Child of Nature
13 Máscara da Inveja

Maslow nem havia notado que o tempo passara tão rápido. Quando se deu conta, Quíron já estava ditando as regras da Captura à Bandeira no meio da corriqueira clareira em que era realizada a atividade. Naquele dia, o time azul era liderado pelo chalé de Atena — que carregava um estandarte cinzento ilustrado por corujas com a cor de bronze — e o vermelho, quase que relutantes, pelo chalé de Afrodite — os quais carregavam um estandarte dourado com ilustrações de corações e rosas. O time vermelho era composto por, além do chalé de Afrodite, Hefesto, Ares, Apolo e Dionísio. Enquanto isso, o azul por Atena, Deméter, Tique — que no caso abordava apenas Sansa —, Hermes, Hécate — que talvez estivessem participando pela primeira vez, porque um garoto e uma garota gêmeos tremiam de nervosismo — e Nêmesis.
Com um único gesto do centauro, as mesas de madeira no centro da clareira se entupiram de armas. Maslow não precisava delas, apenas colocou seu elmo e suas proteções, como cotoveleiras, joelheiras, o elmo e o peitoral, e apertou levemente a superfície do seu cordão, que se tornou sua majestosa foice.
– Gente, gente, reunião – exclamou Melissa na tentativa de chamar a atenção do time azul. Enfim, no momento em que todo o time azul se aproximou, ela ditou as regras, que pareciam ser muito diferentes das regras de Angélica. Desta vez, Maslow não seria apenas um patrulheiro de fronteira. Ele seria muito mais: um infiltrador.
Assim que as regras foram ditadas, todos se dirigiram para suas posições. Maslow e outros três infiltradores — Celine, Tess e Angélica — se ocultaram quase que no meio dentre as fronteiras, ainda que estivessem cerca de dez centímetros de distância atrás do limite de preparação.
Foram trinta segundos do mais legítimo silêncio. Maslow não fazia ideia de como o tempo ocorria devagar quando ninguém fala nada. Foi possível ter mil expectativas e pensamentos antes que a trombeta de caramujo soasse; depois disso, foram apenas gritos e o som de metais se chocando.
Uma coisa que o mísero filho de Deméter podia se gabar era seu extremo silêncio enquanto marchava pelo gramado. Era quase impossível ouvir algum som originando dele, ainda mais que grande parte dos campistas estavam batalhando como loucos pela bandeira.
– Aí, todos já sabem o que fazer? – perguntou Angélica, nem olhando nos olhos de Maslow. Todos disseram que sim em um sussurro, menos Maslow. Ele realmente não sabia o que um infiltrador fazia. Lógico, ele se infiltra na base inimiga em busca da bandeira, mas o que além disso? – Eu sabia que aquela garota não devia ter o colocado como infiltrador. Enfim, é simples, você apenas tem que ser silencioso e sempre que ver alguém sozinho levá-lo ao desarme. Se você ver a bandeira, olhe em volta e tente detectar qualquer tipo de armadilha e espere que os atacantes distraiam a patrulha da fronteira vermelha.
– Simples? – disse Maslow. – Tem certeza?
Tess e Celine deram risadas tão baixas que mais se assemelhavam a sibilos. Angélica ignorou o comentário de Maslow e comandou, com um gesto, para que continuassem a marchar.
– Liga não, Maslow – sussurrou Celine, serena. – Angélica normalmente tem ataques de liderança extrema quando está em atividade. É como se uma segunda alma tomasse conta dela e a transformasse em uma grande cínica.
– É, acho que percebi – respondeu Maslow, no mesmo tom de voz de Celine. – Mas uma coisa eu estou achando bem estranho: ela está assim desde cedo, quando eu e Melissa começamos a conversar.
Celine deu de ombros e continuaram a marchar em silêncio.
O garoto começou a se entediar assim que ninguém mais disse nada, e não hesitou em se espremer entre os arbustos ao ouvir o congelante som de um galho se partindo. Quando afastou as folhagens com os dedos, pôde observar um garoto de costas, indo para lá e para cá enquanto observava em volta. No momento em que ele virou o rosto para uma direção visível, Maslow viu quem era.
Era Aaron.
Não, Maslow não iria deixar sua vontade de machucar seu inimigo acabar com sua chance de capturar a bandeira ele mesmo. Tinha que se controlar, apenas isso. Entretanto, assim que virou para trás para sair dos arbustos, se lembrou das palavras de Angélica; sempre que vir alguém sozinho levá-lo ao desarme.
Ele não podia deixar que essa oportunidade passasse em branco. Vingança.
Maslow não demorou muito a pensar em uma estratégia. O garoto se assegurou de que segurava a foice com força o suficiente, observou a clareira em que Aaron se encontrava com maior atenção e, assim que estava totalmente seguro de que ele estava sozinho, respirou mais uma única vez, tão calmo que chegava a assustar.
Vamos ver o estrago que essa foice nova faz, pensou Maslow.
Ele empunhou o cabo da foice com mais força e saltou dos arbustos tão rápido quanto um clarão e, sem demora, partiu na direção de Aaron. Quando foi perfurar seu ombro com a ponta da foice, o oponente bloqueou-o com um escudo grande e assustador. Os olhos flamejantes de Aaron o observaram por alguns segundos antes de Maslow ser derrubado.
– Você acha que eu posso ser surpreendido por trás? – disse Aaron. – Sou um filho de Ares, seu merda.
– Por trás não – murmurou Maslow, enfurecido. – Mas, frente a frente, talvez. Bons sonhos, Aaron.
Maslow se levantou e, como se Aaron fosse um arbusto de morangos, golpeou a pele de seu peito com a maior fúria possível. Aaron demorou cerca de dois segundos para cair no chão, adormecido. Aquele efeito de papoulas era incrível e olha que Maslow nem tinha um nível tão grande de experiência.
O filho de Deméter se agachou e arrancou a lança e o escudo de Aaron dos seus punhos, atirando-os no riacho, que ainda podia ser detectado da clareira. Assim que pousados nas águas, derrotado.
Maslow foi correndo para fora da clareira, onde as três garotas observavam movimentações pelos arbustos. Elas provavelmente nem notaram que ele havia sumido. Ele estava meio estúpido pelo recente acontecido, como se não acreditasse que havia feito derrotado sozinho um desses filhos de Ares endemoniados.
– Tá tudo bem? – perguntou Tess, apoiando o braço entre os ombros de Maslow. Ele notou que sua foice tinha uma pequena porção de sangue de Aaron, e a limpou na própria camiseta alaranjada do acampamento. Depois disso, apenas concordou com a cabeça, observando a sua volta.
– Shh – bradou Angélica, barrando todos os infiltradores com os braços. – Acho que sei onde colocaram a bandeira. Temos que tomar cuidado com as armadilhas desde já, podemos ser interceptados a qualquer momento.
Angélica arrancou sua faca da bainha, Celine tirou sua adaga da bota e Tess armou-se com um longo par de sabres dourados das costas. Elas pareciam ameaçadoras quando armadas, porque suas feições simpáticas logo se tornaram mortíferas.
– Onde você acha que está a bandeira? – perguntou Maslow, em um sussurro. Angélica ficou em silêncio por um bom tempo, precisando se sentir segura para dizer alguma coisa.
– Não tenho certeza, mas acho que está em cima de um carvalho próximo da fronteira vermelha. – disse Angélica. – Os filhos de Afrodite normalmente escondem naquele carvalho e ninguém costuma... – Ela fez silêncio.
– Que foi? – murmurou Maslow, estranhando o repentino silêncio de Angélica. Quando foi abrir a boca para falar, Angélica pisou no seu pé com a maior força e ele logo entendeu que era pra ficar em silêncio também.
Melissa apareceu pelos arbustos, carregando um longo e fino florete com a mão direita. Havia algo de diferente nela, mas Maslow não conseguiu identificar. Ela estava mais bonita, mais charmosa, como se um aroma doce que ela emitia estivesse clamando pela atenção dele. Ela não usava um elmo, não usava uma armadura.
– Precisam voltar para a nossa fronteira – disse ela. Sua voz era doce como nunca. Maslow nunca se sentiu tão atraído por uma garota como naquele momento, mas também nunca fora assim tão... artificial. – Está sendo atacada. Me comunicaram p...
– E por que não vai você mesma? – perguntou Angélica, com tanta autoridade na voz que ela mesma parecia estar liderando a atividade. Melissa a olhou sem nenhuma expressão, um pouco... assustada.
– Eu...
Os olhos de Melissa brilharam por um instante, como se tivessem mudado de cor repentinamente. O cinzento que ela guardava nos próprios olhos se tornou um tom verde como as folhas que as árvores ao redor insistiam em balançar. Angélica levantou uma sobrancelha e riu.
– Você não é Melissa – disse Angélica. Ela atirou sua faca contra Melissa e a lâmina brilhante sussurrou algumas palavras no ar, algo como revele o que está oculto, cravando no ombro da garota e a fazendo gritar. – Revele o encantamento. Retorne à sua verdadeira forma.
– Angélica, você tá maluca? – exclamou Maslow. Ele correu na direção de Melissa, ferida, na tentativa de auxiliá-la. – Aguenta aí, Melissa, vou te levar até Quíron, ele deve...
A lâmina brilhou ainda mais. Brilhou a um ponto que Maslow precisou tampar os olhos com as mãos. O brilho se assemelhava ao brilho do sol de Jessica. Todo o corpo de Melissa vibrou e ela se tornou uma linda garota de cabelos ruivos; era uma filha de Afrodite. Seu ombro sangrava. O sangue saía da sua ferida como ondas.
– Você me descobriu! – gritou a filha de Afrodite.
– Eu sou esperta, não sou? – disse Angélica. – É a máscara da inveja, não é? Uma de suas habilidades. Você se transforma nos outros para nos enganar. Muito inteligente da sua parte, sabia? Contudo, ninguém consegue mentir para uma filha de Nêmesis.
Maslow não podia confiar em mais ninguém.
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