Child of Nature

6 A magia de Deméter





Maslow abriu seus olhos pesados e sentiu uma dormência sibilar na parte de trás de sua cabeça. Logo notou que o cenário que vira anteriormente — a cratera provocada pelo relâmpago verde, seu arqui-inimigo Aaron e a garota que ele gosta, Angélica, despojados em um desmaio sobre a grama, crepitando em chamas esverdeadas — não mudou em muita coisa, apenas que, ao invés do trio estar sozinho, grande parte das pessoas do acampamento adentraram o espaço com vácuo de pinheiros. Platéia.

O Sr. Quíron, ao invés da sua habitual expressão simpática, provia de preocupação. Seus olhos estavam escuros e, em volta deles, as olheiras se manifestaram pela primeira vez. Ele não observava a cratera, como as autoridades mortais que Maslow costumava conhecer fariam, mas olhava diretamente para a cabeça de Maslow; ou para cima dela.

– Você! – balbuciou Quíron.

Maslow estava confuso. Embora estivesse totalmente acordado, estava tentando se acostumar com toda aquela tontura que o pedia para fechar os olhos. Uma voz dizia em sua cabeça para que não fechasse os olhos e logo identificou como a de seu pai, pedindo para que não os fechasse quando bateu a cabeça no trapiche do lago da fazenda, ou poderia entrar em coma.

– O quê? – Maslow conseguiu dizer, e sentiu seus olhos, quase automaticamente, se arregalando.

– Você foi... você foi reclamado, Maslow – Celine apareceu, com uma aparência inerte, por trás de todas aquelas pessoas. Visualizou Aaron desmaiado e Maslow pôde perceber certo desconforto no seu olhar. – Pode me responder uma coisa, garoto?

– P-posso – murmurou Maslow. Sua tontura estava começando a se amenizar, muito embora não conseguisse encarar apenas uma Celine. Notou até mesmo, em cima de sua cabeça, uma iluminação esverdeada que pôde identificar logo como uma cornucópia e uma foice.

– O que estava acontecendo aqui? – ela se agachou. As asinhas de suas botas começaram a se agitar a medida que ela estreitava os olhos na direção de Maslow. Aquilo seria ameaçador; se Maslow não soubesse que ela era uma garota simpática o suficiente para poupá-lo de qualquer coisa. – Digo... entre Aaron e Angélica.

– Aaron... bem, o Aaron estava tentando, em uma linguagem mais prática, tentando estuprar Angélica – Maslow mordeu seu lábio inferior e encarou o rosto chocado de Celine por um tempo antes de voltar a falar. – Não pude deixar Angélica na mão, principalmente depois de ela me salv...

– Não acredito que ele estava... argh! – Celine se levantou e, como se transmitisse sua fúria pelo ar, foi andando até o desmaiado Aaron, tomando cuidado para contornar a cratera de raízes.

– Maslow – O centauro Quíron vacilou em trotar até o garoto, ainda meio bobo pelo recente acontecido. – Meus parabéns, herói, você acabou de ser reclamado. Vejamos... foice e cornucópia... Deméter, a deusa da agricultura.

– Eu sou... sou filho de Deméter? – Os olhos de Maslow brilharam à medida que tentava se acostumar com a ideia. É claro que era, seu pai, um sensível agricultor, poderia muito bem combinar com a deusa da agricultura. Sua tontura parecia até ter ido embora depois disso.

– Sim, Aharkov, você já até poderá transportar seus pertences para o chalé de Deméter – disse o centauro em seguida. – Seus novos irmãos o indicarão como chegar lá e poderão se conhecer melhor. Fique a vontade, pode ir até lá quando se sentir mais confortável. Vou pedir para que os outros campistas se retirem.

Maslow deu um breve sorriso e correu seus olhos até Celine. Aaron estava imóvel entre todas aquelas raízes o encarcerando, embora estivesse acordado o suficiente para ouvir um sermão de Celine. Maslow logo entendeu que Celine e Aaron eram tipo que um... casal.

Mas o que levava Aaron a atos como aqueles? Aos olhos de Maslow ou talvez qualquer outro garoto, Celine não era o tipo de garota descartável, principalmente porque, além de ser bonita, era aquele tipo de garota que, ao mesmo tempo que é durona, é sensível como uma pétala.

Como você pôde? – Maslow pôde ouvi-la sibilando para Aaron. Seus olhos castanho-amarelados estavam infestados de lágrimas e ela tentava fungar o máximo de ar que podia em meio de todo aquele choro.

O recém filho de Deméter não podia imaginar como uma garota como Celine podia ficar com um garoto como Aaron. Ele era fútil, era apenas um mero filho de Ares que era bom apenas em brigar.

Uma coisa Maslow não entendia mesmo: qualquer pessoa que fosse amiga de Rupert estaria com toda a certeza na lista negra de Aaron. Então, como Celine podia namorá-lo se ela era irmã de Rupert?

Mas Maslow preferiu guardar estes pensamentos para depois. Estava feliz agora, porque fora reclamado e porque logo receberia os mais sinceros agradecimentos da garota que gostava, mesmo que tenha recebido uma ajudinha de sua mãe. Apenas foi para seu novo chalé, organizou suas coisas o mais rápido que pôde para enfim descansar daquele dia cansativo. Cansativo até demais.


Maslow acordou e observou o teto por alguns minutos. Estava pensando no dia anterior, na dó que estava sentindo de Celine e o ainda mais desenvolvido ódio que sentia de Aaron. Não estava cem por cento pronto para enfrentar um outro dia naquele acampamento. Estava um pouco confuso, não parecia que faziam três dias que havia chegado ali. Três dias que era apenas um garoto normal. Três dias que ainda morava com o seu pai. A saudade lhe apertou o peito.

– Maslow? – Ouviu alguém chamá-lo. Era uma garota bronzeada, de cabelos castanhos que caíam até os ombros da camiseta alaranjada do acampamento. Ela deu um sorriso breve e colocou uma foice nos pés cobertos do garoto. – Oi! Meu nome é Tess e tenho que estabelecer algumas informações para você. Todas as manhãs, nós, filhos de Deméter, nos encaminhamos até o campo de morangos para orar para nossa mãe, isso para que ela abençoe a colheita. Todos os dias os morangos se renovam, porque a magia de Deméter percorre todo seu perímetro. Para isso, quero saber se você se sente confortável de ir conosco.

– Claro! – disse Maslow no mesmo momento. Se sentiu muito animado por seus irmãos terem já o convidado para alguma coisa. Mas uma coisa o intrigou naquela garota: ele não a tinha visto ainda. Enquanto sentava na cama e agarrava suas roupas, um pouco desconfortável por estar seminu, voltou a falar. – Ei, por que não te vi na Captura à Bandeira?

– Bom... – ela se interrompeu. – é que eu levei duas flechadas no braço e tive que passar esse tempo na Casa Grande... para que Quíron me tratasse.

A garota desamarrou os esparadrapos do braço e revelou duas horríveis cicatrizes em circunferência, com aparência de que acabou de cicatrizar. Seus olhos se rebelaram do sorriso, quase que como se dissessem que não estava muito feliz. Maslow notou isso.

– E... quem fez isso? – perguntou Maslow, vestindo a camiseta do acampamento e uma calça jeans que seu pai o trouxe recentemente. Colocadas cuidadosamente no canto do quarto, Maslow pegou seu par de botas de agricultura e as calçou com agilidade.

– A conselheira do chalé de Apolo – disse Tess. Maslow se levantou, agarrou a foice pelo cabo e foram andando até a porta. – Seu nome é Jessica e é ás em arco-e-flecha. Claro que todo filho de Apolo é, mas ela tem uma habilidade diferente, mortífera. Ninguém pode com ela.

– Mas vocês estavam em algum tipo de atividade? – perguntou Maslow.

– Estávamos – respondeu Tess, em um bocejo. Deviam ser mais ou menos seis da manhã, porque a volta da circunferência invisível que cercava o acampamento estava enevoada e o clima era frio. O sol não estava muito alto, como se tivesse acabado de nascer.

A caminhada ao campo de morangos foi silenciosa e, para Maslow, o deu mais energia. Seu contato com o cheiro da floresta parecia de algum jeito renová-lo, o que aconteceu a ele quando, depois de ser derrubado pelos meio-irmãos de Aaron e entrar em contato com a terra da floresta, adquiriu mais força e agilidade.

– Chegamos – disse Tess. O campo de morangos era bem mais bonito visto de perto. Maslow não conseguiu vê-lo no dia anterior, porque foi interceptado pela visão de Aaron tentando beijar Angélica. O que mais o impressionou foi que não era apenas bonito, mas aquela talvez era a plantação mais próspera que já havia visto na vida. Podia sentir a magia no ar.

Era quase possível ver, partindo dos céus e circulando em volta de seus irmãos, uma aura de prosperidade. Podia sentir sua mãe, e sentia-se bem por isso. O ritual foi tão incrível que passou rápido e imperceptível.

Fizera mais do que irmãos. Fizera amigos.