Meu reflexo no espelho estava borrado pelo vapor do chuveiro quente, mas ainda assim era possível ver os meus cabelos longos, lisos e louro-prateados presos em um coque apertado. Os olhos azuis sendo contornados aos poucos pelo lápis preto, dando ênfase no azul claro da íris. Os lábios definidos e vermelhos pelo batom, e a pele clara, sem nenhuma imperfeição ou oleosidade. Certamente, não precisava de batom ou qualquer outro tipo de maquiagem para ficar linda. Eu era linda de qualquer forma.

Ainda estava no hospital, e a menina de cabelos pretos me mandou tomar banho. É, ela mandou, e ainda não sei o porque de eu me submeter a ela, mas foi o que pareceu correto. Ela também era bonita, mas seus cabelos eram tingidos, obviamente. Não há como ter um cabelo tão preto sem pintar.

Bateram na porta do banheiro, e eu mandei entrar, mesmo estando enrolada só na toalha. Era a menina de cabelos negros, e estava com um copo com um líquido dourado na mão. Parecia algo espesso e duro, mas quando ela rodopiou o copinho, pareceu um suco delicioso de manga.

– É néctar. Pode beber, vai te fazer bem. — ela ofereceu o copo para mim e eu peguei. Bebi tão rápido que nem percebi, mas o gosto era ótimo.

– Quero mais. O que é isso? — indaguei, devolvendo o copo para ela com um sorriso forçado, mostrando os dentes alinhados e brancos.

– É néctar, eu já disse. E não vai beber mais. — ela tomou o copo da minha mão e jogou no lixo do banheiro, que estava vazio, a não ser por um anel dourado no fundo. Ela ficou de queixo caído, observando o brilho do anel de ouro. Ouro puro. Reconheci porque meu pai é joalheiro e fabrica anéis de ouro, e esse certamente era feito do mais puríssimo ouro existente no mundo.

Apanhei o anel rapidamente e o coloquei no meu dedo. Ele se encaixou perfeitamente no meu dedo indicador direito. Ele não tinha nenhuma espécie de enfeite, era lindo por si só. Um flash dourado saiu do anel e percorreu meu braço até chegar em minha cabeça, e desapareceu. Ouvi um estalo e o anel brilhou. Depois que o brilho cessou, era visível adornos de rosas e corações por toda a circunferência da joia.

– É como nos livros. Isso deve ser uma réplica idêntica do anel de Afrodite. O Anel da Paixão. — explicou a menina que eu ainda não sabia o nome. Seus olhos brilharam ao fitar o anel.

– Como é o seu nome, mesmo? — ela ergueu o olhar com desprezo até os meus olhos.

– Eu me chamo Beatrice. — sorri para ela e ofereci a minha mão com o anel para que ela apertasse. Hesitante, ela apertou.

– Eu me chamo Chloe. Chloe Adornetto. — larguei sua mão e a olhei. Seus olhos ainda brilhavam enquanto observavam o anel no meu dedo.

– Você já foi reclamada? O que faz fora do acampamento? — ela me olhou nos olhos, duvidosa e esperançosa pela minha resposta. Eu fechei o sorriso e a observei.

– Nunca reclamaram de mim, mas me expulsaram de várias escolas. Nove vezes. Que acampamento? Odeio mato. — ela revirou os olhos e me encarou de novo com desdém. Tive a impressão de que ela não gostava de mim.

– Eu quis dizer se você já sabe quem é sua mãe. E, o Acampamento Meio-Sangue não é um acampamento comum, mas você passa o verão lá, e é onde deveria estar agora. Estamos no verão ainda. — Beatrice deu meia volta e tirou as roupas, me ignorando completamente. Entrou no box e abriu o chuveiro. O vapor da água quente inundou o banheiro novamente, borrando meu reflexo no espelho outra vez.

– Minha mãe morreu. Quando eu nasci, ela morreu. Me disseram uma vez, que eu era muito linda, e minha mãe também. O corpo dela não resistiu tamanha beleza e ela se foi por causa disso. É um tanto verídico, pelas fotos que meu pai me mostrou da minha mãe quando eu ainda não havia nascido. E eu nunca ouvi falar nesse tal Acampamento Meio-Sangue. É um acampamento canibal? Pelo nome, é o que dá a entender. E Afrodite não é uma das deusas gregas? O que tem o anel dela? Você e o Kyle confundiram a minha mente completamente. — ela fechou o chuveiro e se enrolou em uma toalha, saindo do box junto com um monte de vapor atrás de seu corpo, que deixaram o banheiro mais quente. Seus cabelos agora eram brancos como a neve, e de preto não tinha mais nada. Seus olhos verde ficavam destacados com toda a clareza que continha nela, desde sua pele até o cabelo, tudo pálido, tudo branco. Ela era mais bonita assim, tenho que admitir.

– Que foi? Nunca viu uma menina tomar banho? Comovente história, mas sua mãe não morreu. Deusas gregas são imortais. — ela tirou um monte de roupas dos bolsos do uniforme de enfermeira, que eu não entendo como ela colocou lá. Pegou uma camisa laranjada e um short jeans e jogou o uniforme de enfermeira no lixo. Eu vesti as roupas que o meu pai tinha trazido para mim: uma saia preta e uma camisa de alças finas branca. Meu pai amava preto e branco.

– Eu sei que deusas são imortais, mas minha mãe não era uma deusa e não era imortal, se não, não teria morrido. — ignoro a primeira pergunta que ela fez e me olho no espelho, desfazendo o coque dos cabelos. Eles jorravam da minha cabeça até os ombros.

– Não sei direito o que contaram pra você, mas até que está me convencendo. Vem, vamos logo. O acampamento é longe e a gente não pode perder tempo. As três Fúrias já atacaram você, o que mais podemos ter pra hoje? Eu não sei, e nem quero saber. Suponho que já esteja exausta e o Kyle também. E eu não vou sujar minhas mãos matando mais monstros, já matei demais por hoje. — ela falava sem qualquer expressão enquanto analisava as unhas sem esmalte algum. Não parecia notar que era linda, ou então sequer se importava.

– Não vou para qualquer tipo de acampamento. Eu vou embora desse hospital. — desde que tomei o néctar, me senti revigorada. Não senti mais dor, e nem reparei neste acontecimento. Me inclino para pegar meu celular em cima da pia, mas Beatrice foi mais rápida que eu e o pegou. Com força, ela arremessou meu telefone na parede, fazendo com que ele virasse centenas de pedacinhos de plástico.

– Isso atrai monstros, e você já nos deu trabalho demais, mocinha. Despertar as três Fúrias não é pra qualquer um, e eu não acho que ela teriam vindo até você, as três, só porque você mereceu. Acho que você tem tecnologia demais. — boquiaberta, eu a ignorei e saí do banheiro. O quarto estava totalmente arrumado e o meu pai estava na porta, sorrindo. Ao seu lado, estava Kyle, como sempre estava no colégio. Beatrice me empurrou para fora e veio em seguida, fechando a porta do banheiro. Ela foi até o meu pai e falou algumas coisas para ele, que eu não entendi. Estava chocada demais com tantos acontecimentos, e me perdi nos pensamentos.

Quando ela voltou até mim, com um sorriso que ia de orelha à orelha, eu desviei o olhar dela e olhei para o meu pai, que acenava pra mim em despedida. Não entendi nada, até que Beatrice rompeu o silêncio com uma voz doce, sem tirar o sorriso do rosto.

– Estamos indo viajar, não está feliz? Eu estou, amo viagens.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.