Chiquititas - Innocence
3 Segredos
Notas iniciais
Naquela manhã apenas nós crianças tomamos café porque tínhamos acordado tarde, depois eu fui ao andar de baixo, iria ajudar Tia Carlota a arrumar a bagunça da noite passada... Bati na porta do quarto dela.
—Entre.
Entrei.
—Bom dia Tia Carlota.
—Bom dia Laurinha, gostaria muito de falar com você_ falou Tia Carlota, ela estava na frente de seu enorme guarda roupa e se virou na minha direção.
—Eu vim pra ajudar a arrumar a...
—Shhh... eu quero falar sobre outra coisa com você_ e colocou as mãos em meus ombros_ quero que me fale tudo sobre você Srta. Laura.
Fiquei sem expressão mas Tia Carlota me fez sentar na cama junto com ela.
—Pode começar querida.
Ela pediu pra eu falar tudo, então eu falei...
— Segundo a minha mãe Cláudia me falou, a mulher que é a minha mãe de verdade era muito nova quando engravidou de mim, ela morava ao lado da casa da mamãe e um dia, de manhã bem cedinho, ela me deixou na frente da casa dela e fugiu. A mamãe cuidou de mim junto com outros dois filhos que ela tinha, Marcos e Milene e também um namorado malvado...
—Malvado? _ perguntou Tia Carlota.
— É... Malvado... Ele batia nela. _ fiz uma pausa mas continuei_ Eu não gostava dele assim como ele não gostava de mim, tinha medo por isso chorava; quando ele chegava eu me escondia atrás do sofá e tentava fazer silêncio pra ele não descobrir que eu estava ali. _ Minha garganta começou a ficar seca. _ E então chegou um dia em que mamãe me levou num lugar diferente que parecia uma escola, ela me deixou lá com uma mulher de óculos e foi embora. Essa foi a última vez que eu chamei ela de mãe. _ Olhei pra tia Carlota e percebi um brilho diferente em seu olhar, ela parecia realmente interessada na minha história então continuei. _ Essa mulher era a Tia Rita, ela cuidou muito bem de mim no orfanato; lá eu fiz muitos amigos que são esses que chegaram aqui. O Tiago, o Antônio, o Railsom, a Renata e a Adriana. _ falei com um sorriso no rosto mas voltei a encarar a porta _ Um dia a Tia Rita teve que viajar para outra cidade, mas...
— Mas...? _ perguntou Tia Carlota cautelosamente.
—Mas ela não voltou mais. _ falei olhando para minhas mãos.
Tia Carlota pigarreou.
— Ela teve alguns problemas na viagem não foi?
Olhei para Tia Carlota com os olhos já cheio de lágrimas e do nada, ela me abraçou; eu não conseguia pensar em nada, só uma palavra vinha à minha cabeça: mentiras.
Tia Carlota começou a cantarolar uma canção desconhecida bem baixinho, eu fiquei ouvindo abraçada a ela até que ouvi uns passos no corredor, eles pararam mas depois seguiram embora, continuei ali com Tia Carlota até que ela se levantou e limpou o rosto, ela também estava chorando.
— Laurinha, pode fazer um favor pra mim? _ disse ela olhando para o espelho.
Me levantei rapidamente.
— Claro.
Então ela se virou para mim com os olhos ainda vermelhos.
— Vá até o escritório e peça à Suely que mande os documentos da Clara.
— Clara?
— Sim, uma menina que foi adotada recentemente, Suely sabe do que se trata, pode ir lá?
— Tudo bem Tia Carlota.
E saí do quarto.
O escritório ficava no mesmo corredor, com passos rápidos cheguei até lá; ao colocar a mão na maçaneta ouvi vozes de dentro, uma voz de uma mulher e uma voz de... menina?
— A resposta é simples _ falou a mulher _ você está com ciúme dela.
—Eu? Ciúme daquele pingo de gente? Me poupe né!
— É sério! Dá pra perceber como você fica fervendo _ a mulher riu _ você bem que queria ter aqueles olhos...
—Eu não tenho ciúme coisa nenhuma! _ ouvi um baque sobre a mesa_ Estou apenas chateada porque ela mexeu com a minha Maíze!
— Ah... a sua Maíze... _ disse a mulher com uma voz de desprezo.
Então se fez um silêncio, decidi abrir a porta e nesse exato momento a “menina” ia falar de novo...
— Bom dia.
Olhei para as duas: Soraya e Suely, Suely estava atrás da mesa com uma pilha de papéis e Soraya estava numa cadeira de pernas cruzadas, as duas me olharam no mesmo instante, Suely relaxou e Soraya fez cara de nojo.
— Bom dia Laurinha. _ respondeu Suely.
— Vim pegar os papéis de uma menina chamada Clara, _ Suely franziu o cenho_ que Tia Carlota pediu.
— Tudo bem querida. _ disse ela e tirou dentre uma pilha de papéis umas folhas grampeadas _ aqui está _ e as entregou para mim.
— Sabe Suely, _ falou Soraya se levantando _ acho que vou tomar ar fresco, alguma coisa está fedendo nessa sala...
— Eu a limpei hoje tá?!
—Eu não estou me referindo à sala idiota!
E saiu desfilando. Suely olhou pra mim como se estivesse pedindo desculpas.
— Suely... _ murmurei.
— Sim?
— Porque Soraya gosta tanto de Maíze?
— Bem... acho que é porque ela é bem bonitinha e...
Fitei Suely com um olhar de que não estava entendendo direito, ela pigarreou e falou num murmúrio.
— Acho que é porque Maíze tem uma mente maldosa como a dela...
Pensei um pouco e balancei a cabeça.
— Tudo bem. _ me virei para sair mas disse mais alguma coisa. _ Ah Suely! Diga a Soraya que eu tomei banho hoje.
Sorri para ela ao vê-la de olhos arregalados e fechei a porta.
Voltei para o quarto de Tia Carlota e, como no escritório, fiquei ouvindo vozes.
— Você está obcecada por essa menina mãe! A trata diferente das outras crianças...
— Em primeiro lugar, não se dirija a mim como você! E sim, como senhora!
—Que seja! Só quero dizer que isso não pode continuar assim!
—Escute Soraya, o que eu faço ou deixo de fazer é problema meu, você está com suas crises de ciúme de novo! Será que eu vou ter que repetir pra você que eu sou a mãe que essas crianças não tiveram?!
— A mãe que essa garota não teve, não é?
Não aguentei mais, abri a porta já vermelha de raiva. As duas olharam pra mim, tia Carlota assustada e Soraya com o queixo contraído.
— Oh Laurinha... _ disse Tia Carlota_ você estava ouvindo?
Fiz que sim com a cabeça.
— Soraya_ falou ela olhando para a filha_ peça desculpas a Laurinha. _ Soraya olhou pra mim boquiaberta _ Agora.
Soraya se virou para a mãe, um celular tocou enquanto ela falava.
—Não vou pedir merda nenhuma! _ bradou ela e pegou um celular de cima da penteadeira do guarda roupa, imediatamente Tia Carlota segurou sua mão.
—Me dê isso agora.
Soraya não tinha saída, revirou os olhos e entregou o celular à mãe.
—Nil? _ falou Tia Carlota_ De novo esse garoto Soraya?
Soraya revirou os olhos novamente.
—Eu já te falei pra não conversar mais com ele.
— Mas é ele que me persegue mamãe... _falou ela com uma cara de inocente_ não vê que é ele que liga pra mim? O que eu posso fazer?
—Saia daqui.
Soraya estendeu a mão pedindo o celular, o que ela queria mesmo era sair correndo dali. Tia Carlota olhou pra ela e entregou o celular, “não sei pra quê” pensei, “ela vai ligar de novo pra esse tal de Nil...”
Soraya saiu do quarto com o queixo erguido e deixou eu e Tia Carlota nos olhando sem saber o que fazer.
Por fim, entreguei os papéis a Tia Carlota e fiquei me perguntando se Soraya era sempre assim.
— Soraya parece estar de mal humor hoje... _ falei baixinho.
— Ela tem muitas vontades, mas fica irritada quando não a deixo fazer o que quer, mesmo que eu esteja pensando no bem dela... _ Tia Carlota disse com tristeza e se sentou na cama.
— Não fique triste tia... _ falei sentando ao lado dela _ Um dia ela vai crescer.
— Sabe Laurinha, antes eu era como Soraya, cheia de sonhos... mas também cheia de amor, muito amor; e compartilhei esse amor com um moreno de olhos claros: Felipe; mesmo que meus pais não gostassem dele... eu não estava nem aí.
— Por que não gostavam dele?
—Preconceito Laurinha, preconceito. Mas eu não me importei e casei com ele. Fomos morar em outra cidade e tivemos duas filhas.
—Suelem e Suely.
— Hahã... e como o destino é cheio de surpresas eu perdi meu marido para uma doença terminal.
Ficamos em silêncio por um instante mas Tia Carlota voltou a falar.
— Então eu comecei a trabalhar num orfanato, já que adorava crianças e ainda adoro, _ ela riu _ tentei recomeçar minha vida. Nesse orfanato trabalhava outra mulher que decidiu virar freira depois que perdeu o marido; ela tinha acabado de ter uma bebê, linda bebê, branquinha de cabelos negros, me apaixonei por ela por ser tão parecida com uma irmã minha por coincidência... A mãe dessa bebê ficou com muitos problemas depois do parto e adoeceu gravemente, ela... ela...
— Ela o quê?
— Ela enlouqueceu. Enlouqueceu de vez e eu temia todos os dias que ela tirasse a vida da criança, isso só não aconteceu porque eu fugi e vim pra cá.
— Mas o que isso tem a ver com a mulher louca? A senhora não fez nada de mais...
—Laurinha, quando fugi eu trouxe a criança comigo, eu a adotei.
Fico sem palavras por um momento.
—Como é o nome dessa criança mesmo?
Eu não queria acreditar...
—Sim Laurinha, é ela mesma. Soraya foi essa criança.
CH
— Laurinha, esse vai ser o nosso segredo ok? Não pode contar pra ninguém, muito menos pra Soraya o que eu te falei aqui...
—Tudo bem Tia Carlota, eu juro pelas Chiquititas que nunca vou contar o seu segredo.
— Chiquititas?
— É... é uma longa história.
—Está bem querida, eu acredito em você.
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