Choque de Tempo

22 Capítulo 22 - Que comecem os jogos.


Alguns dias haviam se passado depois de toda a confusão, a decisão sobre como ficaria a situação de John e da sua conversa com William.
A preocupação de Challenger ainda não ter conseguido uma solução para enviar o homem loiro de volta para o seu devido tempo agora já afetava os demais também; embora Verônica e Marguerite tinham a resposta e a solução para esse problema, elas ainda tinham dúvidas quanto ao uso dos medalhões, além da herdeira ter suas próprias dúvidas sobre o que os demais pensariam na hora que descobrisem a respeito do Oroboros — ou melhor, o que John pensaria, pois embora estivesse mantendo-o longe, nem sequer falava ou olhava para o caçador e simplesmente fingia não vê-lo, ainda se importava com o que ele pensaria à seu respeito.
A chuva parecia ter dado uma trégua também nesses dias, assim permitindo que realizassem suas “excursões” pelo platô. Naquele dia, foi definido que William e Marguerite iriam em busca de algumas ervas, o estoque de medicamentos estava baixo. Challenger e Malone estariam no moinho de vento e Verônica e John iriam caçar. Cada dupla definida, logo após o café da manhã cada um com seu equipamento e armas saíram, se separando, porém estariam de volta antes do escurecer, não era nada que fosse necessário mais do que um dia.
Marguerite e William andavam pela selva com a lista de ervas que teriam que colher; a herdeira estava impressionada com o conhecimento do homem, não só pelo conhecimento, mas pela habilidade de identificar as plantas e tão rapidamente. Se continuassem nesse ritmo voltariam antes das 14 horas para casa, o que já animava a herdeira, já que quando saía assim com John não voltava antes das 18 horas, isso quando não dormiam foram.
M — Onde aprendeu tanto sobre plantas, William?
W — Em livros, sempre gostei de ler. Desde criança leio tudo o que vejo, sou muito curioso também.
M — Sua habilidade para reconhecer as plantas é bem diferente.
W — Diferente de John você quer dizer? É, existem muitas diferenças entre nós.
M — Não foi bem isso que quis dizer, mas acho que pode estar certo. Não sei.
W — Bem, é normal que esteja assim. Me desculpe pela intromissão, mas sinto como tenham acabado as coisas. Mas, sabe, há males que acontecem em nossas vidas para um bem maior. Você é sem dúvida a mulher mais inteligente, mais esperta e que tem a voz mais linda que já ouvi; vão sair daqui e logo na sociedade você verá que as coisas não serão mais as mesmas. Logo terá sua independência novamente e, além disso, tenho certeza de que irá conhecer alguém que saiba lhe dar o devido valor.
Marguerite não havia, de fato, dado liberdade para William e nem gostava de tais intromissões, não lhe agradava, mas ele parecia estar sendo sincero.
M — Claro, William, eu irei. E irei resolver as coisas da maneira como sempre fiz: sozinha, e é assim que pretendo ficar. Vamos andando, ainda temos algumas plantas para colher. E quanto antes voltarmos para casa melhor será.

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V — John, você errou de novo. Está tudo bem? É a segunda caça que perde nessa manhã.
Não, era bem claro que o caçador não estava bem; sua cabeça estava em Marguerite, principalmente, em Marguerite sozinha com William, ele não conseguia parar de pensar nisso, não conseguia desviar seus pensamentos disso, desde cedo quando foram determinadas as duplas ele não conseguia se concentrar em mais nada e isso estava refletindo no seu desempenho. Além de não conseguir caçar, não conseguia se atentar quanto aos sons da natureza, logo, poderiam correr sérios riscos se não prestasse melhor atenção no que lhe rodeava.
V — John? Está ouvindo? Estou falando com você.
J — Desculpe, Verônica, estava com os pensamentos em outro lugar.
V — Percebe-se. E esse lugar, ou melhor, pessoa se chama Marguerite?
J — Não, imagina. Besteira.
Verônica conhecia o caçador, sabia que era Marguerite que o deixava assim fora de si, seja no sentido de agir por impulso, como no sentido de perder a concentração, de não conseguir desviar os seus pensamentos para outras coisas, como caçar.
V — No que está pensando, John? Isso não é besteira, está preocupado com Marguerite? Ela está segura, não está sozinha.
John nesse caso preferia que Marguerite estivesse em casa dormindo e não cumprindo com suas tarefas ao invés de fazê-las acompanhada por William. Ele tinha quase certeza de que o irmão não iria perder a oportunidade, iria “ataca-la” com investidas e, por Deus, que Marguerite não aceitasse. Ele já não estava suportando saber que os dois estavam juntos, quer dizer, cumprindo as tarefas juntos, isso já o estava consumindo o suficiente, e quem dirá outras surpresas.
J — É, sim, sobre Marguerite que estou pensando. Não estou preocupado com ela por não estar sozinha; na verdade, o que me preocupa mesmo é quem a acompanha.
V — William? Mas por quê? Tenho certeza de que ele irá cuidar dela.
J — Ah disso não tenho dúvidas. Só temo que seu cuidado se exceda.
V — John, seu irmão também está interessado em Marguerite, não é mesmo?
J — Está, Verônica, acho que desde o momento em que a viu.
V — Olha, John, não sei se te consola, mas pelo que conheço de Marguerite acho que ela não permitirá tal aproximação dele. Ela ama você, só precisa de um tempo e logo tudo voltará a ser o que era.
O caçador queria acreditar nisso, mas infelizmente os seus atos tinham sido tão brutais e ignorantes, que não sabia mais o que podia esperar. Além de que agora estava descobrindo como a herdeira havia se sentido todas as vezes em que lhe viu com outras mulheres.
J — Eu não sei, Verônica. Não vou desistir de Marguerite facilmente, mas também começo a duvidar de que eu seja capaz de reconquistar seu amor e sua confiança. Ainda mais agora ciente de que não foi a primeira vez que a fiz sofrer.
Verônica queria consolar o amigo; apesar de tudo o que ele fez, sabia o quanto esses últimos dias tinham sido difíceis para o caçador, o sofrimento estava estampando em seu rosto. Sem falar que o havia visto passar algumas noite em claro. Porém, também não tinha o direito de intervir na vida pessoal alheia, ainda mais quando era na de Marguerite.
V — John, você sempre sabe como resolver os problemas, sempre tem uma solução. Tenho certeza que conseguirá desta vez também. Ainda que demore.
A garota deposita a mão no ombro do caçador como sinal de consolou, não propriamente para dizer-lhe que não estava sozinho, mas sim para ele manter a calma e não perder a cabeça facilmente, que logo saberia resolver a situação. Os dois partem, então, para mais uma tentativa de caça.

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A tarde se aproximava elevando a temperatura do platô, o sol estava bem quente e a herdeira já estava começando a reclamar da excursão como costumava fazer quando saía com John ou mesmo com os demais, não era segredo o quanto odiava caminhar sob o calor. William também não gostava de temperaturas quentes, não era tão apto a contato com a natureza como seu irmão, não em questões de caçadas, trilhas e acampamentos.
Já haviam colhido todas as ervas da lista de Challenger e estavam voltando para a casa da árvore, não estavam tão distantes, aproximadamente trinta minutos de caminhada e chegariam, mas ambos estavam exaustos.
M — Chega, eu não aguento mais andar a procura dessas malditas plantas do Challenger. Vamos parar ali perto do riacho, assim descansamos um pouco.
Para a surpresa de Marguerite, o homem concordou de imediato sem nem sequer reclamar que ela quisesse parar ou tentar convencê-la a andar até a casa, ou se levantar, como os outros sempre faziam. Na verdade, ele tratou de praticamente jogar a mochila no chão e se sentar perto da sombra de uma árvore.
W — Pensei que nunca falaria isso. Eu realmente, realmente preciso de um descanso. Obrigado.
A herdeira acaba não resistindo ao olhar para o homem se jogando próximo a árvore e às suas palavras (que pareciam ser como as dela) e acaba sorrindo. Ela mesma já estava sentada sobre uma pedra e olhando em volta procurando por outra mais confortável.
W — Sabe, acho que é a primeira vez que lhe vejo sorrir assim desde minha chegada.
Marguerite, no mesmo momento em que ouvuu as palavras ditas pelo homem, esconde o sorriso; não queria ele dando palpite em suas atitudes. Na verdade, tinha que tomar mais cuidado, pois, sendo irmão de quem era, deveria ser tão galanteador quanto e era tudo o que ela menos queria, outro especulando quem ela era, especulando seus sentimentos e segredos para depois usá-los contra ela mesma. Não, ela não queria nenhum dos dois por perto.
Porém, William a estava analisando enquanto ela pensava, havia mais coisas que ele podia imaginar que ela escondia, sendo uma delas a dor que estava sentido. John era mais que uma paixão para ela, porém, para William ele era passado, era um alguém que a tinha magoado e ferido.
W — Marguerite, me desculpe, só quis lhe fazer um elogio. Tem um sorriso bonito. Sinto pelo que está passando. Não me julgo melhor do que meu irmão, só como um alguém de fora. Acho que não merecia passar por isso, mas tenho certeza que irá saber como lidar com a situação. Sendo a mulher que é.
M — Acho que já lhe disse que não gosto que pessoas como você se intrometam na minha vida. Agradeço o elogio, mas o dispenso. Já está descansado? Se estiver, podemos partir, não vejo a hora de chegar em casa e poder descansar no meu quarto.
William já estava se sentindo melhor; não haviam parado por mais de dez minutos, mas estava bom, pois ele não iria discutir com ela e não queria que ela ameaçasse larga-lo ali sozinho, coisa que ela seria bem capaz de fazer e ele ainda sentia certos temores, não se lembrava nem da sua mãe falar com ele desse modo como Marguerite fazia.
W — Claro. Vamos.
Os dois estavam seguindo para a direção da casa da árvore, quando um rugido e um barulho de árvores caindo se aproximava. Marguerite tinha quase certeza do que poderia ser, mas William, por sua vez, estava tremendo com o rifle na mão, ele não fazia ideia do que era — embora tivesse ouvido que ali era um platô pré-histórico, até então não tivera a chance de ver nenhuma dessas criaturas.
M — Dê passos leves para trás e quando eu dizer corra, você corre, certo?
W — Certo, mas o que é que está vindo?
M — Não dá tempo de explicar, corra!
Os dois logo estavam correndo o mais rápido que podiam. William ainda não acreditava que logo atrás deles estava um, até então, extinto Tiranossaurus Rex, mas, na verdade, este parecia muito vivo e muito faminto e muito rápido.
M — William, escuta, temos que correr mais do que isso.
W — Mais? Impossível.
M — Ah é impossível? Então diga isso para ele, que logo estará sobre nós. Ai droga, John, cadê você quando mais se precisa...
Marguerite logo se arrepende da última frase dita, se arrepende amargamente, porém agora ela não tinha tempo para pensar nisso. Ela só pensava em se livrar do T-Rex, mas não sabia como.
M — Ahhhhhhhhhhhh!!!
A herdeira foi ao chão. Ela nem tinha visto no que havia tropeçado e William estava longe demais para ouvi-la.
Não muito longe dali estavam Verônica e John caçando. Eles também tinham ouvido o barulho do T-Rex, estavam atentos, prestando atenção para saber se o animal não estava vindo na direção deles.
J — Verônica, você ouviu?
V — Parecia um grito.
J — Era a Marguerite.
O caçador não pensa duas vezes e sai correndo em direção para onde tinha ouvido o grito. E lá estava ela; estava com um pé enroscado em uma raiz e, pior, o T-Rex estava cada vez mais perto. John só pensou em salvá-la. Logo ele estava ao seu lado, ajudando-a, tirando o pé dela da raiz.
Marguerite olhava para ele com espanto, não acreditava. De onde ele tinha vindo? Seja de onde fosse, ela estava feliz por vê-lo. John a segurou na lateral e estava praticamente correndo ao lado dela, com ela envolta em seus braços. Já também alcançando William mais a diante.
J — Vamos, corram, eu dou cobertura! Tem uma fenda logo mais a frente.
M — Não.
J — O que? Vá logo, Marguerite, isso não é hora para discutir.
M — Entramos os três juntos e agora. Vamos.
E assim, os três entraram na caverna, podendo respirar mais fundo. Marguerite encostou na parede, sentia dor no pé; William bebia água, ainda não acreditava naquilo; e John estava observando ainda o movimento do animal lá fora, mas também não pôde deixar de direcionar sua atenção para a herdeira, que estava próxima.
J — Marguerite, deixe me ver esse pé.
M — Pra quê?
J — Ora, você caiu, se feriu. Vamos, deixe me ver.
M — Estou ótima, John, nunca estive melhor. Dispenso seus cuidados.
Porém, quando Marguerite vai apoiar o pé novamente no chão e já não mais encostada na parede da caverna, ela sente-se falhar e novamente é o caçador que a segura.
J — De fato, está perfeitamente bem, tão bem que não se aguenta em pé. Vamos, pare com besteira, deixe-me ver logo esse pé.
M — Você me irrita sabia? Não sei o que vi em você. Já falei que não, você não irá ver.
J — Ótimo, se não será por bem, será por mal.
O caçador, antes mesmo que a herdeira reagisse, já estava pegando-a no colo e sentando ela de uma vez por todas no chão. Com um dos braços se protegia dos tapas que a herdeira tentava lhe acertar e com o outro tirava a bota, podendo ver o inchaço que já se formava no tornozelo.
J — Não é nada, só bateu, só inchaço. Amanhã estará bem, só precisa de um repouso.
M — Eu lhe disse que não era nada.
J — Você não me disse foi é nada, Marguerite. Na verdade, é a mulher mais cabeça dura que já conheci.
M — Ainda bem que disse já conheci, porque ficou no passado. Agradeço seus cuidados, mas creio que sei cuidar de mim. Não o quero por perto e pretendo manter minha palavra.
J — Sabe, não foi isso que me pareceu agora pouco. Quando insistiu para que entrassemos os três juntos.
M — Ora, claro. Era eu quem estava em seus braços.
J — Aham. Claro. E seria só este o motivo?
M — Por que? Teria outro.
J — Para ser honesto, acho que sim.
Os dois ainda ficaram se olhando durante um tempo em silêncio, ambos sabiam os motivos, os verdadeiros motivos. William estava próximo quando viu algo brilhar de dentro da blusa de Marguerite. Era um medalhão pendurado no pescoço dela; ele desconhecia a origem, o desenho ou mesmo o formato, mas era ouro puro e, como o sol batia direto nele, refletia.
W — Marguerite, que medalhão é esse que usa?
John, então, somente agora pôde notar que a morena estava com o Oroboros, usando-o como uma espécie de colar. Mas por que, se ela não sabia usa-lo?
J — Marguerite, por que está usando isso?
M — E desde quando lhe devo satisfação? Eu uso porque eu quero, quando eu quiser. Afinal de contas, é meu.
A herdeira não queria que John soubesse a verdade, que ela sabia usar o medalhão desde quando o recuperou. Ela havia lido quase todos os diários dos pais da Verônica e alguns falavam sobre ele, sua lenda e até mesmo como usá-lo, mas ela não queria dividir isso porque, se tivesse que faze-lo, os demais logo iriam querer voltar para a sociedade e na época ela estava tão feliz com John que não queria que aquilo acabasse, temia que o seu retorno à Londres os separassem.
John poderia não mais estar junto a ela, mas com os anos havia aprendido melhor do que ninguém como decifrar Marguerite, sabia que ela estava mentindo, ele a conhecia como a palma da mão.
J — Está mentindo. Você aprendeu a usá-lo, não é mesmo?
M — Se eu aprendi a usá-lo ou não isso cabe a mim. Você não tem nada a ver com isso.
J — Não, Marguerite, eu tenho sim. Visto que estamos morando todos juntos e todos nós estamos nessa juntos. Nada mais certo do que você ter nos contado.
M — Ah sim, claro, uma grande família feliz. Acho que não. Isso é pessoal, só diz respeito a mim.
William observava os dois brigando; na verdade, estava surpreso, pois em todos esses dias eles estavam sem nem se olharem e agora começarem uma briga assim... algo estava errado. Porém, não seria ele quem iria se intrometer. Já havia levado uma surra de John e quase que Marguerite lhe acertou com um tiro; não, definitivamente estava fora disso. Ele observou a entrada da caverna e não viu mais o animal; decidiu ir verificar, ou melhor, estava começando a pensar se não era mais cabível ter enfrentado aquele dinossauro do que os dois dentro da caverna brigando.
Verônica também tinha conseguido rastreá-los e estava próximo a entrada da caverna, praticamente colidindo com William, ambos com suas armas prontas, acabam por um assustar o outro. Acabaram por interromper a briga de John e Marguerite, que ainda continuavam a se encarar, próximos, Marguerite com o dedo apontado na altura do rosto dele.
V — O que está acontecendo aqui?
J — Vamos, Marguerite, diga a Verônica o que está acontecendo aqui. O que está escondendo de todos nós.
Verônica não fazia idéia do que poderia ser, ela levanta uma das sombracelhas para a morena que ainda continuava a fuzilar John, braços cruzados, o rosto chegava a estar até corado de raiva.
V — Marguerite?
M — Ah tá. É sempre minha culpa mesmo. John acha que sei usar o Oroboros e que isso poderia resolver todos os nossos problemas. Mas eu não sei.
A garota sabia que não era mentira de todo mentira, a herdeira havia, sim, aprendido algumas coisas, mas não era o suficiente, não pelo menos para levar William de volta para o passado. Além disso, com tudo que tinha acontecido, ela mesma se esqueceu de cobrar Marguerite quanto a isso, mas agora não poderia mais esconder.
V — É verdade, John, Marguerite aprendeu a usá-lo.
M — Verônica???
J — Como sempre, só pensando em você.
V — QUEREM FICAR QUIETOS VOCÊS DOIS! Marguerite sabe usá-lo, mas ainda não tem total domínio; viajar de um lugar para o outro é uma coisa, viajar através do tempo é outra.
M — Viu? Eu disse que não estava mentindo. Deveria aprender a não confiar só em si, pois se já decepciona a confiança dos outros, quem dirá de si mesmo.
J — Ainda assim não era motivo para ter escondido isso de nós.
V — Quietos os dois. Achei que tinham feito um acordo de não se falarem por um bom tempo e agora estão brigando de novo. Quando é que vão aprender que não é assim que se resolvem as coisas?!
Ambos silenciaram; a garota da selva estava certa, essas coisas só pioraram o relacionamento deles quando aconteciam no passado.
V — Escute, John, Marguerite vai usá-lo para nos ajudar com William e mais pra frente, se for o desejo de todos, a voltar para casa. Mas para isso ela precisa aprender mais sobre as propriedades do medalhão. Eu irei também ajudá-la com o Tryon, com os dois juntos corremos menos riscos. Hoje podemos conversar com o Challenger e com o Malone, que tenho certeza que iram aceitar, e amanhã Marguerite pode ir para a aldeia Zanga, pois acho que o Xamã pode ajudar.
John estava de cabeça baixa, havia mais uma vez falado mais do que deveria, acusando Marguerite. Droga, tinha que aprender a controlar seus impulsos e língua ou iria perdê-la de vez!
J — Claro, Verônica, da maneira que acharem melhor.
Marguerite estava, mais uma vez, furiosa com John. Droga, por que tinha que ter caído? Por que tinha que ter falado com ele? Por que tinham que ter brigado? E por que ele nunca pensava bem sobre ela, só coisas ruins? Será que podia esse dia piorar? Mas, para sua surpresa, podia. Ela ainda estava com o pé inchado e não conseguia se apoiar direito.
M — Bom, vamos andando, quero logo chegar em casa… Ai, ai, mas que droga!
V — O que houve?
M — Não é nada, só um inchaço. Me enrosquei em uma raiz no caminho e caí, para variar.
V — Por mais que não seja nada sério, não vai conseguir andar.
John, já percebendo a aproximação do irmão e embora soubesse que não tinha o direito, também não ia deixar que o outro fizesse: antes que William tomasse a iniciativa, ele mesmo a pegou no colo e saiu andando sem nem sequer olhá-la no rosto porque já imaginava o ódio que ela deveria estar sentindo.
J — Ótimo. Então será no colo mesmo que irá para casa. Quer queira, quer não queira.
Marguerite estava tão furiosa, porém sua dor era tamanha, e de certa forma ela preferia ir no colo de John, que sabia muito bem como carregá-la e andar na selva, também se atentando a qualquer predador que aparecesse, do que no de William que era inexperiente nessa questão. Porém, a herdeira foi quieta por todo o caminho, não fez nem sequer um ruído e preferiu olhar para qualquer canto — para a selva, para si mesma, para Verônica que ia a frente — do que para ele.
Na casa da árvore, Malone e Challenger já haviam retornado também. Por perceberem a demora dos demais, eles mesmos estavam preparando o almoço, embora já estivesse bastaante tarde já havia passado há algum tempo. Quando viram John entrar com Marguerite no colo.
J — Então, onde a coloco? Levo-a para o quarto?
M — Não, nem pensar! Não o quero em meu quarto. No sofá está ótimo, obrigada.
J — Como queira, Vossa Alteza.
M — Escute, John, cuide da sua vida, sim? E vê se me deixa em paz, odeio esses seus comentários. Como se tivesse a liberdade.
J — Ah dos meus comentários você não gosta, mas de que lhe trouxesse no colo não ouvi uma reclamação.
M — Ora, eu não pedi nada. Sei me cuidar muito bem, nunca precisei de você. Aliás, você que é um atrevido, não passa de um conquistador e foi me pegando no colo.
Challenger e Malone se olhavam. De fato, se aqueles dois continuassem nesse ritmo era certo que a briga iria se agravar.
C — Chega vocês . Marguerite, se preferir eu ou Malone lhe ajudamos a ir para o quarto, preciso examinar seu machucado.
M — Claro, George. Qualquer coisa ou lugar é melhor do que ficar aqui próximo desse grosseirão.
J — Escute aqui, Marguerite…
Verônica, nesse exato momento, preferiu intervir; do jeito que as coisas andavam, se ele chegasse muito próximo de Marguerite era bem capaz dela lhe dar outro tapa na cara.
V — Não, escutem aqui, vocês dois. Chega. Infelizmente, vocês só irão aprender separados mesmo. Não acredito que estejam agindo assim, não depois de tudo. Parecem duas crianças, parece que não aprenderam nada. Já não foi o suficiente tudo o que houve? Pelo visto não. George, por favor, leve-a sim para o quarto, eu ajudo a terminarem a refeição. Logo mais preciso conversar com vocês.
George e Malone descem com Marguerite, enquanto Verônica e John vão arrumar a refeição e William arruma a mesa.
W — Verônica, ela ficará bem?
V — Claro que sim. Marguerite já passou por coisas piores, só precisa descansar. Challenger irá cuidar dela.
J — Por que? Preocupado, William?
W — Claro, meu irmãozinho, alguém precisa cuidar dela, afinal.
J — Ah e você irá fazer isso? Não consegue nem cuidar de si.
W — Pois eu vou te provar, Johnezinho, que consigo cuidar dela.
J — Vai é se acidentar e, pior, ferir Marguerite. Se algo acontecer a ela...
Quando um barulho estala alto sobre a mesa, era Verônica havia dado um murro na mesa voltando a atenção dos dois homens para ela.
V — Preste atenção os dois. Isso aqui não é lugar para brigas de vocês. Estou cansada, acho que todos nós estamos. Vão se comportar como dois adultos. Se Marguerite ouvisse o que estão falando, já pensou o que ela falaria? Acho que não. Então parem com isso ou juro que tratarei vocês como crianças, que é o que estão sendo. Agora será que podemos ter uma refeição decente?
Os dois apenas sentaram-se e não falaram mais nada. Challenger e Ned se juntavam à mesa, conversavam animados sobre melhorias no moinho, pois logo poderiam ter luz, além de dentro da casa da árvore, também em baixo, próximo à cerca elétrica, mas usariam só se fosse necessário, no caso de alguém sair a noite.
J — Estão animados, o que estão conversando?
C — Ah, meu velho, logo teremos eletricidade próximo a casa da árvore e, quem sabe, construir uma trilha até o moinho para usarmos à noite quando precisarmos.
J — Challenger, isso é ótimo.
C — Ah é sim. Melhor quando a colocar em prática. Mas, me diga, o que tinham de importante para nos contar?
Verônica respira fundo e decide não fazer rodeios.
V — Challenger, eu e Marguerite temos a solução para mandar William de volta para o passado.
C e N — Vocês tem? Como?
V — Calma, vocês dois. Nós temos o Oroboros e o Tryon, sabemos usá-los, mas ainda existem coisas que precisamos aprender. Sugeri a Marguerite ir amanhã passar alguns dias na aldeia Zanga, não mais do que dois dias, creio. O que acham?
C — Minha cara, que esplêndida ideia. Por Deus, havia me esquecido totalmente dos medalhões. Estou de acordo, claro. Mas eu e Malone continuaremos amanhã com os trabalhos no moinho e, na verdade, John, iria lhe pedir ajuda também. Preciso que me ajude com os trabalhos braçais, assim Malone não fará tudo sozinho e antecipamos as melhorias.
John queria ir com Marguerite, mas não poderia ir contra o pedido de Challenger e ainda havia um trato entre eles, além da situação só haver se agravado naquele dia.
J — Claro, Challenger. Acho que Verônica e William podem acompanhá-la.
V — Na verdade, John, só William irá com ela. Eu tentarei resgatar algo sobre o Tryon nos diários dos meus pais e em mais algumas anotações por onde Ned passou.
J — O que? Só ele? Verônica, não pode permitir.
V — John, é o único jeito. Você não quer que tudo se acerte, então.
W — Viu, falei que poderia cuidar dela.
J — Acho bom que cumpra isso pelo menos.
W — Quem quebrou a promessa aqui não fui eu, irmãozinho.
C — Senhores, por favor. Já basta. Está decidido.

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Naquele mesmo dia, após o horário do jantar, Malone preparava a refeição para levar para Marguerite, já que no almoço fora Verônica quem tinha feito. Estavam todos reunidos na sala, conversando sobre planos para daqui a alguns dias, William ainda temia a volta para o seu tempo, sabia o que iria acontecer, estaria voltando para morrer e isso não era algo fácil de compreender para nenhum ser humano. Ele, na verdade, não queria ouvir esses planos, não queria saber do que estavam falando, até porque seu destino já estava traçado.
W — Malone, esse prato é para Marguerite?
N- É sim, William.
W — Deixa que eu levo; não quero ficar aqui ouvindo essa conversa, se é que me entende.
N — Acho que sim. Toma, pode levar para ela.
W — Obrigado.
Malone se reúne aos demais, ao lado da garota, e John não deixa de notar que William havia se ausentado.
J — Cadê o William?
N — Foi levar a janta para Marguerite.
J — Sozinho? E você deixou?
N — Ele quis ajudar e não tem problema nenhum, John.
O caçador pega seu copo com a bebida e segue para a varanda, preferiu se calar do que descontar em um de seus amigos, eles não tinham culpa, era melhor ficar um tempo sozinho e esfriar a cabeça.
N — Alguém me explica o que foi que disse ou fiz?
V — Você não fez nada, Ned. John só está com ciúme.
N — Acho que isso explica o porquê ele tem agido estranho esses dias.
C — Em partes, meu jovem, em partes.

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Já no andar de baixo, no quarto de Marguerite, William entrava com a bandeja na mão. Ele havia levado muito mais do que apenas a refeição dela, havia levado a própria refeição, um copo com suco que ele mesmo havia feito, uma pequena porção de salada de frutas e uma flor do campo.
W — Marguerite, trouxe sua refeição, posso entrar?
M — Acho que você já entrou, mas é por um bom motivo. Achei que fosse o Malone quem viria agora à noite.
W — E era. Pedi para trocar comigo. Não queria ficar na sala. Porém, se eu estiver incomodando posso apenas deixar a bandeja e me retirar.
Não passou despercebido para Marguerite nem o tom de chateação na voz do homem, nem todo o cuidado com que ele tinha preparado a bandeja.
M — Tudo bem, acho que dessa vez pode ficar. Aconteceu algo, não foi? Lá em cima.
William não esperava que a bela morena fosse perceber sua chateação, nem que ela o aceitaria no quarto. Depois de ver e conhecer um pouco a herdeira, sabia que Marguerite era no mínimo surpreendente e nem sempre suas surpresas eram as melhores.
W — Não é nada demais, estão falando sobre alguns planos para o futuro.
M — E você teme voltar para o seu tempo, queria viver esses planos. Está com receio do seu destino?
W — Eu acho que sabemos qual será meu destino. E nem o ser humano mais sábio da terra aceitaria tão facilmente ir para um lugar, ou tempo como no meu caso, sabendo que estará indo para morrer.
Marguerite respirou fundo, endireitou-se na cama se sentando com as costas na cabeceira e mantendo as pernas esticadas. Ela mesma sabia como era enfrentar o destino, ter receios de muitas vezes ir ao encontro da morte; experimentou a sensação principalmente durante a guerra, nas vezes em que teve que ir para a Alemanha, ela sabia muito bem que estaria indo para encontrar a morte. Estava com pena de William; apesar de tudo que tinha acontecido, ela não queria que ele passasse por isso, porém, sabia muito bem que se não fizesse estaria arriscando toda a ordem do tempo, seriam vidas demais a serem modificadas, até mesmo a sua própria.
M — Sabe, William, pode parecer estranho para você, mas eu tenho uma ideia do que esteja passando. Em algumas experiências minhas tive que enfrentar a morte, sei o quanto é complicado. Acho que consigo entender seu medo. Gostaria de mudar seu destino, William, como muitas vezes mudei o meu. Mas seu eu fizer, bem, acho que você sabe…
W — É, eu sei. Inalterável. Marguerite, o que aconteceria se eu ficasse? Se não voltasse para o meu tempo?
M — William, quando Challenger tirou você do seu tempo, ele quebrou as barreiras do tempo e do espaço, mas não pode permitir que fique, você precisa ser devolvido. Precisamos consertar, senão há grandes possibilidades de nunca ter acontecido a expedição Challenger, de cada um de nós termos seguido caminhos diferentes. Sendo que esses caminhos podem ter custado a vida de alguns de nós.
William não queria isso, não queria que nenhum deles perdesse a vida por ele e, pelo modo como Marguerite abaixou os olhos, ela talvez seria a mais afetada.
W — Então, acho que é necessário e certo que seja feito. Não que seja mais fácil, mas não quero que nenhum de vocês percam suas vidas por mim, não quero que você, Marguerite, perca sua vida por mim.
Marguerite esboça um leve sorriso, sente as bochechas corarem de leve, mas prefere não falar nada sobre isso; prefere desviar o assunto, olhando para a bandeja, trazendo-a para cima da cama, se atentando aos detalhes.
M — Que jantar bem preparado... Não foi o Malone, pelo que conheço. Foi você, William?
O homem loiro abre um sorriso no rosto, ela havia gostado.
W — Na verdade, fui eu quem preparei.
M — Você? Está brincando, como aprendeu a fazer isso?
W — Sabe, quando eu e John éramos crianças, nos aniversários de minha mãe, nós preparavamos uma das refeições para ela, junto com nosso pai. Aliás, nos aniversários e nos dias das mães. Claro que a bandeja ainda tinha mais luxo, meu pai sempre lhe dava algo de valor — e não digo só jóias, mas era algo que ela gostasse. Uma vez, me recordo que eu não deveria ter mais do que 6 anos e John ainda era de colo, meu pai deu um cavalo de presente para minha mãe. Eles gostavam de cavalgar as vezes ao por do sol. Porém, com o passar dos anos, isso foi se perdendo. Acho que na última vez que fizemos isso eu tinha 18 anos e John 12 anos. Logo depois eu fui para a faculdade, isso tudo acabou, as rivalidades entre eu e John só aumentaram. Ele sempre fora o favorito do papai e eu da mamãe. Muitas mudanças ocorreram depois.
M — Você sente falta, pelo visto.
W — As vezes.
M — Olha, sei que é difícil de acreditar, mas John sente muito sua falta.
W — Você tem razão, é difícil de acreditar. Mas não sei se impossível.
M — É bom ouvir isso. Mas agora me diz: como conseguiu essa flor do campo... fazer tudo isso? Quer dizer, é muito só para uma pessoa.
W — Bem, a flor eu roubei de um vaso na sala. Acho que seu amigo, o Malone, havia trazido para Verônica, mas creio que ele não irá se importar porque tinha mais do que uma. O resto eu fiz com as frutas que tinha. Acho que podemos dividir se não aguentar comer tudo.
M — Acho que não fará mal nenhum. Assim também saberei se não está envenenada.
W — Ora, Marguerite, eu não seria capaz de fazer isso. Na verdade, as vezes penso que seria mais fácil você fazer.
M — Talvez há um tempo eu faria, mas hoje não mais. Graças a… bem, deixa pra lá.
W — Graças a John. Ele pelo visto provocou muitas mudanças em você.
M — Esqueça. Agradeço pelo cuidado e preocupação, mas não quero falar sobre tais assuntos.
Os dois trataram de mudar de assunto, ficaram durante um tempo ainda conversando, dividiram a salada de frutas — já que Marguerite não aguentaria comer tudo, conversaram sobre assuntos banais (gostos de livros, lugares por onde já haviam viajado)... Tinham muito em comum, até deram algumas risadas juntos sobre situações do passado nada comprometedoras, apenas banais. Marguerite também lhe adiantou algumas coisas sobre a aldeia Zanga e, quando se deram conta, já estava tarde, passava das 23 horas, e era provável que todos já estivessem dormindo.
W — Acho que é hora de dormir. Nem percebi que era tudo isso.
M — Nem eu. Obrigada pela refeição e pela conversa.
W — Não são necessários seus agradecimentos, Marguerite. Na verdade, eu que agradeço sua companhia, a conversa, me fez pensar melhor sobre o meu destino, sobre o que será feito. Ao menos vou ter conhecido a famosa cantora de Paris, além de ter vivido experiências que nunca vivi antes, graças a todos vocês. Ouzo dizer que renasci aqui neste platô, ou pelo menos estou renascendo, e isso já é o suficiente.
M — É, pode-se dizer que este lugar tem este poder sobre as pessoas.
William retira a bandeja, se aproxima de Marguerite, perto demais, e sem que ela esperasse lhe deposita um beijo no topo da testa, se despedindo e desaparecendo para o andar de baixo.
W — Boa noite, Marguerite.
M — Boa noite, William.
O homem, já no andar de cima, notou o silêncio, as luzes apagadas, era nítido que todos já haviam ido se deitar. Ele apenas depositou a bandeja na pia, para lavar no dia seguinte pela manhã e evitar barulhos; então, rumou para o seu quarto passando próximo a varanda.
John não conseguia dormir, principalmente por ter notado a demora de William no quarto de Marguerite. O que tanto conversavam? Ele não havia gostado nem um pouco e gostou menos ainda quando viu seu irmão com um sorriso no rosto e o horário em que ele foi se deitar. O caçador manteve seu auto controle, sua calma, para não ir tirar satisfação com William ou, pior, com Marguerite. Mas a culpa e o remorso sempre vinham cobrando seu preço. O ciúme também não lhe dava tréguas, estava se corroendo por dentro; por Deus, como isso o incomodava, como isso era diferente de tudo o que já havia passado. Se antes uma mulher nunca fora capaz de lhe partir o coração, Marguerite certamente o tinha feito. E não só partido seu coração, mas lhe tirado a paz, a calma, o controle, o equilíbrio e o bom senso