Abro os olhos lentamente, e me sinto totalmente estonteada. Uma explosão de luz branca inunda a minha visão e me obriga a piscar violentamente para conseguir enxergar novamente. Giro a cabeça para a esquerda, na tentativa de adivinhar onde estou. Vejo o garoto que entrou na sala de aula e tomo um susto. Ele parecia amistoso, e seu rosto era familiar. Eu já tinha o visto antes. Sim! Ele era Kyle, o menino da turma ao lado da minha. Era mais atraente quando vestia roupas e não tinha essas pernas.
– O que está fazendo aqui, Kyle? — indago, curiosa. Seus olhos são âmbar e são destacados por sua pele morena. O dourado dos seus olhos entra em contraste com seu cabelo totalmente preto.
– Como sabe meu nome? — ele parecia um pouco assustado, e acho que tentou esconder isso. Apontou para o meu travesseiro. — E eu pensei que você não babava enquanto dormia!
– Ai! Você está invadindo minha privacidade. Não importa como eu sei o seu nome, eu só quero saber o que você é, o que era aquilo que era a senhorita Jesse, porque ela me atacou e o que você faz aqui. E não são perguntas, são exigências! — forço o tom firme da voz, no intuito de soar furiosa sem fazer muito escândalo. Pareço ter conseguido, pelo olhar de Kyle.
– Eu sou um sátiro, aquilo era uma... Fúria. Chamamos assim porque o nome delas de verdade, pode trazer mau presságio, como dizem algumas pessoas. A srta. Jesse era um monstro e estava encoberta pela Névoa, o que fazia você não enxergar o que ela era se não estivesse se importando com aquilo ou simplesmente ela não quisesse que você percebesse. Ela te atacou porque você é uma semideusa e... — eu aceno para ele, sinalizando para parar.
– Pare de baboseira! Eu quero os reais motivos, e eu acho que você me deve isso. Não consigo acreditar em tanta coisa desse tipo. — eu estava frustrada. Eu acreditava em tudo o que ele dizia, eu vi tudo. Mas não queria acreditar. Isso era pra soar como impossível, irreal ou simplesmente gozação com a minha cara para mim, mas não era. Era tudo tão esclarecedor.
– Esses são os reais motivos e, ah. Respondendo a sua última pergunta: sátiros são enviados para buscar os meios-sangues e protegê-los. Acho que eu me empolguei comendo batatinhas fritas. São deliciosas! Desculpe-me. — ele esboçou um sorriso no canto do lábio e se conteve para pedir desculpas e abaixar o olhar.
– Obrigada, mas ainda estou confusa. O que era aquilo que o meu colar se transformou? — levo a mão ao meu pescoço, para pegar o meu pingente. Não estava mais lá. — E cadê ele? Foi um presente!
– Está comigo. E pelo pouco que vi, eu creio que seja uma arma especial forjada pelos ciclopes especialmente para você. — ele enfiou a mão no bolso de um casaco que estava em cima do criado mudo ao lado da minha cama e tirou o meu pingente. Estava sujo de sangue. Ele esticou a mão para me entregar e sorriu novamente por um breve momento. — Mais uma das Fúrias nos atacou, e eu tive que usar o seu colar. Desculpe por não pedir. Foi assim que você se machucou tanto, e por isso que está aqui no hospital.
– Obrigada. Ai! Por que eu estou te agradecendo? Cade o meu pai? — numa tentativa de jogar os pés para fora da cama para me sentar, hesito ao perceber que meu corpo todo está dolorido. Tiro o lençol que me cobria e vejo que estou só com um pijama quase transparente. As minhas roupas íntimas rosa-choque aparecem levemente por baixo do tecido fino. Haviam várias ataduras nas minhas pernas e nos tornozelos, faixas com sangue seco. — O que é isso? — estava um pouco constrangida pelas poucas roupas, mas nem tanto. Eu era linda e todos deveriam perceber.
– Epa. — Kyle arregalou os olhos e percorreu todo o meu corpo, parando no meu sutiã com entalhes de coraçõezinhos vermelhos. Isso era comum, pelo menos para mim e eu nem liguei. — Essa cor cai bem em você. E essas ataduras e curativos são da nossa batalha. A Fúria me jogou pra longe e voou em você. Foi nesse momento que peguei o seu colar.
– Engraçadinho. Pare de me olhar com esses olhos! — eu nem me importava como ele me olhava, mas fingir que estava constrangida me removia daquele torpor de pura confusão por pelo menos um segundo.
– Tudo bem. Acho melhor você descansar um pouco mais. Vou chamar o seu pai. Até mais, lindinha. — pelo tom da voz dele, acredito que tentou soar entretido para me constranger mais, mas não aconteceu e ele não ficou satisfeito. Passou a língua pelos lábios e apontou para o meu sutiã. Eu o correspondi com um olhar abismado, e desta vez bastou. Ele caiu na gargalhada e saiu do meu quarto.
Meu pai entrou em seguida. Era um homem de pelo menos um e oitenta. Seus cabelos eram muito escuros e lisos, e seus olhos azuis-claro ficavam destacados em sua pele bronzeada. Ele era lindo também, mas não sei de onde os meus cabelos louro-prateados vieram.
– Olá, docinho. Que roupas são essas? Eu nem sabia que você tinha langerrie. — ele me observou abismado, percorrendo o meu corpo rapidamente e fisgando todos os machucados em um piscar de olhos. — Ah. Por que isso aconteceu tão cedo? Eu tentei adiar, mas não consegui. Me desculpe.
– O que aconteceu tão cedo? Eu me desenvolvi rápido demais? Você não pode manipular o meu metabolismo. — revirei os olhos e os foquei novamente nos do meu pai.
– Os monstros. Isso aconteceu. E, você foi expulsa da escola pela nona vez. Parabéns, eu acho. — ele forçou um sorriso e logo o desfez quando lhe lancei um olhar predatório e faminto por esclarecimentos.
– O que? Você sabia de tudo? Pode ir me explicando. Agora! — desta vez, eu estava mesmo com raiva.
– Tudo em seu devido tempo, amorzinho. Vá com calma. Fico feliz por vê-la, mas só vou contar depois que você descansar bastante. — ele se levantou da cadeira e foi em direção a porta. Quando saiu, uma enfermeira entrou rapidamente em seu lugar. Ela tinha olhos negros, vazios e profundos. Só podia ser delírio meu.
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