Children

12 Fantasminha camarada


O que eu tive que fazer assim que acordei? Tive que arrastar o colchão da cama dos meus pais pra fora, uma vez que ele precisa pegar um sol.

Meu mini pai faz xixi na cama, eu tenho que arrumar meios de lidar com isso, já que não sei quanto tempo ele vai ficar aqui como criança.

Tive que inventar uma desculpa para a ausência do meu pai na empresa, então liguei para o meu tio e disse que ele não estava bem. Só espero que o tio Itachi não apareça por aqui, pois vai ser difícil de esconder essas duas pestes, sem falar que ele facilmente reconheceria o irmãozinho.

E as crianças? Estão controladas. Coloquei uma bacia no espaçoso banheiro dos meus pais, então os pequenos podem se divertir com a mini piscina. Espero que fiquem entretidos.

Me joguei no sofá, cansada. Nossa, será que eu dei tanto trabalho assim quando era pequena? Acho que agora entendo por que sou filha única.

O Jon Snow pulou no meu colo e eu acariciei sua barriga. Até meu pobre bichano está sofrendo com esses pequenos terroristas. Pois é, acabou o sossego mesmo.

Aproveitei alguns minutos de silêncio, desejando que isso se prolongasse pelo dia todo, mas é somente ilusão. Tem criança em casa.

Peguei meu celular para olhar o WhatsApp e, por um breve momento, admito que fiquei triste por não haver uma única mensagem do Boruto.

Ah, o que eu tô pensando? Desde quando eu me importo com o Boruto?

Eu, hein... Agora deu medo.

Suspirei pesadamente.

Ah, o silêncio. O doce som do silêncio. Isso é lindo, maravilhoso, eu realmente o aprecio. Em contrapartida, tem duas crianças aqui em casa, portanto o motivo do silêncio é totalmente questionável.

Eles estão aprontando.

Levantei quieta, deixando o Jon Snow sobre o sofá, e caminhei na pontinha dos pés até o banheiro dos meus pais.

Antes mesmo de abrir a porta do banheiro, senti um cheiro de... menta, talvez? Hortelã? Não sei, mas é estranho.

Abri o box e me deparei com os dois pestinhas brincando inocentemente na bacia. Ele de cueca e ela de calcinha, só pra ressaltar. Estaria tudo tranquilo se não estivesse jogado no chão um vidro de enxaguante bucal completamente vazio, que, por acaso, estava cheio há poucos minutos.

Eu quero afogar esses dois.

– Crianças... — Forcei um sorriso, fingindo animação, então peguei o vidro vazio de enxaguante e mostrei para eles — O que vocês fizeram com isso aqui?

– A gente queria tomar um banho refrescante, tia. — Disse a pequena Sakura, sorridente como se não tivesse aprontado.

Essas crianças já perderam a vergonha na cara, isso sim!

– Vocês jogaram isso na água? — Indaguei, mesmo sabendo a resposta.

– Óbvio! — Disse o pequeno Sasuke — Isso é cheiroso. A gente não precisa nem de sabonete, né, Sakura?

Esses dois estão conspirando. Com certeza estão.

Pestes!

– Vamos, os dois. — Mandei — Chega de banho. Vocês vão desbotar aí dentro.

Os dois resmungaram, mas pelo menos obedeceram. Podiam ser sempre obedientes.

Quem precisa de um banho agora sou eu. Talvez eu precise mais de uma sessão de descarrego, mas por enquanto só um banho vai muito bem.

Já foi maquiagem estragada, arte na parede, sabonete desfigurado... esqueci alguma coisa? Ah, nem sei, e também nem quero lembrar. Mas, se já não bastasse, agora o enxaguante bucal dos meus pais desceu literalmente pelo ralo.

Deixei os dois assistindo na sala e fui tomar banho. Peguei meu celular e deixei sobre a tampa do vaso, uma vez que gosto de ouvir música no banho. É bom pra distrair e esquecer que meus pais são duas crianças e que agora estão me dando trabalho.

Senhor, me ajuda!

Demorei no banho? Demorei, pois eu mereço!

Estou comendo o pão que o diabo amassou, mas passando requeijão porque eu não sou obrigada.

Saí do banho e fui para o meu quarto, vesti um pijama — meu uniforme de férias — e sequei meus cabelos tranquilamente, sem pressão, como se não tivesse criança em casa.

Por um instante é legal esquecer das coisas, ou pelo menos fingir. É bom pra saúde mental.

Ah, os diabinhos estão bem. Estão de boa na frente da televisão, distraídos com o filme. Escolhi Monstros S.A. Quem não ama esse filme? Não tem como não gostar.

Acontece que o desespero começou a tomar conta de mim no momento em que eu cheguei na sala e vi somente a Sakura sentada no chão, lindamente comportada, assistindo como se fosse um anjinho.

Aí eu pergunto: Cadê o outro?

– Sakura. — Chamei a garota, mas ela sequer me olhou — Criança, cadê o Sasuke?

– De castigo. — Respondeu sem ao menos tirar os olhos da televisão.

– Castigo? — Arqueei uma sobrancelha.

– A gente estamos brincando.

– A gente está. — Corrigi, enfatizando a última palavra.

A menina revirou os olhos, soltou um suspiro alto e me encarou.

– Não, tia, só o Sasuke e eu estamos brincando. Você não.

Mereço.

– Brincando de quê? — Questionei, temendo profundamente a resposta.

– A gente fez ímpar-par, quem perdesse ficaria de castigo.

Não quero nem entender por quê. Ninguém entende cabeça de criança mesmo.

– Cadê ele?

– Escondido. — Sakura sorriu de canto.

Minha mãe era uma criaturinha maléfica. Socorro!

Resolvi não pressionar. Sakura está quieta, então isso já é um motivo forte o suficiente pra eu não mexer com ela.

Procurei por Sasuke em todos os cantos que considerei um bom esconderijo infantil, mas nem sinal daquela miniatura de gente.

Não sei... Estou com um mal pressentimento.

Após alguns minutos procurando, eis que encontrei o garoto dentro da despensa, amarrado e amordaçado.

Sakura fez o serviço completo.

– Sasuke. — Tirei da boca do garoto o pano de prato que Sakura usou como mordaça — Tá tudo bem?

– Tá tudo bem sim, tia. — Assentiu.

Ah, ótimo.

– Tudo bem. — Coloquei novamente a mordaça na boca dele.

Ora, é brincadeira de criança, quem sou eu pra atrapalhar?

Voltei para a cozinha, fingindo que nada estava acontecendo. Preciso pensar em algo para o almoço... Ah, droga, nem tirei carne do congelador. Acho que vamos comer farofa de ovo, talvez com alguns pedaços de bacon. Talvez omelete. Não sei, alguma coisa com ovo.

Sakura não demorou muito para passar correndo por mim, indo até a despensa para soltar o Sasuke... Ah, estava tão quieto.

Eu queria tanto que eles dormissem, assim, uma tarde inteira.

– Tia. — Sasuke me chamou — Tá quente... põe um ventilador lá na sala. — Pediu.

Deixei o que eu estava fazendo na cozinha e fui colocar um ventilador na sala. Não está calor, é só abrir a janela, mas eu prefiro fazer logo o que Sasuke está pedindo pra não ter que aguentar birra depois.

Voltei para a cozinha e me concentrei em misturar os ovos com um pouco de cebola e tomate picados. Hoje nós vamos de omelete. Talvez eu frite umas tiras de bacon, assim, só pra dar aquele lindo toque final.

Bacon é vida.

Eu não sou uma boa cozinheira. Assim, tenho certeza de que fiz uma omelete gostosa, mas o negócio quebrou quando fui virar na frigideira. Não ficou algo bonito, devo admitir, mas o saber com certeza vai compensar.

Na mistura, além de tomate e cebola, também coloquei queijo e presunto ralados, um pouco de orégano e uma pitada de sal. Claro, além das tiras de bacon que fritei pra acompanhar.

Tem como isso não estar gostoso? Não, não tem. Só não está bonitinho.

Fiz um suco também, de acerola. Pelo menos tem polpa de fruta no congelador, então fiz um suco bem gostoso. Infelizmente não tinha de maracujá, pra acalmar esses dois terroristas.

Ah! Quem disse que eu não me viro na cozinha? Papai e mamãe não sabem que eu sei me virar muito bem! Já posso começar persuadi-los pra eu ir morar sozinha em outra cidade quando entrar na faculdade.

Mais uma vez me arrependi profundamente por ter deixado os dois "anjos" sozinhos. Por quê? Ora... cheguei na sala e só consegui ver talco voando.

Onde diabos esses dois pegaram talco?

Eles estão jogando talco na frente do ventilador. Ou melhor, Sakura está jogando talco no ventilador, e Sasuke está bem na frente.

Os dois estão achando isso muito lindo.

– Vocês estão loucos? — Briguei, então corri para desligar o ventilador — Não pode fazer isso!

Sasuke está parecendo um fantasma, socorro!

Por que eu fui colocar essa porcaria desse ventilador aqui? Eu devia saber que eles estavam aprontando alguma.

– Tia, eu tô com fome. — Sakura falou com a voz doce, como se ela não fosse responsável por essa bagunça!

– Bú! — Sasuke falou e caiu na gargalhada, dando uma de fantasma pro meu lado como se quisesse me assustar.

– O almoço tá pronto, mas olha essa bagunça! — Alarmei.

Eu vou passar o dia todo arrumando isso.

Acho que estou começando a considerar a idéia da Sakura, mas no caso eu estou querendo amarrar e amordaçar os dois.

– Eu quero comer! — Sasuke começou a pular.

Ele está completamente coberto por talco.

– O senhor tem que tirar isso do corpo. — Avisei.

– Não, não! — O infeliz correu pra cima do sofá — Eu sou um fantasma, tia! Eu vou assombrar a casa.

Sim, ele certamente está assombrando.

– Desce daí, pelo amor de Deus. — Implorei.

– Eu quero comer... — Sakura insistiu, batendo o pezinho no chão — Vamos, tia, vamos. Eu tô com fome.

São dois saquinhos sem fundo.

O Jon Snow inclusive tomou chá de sumiço. Ele tem medo... Certamente está dormindo na minha cama, enquanto isso eu, quem deveria estar numa boa, estou penando com duas crianças pequenas!

Meus pais deveriam me canonizar!

– Tudo bem. — Sorri, fingindo animação — Vamos... Vamos comer.

Não tem jeito, tem? Fomos almoçar. Sakura, o fantasminha e eu.

Hoje a tarde vai ser longa.