Choque Temporal
23 Carrinhos, Corredores e o Gosto do Futuro
A fazenda perfeita finalmente tinha um endereço: uma belíssima propriedade de cem alqueires no interior de Massachusetts, cercada por colinas verdejantes, terra escura e fértil, e um celeiro de madeira tratada que faria o Velho Zhou chorar de orgulho. Com a mudança marcada já para a manhã seguinte, o apartamento minimalista de Melissa em Boston estava tomado por caixas de papelão e fitas adesivas.
Mas antes de fincarem os pés no novo lar, havia uma missão tática imediata: abastecer a despensa.
Para isso, eles precisavam de rodas. Com parte do dinheiro das moedas imperiais, Melissa ajudou Jin Woo a comprar o primeiro "cavalo de metal" da sua vida: uma picape de grande porte preta, tração 4x4, com uma caçamba imensa e bancos de couro. Para Jin Woo, aquilo não era um meio de transporte, era um tanque de guerra digno de um general da Dinastia Ming.
"Fique calmo na direção, modelo", Melissa provocou, ajustando os óculos escuros enquanto entravam no estacionamento de um enorme hipermercado de Boston. "O trânsito aqui não perdoa quem dirige pensando no plantio de lótus."
Jin Woo, vestindo uma camiseta de algodão preta que marcava seus braços atléticos e seus 1,85 m de altura, os olhos castanhos amendoados fixos no painel digital. O carisma fofo dele brilhava com o orgulho de quem acabara de domar um monstro mecânico.
"Ela ruge com muita nobreza, minha tigresa", Jin Woo sorriu de canto de boca. " E o melhor de tudo é que não preciso alimentá-la com capim."
O Templo da Abundância
A verdadeira provação anacrônica começou quando cruzaram as portas automáticas do hipermercado. Jin Woo travou os passos no piso de granilite polido. Diante dele, fileiras infinitas de corredores iluminados por luzes brancas estendiam-se até onde a vista alcançava, transbordando de produtos em embalagens coloridas e brilhantes.
Para alguém que vinha de um século onde a comida dependia de meses de suor, sol e cascas nas mãos, aquilo parecia a sala do tesouro de um imperador divino.
"Melissa...", ele sussurrou, a voz grave falhando de puro choque cultural. "Toda a comida do mundo... está guardada nesta choupana?"
"Isso é só um supermercado, grandão", ela respondeu, com seu habitual tom linear e irônico, puxando um carrinho de compras de metal e entregando a ele. "Pegue o carrinho. Nós temos uma fazenda inteira para abastecer."
Jin Woo segurou o carrinho de metal como se fosse uma arma de cerco. A cada corredor que avançavam, ele criava uma cena divertida. No setor de hortifrúti, ele parou diante da montanha de alhos frescos e limpos, empilhados perfeitamente sem um único grão de terra.
Ele pegou uma cabeça de alho, cheirou-a e olhou para Melissa com uma expressão fofa de profunda indignação. "Eles tiraram a casca e a terra de todos eles! Como os camponeses daqui têm tempo para limpar cada dente de alho antes de vender?"
"A tecnologia faz isso pela gente, modelo. Lembra o que eu te falei sobre o século vinte e um?", ela riu baixo, jogando um saco de cinco quilos de arroz no carrinho.
A situação ficou ainda mais hilária quando chegaram ao corredor de carnes e frios. Jin Woo encarou os bifes de bacon e as peças de carne bovina embaladas a vácuo, perfeitamente cortadas e limpas, sem uma única gota de sangue no chão.
"Melissa, cadê os açougueiros? Cadê os gritos dos animais?", ele perguntou, confuso, olhando para os lados. "Eles cortam a carne com jatos de luz? Não há uma mosca sequer neste lugar!"
"Se tivesse uma mosca aqui, a vigilância sanitária fechava o mercado, Jin Woo. Só aceita e joga o bacon aí dentro."
O Doce Sabor do Agora
Apesar dos sustos e das perguntas hilárias sobre o funcionamento dos códigos de barra ("É uma marcação de propriedade dos clãs, Melissa?"), o clima mudou quando chegaram ao corredor de doces e sobremesas.
Melissa parou diante de uma prateleira e pegou uma barra de chocolate amargo com pedaços de caramelo salgado. Ela quebrou um quadradinho e levou diretamente à boca de Jin Woo.
"Abre a boca, modelo. Você precisa provar o ápice da confeitaria moderna."
Jin Woo aceitou o doce. Suas pupilas se dilataram instantaneamente quando o chocolate derreteu em sua língua, misturando o doce profundo do cacau com o salgado do caramelo. Ele mastigou devagar, o rosto esculpido suavizando-se em uma expressão de puro êxtase.
Lentamente, ele deu um passo à frente, quebrando os trinta centímetros de distância e empurrando o carrinho para o lado. Suas mãos imensas e calorosas subiram para a cintura de Melissa, puxando o corpo de 1,55 m dela contra o seu peito largo, ignorando os olhares curiosos de duas idosas que passavam com seus carrinhos no corredor.
"Isso... isso é melhor do que qualquer banquete da corte imperial", ele murmurou, a voz mansa descendo a um tom profundamente romântico. Seus olhos amendoados fixaram-se nos lábios dela. "Mas ainda não é tão doce quanto o seu gosto."
Melissa sentiu as bochechas esquentarem, o rubor subindo pela sua pele alva sob a franja lateral repicada. O cinismo e a frieza de sua mente de segurança urbana derreteram por completo diante da audácia leal daquele camponês. Agora que eram oficialmente namorados, Jin Woo não perdia uma única oportunidade de lembrá-la disso.
"Jin Woo, nós estamos no meio do corredor sete", ela resmungou, a voz linear oscilando, embora suas mãos tivessem subido espontanemante para apoiar-se nos ombros largos dele. "As pessoas estão olhando."
"Que olhem", ele sorriu, aquele sorriso doce de canto de boca que desarmava Melissa de forma irremediável. "No meu século, os namorados andavam de mãos dadas sob as pereiras. Neste século, eu posso te abraçar na frente de toda essa comida."
Ele inclinou o rosto e roçou os lábios nos dela em um beijo rápido, carinhoso e cheio de promessa, antes de soltá-la com uma piscadela fofa e voltar a empurrar o carrinho, que agora exibia dez barras do mesmo chocolate.
Melissa ajeitou a regata preta, fingindo irritação para esconder o sorriso bobo que insistia em surgir em seu rosto.
"Você está muito mal-acostumado, modelo", ela resmungou, caminhando ao lado dele em direção aos caixas. "Amanhã, na fazenda, você vai carregar todas as caixas de mudança sozinho para aprender a respeitar o espaço tático."
Jin Woo apenas riu, a risada gostosa e livre de quem sabia que, não importava o século ou a era, ele já havia encontrado o seu verdadeiro lar nos braços daquela tigresa de ferro.
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