Choque de Tempo

18 Capítulo 18 - Um dia eu partirei.


Alguns dias depois, todos pareciam ter se acertado de certa forma, pelo menos nestes dias que se passaram o convívio entre os moradores estava normal, sem brigas ou intrigas.
John já havia se recuperado totalmente de seus ferimentos, já havia voltado ààs caçadas costumeiras. Sua relação com Marguerite estava indo de vento em popa e a divisão do mesmo quarto estava lhes fazendo muito bem — ainda que de vez em quando, durante o dia, ela podia observar os olhares do caçador sobre William, principalmente quando este estava muito perto dela, mas nada que ele até então não soubesse controlar e nada que a incomodasse.
Naquele dia, por conta das chuvas fortes que haviam caído mais cedo, os moradores optaram por não sair da casa da árvore.
Passava um pouco do horário do almoço e cada morador cumpria com sua tarefa. Challenger estava em seu laboratório, ainda empenhado em descobrir como mandar William de volta para o passado, pois agora já completava uma semana desde a chegada do homem e não tinha nenhuma solução ainda. John cuidava de suas preciosas armas, lubrificando-as, cuidando de novas balas. Ned e Verônica estavam no andar de baixo, no quarto da garota da selva, conversando sobre o Tryon, sobre a localidade onde sua mãe possivelmente estaria e sobre as viagens de Malone, desde seu retorno esse era o primeiro dia que tiveram tempo juntos para conversar.
William estava catalogando por ordem alfabética os livros de uma das prateleiras próximas da sala, que também não era tão longe do banheiro, permitindo que ele ouvisse uma melodia que vinha exatamente daquela direção — era Marguerite e seu hábito de cantar durante os seus banhos. Ele pouco compreendia o que ela cantava por conta do barulho do mecanismo do chuveiro, mas conseguia entender o ritmo suave e até um pouco triste da música. Logo o jovem de cabelos claro foi até a sala, cantando algo mais pra si propriamente do que para os outros. Ele conhecia aquela música e o ritmo que a herdeira cantava também, mas de onde? Era o que ele se perguntava. Tinha que ouvir Marguerite cantando ou não ficaria em paz, era como se fosse uma lembrança da qual ele havia se esquecido.
J — William, o que está cantarolando?
W — Ah… nada. Uma música que Marguerite estava cantando no chuveiro.
J — Eu não acredito! Você estava espionando Marguerite tomando banho?
W — NÃO!!! Você não perde o costume, bater para depois perguntar. Eu estava na sala e ouvi o ritmo da música, não a música em si. E a voz dela, pelo mínimo que ouvi, parece ser daquelas que você escuta e nunca mais esquece.
John olhou para o irmão, ele deveria estar ficando louco... Marguerite ter uma voz que quem escuta nunca esquece?! Impossível. Todas as vezes que ouviu-a cantando parecia mais um gato miando desafinado.
J — William, Marguerite não sabe cantar. Dança extraordinariamente bem, mas cantar não, pelo que sei.
William sabia que conhecia a voz dela, tinha certeza que já tinha ouvido-a cantar antes, ele estava certo, só precisava saber qual era a música e de onde tinha ouvido aquela voz.
W — Então, John, sugiro que conheça sua esposa porque é a voz de Marguerite que já ouvi, tenho certeza. Assim que ela colocar os pés nessa sala vou tratar de lhe mostrar que está errado.
J — É mesmo? E você a conhece? O que lhe faz pensar que já a ouviu cantar antes ou que a voz dela lhe é conhecida?
Os dois estavam prestes a iniciar uma briga. John ainda próximo a mesa que estava o armamento, apoiando as mãos e encarando o irmão, ou melhor, fuzilando-o com os olhos, William estava próximo a varanda, encostado em uma das colunas da casa, querendo voar no pescoço do irmão de tamanho ódio, odiava quando duvidavam de sua palavra.

Ambos estavam tão preocupados em fuzilar um ao outro com os olhos, que não perceberam a chegada da herdeira. Marguerite estava com os longos cabelos cacheados ainda molhados, cascateando pelas costas, usava sua camisa lilás, aberta alguns botões acabando por deixar parte do busto a mostra, a saia cáqui, que em seu corpo esguio lhe caía como uma luva e era o mais próximo que podia conseguir dos belos vestidos de luxo que havia deixado em Londres, suas botas de montaria, o que, infelizmente, a lembrava de não estar mais na sociedade, pois se estivesse claro que seriam saltos que ela usaria.
M — O que estão conversando? Por favor, me digam que não estão brigando ou se provocando novamente?
Os irmãos a olharam com tamanho espanto, não haviam visto quando ela chegou.
J — William estava falando que você tem uma voz que quando se ouve uma vez não se esquece, uma voz de anjo.
Não passou despercebido por Marguerite o tom que John havia usado, era como se zombasse do que o irmão tinha falado. E se William tinha falado era porque ouviu ela cantar ou mesmo apenas algum ritmo baixo.
Nem John e nem os outros moradores nunca acreditaram que a herdeira sabia cantar, por conta de ser desafinada, por sua voz ser aguda demais, sempre estava todos zombando com ela sobre esse assunto. Mas William não; e porque será? Ele acreditava que ela sabia mesmo cantar.
M — Ora, e quem lhe disse que não tenho? Tem muitas coisas sobre mim, Lord Roxton, que ainda não sabe.
O caçador não esperava uma resposta atravessada de Marguerite assim, ela parecia até zangada com o que ele havia dito.
William apenas observou a conversa e farpas entre o casal, na verdade, estava mesmo olhando para Marguerite como se pudesse resgatá-la, ou a voz dela, ou a música… Espera, a música. Claro! Ele se lembrava da música! Quase que como um estalo William se recordou dda música, o ritmo que Marguerite cantava. Saiu desafinado para ele, que não estava acostumado a cantar, mas ao mesmo tempo suave, fazendo com que o casal parasse a briga e prestasse atenção nele.

W — “Um dia eu partirei
Deixarei isso tudo para trás
O que mais
O seu amor pode fazer por mim?”
Marguerite, era essa a música que estava cantando, não era? Por favor, me diz que era.
Marguerite estava branca como um fantasma. William havia reconhecido a música, será que havia se lembrado dela também? Não, não era possível. Fazia anos quando ela cantou essa música, deveria ter aproximadamente seus 20 anos de idade, era muito jovem ainda.
E John? Ele encarava Marguerite, com os olhos estreitos esperando uma resposta. Na verdade, ela quase podia ouvi-lo dizer, pressionando que queria saber o que estava acontecendo ali.
Marguerite estava cansada de guardar alguns segredos e esse era um deles. Como sua amiga Adrienne sempre falou, sua voz era a igual a de um anjo. Ela decidiu soltá-la, se lembrando de cada detalhe das noites em que cantava no clube em Paris, da própria amiga, dos deslumbrantes vestidos da mais alta costura francesa. Um vermelho um pouco abusado para a época era o seu favorito: justo na cintura e no busto, abria um pouco mais embaixo e tinha até um pouco de calda, com um decote em cima, de alça e, além da alça, havia uma segunda que ficava caída; as luvas pretas iam até acima do cotovelo; o cabelo preso, posto de lado; as joias — ouro e rubi, uma de suas combinações favoritas.
Era como se esquecesse de onde estava, do platô, da casa da árvore, até mesmo dos dois homens que a fitavam aguardando uma resposta..
Ela ainda se lembrava de tudo. O salão não era tão grande, apenas nobres frequentavam o lugar; as mesas, os móveis, todos antiguidades, de séculos atrás e muito bem conservados; o lustre era lindo, feito artesanalmente apenas para o clube; e o palco brilhava; se lembrou de como amenizavam a luz deixando o foco somente para ela, do microfone no canto esquerdo e o círculo que o iluminava a esperando para cantar; e do silêncio que os espectadores faziam, todos paravam para ouvi-la, até mesmo no parte bar, clientes e funcionários ficavam parecendo estátuas de pedra. E como ela gostava de fazer aquilo, como se sentia bem e feliz ao cantar. Era como se a sensação voltasse a brotar dentro de si.
John e William a chamaram, mas ela continuava parada, nem sequer os ouvia. Quando, para surpresa deles, ela começou a cantar; não era nem um pouco desafinada, muito pelo contrário, era uma voz que começava baixo e ia evoluindo com a música. Não havia instrumento algum, nem segunda voz, mas também não era preciso, pois a voz dela era calma e poderosa, que podia ser ouvida por toda a casa. Não estava alta, era apenas a voz de um anjo, era como se o platô tivesse ficado quieto para ouvi-la cantar, e como cantava. Os dois homens mesmo não conseguiam expressar uma palavra, na verdade ambos queriam ouvi-la.
M — “Eu sigo a noite
Não consigo suportar a luz
Quando eu começarei
A viver outra vez?
Um dia eu partirei
Deixarei isso tudo para trás
O que mais
O seu amor pode fazer por mim?
Quando o amor terminará para mim?
Por que viver a vida
De sonho a sonho?
E temer o dia
Que o sonho acabará?

Um dia eu partirei
Deixarei isso tudo para trás
Por que viver a vida
De sonho a sonho?
E temer o dia
Que o sonho acabará?

Um dia eu partirei
Partirei, Partirei…”
Os outros, Challenger, Verônica e Malone, de seus quartos e laboratório não puderam deixar de ouvir, porém não se lembravam, nem imaginavam, de quem era aquela voz. Na verdade, estavam achando tudo muito estranho. Logo os três estavam na sala, boquiabertos com o que viam, e se não tivessem visto com os próprios olhos, certamente não acreditariam que Marguerite era quem cantava e, o que era pior, parecia que no fim da música lágrimas começavam a escorrer pelo seu rosto e o tom estava começando a baixar, assim como no começo.
Marguerite encerrou, fechando os olhos e se lembrando da última noite cantando no clube; era a exatamente a mesma música, a mesma tristeza que sentia agora.
Adrienne estava desaparecida e ela não podia esperar mais, ela realmente havia partido na manhã seguinte para nunca mais cantar, porque si se atravesse faze-lo novamente, com o sucesso que fazia em Paris, logo os homens que procuravam Adrienne a encontrariam. Este era o motivo de nunca ter soltado a voz até esse exato momento; sem falar que se lembrou de William também, ela o admirou tanto aquela noite, era um rapaz muito bem vestido: um terno de primeira linha e gravata. Os olhos azuis a fitavam e a olhavam como nenhum homem olhou antes, ela procurou naquela noite guardar a lembrança dele, dos olhos dele, e todas mais que havia vivido naquele lugar; havia guardado bem afastado de seus pensamentos, apenas em seus diários, não se permitia nem lembrar dessas noites felizes que havia passado.
Agora, Marguerite, como que em choque, olhou a sua volta e viu cinco rostos a encarando, na verdade, ainda estavam tentando entender o que foi aquilo.
Nenhum deles sabia explicar, a não ser William; ele havia ido anos atrás em uma viagem para Paris a negócios e, procurando distrações para a noite, resolveu ir em um clube que alguns amigos haviam lhe recomendado dizendo que lá havia uma cantora que era a perfeição em pessoa, além da voz, era bela demais. E o clube era de tal nobreza e luxúria que encantariam os olhos de qualquer um.
Seguindo o conselho, ele foi. Quando o responsável por apresentar as atrações da noite do clube anunciou a cantora que faria o último show, todos os burbúrios e conversas pararam e as pessoas iam para o mais próximo do palco que conseguiam para vê-la e ouvi-la. E quando ela cantou que o jovem pôde ver a sua beleza do palco; ele se sentia como se estivesse anestesiado, dopado. Então ela soltou a voz, variando dos tons baixos aos altos da música; era como se cantasse para ele. William se viu apaixonado pela primeira vez em toda sua vida.
Na manhã seguinte, ele retornou ao clube na esperança de encontrá-la, queria muito poder vê-la mais uma vez antes que voltasse para Inglaterra na próxima noite e, por motivos jurídicos da empresa da família, sua próxima viagem seria só daqui a meses, prendendo-o em Londres. Porém, ele não a encontrou; a bela cantora, de acordo com um dos funcionários, havia indo embora, desaparecido sem deixar rastros.
Ao retornar para casa, William passou meses desolado e só foi esquecê-la, ou amenizar sua falta, depois de começar a se dedicar a novos estudos, e de voltar a viajar à negócios, assim, ocupando sua cabeça com outras coisas.
E agora, por uma peça do destino, ela estava ali, estava ainda mais bela do que era quando jovem e sua voz continuava a fazer com que todos os que lhe rodeassem se calassem apenas paras ouvi-la. Ele não podia acreditar.
W — Marguerite, era você? Há anos eu fui em um clube em Paris e havia uma cantora de quem costumavam dizer que era a perfeição em pessoa, era como se um anjo cantasse.
Marguerite balança a cabeça em sinal positivo. Ainda haviam resíduos de lágrimas em seu rosto, por isso decidiu mantê-los olhando para o chão, e com a voz baixa respondeu:
M — Era eu, William.
Agora a verdade caía por terra para John. Marguerite era a cantora por quem o irmão havia se apaixonado, na verdade, a primeira paixão do irmão. John era mais novo e William o mais velho, ambos os opostos: enquanto John já havia se apaixonado por várias garotas, o irmão estava mais preocupado em cuidar dos negócios da família. E quando esse voltou de Paris, estava de quatro pela cantora, queria procurá-la, voltar para aquela cidade.
Uma vez que William não poderia ir, ele pediu a John para ir no seu lugar, para que a encontrasse. E ele foi. Durante dois meses caçou a cantora por quase toda a França e não havia nem sequer rastros dela, não havia pista alguma, nada. Até que, na sua viagem de volta para a Inglaterra, fez amizade com um homem chamado Henry, um nobre inglês que viajava muito, dono do próprio negócio (uma fábrica de tecidos), que por coincidência sempre freqüentava o clube e conhecia as duas cantoras que se apresentavam, além de ter tido ambas como clientes.
H — Diga ao seu irmão que desista dessa cantora. É realmente uma jovem de grande beleza e possui uma voz que encanta quem ouve, mas não vale a pena correr o risco. Não conheço nenhuma das duas pelo nome. Nunca falaram, embora sempre foram ótimas clientes. Uma gostava muito de azul marinho e a outra de vermelho, sempre compravam meus tecidos mais caros. Duvido que fosse com dinheiro limpo, o que ganhavam cantando, seria impossível. Essas duas são ladras de jóias, golpistas. O que têm em beleza, não têm em caráter. Ele deve esquecê-la e você fez muito bem em parar de procurá-la ou logo quem estará em maus lençóis será você.
Agora tudo fazia sentido na cabeça do caçador. Marguerite era a cantora e ladra de joias, esse último ele já sabia, mas não podia acreditar no que lhe atingia a mente; além de ela ter sido a primeira paixão de William, era também a mulher que havia feito ele perder dois meses na França. E o pior: Marguerite deve ter se lembrado de William e provavelmente no diário que ela estava lendo há alguns dias deveria constar algo que ela queria esconder – talvez por vergonha, ele não sabia ao certo, mas iria descobrir. O caçador, a passos largos e sem nem ao menos dar ouvido aos chamados dos demais, some escadaria abaixo indo direto para o quarto de Marguerite. Ele sabia, lá no fundo, que não tinha esse direito, mas ele tinha que saber.
Tinha visto o lugar onde a herdeira havia guardado o diário e, por sorte, ela não trocou de lugar, nem mesmo reparou que ele sabia onde estava.
J – Achei. Bem, vamos lá. Vamos ver o que mais Marguerite esconde de mim. Aqui está. “Paris: o dia em que parti, a perda de Adrienne e suas consequências”.
Marguerite dividia seus diários por datas, mas também por uma frase que iria lhe recordar o que havia acontecido naquele dia. John começa a ler:
“Então, hoje foi meu último show; a partir de amanhã estarei indo para a América. Lá não é nada comparado com a Europa, mas é um dos poucos lugares onde não me conhecem, me servirá de refúgio por alguns poucos meses.
Preciso sair daqui antes que façam o que fizeram com Adrienne. Já faz meses que ela está desaparecida, meus recursos já estão acabando e, infelizmente, terei que usar as jóias que roubamos do velho rolha de poço. Quem diria que aquele homem imundo e velho, dono de um simples bar de quinta categoria, tinha tantas joias; e ainda que fazia parte de uma máfia. A Adrienne acho que nunca mais verei, não deveria ter se envolvido nisso. Mas agora é tarde para chorar, tenho que sair daqui o mais rápido possível.
Como parte o coração deixar tudo isso, não poder nunca mais cantar, nunca mais subir em um palco com a cara limpa novamente. Ainda era um dos poucos lugares onde me sentia feliz, bem e amada por aqueles que me assistiam. Daqui em diante isso tudo estará perdido para sempre, não passará de lembranças das quais prefiro nunca mais me recordar.
E aquele rapaz que me olhava essa noite... Nunca o vi por aqui. Na verdade, nunca prestei atenção nos rostos dos espectadores. Adrienne falava para eu não olhar porque podia me apaixonar por um deles. “Sempre foque na música, esqueça tudo que lhe rodeia”, era o que ela dizia. Se estivesse aqui isso não teria acontecido, não o teria visto.
Tão bem arrumado, os olhos mais azuis que já vi, era como se estivesse olhando para o próprio céu... a pele branca, cabelos loiros, certamente uns 5 anos mais velho. Não parecia francês. Ao contrário, lembrava até um Lord inglês de tamanha beleza e postura. Pena que nunca irei poder descobrir isso, nunca irei saber quem ele é; mas se um dia tivesse uma segunda oportunidade, teria coragem de cantar só para ele…”
–---------------------------------------------------
Ainda no andar de cima, todos estavam olhando para a herdeira esperando uma explicação, mas nenhum deles conseguia dizer uma palavra.
William e Marguerite se encaravam até perto demais, como se estivessem se lembrando das mesmas coisas, como se soubessem o que um ou outro estava pensando.
Malone, como sempre o jornalista, acabou se encorajando e perguntando:
N — Você sabia cantar o tempo todo e não nos falou nada? Porque, Marguerite? Acho que John deveria saber disso. Quer dizer, agora ele soube, não é? Todos nós, aliás.
Marguerite, então, se lembrou. John. O que ele estaria pensando sobre ela? E, aliás, o que ele foi fazer em seu quarto com tanta urgência? A menos que... Não, ele não seria capaz. A herdeira não falou uma palavra; apenas saiu correndo para o seu quarto.
Marguerite parou em frente a porta de seu quarto, ou melhor, quarto que agora dividia com o caçador. Ela teve que apoiar-se na parede, pois não acreditava no que via: John estava com pelo menos três de seus diários abertos na cama e lendo um outro. Era o seu último diário escrito, do último ano e, claro, das últimas semanas. Ela ainda estava escrevendo nele.
M — O que pensa que está...
John ergueu os olhos; ela não se lembrava de tê-los visto com tamanha raiva, pareciam até mais escuros, tomados por tudo o que havia lido e parecia estar possuído de ciúme e de rancor.
J — O que penso que estou fazendo não, o que estou fazendo. Não é óbvio? Mas, espere, minha doce Marguerite, cheguei na parte principal agora:
“William Roxton. Eu não acredito, ele está aqui trazido direto do passado para o nosso presente. Por Deus, ele foi o homem por quem me apaixonei em Paris, quando ainda cantava naquele maldito clube! Ele não mudou nada, um perfeito nobre e cavalheiro. Eu demorei meses para tirar esse homem da cabeça, sonhei com ele muitas noites e agora ele está aqui; e, pior, estou comprometida com John. Sinto como se estivesse dividida, nunca nenhum homem havia despertado tais sentimentos em mim, a não ser John. Agora me vejo diante do primeiro homem por quem me apaixonei”.
Os dois se olhavam. John não acreditava que aquilo estava acontecendo... a mulher que ele amava, que lhe jurou amor há alguns dias, agora estava incerta sobre tal sentimento e ainda se dividia entre seu irmão e ele. Não poderia ser outro alguém? Tinha que ser William? Foi ele quem lutou quase quatro anos para conseguir conquistar um lugar no coração da bela morena, ele quem acatou seus malditos segredos, a seguiu como um cachorro fiel, amparou suas dores, lágrimas e sem falar nas vezes em que ela havia sido áspera, seu mau humor matinal... E tudo isso para que? Agora William apareceu e em menos de duas semanas ela estava como uma adolescente boba apaixonada pelo irmão. Era demais para ele.
M – John, eu… Escute, não é o que está pensando, precisa me ouvir.
J – NÃO! EU NÃO QUERO OUVIR NADA DE VOCÊ. CHEGA, MARGUERITE, CHEGA COM TUDO ISSO! MÁSCARAS, SEGREDOS, NÃO AGUENTO MAIS. DAQUI EM DIANTE ESTÁ LIVRE. ESTÁ SOZINHA, DA MANEIRA COMO SEMPRE QUIS ESTAR. ESTÁ ACABADO. ACABADO, ME OUVIU?
O caçador havia perdido a cabeça, mas também não estava disposto a voltar atrás, não queria nem sequer olhar para Marguerite. Disse as palavras aos berros, mesmo estando em pé agora e com a morena a sua frente, que, por sinal, não conseguia achar palavras, não conseguia nem sequer pensar direito. Como poucas vezes fizera, ela concordou com o caçador: ela estava mesmo dividida e não podia negar aquilo. Queria responder algo, sempre respondia, mas desta vez não conseguiu nada. Apenas abaixou a cabeça e logo estava aos prantos, tirando o anel e colocando-o nas mãos de John. Além disso, estava decepcionada; ela não acreditava no que John tinha feito, ele tinha lido seus diários, tinha tirado conclusões precipitadas.
M — Não vou negar ter, sim, ficado dividida quando o vi novamente, mas creio que você não se preocupou em ler as próximas páginas. Na verdade, achei que poderia confiar em você, mas agora vejo que você é como qualquer outro homem que já esteve na minha vida: rude, ciumento, cheio de si, invadiu minha privacidade, leu meus diários, desconfiou de mim, acha que o seu ciúme é mais certo que meu sentimento, tirou conclusões precipitadas. E a primeira coisa que vez foi me julgar e me condenar como tantos fizeram; como pôde? Eu confiava em você, mas visto que se perdeu tudo isso é melhor que acabe aqui mesmo. Saia, por favor, e saia agora, não quero vê-lo tão cedo.
John fechou a mão que segurava o anel, ele nem sequer olhou para a morena, e saiu do quarto, batendo os pés, indo em direção a sala. Agora era a vez de William. John, como poucas vezes, estava agindo por impulso, raiva, tristeza, ódio, ciúme, tudo estava girando na sua cabeça e o deixando cego.
William estava em pé, ainda na sala; os outros ouviam a explicação dele, sobre Marguerite, sobre tê-la visto em Paris há muito tempo. John parou atrás do irmão, virando-o para encará-lo; os dois se olhavam frente a frente. William não imaginava o porque da fúria do irmão, mas não se sentia culpado, dessa vez ele não tinha culpa de nada, não tinha causado nada.
Quando, sem saber exatamente como aconteceu, John fechou a mão direita e acertou William em cheio no rosto. O irmão até cambaleou para trás quase indo ao chão.
J — Canalha, cafajeste. Feliz agora? Sua culpa.
John jogou a aliança no peito de William, culpando-o por tudo, responsabilizando-o por sua separação com Marguerite.
William estava com o nariz sangrando, não se lembrava de ter levado um murro tão forte de John, mas também não se sentia responsável pela separação, ele achava que John estava agindo como um animal selvagem.
W — Está louco? Seu idiota. Eu não fiz nada.
J — Imagina se tivesse feito.
Logo John estava partindo para cima de William, ambos se esmurravam. Se chutavam, batiam, xingavam, rolavam no chão. Marguerite havia ouvido os barulhos, pareciam até trovões.
Os outros estavam horrorizados, não sabiam bem o que fazer.
M — Vocês vão ficar aí parados olhando? Será que tudo aqui precisa que eu resolva?! Dá para me ajudarem a separá-los?
C — Tem certeza, minha cara?
M — Pelo amor, Challenger, que pergunta. Vão acabar se matando se continuarem.
Ned e Challenger, por serem homens e John ser o mais forte, conseguiram com muito esforço tirar o caçador de cima de William, que estava sendo esmurrando freneticamente. Havia sangue no chão e pelo rosto dos dois homens também, ainda bem que não estavam armados no momento, senão tinha acontecido uma tragédia maior.
Verônica e Marguerite ajudaram William a se levantar e o sentaram na cadeira. O homem estava acabado, seu rosto parecia até estar deformado; boca e nariz sangrando, arranhões, provavelmente por ter rolado no chão, o olho esquerdo nem sequer abria. Com certeza, John descontou toda sua ira no irmão. Eles nunca tinham visto isso vindo do caçador, estavam até espantados.
John estava do outro lado da sala. Challenger e Malone o seguravam, embora não estivessem tendo muito sucesso. Ele pouco estava machucado, estava xingando, agressivo, os moradores desconheciam o amigo. O caçador consegue se livrar do jornalista e do cientista e sai correndo em direção a William novamente. Marguerite age por impulso, protegendo William, ficando entre os dois irmãos.
J — Saia da frente, Marguerite, eu tenho que…
M – Chega. Você não tem que fazer nada. Já não foi o suficiente por hoje?
J — Está defendendo-o? Hahaha! Você o merece mesmo. Um canalha medroso com uma…
M — Uma o quê, John? Vamos, fale.
J — Uma ladra, caçadora de dotes, golpista.
Um estalo foi tudo o que ouviram. Marguerite não aguentou ouvir aquilo e estalou um tapa com a mão aberta no rosto de John, fazendo ficar até a marca dos dedos.
Os outros, que assistiam tudo, abaixaram a cabeça, não esperavam aquilo, ninguém esperava. Verônica estava quase chorando com a cena. O casal, Marguerite e John, apenas se olhava com remorso, com lágrimas nos olhos dos dois. Era triste demais, devastador para todos ver aquilo.
J – Ótimo, você fez sua escolha. Estou indo refrescar a cabeça.
O caçador pegou o chapéu, as armas e sumiu adentrando no elevador. Nem Marguerite e nem John viraram para se olhar.

Notas finais
A música utilizada "Um dia eu partirei" tem origem o filme Moullin Rouge - One day I'll fly away, que serviu de inspiração para tal cena.