte de tudo isso é que eu consigo me achar dentro dessa bagunça, o que a torna algum tipo de “bagunça organizada”.
Meu quarto é consideravelmente grande. Na parede esquerda, perto da porta que liga o dormitório ao banheiro, há uma pequena escrivaninha de madeira, tão bagunçada quanto o restante do ambiente. Meu notebook está enterrado ali, embaixo de algumas roupas e vários livros de filosofia. A cama fica na parede oposta, entre duas mesas de cabeceira. Eu quase tive que matar alguém para consegui-la. Ela é feita de uma madeira escura, tem um dossel com cortinas azuis escuras e grandes travesseiros brancos, que são os meus refúgios. Se eu deitar no outro lado da cama, consigo observar o céu e o mar pela porta da sacada. As paredes do quarto também têm a mesma coloração azul-escura das cortinas e cobertas. O piso é coberto por um carpete acinzentado, mas mal é possível enxergá-lo por cima da bagunça. Anthony tentou me tornar menos bagunceira diversas vezes quando eu era menor, mas assim como a maior parte da minha personalidade forte, ele não conseguiu me mudar. Eu meio que me orgulho disso, sou o que sou, ponto.
Caminho até a cabeceira para tirar algumas roupas de cima do relógio. Ele indica que já são três e quarenta, então tenho tempo suficiente para tomar um banho bem demorado, passar no quarto de Jared e ainda chegar a tempo para reunião. E é exatamente isso que faço. Fico mais de uma hora no chuveiro, agora apreciando as gotas quentes aquecendo minha pele gelada. Depois do banho, penteio calmamente e desembaraço meu cabelo, ajeitando os cachos vermelhos. Visto a primeira calça que encontro, mais as minhas botas e uma regata branca, que deixa a vista um dos muitos erros que cometi durante minhas noitadas pela Ilha com Jared: uma tatuagem na nuca. Ela não tem uma forma definida, mas acho que pode ser classificada como tribal. As linhas horizontais transmitem certa calmaria quando observadas de longe. Ninguém na Ordem ficou feliz quando descobriu, mas Jared diz que a tatuagem é encantadora.
Ao deixar o quarto, passo numa máquina de café e pego dois, um para mim e um para Jared. Ele sofre com insônias quase todas as noites, o que deve estar ligado de alguma forma com seu vício em cafeína, mas nem os meus maiores esforços conseguiram convencê-lo a parar, os de Anthony muito menos. Agora que desisti, apenas bebo com ele ocasionalmente.
O quarto de Jared fica no sétimo e último andar do Alojamento A. Pego o elevador. Todos os andares são exatamente iguais por dentro, porém quanto mais alto, melhor a vista. Quando chego, nem me preocupo em bater na porta, já passamos dessas formalidades. Apenas entro. O quarto dele consegue ser ainda mais bagunçado que o meu, e o pior de tudo é que nem ele próprio consegue achar as coisas ali dentro. No chão, na cama, nas prateleiras. Roupas, papéis, livros e todo tipo de coisa que se possa imaginar. Porém, a grande surpresa estava parada em frente ao espelho perto da sacada. Desviei da bagunça para encontrar Jared completamente arrumado, de blazer e tudo.
– Santo Deus... – Digo, ainda não acreditando. – Isso é realmente urgente...O que fizeram com você? – Aproximo-me do espelho, analisando suas roupas.
Conheço Jared há bastante tempo e mesmo nas ocasiões mais formais, era preciso muita briga para convencê-lo a usar uma simples camisa. Ele sempre anda com os cabelos bagunçados, camisetas amassadas, All Star sujo. Jared tem o típico estilo rocker, ou o estilo “sou gato demais para me preocupar com roupas”.
– Acredite ou não, eu tenho um encontro. – Diz Jared, obviamente chocado. — Olá para você também, Quinn. Ah, por favor, não precisa bater na porta, entre... – Ele consegue ser quase tão sarcástico quanto eu. Quase... Quando percebe que eu trouxe café, um enorme sorriso se forma em seus lábios. – Trouxe café! Eu amo você, Quinn Fabrey. – Diz ele ao se aproximar, pegando um copo e me dando um beijo na testa.
– Jared, quando você disse que era uma emergência, não achei que fosse assim tão grave! – Digo, ainda analisando sua aparência. – Isso é uma camisa? Espera ai, uma camisa SOCIAL? Tipo, com botões e tudo? Não acredito! – Depois de mais alguns minutos caçoando sua roupa, me ocorre o motivo dele estar vestido assim. – Caramba, você tem um encontro!
– Eu também mal acredito...
Jared é o tipo de cara que sai com várias garotas e nem se dá ao trabalho de lembrar o nome delas. Ele é meio idiota por isso, mas não posso culpá-lo. Cabelos negros, físico perfeito, popular e sarcástico... O típico bad boy, aquele garoto que arranca suspiros de todas (e todos. Já vi acontecer e ri muito depois) quando anda por ai. Essas coisas também acontecem comigo o tempo todo, mas tendo a ignorar. Com ele é mais engraçado.
– Tem certeza que é um encontro? Vestido desse jeito parece que você vai casar com ela ou algo assim! – Falei.
Sou obrigada a admitir que a ideia de Jared namorar alguém me deixa com um pouco de ciúmes. Sempre fui a única garota relevante em sua vida e nunca nem sequer cogitei a hipótese de que algum dia isso pudesse mudar.
– Você acha que é muito? – Diz ele, gesticulando para as roupas enquanto bebe um gole de café.
– Muito? Para um cara normal, não. Para você, com certeza. Uma dica: Seja você mesmo e independente de quem você vai levar pra sair, vai gostar de você. Se aparecer lá vestido que nem... – Digo, pensando em algum cara que eu conheça que se vista assim.
– Que nem o Alex...
Jared sabe o perigo que corre ao mencioná-lo.
– Não, Alex é um completo idiota. Você é só... Meio idiota. — Preciso mudar de assunto, não quero falar sobre ele novamente. – E já conversamos sobre isso, Jared, e você estaria me fazendo um enorme favor não mencionando o Alex, tipo assim, nunca mais! – Ainda não consigo falar sobre ele sem perder a paciência. Afasto-o dos meus pensamentos antes que acabe brigando com Jared. — Enfim, onde você vai levá-la? Na verdade, quem é ela? Tenho que aprovar, você sabe disso...
– Eu aluguei um iate, vamos dar uma voltinha pela ilha. Ela acabou de chegar da França... – Jared ignora meus comentários sobre Alex, tira o blazer e joga em cima de uma das pilhas de roupa prestes a desmoronar. – Que tal? – Pergunta, virando para mim. Analiso a roupa novamente. Ele veste uma camisa branca, calça e sapato social.
– Quer saber? Troque a camisa por uma camiseta branca, coloque um jeans, uma jaqueta e seu maldito All Star velho. Esse é Jared Henning. Se essa garota vai sair com você, provavelmente deve gostar de bad boys, então não leve um mauricinho para o encontro.
–É, você está certa. – Admite ele.
– Como sempre.
Jared vasculha o quarto atrás das roupas que sugeri e vai para o banheiro se trocar. Desvio de tranqueiras até chegar à cama e jogo as coisas que estavam em cima dela no chão. Deito e fico lá jogada, esperando. Ele demora demais para se arrumar, e está sempre atrasado, o que normalmente me faz querer bater nele. Já perdi a conta das vezes em que marcamos de sair e não conseguimos por conta do atraso de Jared, que normalmente vem seguido de um pedido de desculpas.
Não sei quanto tempo se passou desde que ele entrou no banheiro, mas quando saiu, eu já estava cochilando.
–Claro, deite e durma na minha cama, eu não me importo. – Diz ele.
– Que bom. – Sorrio ironicamente. – Muito melhor. – Digo, analisando suas novas roupas. — Você ainda não me disse com quem vai sair...
– Você está delirando se acha que eu vou te contar.
– E desde quando você parou de me contar as coisas, Henning?
– Desde que você começou a me incomodar por causa de garotas. Se hoje der certo, te conto o nome, endereço, tipo sanguíneo, tudo que você quiser. Prometo. – Diz ele, dando uma piscadela para mim.
Olho para o relógio. Já são seis e meia, melhor sair daqui antes que me atrase para a reunião.
– Falando em contar... Tenho uma reunião com o Conselho em poucos minutos, preciso ir... – Já levanto, antes que Jared me convença a ficar mais tempo.
– O que você fez dessa vez, Quinn? – Ela fala como se eu me metesse em encrencas o tempo todo. O que não deixa de ser verdade...
– Nada, juro. – Vou até ele e o abraço forte, temendo o que a reunião possa trazer. – Boa sorte com o seu... Encontro
– Boa sorte com a sua reunião. — Deixo o quarto de Jared ainda sem acreditar que ele vai mesmo num encontro. Achei que não fosse viver para ver esse dia...
Volto para os corredores, que têm muito mais vida agora. A maioria das pessoas já voltou para o alojamento. Sorrisos e bebidas se espalham pelos cantos. Se tem uma coisa que eu não posso reclamar por aqui é da falta de agito. O pessoal da Ordem, especialmente da Academia de Combate, sabe como festejar. Só não sei até que ponto isso é uma vantagem, já me meti em muita confusão por conta deles, mas sempre acabo voltando para mais.
– Te vejo n'O Covil hoje, Quinn? — Pergunta um garoto moreno feioso enquanto em passava por seu grupinho de amigos. Não consigo me lembrar do nome dele.
– Hoje não. — Falo de longe, sorrindo.
O garoto volta a se concentrar na garrafa de cerveja em suas mãos.
Pego o elevador e volto para o saguão do Alojamento. A Sala de Reuniões fica em um outro prédio, o da empresa. Caminho pelos jardins organizados e entro no edifício de vidro. Conheço muito bem o caminho, já o fiz várias vezes. Admito que meu índice de encrenca caiu drasticamente nos últimos meses, mas nunca se sabe o que esperar do Conselho.
O piso de mármore escuro, as grandes escadarias e a atendente mal-humorada, tudo familiar. Ela me avisa que todos já estão esperando por mim, por isso apresso o passo e entro no elevador.
Reviro minha mente à procura de coisas erradas que eu possa ter feito, mas nada me ocorre. Eu só tenho treinado, nada mais. Não sai da Ordem, não fui à festas, não apostei n'O Covil. Simplesmente fui "uma boa garota".
O andar da Sala de Reuniões é o último. Praticamente todas as suas paredes são de vidro, o que proporciona pouca privacidade, porém uma vista incrível. Quando chego, vejo que todos já estão realmente lá, e alguns já estão com umas caras bem impacientes. A maldita reunião está marcada para as sete, são seis e quarenta cinco, não estou atrasada. Acho que as caras feias são naturais dos Conselheiros mal-humorados.
Entro na sala sem delongas, afinal as paredes são de vidro e todos já puderam perceber que eu estava chegando. A Sala é simples, sem muitos adornos. O piso de mármore escuro foi coberto por um tapete acinzentado, a mesa é retangular e comprida, feita de um metal prateado e vidro, capaz de comportar até umas quinze pessoas. Logo acima dela pende um luxuoso lustre de cristais, que compensa a falta de qualquer outra decoração. Meu lugar na mesa já foi escolhido: de frente para os cinco Conselheiros. Por mais que odeie a maioria deles, sou obrigada a admitir que eles dão conta do recado. Os cinco vestem roupas bem formais, seus semblantes estão sérios e preocupados, e por mais que Anthony me lance um olhar reconfortante, sinto que talvez ele tenha escondido a importância da reunião quando treinamos hoje cedo. Arrependo-me de não ter vestido algo mais formal, mas agora não há nada que eu possa fazer.
O Conselho é, e sempre foi, constituído por cinco membros. Toda vez que um deles se retira, é retirado ou morre, os outros quatro Conselheiros deverão nomear um substituto. O Conselho deve ficar na maior e mais importante Sede da Ordem, afinal seus membros também tomam as decisões remetentes à empresa. Hoje, a maior Sede se localiza na Ilha de Creta, pertencente à Grécia. Antes disso, a Sede era em Los Angeles, nos Estados Unidos — minha cidade natal. O Conselho atual é formado por:
Anthony Greymane, um quarentão muito bem conservado, de cabelos negros e olhos azuis escuros. Dizem por aí que Anthony era um dos homens mais desejados da Ordem. Como meu tutor, professor, e praticamente meu pai, não consigo imaginar tal coisa. Ele é calmo e passivo, persuasivo e carismático. Anthony foi eleito pelo Grão-Mestre da Ordem quando ele tinha 23 anos. O mais jovem Conselheiro. Nunca conheci o Grão-Mestre. Não sei nem seu nome. O paradeiro dele é desconhecido, então, toda e qualquer decisão está a cargo do Conselho.
Helena Wang, uma mulher amarga e mal-humorada de descendência asiática, dona de um corpo pequeno e uma cara muito feia. Helena cursou a Academia de Pesquisas, não a de Combate, como o restante dos membros. Sempre duvidei da sua inteligência, e acho que ela também duvida da minha. Somente Dominik e Anthony parecem ter certa afeição por mim. Os outros Conselheiros definitivamente me odeiam. Em compensação, todo mundo odeia Helena Wang.
Raphael Dallas, um americano moreno e perverso, cuja função nesse Conselho parece ser somente apoiar Joseph. Seus traços sugerem descendência árabe. Raphael tem um bigode ridículo e se veste muito mal. Nem todos os seus relógios Rolex e camisas Dior são capazes de reparar seu péssimo gosto. Ele é um idiota pervertido. Dizem pela Ordem que Raphael tem um apreço enorme por "acompanhantes", e que ele chega a paga-las com jóias.
Dominik Wright, a mais nova a assumir o cargo de Conselheira, depois de Anthony, com apenas 24 anos. Aos olhos alheios, Dominik é apenas uma mulher com grandes peitos siliconados e uma voz irritante. Porém, ela é extremamente habilidosa e estratégica, motivo pelo qual ela assumiu a cadeira antes ocupada por sua mãe, Melanie Wright. Por mais incomodativa que Dominik possa ser, ela é uma pessoa bondosa e justa.
E por último, Joseph, o ser mais desprezível do mundo. Ele é frio e apático, e não se importa com ninguém além dele próprio. Não tenho ideia de como ele foi aceito no Conselho. Joseph tem os olhos e a pele tão escuros quanto a noite. Não tem barba ou cabelo, e se veste de forma muito formal, sempre ostentando os mais caros ternos e relógios. Dinheiro não é um problema para a Ordem, e sou obrigada a admitir que Joseph teve certa importância no aumento do nosso "poder aquisitivo". Ele ajudou a valorizar nossas ações no mercado, negociou e fez acordos com outras empresas multinacionais, triplicando nosso lucro mensal. Ele pode ser um idiota nojento e asqueroso, mas sabe o que faz.
Aproximo-me da mesa para ser saudada por Joseph.
– Boa noite, senhorita Fabrey. Sente-se, precisamos conversar.
Um calafrio percorreu meu corpo todo enquanto eu me sentava frente a frente com os Conselheiros. Os olhos de todos presos em mim enquanto serviam xícaras de café. Respiro fundo e encaro o Conselho. Agora não há para onde fugir.
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