Choque Temporal
16 O Vórtice das Eras e a Escolha Suprema
A fúria de Jin Woo havia transformado o pátio da fazenda em um verdadeiro inferno de lâminas, mas Khun, mesmo encurralado e com a armadura de ferro despedaçada, lutava com o instinto de um lobo velho das estepes. O líder nômade desferiu um golpe de revés com o pomo da espada pesada, atingindo o maxilar de Jin Woo. O jovem coreano cambaleou para trás, cuspindo sangue, a visão turva pelo cansaço e pela dor da perda do pai. Khun ergueu a lâmina de duas mãos para o golpe final, rugindo em triunfo.
Ele só não contava com o fantasma do futuro.
Melissa surgiu como um raio cinza por trás das estruturas de bambu. Ignorando a dor lancinante de sua costela trincada, ela executou um salto de parkour, usando as costas de um cavalo morto como plataforma de impulso. No ar, sob a luz azul-neon que emanava do lago, suas mechas loiras repicadas pareciam flutuar.
"Abaixa, modelo!", ela gritou em inglês.
Jin Woo, movido pelo puro reflexo de semanas de treino, jogou o corpo no chão. Melissa caiu exatamente nos ombros de Khun, travando suas pernas ao redor do pescoço do gigante em uma chave de braço voadora adaptada. Com a mão direita, ela cravou a Karambit curva na clavícula exposta do líder, rasgando o couro da armadura.
Khun urrou, tentando arremessá-la contra o chão, mas a distração foi o milissegundo que Jin Woo precisava. O Dragão de Shanxi se recompôs, apoiou a espada Jian com as duas mãos e, num impulso movido por puro ódio e lealdade, desferiu uma estocada linear perfeita para a frente.
A lâmina fina atravessou o estômago de Khun, saindo pelas costas. Melissa soltou o pescoço do líder no mesmo instante, rolando na lama enquanto o corpo massivo do chefe da Orda de Khun desabava para a frente, estatelando-se sem vida na terra ensanguentada da fazenda.
O Ultimato do Tempo
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo rugido ensurdecedor do lago. A coluna de luz azul-neon começou a piscar de forma caótica, contraindo-se e expandindo-se como um coração artificial prestes a explodir. Partículas de poeira, folhas de pereira e gotas de sangue flutuavam no ar, sendo sugadas em direção ao centro do vórtice. O relógio digital no pulso de Melissa apitou três vezes em um tom agudo — o sinal definitivo de que o portal fecharia em menos de dois minutos.
Melissa olhou para as próprias mãos; as pontas de seus dedos estavam começando a ficar translúcidas, piscando em uma estática cinzenta.
Jin Woo caminhou até ela, o peito largo subindo e descendo com violência, os olhos castanhos amendoados cheios de uma tristeza avassaladora. Ele olhou para o corpo do pai, depois para o lago, e finalmente para ela.
"Você tem que ir, Melissa", ele disse em inglês, a voz falhando, as lágrimas finalmente vencendo a poeira em seu rosto esculpido. "O portal... ele vai se fechar. Se você ficar vai morrer em uma época que não é sua."
Melissa deu um passo à frente, agarrando os ombros da túnica dele com as mãos trêmulas. O pragmatismo de sua mente latina havia sumido por completo. O gelo havia derretido no sangue daquela manhã.
"Eu não vou te deixar sozinho, Jin Woo!", ela gritou contra o barulho do vento místico, o sotaque brasileiro carregado de uma emoção crua. "Seu pai acabou de morrer nos meus braços! Aquelas mulheres vão voltar, a patrulha imperial vai vir atrás de você por causa desses corpos! Você não tem mais ninguém aqui. Eu fico. Que se dane o século vinte e um!"
"Não!", Jin Woo rebateu com uma firmeza feroz, segurando o rosto dela com as mãos calejadas, repetindo o gesto do beijo daquela noite. "Eu sou um camponês da Dinastia Ming, Melissa. Eu sei sobreviver na lama. Mas você... você pertence ao futuro. Você tem uma vida lá. Eu não vou deixar você ficar presa em um mundo de choupanas de barro e casamentos arranjados por minha causa. Mesmo que... mesmo que eu nunca mais veja o seu rosto."
A Proposta Anacrônica
Melissa olhou para as faíscas azuis que já tocavam suas botas táticas. O tempo estava esticando a corda ao limite. Ela sentiu o puxão gravitacional do portal em suas costas. Em um estalo de pura audácia e desespero, ela fixou seus olhos castanhos nos dele.
"Então vem comigo."
Jin Woo piscou, completamente atordoado. "O quê?"
"Você ouviu, grandão! Vem comigo!", Melissa propôs, apertando os braços dele. "O portal aceita matéria biológica, eu caí aqui com roupas e armas. Não há regras para essa merda quântica! Esquece a Dinastia Ming, esquece o feijão e o arroz com gosto de poeira. Eu te apresento a Boston, te apresento a internet, te apresento o século vinte e um. Nós lutamos juntos aqui... vamos lutar juntos lá!"
Jin Woo olhou para trás, para o corpo do Velho Zhou, para a terra de seus ancestrais. A decisão queimou em seu cérebro em menos de três segundos. Ele olhou para Melissa, e aquele sorriso carismático, leal e fofo surgiu timidamente no canto de seus lábios ensanguentados.
"Espere-me na margem", ele ordenou.
Antes que Melissa pudesse protestar, Jin Woo correu em direção aos destroços do celeiro com uma velocidade impressionante. Ele mergulhou sob os escombros da choupana onde ficava o quarto de seu pai e puxou de lá uma bolsa de lona rústica e pesada, amarrada com tiras de couro grosso. Ele a jogou a tiracolo rapidamente, sem abrir, e correu de volta para o lago.
"O que tem aí dentro?", Melissa perguntou, enquanto o vento do portal começava a tirá-los do chão.
"Coisas que meu pai me mandou guardar se o céu mudasse de cor", Jin Woo gritou, segurando a bolsa firme contra o peito atlético, sem revelar o conteúdo.
Ele estendeu a mão imensa para ela. Melissa estendeu a sua.
Eles deram as mãos e pularam juntos no lago que engoliu os dois em um clarão ofuscante de estática e energia mística. O pátio de Shanxi ficou instantaneamente vazio, restando apenas o silêncio da manhã e o corpo do Velho Zhou, sob o céu da Dinastia Ming.
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