Choque Temporal
20 Bacon, Planos e Alianças de Época
O cheiro que agora dominava o apartamento não era mais o do café forte, mas sim o de gordura estalando na frigideira de teflon. Melissa, apesar da fisgada incômoda na costela trincada, operava a espátula com precisão militar.
Jin Woo saiu do banheiro vestindo um moletom preto antigo e uma calça de moletom cinza que Melissa mantinha no armário para os dias de treino pesado. As roupas modernas serviram perfeitamente em seu porte físico atlético de 1,85 m, destacando seus ombros largos e o peito definido. Seus cabelos pretos longos estavam limpos, úmidos e jogados para trás. Ele parecia um guerreiro que havia acabado de assinar um contrato com uma agência de modelos internacional.
"Senta aí, grandão", Melissa ordenou, apontando para a banqueta da cozinha americana com o cabo da espátula.
Na bancada de quartzo, ela serviu um banquete totalmente anacrônico para os padrões da Dinastia Ming: uma montanha de ovos mexidos cremosos, fatias de bacon crocantes, torradas de pão de fermentação natural douradas na manteiga e dois copos grandes de suco de laranja natural, espremido na hora.
Jin Woo sentou-se devagar, avaliando o prato. Ele pegou um pedaço de bacon com os dedos, examinou a textura e mordeu. Seus olhos castanhos amendoados se arregalaram em puro deleite gastronômico.
"A carne de porco do seu tempo... ela faz um barulho de galho seco quando quebra, Melissa", ele exclamou, de boca cheia, o carisma fofo brilhando enquanto devorava os ovos com uma pressa quase infantil. "E esse suco... tem o gosto do sol de Anhui, mas sem o bagaço."
"Isso se chama café da manhã americano, modelo. Come devagar para não engasgar, porque eu não vou fazer RCP com a minha costela desse jeito", ela respondeu, sentando-se com cuidado na banqueta ao lado, tomando apenas um gole de seu café preto.
Os Planos do Camponês Milionário
Depois de limpar o prato com a última torrada, Jin Woo empurrou a louça para o lado e apoiou os cotovelos na bancada, assumindo uma postura subitamente séria e madura. O jovem camponês que havia cruzado as eras parecia ter processado a imensidão de sua nova realidade.
"Melissa, eu estive pensando no tesouro que meu pai me deu", ele começou, a voz grave e mansa ecoando no ambiente limpo da cozinha. "Você disse que aquelas moedas valem um império aqui. Eu já sei o que quero fazer com o dote do meu pai."
Melissa arqueou uma sobrancelha, fixando seus olhos castanhos e frios nos dele. "E qual é o plano tático, gênio? Vai comprar uma frota de Hyundais amarelos?"
"Não", Jin Woo sorriu de canto de boca, com aquela determinação leal que ela conhecia bem. "Eu quero comprar terra. Quero encontrar um lugar neste seu século que tenha o solo fofo, onde o vento não seja poluído por esses cavalos de metal. Quero construir uma fazenda moderna. Vou plantar o feijão do meu pai, as peras da nossa árvore, e usar essas máquinas que você diz que fazem o trabalho de dez homens. Quero honrar o sangue de Shanxi aqui... no futuro."
Melissa suavizou o olhar por um milésimo de segundo. O respeito pelo pragmatismo e pela honra daquele rapaz era o que mantinha suas defesas desarmadas. "É um bom plano, Jin Woo. Comprar terras e investir em agronegócio é inteligente. O seu pai ficaria orgulhoso."
Jin Woo inclinou-se um pouco mais para a frente, quebrando a distância regulamentar. Suas mãos imensas e calejadas avançaram pela bancada de quartzo, cobrindo as mãos menores de Melissa com uma suavidade impressionante. Seus olhos amendoados transbordavam um romantismo puro, direto e avassalador.
"E o plano só estará completo se você governar essa terra comigo", Jin Woo disse, sem hesitar um único segundo. "Melissa... na minha época, quando um homem encontra a mulher que faz seu coração bater como os tambores de guerra, e quando ela luta ao seu lado contra os lobos, ele não espera o próximo inverno. Eu quero que você seja minha esposa legítima. Diante dos deuses deste século ou do meu... casa comigo?"
O Choque de Realidade e o Orgulho Latino
Melissa congelou. Suas pupilas se contraíram e seu coração deu um salto violento contra as costelas machucadas. O pedido de casamento direto, sem rodeios ou joguinhos modernos, bateu de frente com sua mente cínica do século XXI. Ela puxou as mãos de volta, levantando-se da banqueta com um movimento um pouco brusco demais, o que a fez soltar um gemido baixo pela fisgada de dor no flanco.
"Calma aí, grandão! Abaixa a guarda!", ela disse, a voz linear assumindo um tom defensivo e carregado de seu sotaque brasileiro cortante. "As coisas aqui no século vinte e um não funcionam no modo 'Speedrun' da Dinastia Ming. Aqui, as pessoas namoram por anos, moram juntas, fazem terapia de casal, discutem metas financeiras e, só então, se não se odiarem, pensam em assinar um papel no cartório."
Jin Woo a observou, confuso com os termos, mas percebendo o recuo dela. "Eu não entendo de cartórios, Melissa. Eu só sei o que sinto."
"Então escuta bem", Melissa continuou, encostando-se na pia e cruzando os braços sobre a regata preta, o que destacava seu abdômen trincado e sua postura invocada. "Tem outra coisa que precisa ficar muito clara na sua cabeça de camponês milionário. Eu não quero um único centavo desse seu dote imperial. Nem um dólar."
Jin Woo franziu a testa, os olhos amendoados nublados por uma leve incompreensão. "Mas... o dinheiro seria nosso, para a fazenda..."
"Não, Jin Woo. Eu não sou interesseira", ela cortou de forma cirúrgica, o orgulho de sua história de sobrevivência urbana vibrando em cada palavra. "Eu sou designer, eu pago o meu próprio aluguel em Boston, eu compro as minhas próprias facas e o meu próprio bacon. Eu já gostava de você quando você era só um camponês herético que limpava chiqueiro e andava com uma túnica fedendo a feijão. Eu gostava da sua lealdade, do seu Kung Fu barato e do jeito que você esculpe madeira. Eu não preciso de moedas da Dinastia Ming para estar aqui com você. Se eu aceitasse me casar com você agora, com esse saco de ouro no meu cofre, eu estaria quebrando a minha própria regra de conduta."
Jin Woo ficou em silêncio por alguns segundos, processando o impacto do discurso dela. Lentamente, ele se levantou da banqueta. Seus 1,85 m preencheram o espaço da cozinha enquanto ele caminhava até ela com passos mansos. Ele não parecia ofendido; pelo contrário, o sorriso carinhoso e fofo que surgiu em seu rosto esculpido era o mais puro que Melissa já vira.
Ele parou a centímetros dela, sem tocá-la, respeitando o espaço de sua tigresa ferida.
"Você fala demais quando está assustada, Melissa", ele murmurou, a voz mansa e carregada de uma ternura profunda. "Eu não acho que você seja interesseira. Eu sei que você gosta do camponês fedido. É por isso que eu me apaixonei por você. No meu tempo, as mulheres queriam o meu dote antes mesmo de saberem o meu nome. Você... você quer a minha alma. Eu posso esperar pelo seu 'namoro' e pelas suas 'metas'. Mas a fazenda ainda será sua. E eu ainda serei o seu modelo de baixa qualidade."
Melissa sustentou o olhar dele, sentindo o gelo de suas defesas derreter de forma irremediável sob o calor daquele romantismo arcaico. Ela soltou um suspiro longo, desviando o olhar para a frigideira vazia, embora um sorriso quase imperceptível surgisse no canto de seus lábios.
"Você é um bobo persistente, Jin Woo. Vai lavar a louça antes que eu me arrependa de ter te trazido no portal."
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