O nevoeiro estava denso naquela manhã. Joana tinha razão, eu deveria ter trazido um casaco. Só o meu suéter cor de azeite, colante, que deixava os meus ombros expostos e jeans não seria o suficiente para me aquecer.

Tudo havia voltado ao normal. O colégio Elite reabriu as portas para os alunos voltarem às aulas, Sherman Blake e seus capangas estão, se não me engano, prestando depoimento para a CIA. Tudo estava na mais santa paz. Porém, uma coisa mudou nas últimas 24 h.

Eu encarei a morte de frente. Eu estive em uma verdadeira corda bamba, com uma espada pairando na minha cabeça. Qualquer deslize, qualquer erro, seria crucial para mim. Nos poucos momentos que encarei a morte, relembrei de tudo que me fazia feliz: Meus pais, minhas amigas, meus queridos Karas...

E também de todos os meus arrependimentos. Não, somente um arrependimento, que se resumia em um nome: Crânio.

Depois de eu ter assumido para mim mesma que o amava, eu precisava ser forte o suficiente para deixá-lo. Disse adeus à ele, desisti de um lindo futuro, que eu queria desesperadamente, mais do qualquer outro desejo. Fiz esse pequeno sacrifício simplesmente pela amizade dos Karas. A felicidade de Miguel, Calú e do próprio Crânio, a amizade tão linda entre eles, era muito mais importante do que meu amor pelo meu Geninho.

Durante aquela noite, entrei em conflito com o meu eu interior; uma parte, a egoísta, dizia: ”Dane-se e seja feliz com ele, você prometeu isso a si mesma que se conseguisse sair viva daquela gaiola. Você merece ser feliz!”.

Já a outra parte, a nobre, dizia: “Deixe as coisas como estão, pense em quanto ódio você causaria se resolvesse ficar com ele. Você destruiria uma amizade de anos e nunca se perdoaria por isso. Você ia conseguir viver com essa culpa?”.

Eu não tinha respostas para nenhuma das partes. Foi uma noite agitada.

Eu acordei naquela manhã sem saber o que fazer, enquanto a voz egoísta e a voz nobre gritavam comigo. Eu estava a ponto de pedi-las que calassem a boca.

Eu já estava de saída para a escola, quando um telefonema me impediu. Era Peggy. Simplesmente para agradecer por tudo ontem a noite e dar a notícia que seria a chave para a minha decisão; para a voz de dentro de mim que eu ouviria e seguiria.

Calú e Peggy! Eu quase caio para trás quando ela me disse que estavam juntos. Fiquei surpresa e emocionada. Emocionada por Calú ter desistido de mim e encontrar uma garota que o merecesse e o fizesse feliz. Se Calú encontrou Peggy, então Miguel também encontraria alguém que o amasse, alguém que era melhor do que eu. Alguém que não era um monstro, que magoa as pessoas que ama.

E então eu decidi.

A voz perdedora dentro de mim se calou, enquanto a outra cantava vitória junto com o meu coração.

Fim da Parte I