Lord John Richard Roxton e Lady Marguerite Roxton; agora era assim que ela deveria chamada. Estavam deitados dividindo a mesma cama, estavam felizes, finalmente estavam juntos, agora era oficial, assumido na frente de todos, sem nenhuma culpa, nem medo, nenhum passado que pudesse separá-los, nenhum ciúme, nada nem ninguém mais os separaria. Os dois estavam simplesmente olhando para o teto, Marguerite com a mão do caçador ao alto, olhando a aliança na mão dele e olhava a sua própria, ainda não acreditava que finalmente, depois de tudo que haviam passado eles se pertenciam um ao outro. O caçador, por sua vez, admirava o rosto da bela herdeira ao seu lado, estava corada, os olhos verdes brilhavam como duas esmeraldas reluzentes e lhe diziam o quanto ela estava feliz, nem mesmo quando a pediu em casamento, algumas semanas atrás, se lembrava desse brilho em seu olhar; o sorriso lhe atravessa o rosto, um sorriso doce, terno, diferente; Marguerite estava diferente, todos haviam mudado muito desde quando chegaram no platô, mas essas últimas semanas foram as mais impactantes em suas vidas.
John, virando-se de lado, ainda com a sua mão esquerda ao alto, entrelaçada com a de Marguerite, disse:
J — Marguerite, preciso lhe perguntar algo.
A herdeira como que desperta de um sonho, mas ainda concentrada em suas mãos, também vira-se para encarar o caçador podendo então admirar a beleza do homem; o semblante dele não escondia a alegria que sentia, ela o encarou dentro dos olhos, como se fizesse jus ao antigo dizer de que os olhos são as janelas da alma, vendo muito além dos brilhos de seus olhos, mas a própria alma, o sentimento que ele sentia por ela, a grandeza e profundidade de seu amor.
M — Sim, o que quer perguntar?
J — Você pensou que seria assim? Digo, entre nós?
M — Claro que não. Não vim para essa expedição para arrumar um marido. Mas isso aqui, o aqui e agora, é melhor do que eu poderia imaginar. Eu não sei o que nos reserva no futuro, mas não trocaria isso por nada.
J — Por nada, Marguerite? Tem certeza?
Marguerite encara o caçador já com um semblante mais sério, não tinha compreendido tal colocação.
M — Sabe que não. O que está querendo dizer?
J – Sabe, existem coisas, desejos que gostaria de fazer com você ao meu lado. Coisas de que talvez quando voltarmos para a sociedade teremos que nos privar durante um tempo por conta bem da mídia, dos seus credores a quem teremos que enfrentar e, claro, enfrentaremos juntos. Mas são coisas que queria muito fazer com você.
M — Ah é mesmo? E que coisas seriam estas? Porque, John, você sabe muito bem que assim que voltarmos levará um tempo para que eu resolva todas as minhas pendências, isso pode custar viagens longas e distantes, terei que “desaparecer”, me disfarçar novamente.
John nunca antes tivera coragem de falar isso com a herdeira, justamente por antes ela não lhe dar espaço para determinados assuntos, principalmente no que dizia respeito a planejar o futuro, mas agora nada o impediria de fazer e este era um desejo que ele já sentia há pelos menos alguns meses; contudo, as últimas semanas só o fizeram pensar ainda mais nisso, lhe lembraram muito os antigos bailes da alta sociedade, ainda mais sabendo que eles poderiam muito bem terem se esbarrado em um desses bailes e nem ao menos se conhecerem.
J — Existe um desejo que não digo que trocaria por isso aqui e agora porque estes têm sido sem dúvida os momentos mais felizes da minha vida, desde que nos acertamos. Mas já pensou que talvez no passado nos encontramos, nos esbarramos em um dos bailes que frequentávamos e nem sequer nos conhecemos ou dividimos uma música dançando juntos?
Marguerite a princípio espantou-se com a pergunta do caçador; sim, já havia pensado algumas vezes nisso, mas não sabia qual era o ponto onde John pretendia chegar com essa conversa, porém, decidiu jogar o jogo dele, nem sempre era tão ruim, embora preferisse os seus próprios jogos e, ainda que juntos, adorava provocá-lo, era como uma renovação a cada dia, pois ainda que se conhecessem agora tão bem, os jogos entre eles sempre eram imprevisíveis, surpreendentes e sempre os resultados eram os melhores.
M — Sim, claro que já pensei. E acho, Lord Roxton, que foi muita falta de educação sua não ter me tirado para dançar, nem sequer uma valsa.
A herdeira estava com um tom brincalhão na voz, o que dizia a John que era a chance dele.
J – Pois, então, era isso que queria lhe falar. Quando voltarmos estou ciente de que não poderá aparecer abertamente nos bailes, em público; e, Marguerite, desde que dançamos pela primeira vez, quando Xan, mandou o soldado dele, você sabe, e agora que estamos juntos, vê-la cantando, me recordou os bailes da alta sociedade e, bem, um desejo que carrego comigo é de poder dividir uma valsa, nem que seja apenas uma, com você; abertamente, sem termos que nos preocupar com ninguém, com nada. Apenas lhe tirar para dançar bem mais que uma valsa.
Marguerite abriu um sorriso diante do caçador; mal sabia ele que ela há poucos dias estava justamente sonhando com isso, em poder dançar com o caçador, em poder esquecer dos demais e dançar com ele. Ela sabia como o caçador dançava bem e sentia por, de fato, quando retornarem não poderem compartilhar tais momentos.
Marguerite se culpava por isso e por mais meia dúzia de coisas que gostaria de fazer, mas que teria que se privar e, pior, privar John. Quando algo lhe veio à mente: “o Oroboros”; E se ela o usasse para levá-los nem que fosse apenas por uma noite para Londres e voltassem ao amanhecer, ou até antes? Ninguém saberia quem eram eles, era só se infiltrarem em qualquer festa, não sendo uma com tantas pessoas, se fosse uma de porte médio ninguém desconfiaria e eles também não se misturariam com os demais.
O caçador não deixou de ver o ar da mulher ao seu lado como de quando planejava algo, até parecia uma criança tramando travessuras ou o grande agente triplo que tinha sido em ação, fazendo seus planos mirabolantes que quase nunca falhavam.
J – Marguerite, o que está planejando? E não venha me dizer que não é nada porque conheço esse seu brilho no olhar.
M – Não, eu não vou esconder. John, acho que posso nos mandar para Londres, pelo menos por uma noite, para dançarmos.
J — Continue.
M — Posso usar o Oroboros. Nos infiltramos em alguma festa que estiver acontecendo, não precisa ser das grandes e conhecidas festas da alta sociedade, mas uma de porte médio. Também não pode ser uma festa pequena porque podemos correr o risco de sermos reconhecidos mais facilmente. Nos levo e nos trago antes do amanhecer, ninguém vai saber, é só não falarmos com ninguém ou passarmos nomes falsos.
O caçador olhava incrédulo para a proposta que Marguerite o havia feito, quer dizer, ele mesmo não esperava que ela aceitasse tal desejo e muito menos que lhe fizesse uma proposta dessas; mas ao mesmo tempo sentia-se como se precisasse viver aquilo, seria sem dúvidas uma aventura e o melho: estaria ao lado da sua esposa. Sim, ele queria aquilo, queria muito viver aquilo, mas tinha os seus contras.
J — Certo, digamos que eu aceite tal proposta. Você sabe muito bem que não temos trajes para esses tipos de eventos e outra, o lugar, não acha que Londres seria muito exposto?
Era verdade, John estava certo. Marguerite não havia pensado nisso, mas mais algumas ideias lhe surgiram e agora ela tinha o plano perfeito.
M — Os trajes são o de menos, John. Primeiro me teletransporto para a minha casa, a qual ainda não sei se estará abandonada ou se os meus dois empregados de confiança continuaram por lá, mas também pelo horário estarão dormindo; então me troco e depois nos teletransportamos para a sua casa, se tem uma coisa que sei que você sabe fazer é ser silencioso, ambos devidamente vestidos podemos ir para algum baile. E antes do amanhecer no vestimos novamente com as roupas costumeiras que usamos aqui e voltamos. Agora, quanto ao lugar, você teria uma sugestão?
J — Na verdade sim, minha querida; ao invés de irmos para Londres, podemos ir para Avebury, você não é tão conhecida por lá pelo que sei e eu estou bem diferente do que era antes. Além disso, as propriedades por lá são enormes e é uma área rural, conheço aquele lugar melhor que a palma de minha mão, em caso de qualquer problema existem bastante arvoredos. Me perdoe pela colocação, bastante mato, celeiros, usaremos como refúgios. O que acha?
Marguerite ponderou durante um tempo. John estava mesmo empenhado em ter uma noite dançante com ela, era incrível como ele estava se dedicando, como também pensava rápido, certamente se tivessem se conhecido anos atrás, quando viveram a Grande Guerra, Marguerite talvez não estaria tão encrencada como nos dias de hoje; ele a completava em tudo e agora principalmente em seus planos.
M — Feito. Mas, John, me prometa que não irá contar isso para ninguém, será um segredo nosso, apenas meu e seu.
J — Eu prometo. Seus segredos estarão seguros comigo, se lembra? Quem dirá então um segredo que iremos compartilhar. Só meu e seu.
Marguerite rolou por cima do caçador e o beijou suavemente nos lábios, não era nenhum beijo selvagem, assim como ele mesmo também não aprofundou o beijo como de costume, sabia que era um beijo de agradecimento, de retribuição e de puro carinho, terno, quente e macio.
A herdeira levantou-se, tratou de abrir o solado da bota que usava e retirou o medalhão. John se posicionou ao seu lado, segurando-lhe na mão como sinal de que ele estava ali; não somente ali, no que diz respeito ao aqui e agora, mas para sempre.
M — Muito bem, está pronto?
J — Ao seu lado, sempre estarei pronto.
Marguerite não resistiu ao encanto das palavras ditas pelo caçador, abriu um belo sorriso em seu rosto, apertou o mais firme que pôde a mão dele. Ambos fecharam os olhos, com a mão livre Marguerite apertava o medalhão e desejava silenciosamente o destino: Londres, sua casa, seu quarto. Uma luz dourada irradiava do medalhão, chegava até a aquecer a mão da herdeira, mas nada demais.
Em questão de menos de 5 minutos, ao abrirem os olhos, estavam exatamente onde Marguerite havia desejado. Ambos abriram os olhos lentamente, podendo respirar mais aliviados. Marguerite olhou em volta, o quarto estava todo como ela havia deixado, porém estava limpo, impecável, certamente os seus dois funcionários mantiveram-se fieis e continuaram a cuidar da casa.
O quarto era grande, móveis antigos, uma cama de casal espaçosa, uma guarda-roupa enorme que tomava quase que uma parede inteira, também havia uma escrivaninha com alguns papéis e canetas espalhadas, era a lista de instrumentos que Challenger havia pedido. Havia mais uma porta que dava acesso ao banheiro luxuoso, até banheira havia, o que já era de se esperar de Marguerite; e uma porta grande de vidro, era uma pequena varanda que lhe dava visão para o jardim na parte de baixo da casa e também à rua. John estava admirando ainda o quarto, os detalhes, Marguerite era sem dúvidas uma das mulheres mais refinadas que já conheceu, talvez só perdesse para a sua mãe, ou as duas se igualavam.
A herdeira já remexia em seu guarda-roupa pegando um de seus belos vestidos; era um vestido preto, com alguns bordados de baixo para cima em dourado, ao modo que ela gostava, era justo na parte de cima, valorizando o decote aberto, porém não tão profundo, e solto na parte de baixo, com uma leve calda, que era justamente onde começavam os bordados dourados, tinha mangas ¾, caídas nos ombros e justas no braço. Ela optou por um simples scarpin preto, brincos e corrente de ouro, com um diamante negro; o cabelo ela o prendeu como gostava de usar no platô, preso na frente e solto atrás. Enquanto ela se vestia, o caçador conseguiu abrir uma fresta da varanda podendo então acessá-la; quando ele percebe onde estava situada a casa de Marguerite, a rua em si, ele se sente pasmo, sente as pernas falharem; do outro lado da rua, duas casas a frente, estava a sua própria casa, a mansão Roxton em Londres. Ele mal podia acreditar que esteve tão próximo dela.
Marguerite nota que o caçador estava na varanda, estava pronta, havia guardado suas vestes, botas, saia e camisa, então ela decide chamá-lo, era a vez dele se arrumar.
M — John, estou pronta. Onde você mora? Para nos teletransportar.
John, ao ver a beleza da mulher, sentiu como se todas as palavras não bastassem para elogia-la, ele mesmo soube que estava de queixo literalmente caído por ela, mas não se preocupou em esconder, não era porque somente a amava, mas porque ela era sem nenhuma dúvida a mulher mais linda, mais atraente, mais deslumbrante que ele já tinha visto; e era sua, sua esposa, ele se sentia orgulhoso por tê-la ao seu lado, por saber que era sua e, o mais importante, por saber que tinha seu amor, que ela o amava, que seu amor pela a herdeira era retribuído de igual forma. Ele não conseguia falar, estava com um sorriso bobo nos lábios ainda a admirando por inteiro.
M — John, vamos, pare de ser bobo, terá a noite inteira para me admirar.
J – É, eu terei, e não tenha dúvidas de que eu irei fazer. Marguerite, nem com todos os elogios, com todas as palavras eu conseguiria expressar o quanto é bela. Tem noção do que é isso? Está, no mínimo deslumbrante, fascinante, eu não sei... não sei se é possível expressar.
A herdeira sorri amorosamente para o caçador, sabia que suas palavras eram verdadeiras, até porque a admiração dele estava nítida, até mesmo um desconhecido perceberia.
M — Obrigada, Milord. Mas ainda me deve uma valsa e não pode ir com esses trajes.
J – Não, eu não posso. Mas me pergunto se quero mesmo sair daqui. Poderia passar a noite toda te admirando.
Marguerite coloca os braços na cintura, anda em sua direção, estava tão perto que ambos sentiam a respiração um do outro, nem sequer se tocavam, apenas se olhavam.
M — Terá a vida toda para me admirar, já lhe disse; eu sempre estarei ao seu lado a partir do momento em que disse sim. Mas não para dançarmos. Vamos logo, John, por favor.
John estava quase gargalhando da expressão e das palavras da herdeira, ela estava realmente animada e ansiosa, parecia até uma jovem adolescente. Ele só não riu por saber que poderia acordar os devidos funcionários de Marguerite e isso estragaria toda a noite do casal.
J – Bem, Milady, se fosse em outras circunstâncias poderia sugerir até que fossemos a pé para minha casa, mas como o momento não permite... está vendo ali, do outro lado da rua, duas casas a frente? Aquela é a minha casa, a mansão Roxton em Londres.
Era a maior casa da rua inteira, além de ser também a mais luxuosa. Quando a herdeira estava em Londres muitas vezes observava a casa, mas quase nunca viu alguém entrar ou sair. Era ela quem estava espantada agora por tal coincidência, não podia acreditar, John sempre esteve ali, ao lado dela, tão próximo assim.
M — Você estava ao meu lado o tempo todo, quer dizer, quando eu estava em Londres, claro.
J — É espantoso, não é mesmo? Estávamos tão próximos e achamos de nos conhecer no platô.
M — Naquela terra esquecida por Deus, naquele maldito platô. É, parece que tinha que ser lá.
J — Bem, não importa. Estamos juntos.
M — Certo, então lá vamos nós. Próximo destino: mansão Roxton.
Em um piscar de olhos lá estavam os dois, no quarto do caçador. Se o de Marguerite era grande, o de John era pelo menos duas vezes maior, duas vezes mais luxuoso, era enorme, o maior quarto da casa e mostrava o tamanho da riqueza da família, tamanha a imponência que os cômodos transmitiam. O quarto estava limpo, conservado, alguma coisa ou outra alterada, provavelmente a mãe de John seria a responsável.
John escolheu vestir um smoking, um de seus melhores, feito por alfaiates sob medida, era impressionante como ainda lhe servia — na verdade, estava até um pouco mais folgado; os tecidos eram os melhores e mais caros tecidos franceses, calça e paletó preto perfeitamente alinhados, a camisa e o colete usado por dentro eram brancos, pareciam nunca terem sido usados de tão impecáveis; os sapatos eram de couro legítimo, brilhavam; e por último, ainda que relutasse um pouco sobre este acessório sabia que era indispensável, a gravata borboleta preta, devidamente bem feita.
Era a vez de Marguerite admirá-lo agora. Enquanto ele se trocava, a bela herdeira andou um pouco pelo quarto, observando as coleções que ele tinha, eram cada uma de um jeito, uma mais inusitada que a outra, e quando se cansou, sentou-se na cama do caçador. Este, por sua vez, estava finalizando na frente do espelho; ela chegava a suspirar ao admirá-lo, a última vez que o viu em um terno fora na partida deles para o platô, quase já tinha esquecido de como ele ficava ainda mais bonito, mais nobre e com um ar de superioridade ao qual nenhum outro homem se igualava.
M — Bem, então é assim que um Lord se veste. Será que é tão comportado quanto as suas vestimentas? Se for julgá-lo pela aparência.
O caçador vira-se e vê a bela sentada em sua cama; por alguns instantes ele imagina como seria diferente tê-la ali no seu quarto, na sua cama, mas não só isso, pensa em como seria tê-la não como teve várias mulheres em sua casa, em sua alcova, mas como a única mulher de sua vida; ele gostaria que um dia isso acontecesse.
J — Posso garantir, Milady, que sei ser impecavelmente comportado. Claro, quando me interessa.
Marguerite se levanta aproximando-se lentamente do caçador, o rodeando, reparando nos detalhes, parando próximo ao seu ouvido e falando em um tom baixo e sedutor:
M — É mesmo? E quando é que lhe interessa? Quando se tem tais situações?
O caçador aproxima-se da bela herdeira podendo sentir até mesmo sua respiração, como se estivesse hipnotizado por seu olhar, por suas palavras ditas sedutoramente em seu ouvido; estava a poucos centímetros de seus lábios, pronto para tomá-los, quando a herdeira simplesmente lhe dá as costas e sai andando com um sorriso no rosto.
M — Acho que devo, então, acreditar que essa não é uma dessas situações em que lhe interessa.
O caçador, por sua vez, é mais rápido, a puxa pelo braço, trazendo-a para o mais perto de si que conseguia; antes mesmo de qualquer reação da herdeira ele lhe tomou os lábios, deslizando suas mãos pelas costas da mulher, enquanto ela mesma se abraçava ao caçador. O aperto, as mãos que pareciam estar correndo por todo o corpo um do outro, tornavam o beijo voraz, mais quente; até que, com muito esforço, conseguiram se soltar, pelo menos separarem os lábios.
J — Acho que esta, Marguerite, seria uma das situações em que não pensaria duas vezes em lhe mostrar o quanto uma roupa não faz um homem, o quanto poderia ser bem malcomportado, mas não foi para isso que viemos.
M — Claro que não. Podemos fazer isso outro dia. Vamos logo ou não iremos aproveitar nada. Avebury, certo?
J — Certo.
Feito o desejo, lá estavam eles: em Avebury. A herdeira havia, além de desejado o local, desejado estar em uma festa, apenas uma festa de porte médio. E assim, com seu domínio, o Oroboros mais uma vez atendeu os desejos e estavam em um corredor paralelo do salão de festas de uma propriedade grande, aparentemente, e a seu ver desconhecida; não se lembrava de estar ali antes, mas queria ter certeza de que não seriam reconhecidos e nada melhor do que John para lhe responder tal dúvida.
M – John, já esteve aqui antes?
John olhava ao redor tentando vasculhar em suas memórias tais paredes, o corredor em si, a arquitetura da casa, os quadros de família expostos, mas não se lembrava de estar ali antes, nem do lugar, nem das pessoas, o que lhe dizia que era seguro.
J — Não, acho que podemos ir adiante, Marguerite. Mas não solte do meu braço, entendeu? Já que ainda não sabemos o que poderemos encontrar, ou melhor, quem.
M – Certo, John.
O caçador gentilmente lhe estendeu o braço e a herdeira não recusou. Ambos andavam lado a lado, braços dados, sorrindo, não por um motivo específico, mas estavam felizes por estarem ali, por ser a primeira vez que apareciam como marido e mulher e por, finalmente, depois de anos terem alguns momentos só para eles e poderem desfrutar da companhia um do outro.
Agora estavam adentrando o salão, varrendo-o com os olhos a procura algum rosto que lhes parecesse familiar e, para a alegria maior de ambos, não havia ninguém conhecido. Os dois não demoraram para circular por todo o salão e não eram reconhecidos; logo estavam dividindo um drink juntos, champanhe gelado, como aquilo às vezes fazia falta no platô... os brindes muitas vezes eram feitos com bebidas quentes, nada comparado com o sabor daquilo.
Vários casais dançavam animadamente músicas clássicas da época, alguns saíam, se cansavam, outros decidiam participar e logo se juntavam aos demais. O caçador olhou ao seu lado e percebeu o olhar da morena, estava voltado para o salão luxuoso; as paredes e colunas principais eram de tons pasteis com detalhes dourados, provavelmente pó de ouro; o teto era desenhado de mosaicos, assim como o chão, o qual, por sinal, brilhava de tão limpo. Ela parecia estar tão dispersa em analisar os detalhes, os quais eram de fato merecedores, que mal percebeu a música que acabava de começar.
J — Então, minha Marguerite, me concede a próxima dança?
A herdeira olhou para ele, agora com sua atenção toda voltada para o caçador e, claro, prestando atenção também nos barulhos do salão, inclusive na música.
M – Espera, é... John, é a...
J — A valsa dos sonhos, isso mesmo. Aquela que tentamos dançar outro dia no platô.
Ambos sorriram um para o outro, deixaram seus copos de champanhe sobre a mesa e se direcionaram para a pista de dança. Certamente aquele seria um dos momentos mais memoráveis para ambos, do qual iriam se recordar a vida inteira.
Cautelosamente, o belo caçador deposita uma de suas mãos por trás da cintura da herdeira, e, assim como ele mesmo havia falado antes, "a valsa é para ser deliciosamente imprópria e deve deixar os dançarinos completamente sem fôlego", com isso trazendo-a para bem perto de si; sua outra mão segurava a mão delicada de Marguerite. Ela, por sua vez, tinha sua outra mão por trás do pescoço do caçador. Desta vez não foi necessário que contassem os passos ("1,2,3,1,2,3"), apenas ouviam além da valsa a tocar o som de seus corações em perfeita sintonia, não perdiam nem sequer por um segundo o contato visual e dançavam perfeitamente bem, como se ambos tivessem nascido para dançar e, melhor ainda, para dançarem um com o outro. Se esqueciam completamente dos que os cercavam, nada importava, esperaram tanto por isso, para que esse desejo pudesse um dia ser realizado, era de tal beleza, de tal sintonia, que até mesmo outros casais paravam para admirá-los; ninguém os conhecia, quem eram ou de onde eram, mas sem dúvida era o casal mais belo e mais feliz de toda a festa. O sorriso estampado no rosto de cada um, o brilho no olhar, o modo como se admiravam e até mesmo os trajes pareciam combinar um com o outro. A beleza de ambos e o amor que era nítido em cada expressão, cada movimento, como quando ele ousou girá-la pelo salão e trazê-la novamente para seus braços, a forma como ela se adequava perfeitamente em seus braços, o cuidado que ele demonstrava ter e a retribuição; com certeza ninguém nunca tinha visto algo igual, de tal profundidade e sinceridade.
Perderam as contas de quantas músicas dançaram, uma seguida da outra, não perdiam nenhum ritmo desde a valsa mais lenta até algumas mais agitadas, sendo que por várias vezes John a girou no salão e girou junto com ela. Compartilhavam do mesmo sorriso até que em determinado momento, em uma música mais lenta, Marguerite apoiou a cabeça no tórax de Roxton e se ateve um pouco mais ao redor, percebeu que haviam poucos casais dançando, muitos convidados já estavam de saída e muitos os observavam.
M — John, porque estão nos olhando tanto?
O caçador então voltou seu olhar para verificar sobre o comentário da herdeira e percebeu que ela tinha razão, muitos estavam olhando para eles, mais parecia como se admirados até e alguns com ar de arrogância, o que para os olhos do caçador não passou despercebido.
J — Acho que estão admirando sua beleza, minha Marguerite.
M — John...
J — Estou brincando, embora, como sabe, toda brincadeira tem um fundo verdadeiro. Mas se prefere, vamos tomar um drink, tomar um pouco de ar fresco.
O casal seguiu de braços dados para a grande varanda a qual tinham acesso pelo salão; era um lugar mais sossegado, lhes permitia tomar ar fresco e apreciar a noite, haviam outras pessoas também, mas não tantas como dentro do salão.
A herdeira apoiava-se de modo como se descansasse em Roxton e este, por sua vez, a mantinha envolta de um abraço terno e carinhoso. Os dois ficaram apenas apreciando a paisagem, as estrelas, estava tudo tão perfeito.
J — Feliz?
M — E como não poderia estar? Isso é muito mais do que um dia eu desejei.
J — E no que depender de mim terá ainda mais. Eu não quero que isso acabe, Marguerite, não quero que nós acabemos, nunca.
A herdeira levanta o rosto para poder observar o caçador e certamente ela também não queria, nunca, que eles terminassem.
M — Eu amo você, John. E nunca iremos acabar. Confio em você, nunca irei deixa-lo. Seja lá o que nos reserva no futuro, iremos passar por tudo juntos.
Os dois estavam prestes a trocar um beijo, quando subitamente um dos convidados, sem que fosse por maldade, os interrompe no intuito de convidar Marguerite para uma dança. Embora tivesse percebido que o casal estava junto, era jovem demais, não tinha mais que 16 anos de idade e não possuía a malícia de um homem mais velho; estava tão cativado pela beleza da morena, que nem sequer se ateve a aliança ou que ela poderia ser comprometida.
Convidado — Ah, com licença. Boa noite. Será que poderia pedir a bela dama para dividirmos a próxima música?
John e Marguerite se olharam, olharam para o jovem, estavam confusos, mas por sorte a herdeira foi mais rápida e soube como lidar com a situação.
M – Desculpe-me, mas não creio que caia bem a uma mulher casada dançar com outro homem. Além do mais, não fomos apresentados.
Convidado — Casada? Por favor, me desculpem, eu não quis incomodar. É que você é tão bonita... Desculpe novamente.
Antes que o rapaz virasse e sumisse de vista, John colocou a mão sobre seu ombro, como sinal para que se acalmasse e para dizer que estava tudo bem e que não se preocupasse.
J – Ei, garoto, está tudo bem. Por que a pressa?
Convidado — Então não ficou bravo? Quer dizer, ela é sua esposa.
J — Você já pediu desculpas, foi um engano, mas nem por isso quer dizer que irá dançar com ela. Quer dizer, a menos que ela queira. Qual o seu nome?
Convidado – Bryan. Bryan Roxton. Já deve ter ouvido falar da família Roxton?
Marguerite espantou-se ao ouvir o sobrenome; olhando diretamente para as expressões do John, ela, como sempre, disfarçou e encobriu qualquer emoção que tivesse sentido, mas tinha receios de que John não fosse capaz; porém, ele a surpreendeu de uma forma que ela nunca imaginaria.
J – Desculpe, não conheço. Nós não somos daqui, somos de outro país, estamos apenas de passagem. Somos o senhor e a senhora Montclair. Prazer.
Ambos trocaram um aperto de mão breve, o rapaz ainda ficou mais um tempo conversando com eles, sobre assuntos banais, as propriedades da família, suas pequenas excursões para Londres, sobre a pessoa que vinha administrando os bens pelos últimos quatro anos, Lady Elizabeth Roxton, a qual estava fazendo o trabalho muito bem, superando todas as expectativas da família.
Já passava das 4 horas da madrugada, a festa já estava bem mais parada, muitos outros já tinham ido embora. Marguerite já começara a bocejar, sabia que o retorno para casa ainda seria um tanto longo, ou melhor, complicado.
M – Bem, acho que está na hora de irmos. Senhor Bryan, foi um prazer lhe conhecer. Até mais ver.
B — Até mais, senhora Montclair. O prazer foi meu.
J — Bryan, se cuide garoto. Até mais.
Feitas as despedidas, John e Marguerite já estavam no corredor novamente, escondidos dos olhares alheios e então sumindo como poeira. Estavam de volta ao quarto do caçador, que já se trocava sem fazer cerimônia, sabia que o tempo era curto, que não poderiam ser vistos e que deveriam estar de volta ao platô, pois naquele dia ele teria que acordar no máximo às 7 horas da manhã para ir caçar; mas não estava reclamando, tinha sido uma noite na qual queria parar no tempo, queria poder ter mais oportunidades como esta. Marguerite estava observando-o e pensando sobre o garoto da festa; era parente de John, mas qual grau seria?
M — John, o Bryan vem a ser o que seu?
John já esperava por tal pergunta, sabia que mais cedo ou mais tarde a herdeira iria querer saber.
J — Bryan é um primo meu de primeiro grau. Quando parti para o platô ele estava com 12 anos, agora deve estar com 16 anos ou quase. Não convivi muito com ele por conta das minhas viagens, a guerra, as fatalidades de minha vida, como você sabe, mas sempre que ele estava em Londres ficava hospedado por aqui na mansão Roxton. Era um dos sobrinhos favoritos de minha mãe, por suas semelhanças quando pequeno a William, e pelo visto ainda é; a julgar pelo modo como se referiu a minha mãe, ainda deve ser apegado a ela, principalmente por conta da minha partida. Agora algo que devo lhe dizer, minha Marguerite, é que é, de fato, impressionante como os homens da minha família se sentem atraídos por você.
Marguerite quase que solta uma gargalhada pelo último comentário do caçador, só se segura por conta de se dar conta do local onde estavam.
M — Eu concordo, os homens da sua família são todos atirados. Será que não sabem que um Roxton já me basta? Sinceramente, dois Roxton na minha vida... Eu não aguentaria. Você já me dá trabalho demais, principalmente quando quase tenta se matar com aqueles malditos dinossauros.
O caçador ri silenciosamente; já estava trocado, seu traje de festa guardado, suas mãos na cintura da herdeira, olhando-a de cima à baixo.
J — Sabe muito bem que só tento me matar com aqueles malditos dinossauros quando é a sua vida que está em risco. Quanto a ter outros da família Roxton em sua vida, acho melhor reconsiderar porque quero ter vários herdeiros.
M — Vários? Você deve estar ficando louco! Está me achando o que, cara de mamãe dinossauro? Que pode ter vários de uma vez? Posso pensar em lhe dar um e assunto encerrado.
J — Um é muito pouco, quero pelo menos três.
M — Haha esqueça. Apenas um e isso só depois que acertarmos toda a nossa situação, ou melhor, a minha situação.
J – Certo, um agora e um depois. E fim de conversa. Dois é perfeito.
M — John?! Nenhum agora. Só depois.
J — Tá, mas aí serão dois.
M — Tá, tá bom. Dois. Um menino e uma menina.
J — Ganhei. Então, quando iremos providenciar um deles?
M — Lord John Richard Roxton, pare de brincadeiras. Quando tudo estiver resolvido, juro que iremos pensar. Mas agora não irei criar nenhum filho meu como selvagem naquela terra esquecida por Deus.
J – Ora, e por que não? Iriam aprender a caçar dinossauros igual ao pai. Quer orgulho maior?
M — Você continua o mesmo. Nunca se cansa dessas brincadeiras?
J — Sabe que não. Nunca me cansarei disso, de você.
O caçador fez questão de abraçá-la e, mais uma vez, partiram. No quarto da herdeira pouco demoraram, não havia muito a ser guardado e ela foi até mais rápida do que ele, estava já com muito sono, queria logo poder deitar e dormir. Ambos devidamente trocados, por meio do Oroboros voltaram para o platô, para o quarto deles — quarto de Marguerite, mas que agora era definitivamente dos dois.
Os dois já estavam vestidos com suas roupas habituais para dormir. John estava sentado na cama esperando a mulher vir se deitar, enquanto ela guardava o medalhão no salto de sua bota. O caçador a observava, parecia estar pensativa, com um olhar distante, diga-se de passagem. Ela se junta a ele, deita-se sobre o braço esquerdo, ainda com o mesmo olhar. John acariciava seus cachos negros, soltos e espalhados agora.
J – Marguerite, está tudo bem? Parece estar pensativa sobre algo. Quer me contar o que é?
M — Não é nada demais, só estou pensando que acho que poderíamos fazer isso de hoje mais vezes. O que acha?
J — Não seria arriscado demais, Marguerite?
M — Bem, sim. Mas e se formos em diferentes lugares?
J — Acho que é algo a se pensar, minha Marguerite. Mas por que não aproveita essas poucas horas que nos resta e tenta dormir um pouco? Se bem me lembro, amanhã você irá em uma excursão com Challenger.
M — Você tinha que me lembrar disso, não é?! Ainda não acredito que me voluntariei para ir nessa excursão.
J — Quer que eu lhe recorde o porquê?
M — Ah não, obrigada. Dispenso.
Os dois sorriram. A bela herdeira se aconchegava mais ao sentir o calor do corpo do seu amado, sentindo-se protegida e amada, sabia que envolta daqueles braços, que só de saber que ele sempre estaria com ela mesmo diante dos problemas que o futuro pudesse lhe proporcionar, já lhe dava tamanha felicidade que ela nunca havia sentido ou se permitido sentir em sua vida; se sentia a mulher mais feliz do mundo e aquela noite ela queria memorizar, na manhã seguinte iria fazer questão de registrar em seus diários, queria sempre lembrá-la como a noite da valsa dos sonhos, de seus sonhos.
John percebendo já o sono da herdeira, a abraça ainda mais forte, aninhando-a em seus braços, lhe oferecendo maior proteção, e beijando-a na têmpora.
J — Boa noite, minha Marguerite, e bons sonhos. E nunca duvide que eu a amo mais do que a minha própria vida. Quem sabe não teremos mais noites como essa.
A herdeira, já sonolenta, mas ainda atenta a cada palavra do caçador, responde:
M — Boa noite, Milord. Eu adoraria mais noites como essa. Eu também o amo, mais do que já amei qualquer um na minha vida. Só você.
Assim, os dois, marido e mulher, logo adormeceram. Ambos, quem sabe, dividindo os mesmos sonhos, sonhos de mais noites como aquela, mais momentos em que pudessem compartilhar, sonhos de um futuro ainda incerto, mas que estariam juntos, que o amor deles seria mais forte e que iria superar qualquer obstáculo que lhes estivesse reservado.
Notas finais
Irei deixar esse agradecimento, como uma nota final, não só para todos aqueles que leram, que acompanharam e deixaram seus comentários, mas também para aqueles que me incentivaram a escrever, às minhas betas e a minha editora de capas.
Aos leitores, eu agradeço à todos, como sabem está foi a minha primeira Fic, até então não havia escrito nada igual, e fico imensamente feliz e agradecida por todos vocês, tentei ao máximo trazer características, traços, os próprios personagens de The Lost World, espero claro ter conseguido, que tenham ao sentido como se estivessem vendo mais um episódio, pra mim e creio que para muitos outros é como se fosse uma fonte onde podemos relembrar dessa série tão querida nos dias de hoje, depois de pelo 10 anos.
Em especial agradeço a Dani, a Lucy e a Su, vocês três deixaram praticamente comentários em todos os capítulos, isso foi muito importante para mim, pois acreditem a medida que eu ia postando, ansiava pela reação de vocês, agradeço muito por todo carinho.
As minhas betas, Paula e Leticia, o que falar sobre elas... Paula foi a primeira a me incentivar a escrever, logo quando mostrei a idéia, por isso a chamo de My Inspiration, se não fosse ela não teria escrito e nem conhecido a Leticia, pelo menos não tão próximo. A Paula além de me incentivar, também sempre deu idéias, sugestões, críticas, ajudava a ver a cena de um modo que eu não tinha visto, tem várias idéias nessa e nas próximas Fic's que é dela. Assim claro e sempre brigava comigo quando eu demorava para escrever.
Leticia, garota dona de um português impecável, ela quem revisou cena por cena, capítulo por capítulo, e olha que estava revisando duas fic's e escrevendo às suas próprias. Acho que mais do que apenas revisar minha fic, nos tornamos amigas, e agradeço muito por isso. Sempre também muito atenciosa comigo e ansiosa, até hoje, quando eu enviava um trecho fatídico e parava, eu sei que você queria me matar, mas eu tinha que ver sua reação, ou não só não conseguia concluir a cena. E foi por você que eu sempre deixava com mais emoção, e escrevia mais rápido, por vocês duas.
Nathy, dedos de fada, editou capa por capa, revirou o Google até achar uma imagem do William, o que não foi nada fácil, mas sua persistência foi maior e procurou até encontrar. Uma capa mais bela que a outra é sempre me surpreendia quando recebia já finalizada. É garota você tem o dom.
Por fim, é isso... Eu só passei para agradecer, agradecer a essas pessoas especiais, ou seja todos vocês, todos os leitores.
Muito obrigada e espero que continuem acompanhando, pois logo terão novidades por aí.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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