Choque Temporal

2 Santuário de Lama e Tradição


O cheiro de sangue fresco misturado à terra batida era um forte choque de realidade, mas para Melissa, aquilo não passava de mais uma terça-feira caótica — exceto pelo fato de que o cenário parecia saído de um estúdio de gravação histórico e o rapaz de 1,85 m à sua frente a olhava como se ela fosse uma divindade caída do céu.

Os dois guardas imperiais ainda gemiam no chão. O que teve os tendões do pulso cortados pela Karambit tentava estancar o sangramento com a mão trêmula, enquanto o outro segurava a clavícula estraçalhada, tossindo sangue. A tensão desse choque de mundos fica clara: de um lado, a imponência milenar da Dinastia Ming; do outro, uma sobrevivente letal do século 21.

"Nós precisamos ir. Agora," disse Jin Woo, a voz alternando entre o desespero e o transe. Ele olhou para os lados, checando as trilhas de terra que levavam ao centro do vilarejo. "Se mais patrulheiros aparecerem e virem o que você fez com soldados do Imperador Tianshun, não haverá julgamento. É execução sumária. Para você... e para quem estiver por perto."

Melissa limpou a lâmina curva na calça de moletom cinza com um movimento rápido e preciso, guardando-a na bota tática. Ela olhou para Jin Woo, semicerrando os olhos castanhos e frios.

"Execução? Ótimo. Mais bucha de canhão," ela murmurou em inglês, a voz carregada com aquele sotaque brasileiro que fazia os pelos dos braços de Jin Woo se arrepiarem. "Mas você tem razão em uma coisa: ficar em campo aberto com dois presuntos sangrando é pedir para levar fumo. Para onde?"

"Minha fazenda. Fica no limite leste, isolada pelo arrozal. Anda, me segue!"

A Fuga pelos Arrozais

Jin Woo começou a correr, mas parou abruptamente ao perceber que Melissa não o seguia pelo caminho convencional. Em vez de correr pela lama das plantações, a garota de 1,55 m pegou impulso em uma cerca de bambu rústica, saltou sobre um carrinho de feno e começou a se mover pelo topo dos muros de pedra baixa que dividiam as propriedades. Ela se movia com a agilidade assustadora de um felino, o rabo de cavalo baixo balançando ritmadamente contra a jaqueta de couro preta.

"Ela se move como os mestres dos pergaminhos antigos...", pensou Jin Woo, fascinado, enquanto corria logo abaixo dela, tentando empurrar suas vacas de volta para o cercado no meio do caminho para não levantar suspeitas.

Quando finalmente avistaram a estrutura de madeira escura e teto de palha da fazenda da família de Jin Woo, o rapaz gesticulou para os fundos, onde ficava o celeiro e os estábulos dos cavalos e porcos. Melissa saltou do topo de uma árvore diretamente para o solo macio, sem emitir um único ruído, amortecendo a queda com os joelhos dobrados.

"Fique aqui dentro," Jin Woo pediu, abrindo a porta pesada de madeira do celeiro. "Eu vou limpar os rastros lá fora e ver se meu pai já voltou do campo. Não saia por nada."

Melissa apenas assentiu, cruzando os braços sobre a regata preta justa. Seus olhos frios escanearam o ambiente rústico: ferramentas de ferro rudimentares, cheiro forte de esterco e feno, e nenhum fio elétrico à vista. Ela sentou-se em um caixote de madeira, puxando os joelhos contra o peito. A ficha estava começando a cair, e a ironia ácida era sua única defesa contra o surto psicótico iminente.

"Beleza, Melissa. Você caiu em um lago em Boston e foi parar na versão hardcore de Mulan. Sem celular, sem internet, sem café de verdade. Só um chinês gigante que fala inglês fluente e tem cara de modelo. Que maravilha de linha temporal."

O Confronto com o Patriarca

Cerca de vinte minutos se passaram até que a porta do celeiro se abrisse novamente. Melissa se colocou de pé instantaneamente, a mão descendo discretamente em direção à bota onde a Karambit estava escondida.

Entretanto, quem passou pela porta não foi Jin Woo, mas um homem mais velho, de cabelos grisalhos presos firmemente, pele profundamente castigada pelo sol e mãos que pareciam cascas de árvore. Era o pai de Jin Woo. Ele segurava uma foice de colheita e parou no lugar ao dar de cara com aquela figura bizarra.

O velho chinês semicerrou os olhos, absorvendo as roupas coladas, a jaqueta de couro preta e as mechas loiras no cabelo repicado de Melissa. Para um homem tradicional do século 15, aquela criatura era a definição visual de uma heresia viva ou de um demônio da floresta.

"Que tipo de aberração sem pudor é você?", o pai de Jin Woo esbravejou em mandarim, a voz ríspida, erguendo a foice em uma postura defensiva. "O que faz nas minhas terras vestida como uma meretriz de estradas?!"

Melissa não entendeu uma única palavra, mas o tom agressivo e a arma apontada para ela eram universais. Qualquer um que conhecesse o temperamento frio e destrutivo de Melissa esperaria que ela avançasse, desarmasse o velho e o jogasse contra a parede de feno em três segundos.

Mas Melissa tinha uma regra inabalável, moldada pela criação rígida que recebera no Brasil antes de ir para os Estados Unidos: ela nunca, sob circunstância alguma, desrespeitava os mais velhos. Era uma linha ética que seu passado conturbado não havia conseguido apagar.

Em vez de atacar ou responder com deboche, Melissa relaxou a postura de combate. Ela abaixou a cabeça levemente, colocou as mãos atrás das costas e deu um passo para trás, demonstrando submissão territorial ao dono da casa.

"Eu não sei o que o senhor está dizendo," ela disse em um tom de voz baixo, firme, porém visivelmente respeitoso, usando o inglês. "Mas não quero confusão na sua casa. Sou apenas uma viajante."

O velho piscou, confuso com a óbvia mudança de energia da garota. Ela parecia uma ameaça armada, mas a postura dela exalava o respeito que os jovens da Dinastia Ming estavam começando a perder.

Nesse momento, Jin Woo entrou correndo no celeiro, ofegante, jogando-se entre os dois.

"Pai! Abaixe isso, por favor!", implorou Jin Woo em mandarim. "Ela salvou a minha vida... bem, na verdade ela quase matou dois guardas imperiais que iam me atacar, mas o ponto é que ela não é um demônio!"

O pai de Jin Woo abaixou a foice lentamente, olhando de Jin Woo para Melissa.

"Ela atacou os soldados do magistrado?", perguntou o velho, com a voz subitamente mais baixa. "Com esse tamanho de uma criança de doze invernos?"

"Ela é... diferente, pai. Ela vem de muito longe. De um lugar que não existe nos mapas da Rota da Seda," Jin Woo explicou, olhando para Melissa com um brilho de admiração que não conseguiu esconder. Ele então se virou para ela e falou em inglês: "Melissa, este é meu pai. Peço desculpas pela recepção. As coisas aqui são... complicadas."

Melissa olhou para o velho, mantendo a distância respeitosa.

"Tudo bem, grandão. Ele está defendendo a propriedade dele. Eu faria o mesmo," Melissa respondeu, soltando um suspiro pesado, seu humor ácido retornando. "Mas avisa para o seu velho que se ele continuar apontando essa foice para mim, eu vou ser obrigada a mostrar para ele como nós colhemos cana-de-açúcar no Brasil. E não vai ser bonito."

Jin Woo soltou uma risada nervosa, achando aquela mistura de respeito implacável e ameaça sarcástica a coisa mais fascinante que já tinha visto na vida. O choque temporal estava apenas começando, e a fazenda de Shanxi nunca mais seria a mesma.