Chocolate amargo
1 Capítulo 1
Em meio ao corredor, Yashiro segura firme a caixa em formado retangular que contém trufas de mel feitos pela mesma para entregá-lo no dia de São Valentim. Hoje, seu objetivo principal é se confessar para o seu amado Yugi Tsukasa e está determinada a fazê-lo. Tão determinada que o seguiu praticamente o dia inteiro buscando oportunidades para ficar sozinha com ele e finalmente declarar o seu amor. Apesar de que na sua mente parecia muito mais fácil.
Suspirou, frustrada. Por quanto mais tempo terá que esperar até ele estar sozinho? A cada horário, alguém aparece. Quando não são garotas entregando os seus chocolates, são os amigos.
Espiou-o novamente e notou que seu amado sumiu. Ele esteve ali há poucos minutos e tinha certeza de tê-lo ouvido conversar com o grupo de garotos. Relaxou um pouco do seu esconderijo e começou a procurá-lo em meio aos quatro rapazes que ainda estão interagindo ou um pouco mais a frente, mas nada dele.
— Ei, ei, Daikon-chan, o que está fazendo?
Um pulo a garota deu quase derrubando a caixa. Sua sorte foi que a segurou forte logo em seguida. Se afastou e o encarou um pouco vermelha. Como é possível que Tsukasa tenha aparecido ao seu lado sendo que estava com os rapazes? Ele deu a volta?
Uma mistura de vergonha e raiva sentiu. O rapaz sabe o quanto detesta esse apelido e sua forma de aparecer repentinamente.
— Yahho! — Tsukasa a cumprimentou sabendo que seria ignorado.
— Já disse pra não me chamar assim — reclamou a garota, tentando desviar a sua ansiedade já que não seria ouvida de qualquer forma.
O garoto a olhou e observou. Seus olhares ficou entre a caixa em mãos e a expressão divertida de estresse com certa vergonha. Foi para isso que Yashiro o seguiu? Um sorriso enorme foi aberto. Nunca imaginou que seria seguido durante 2 horas por sua amiga de infância e claro, saber disso só torna tudo mais divertido, principalmente nos próximos dias onde jogará o evento para constrangê-la.
— Esses chocolates são pra mim? Estou tão feliz!
O chocolate foi entregue ao seu destino junto com o silêncio que permaneceu.
Tsukasa não parou de encarar a caixa estranhando seu tamanho. Devia conter uns... 12 doces? Normalmente os obrigatórios são menores contendo no máximo 9 e muitos nem se esforçam para enfeitá-los já que são presentes casuais. Realmente são obrigatórios como nos anos anteriores? Yashiro sempre demonstrou estar apaixonada por seu irmão mais velho, Amane, mas está enganado esse tempo todo? Ou é possível que Amane tenha recebido um maior?
Quer estar feliz por ter conseguido os doces que tanto esperou de sua amada, mas não conseguiu. Quer estar grato e zoando com ela como sempre faz. Poderia fingir muito melhor se não fosse pelo desgosto do amor unilateral que continua a cultivar.
— Não são obrigatórios, ok?
Finalmente o jovem a encarou se lembrando de sua presença. Seu rosto vermelho mais do que o normal, o sorriso estranho, os olhos desviados. Pode mesmo confiar nisso? É possível ter sido confundido com o Amane? Embora sabe que a possibilidade é praticamente nula de tão bem que ela os conhece.
— Ah...
"Ah...". Sua resposta é um simples "Ah". Yashiro esperava tudo. Tinha imaginado mil e uma respostas que poderia receber sendo as mais previsíveis um "Eu também gosto de você. Você é uma ótima amiga" ou "Está praticando? Não sabia que ia se confessar pro Teru-senpai", mas um "Ah"? Definitivamente fez seu coração se despedaçar mais. Está é a forma dele evitar que se machuque? Ou será que o problema foi que ficou confuso?
No final, nenhuma explicação será aceita por se lembrar dos seus esforços para fazer, se preocupar com a reação dele e na hora de entregar. Não só está frustrada como também o arrependimento é além das palavras. Como pode se esforçar tanto?
Seus olhos começam a marejar e com o rosto baixo, tentou escondê-los. Só quer fugir, se esconder em algum canto pouco movimentado para desabar de vez.
Os primeiros passos deu para se retirar, porém foi interrompida pela mão que segura o seu pulso.
— Da-i-kon-chan — chamou sua atenção tentando ser bastante fofo como costuma ser — Vamos comer juntos — pediu, apesar de parecer uma ordem.
Idiota como é, Yashiro concordou.
O seguiu sem trocar palavras. Por que aceitou? O amargo gosto da derrota a consome, apesar de que não consegue chorar e foi a única coisa que agradeceu.
Nem a brisa calma da primavera tirou a sua dor. Nem um tempo lindo com as árvores movimentando e o sol suportável pode ser visto com brilho proveitoso.
Após chegarem na árvore desejada, Tsukasa se sentou. A cena linda dos cabelos se mexendo e da tranquilidade em seu rosto sempre foi o maior prazer da garota, mas dessa vez, está tão chateada que se irrita por ele conseguir ser tão bonito e charmoso como é.
— Daikon.
Aquele olhar sério, mas com um sorriso levemente falso chamou sua atenção. Yashiro sabe que ele notou, Tsukasa sempre nota tudo relacionado a ela. Todos as vezes que está brava ou quando está para chorar. Pra ele, ela é um livro aberto facilmente lido e descoberto. Antigamente se revoltou após notar e agora, nos dias atuais, desistiu de tentar escondê-lo já que é um fracasso em mentir ou Tsukasa que é muito bom em descobrir.
— O que está esperando? Venha, venha! — a chamou, dessa vez com mais leveza.
Seus pés seguiram involuntariamente o chamado apesar de se sentar um pouco mais distante. Mesmo assim, conseguiu ouvir a caixa sendo desembrulhada e aberta torturando-a. Como pode ser tão tola ao ponto de ficar ao lado do maior motivo de sua dor? Até a tão esperançosa primeira mordida foi ignorada. Nada mais queria saber além de pensar nas possíveis rotas de fuga para realizar o seu momento de sofrência.
Esse é o momento ideal para Aoi fazer o papel de cavaleiro branco e salvá-la do próprio perigo que se enfiou.
— Você sempre faz os melhores doces! — ouviu, notando-o terminar a primeira trufa.
Só ignora, Yashiro.
Só ignora.
— Ei, por que está tão longe? Eu sei que eu mordo às vezes, mas não é pra ter medo — choramingou para chamar a atenção da jovem, mas não funcionou.
Tsukasa respirou fundo, odiando o comportamento que está a receber. Aquela confissão realmente foi sério? Então...
— O que você gosta em mim?
Seu tom de voz foi cheio de seriedade como se estivesse distante. Talvez agora a conversa está indo ao rumo que Yashiro deseja? Mas por que precisa ser uma pergunta tão constrangedora?
Apenas respirou fundo, aproveitou que está de shorts para abraçar as pernas para se forçar a observar os estudantes passando e também como garantia de que, caso chore, poderia esconder o rosto horrível que pode ficar.
Óbvio que está com mais expectativas de receber uma resposta mais digna do que a anterior.
— Eu gosto do seu jeito decidido. Você sempre sabe o que quer e faz sem se importar com o que os outros vão falar. É sincero, direto. Eu gosto de como me dá atenção o tempo todo e... — pensou um pouco antes de continuar. Qualquer palavra pode ser jogada contra ela mais tarde ou poderia se arrepender de contar — E eu gosto disso.
Um sorriso foi aberto no rosto de Tsukasa. No final, suas palavras são verdadeiras e sinceras. Não são para o Amane e nem mesmo tem como com a descrição que falou. Finalmente tinha conseguido conquistá-la e fazê-la notá-lo.
Sem receio, aproximou-se dela quase colando seus quadris e pelo ombro, a puxou mantendo seus rostos perto. Ambos podem sentir a respiração do outro, o calor do outro. Os corações batem em sincronia, apesar de não ser horrível e nem os deixar ansiosos.
— Mesmo?
Sussurrou nos ouvidos da mesma fazendo-a ter um leve arrepio.
Para muitos, essa atitude pode simbolizar a atração sexual ou o desejo de seduzi-la. Não para Tsukasa que só quer aproveitar o cheiro do shampoo ao qual não sabia identificar exatamente do que é, mas não conseguia deixar de se viciar. Yashiro raramente usa perfume, mas sempre apreciou os cuidados que possuí com a aparência por causa do odor doce que conseguia sentir todas as vezes que se aproxima das partes. Talvez está apaixonado pela feminilidade dela? Nem mesmo sabia exatamente o que gosta nela.
— Tsukasa-kun?
Encolheu-se ainda mais com o rosto totalmente dominado pelo vermelho que foi lhe causado. Encará-lo é o seu maior desafio do momento. Se não fosse pelo sussurro, estaria aproveitando melhor o contato físico. Se não fosse a mão guiadas em seu rosto a forçando encarar os olhos âmbar, conseguiria estar relaxada.
Seus olhos se fecham esperando finalmente o toque dos lábios do rapaz. A rejeição já não lhe importou mais. Só quer ficar com ele e ter a companhia apreciada como sempre faz. Quer os olhos âmbar a encarando com tanta paixão quanto notou há segundos atrás.
— Então eu aceito ser seu namorado.
Quebrando o clima, Tsukasa afastou-se um pouco apenas para pegar a caixa que deixou de lado. O sorriso mais fofo foi mostrado e como uma criança, voltou a comer os doces animado. Outra trufa foi pega e mordida. Dessa vez, Yashiro prestou atenção no quanto degustou com vontade o doce que havia feito e, podia estar feliz, mas seu coração parou junto com o seu cérebro.
O que foi essa atitude? É como se ele tivesse desligado a chavinha de sério e maduro e ligado para animado e infantil. E ainda, ela foi aceita?
O rosto passou para vermelho em instantes e escondido com a ajuda dos joelhos. Ainda está a tentar discernir a reviravolta da situação.
— Ya-shi-ro — chamou-a pausando em cada sílaba mudada.
A voz ecoou nos ouvidos dela, mas não o ia ignorar logo após sua conquista.
— Diga "Ah" — perto dos lábios, aproximou-se uma trufa a forçando comer.
Yashiro poderia relutar e inventar que comeu demais quando o fez mesmo sabendo ser mentira, mas conhecendo Tsukasa, sabia que uma simples desculpa não é motivo suficiente para desistir do que deseja. Abriu a boca e sentiu o gosto do chocolate em pó se espalhar. Por algum motivo, está mais gostoso do que a primeira vez que o comeu.
Mais relaxa, ambos degustam o doce sem trocar palavras. A brisa gostosa finalmente pode ser aproveitada com dignidade, apesar de Yashiro ainda não entender como chegou ao seu objetivo amoroso. Está um pouco mais calma.
— Diga "Ah" — repetiu novamente o ato anterior, mas dessa vez Yashiro nem exitou em realizar.
Estão namorando, mas por que Tsukasa continua a tratando como sempre? Talvez esperasse que algo mudasse entre eles? Ou será que sempre pareciam estar namorando?
— Ah, aqui tá sujo.
Quando Yashiro foi buscar o local sujado, viu a sombra mais escura estar mais perto e a língua passada perto de seus lábios.
Nada fez e nem conseguiria mesmo que quisesse. Apenas o observou se afastar com seu sorriso malicioso.
— Pronto. Agora está limpa.
Definitivamente não estão como antes. Tsukasa está mais agressivo, mais ativo do que o normal. Está a atacando com mais sinceridade e vontade. Será que seu coração aguentará? Continua a insistir sair do seu peito descontroladamente.
— Tão fofinha a minha Daikon.
Mais pressão botou como se estivesse a brincar com uma fogueira em chamas e se divertindo pela reação após a lenha posta.
— Se você me beijar, eu tenho um encontro contigo.
Chantageou-a. Não que Tsukasa não pretendesse ter se o beijo não fosse realizado, mas quer vê-la agindo. Quer saber a expressão que fará quando se aproxima e como será os seus lábios. Talvez só os tocaram? Apesar de tudo, qualquer resultado será vantajoso.
Criando coragem, Yashiro se ajoelhou aproximando-se mais dele. As mãos nos ombros apoiou respirando fundo para controlar sua ansiedade que os âmbar que a encaram não permite relaxar. Como Tsukasa consegue estar tão calmo? Será a sombra da árvore que está a encostar? Ou também sente o coração bater tão rápido quanto o dela?
— Feche os olhos — ordenou tentando não fugir da troca de olhares.
Assim ele fez.
Yashiro engoliu em seco e se aproximou finalmente do seu alvo. Novamente, sentiu a respiração sendo, dessa vez, compartilhada e finalizada no momento do toque dos seus lábios. É desajeitado, porém foi o melhor que a garota conseguiu. Está sendo seu primeiro beijo e sua primeira vez tendo que domar a situação. Nem sabe o que está fazendo, mas pouco importa.
O afastamento foi breve e pouco duradouro. A mão passou pelos cabelos prateados e puxados para continuar. Dessa vez, ele a guiou. Não pretendeu aprofundar, nem queria. Seu objetivo é relaxar a jovem para que pudesse aproveitar verdadeiramente do seu tão importante primeiro beijo.
Assim que a soltou, Yashiro se senta quase como se tivesse jogado o seu corpo para o chão e posicionou as mãos nos lábios ainda tentando recuperar o fôlego que se foi pela pressão no peito.
— Tem gosto de chocolate — brincou Tsukasa molhando seus lábios com a saliva.
Logo, Yashiro bateu levemente nos peitos dele descontando-o todo o seu constrangimento, só que pra Tsukasa, tudo não passou de divertimento para que fosse lembrado desse momento.
No final, ele conseguiu sua tão querida e amada Nene.
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