Child of Nature

2 A filha de Nêmesis


O centauro parou na frente de Maslow, que praticamente se encolheu depois de o ter visto em batalha. Suas flechas eram velozes e precisas, o que com toda a certeza dava um pouquinho de medo. Ainda mais para Maslow, que não era um garoto tão corajoso quanto gostaria.

– Vieram sozinhos? – perguntou Quíron, dando uma longa fungada no ar.

– Sim – disse Dean de imediato, coçando sua barbicha de repetente. Mas Maslow sempre havia notado que, por mais que a mentalidade do sátiro fosse de alguém do sexto ano, ele tinha muitas espinhas e, claro, mais pelos no rosto do que um menino da sua idade. – Apenas o Sr. Aharkov, Maslow e eu. Vim na caçamba da camionete e pude avisá-los antes que algum monstro farejasse o semideus. O Touro de Colchis foi por pouco, hein, amigo?

Maslow deu o sorriso mais verdadeiro que pôde, mas pareceu muito mais amargo do que pretendia.

– Acho que é melhor eu deixá-lo aí e ir embora – murmurou o Sr. Aharkov, ainda extremamente pálido. Sua camisa xadrez de fazendeiro estava coberta de terra e musgo, até um pouco chamuscada pela proximidade que o touro teve do homem.

– Você tá bem, pai? – perguntou Maslow.

– Ah, sim, sim – mentiu o pai, coçando os fios de cabelo da nuca.

Dean e o garoto trocaram risadas, e o pai não deu muita atenção. Continuava chocado, muito embora já tivesse vivenciado coisas piores ao lado da antiga esposa, que nem ao menos se recordava de que deusa do Olimpo ela era.

– Ele já foi reclamado, Dean? – perguntou Quíron. Maslow ficou confuso.

– Ainda não, senhor – respondeu Dean, que logo percebeu a confusão do amigo. Virou o rosto para ele, e disse lentamente: – Um semideus é reclamado quando sua divindade reconhece seu filho. Um símbolo aparece em cima de sua cabeça, como um holograma, e logo sabemos de qual chalé você é. Claro que existem semideuses que nunca são reclamados, mas são casos raros – finalizou.

– Venha, garoto, vou lhe mostrar os chalés. Enquanto não for reclamado, o chalé de Hermes ficará contente em recebê-lo – piscou Quíron. – Hermes, o deus da hospitalidade... e do furto – Quando Quíron acabou a frase em deboche, um raio se materializou ao longe, muito embora nem ao menos estivesse chovendo.

Maslow virou o rosto para o pai, que apenas sorriu e vacilou na hora de acenar. Quíron nem pensou em esperá-lo, já estava trotando a dois metros de distância do garoto. Ele correu para alcançar Quíron, mas aqueles quatro cascos não eram fáceis de se alcançar.

O acampamento era bem bonito, mesmo de noite. A lua-cheia dava um contraste prateado no lago, onde numerosas canoas boiavam perto de um trapiche, cuidadosamente amarradas em toras. O terreno era rodeado por incontáveis pinheiros, e dali Maslow podia ver o campo de morangos que vira lá de baixo. Passou por uma enorme casa, que Quíron parou para lhe contar que era lá que morava, além de ser a enfermaria. Ao longe podia ver um tipo de estádio semelhante ao Coliseu.

Mas, quando finalmente chegaram em um amontoado de chalés rodeando uma fogueira, Maslow precisou descansar. Foi uma longa caminhada – pelo menos para o garoto – até lá. Quíron foi trotando na direção de um chalé simples com uma pintura maçante e um caduceu pendendo a porta. Por mais que não fosse o chalé mais bonito por ali, parecia ser o mais agradável.

O centauro deu três batidas na porta e um cara magro com nariz pontiagudo a abriu lentamente. O sono se destacava nos seus olhos cansados, até porque estava de madrugada e Maslow sabia bem disso. Meia dúzia de outros garotos se despertaram e encararam Quíron por um tempo antes de mergulharem em outro sono profundo.

– Este é Maslow Aharkov – sussurrou Quíron em pausas – Ele acabou de chegar e não é reclamado. Sei que não irão se importar se ele passar a ficar por aí enquanto seu pai divino não o reclama. Ele está cansado, acabou de dar de cara com um Touro de Colchis na estrada – O garoto alto concordou com a cabeça, um pouco lesado de sono, e bagunçou o cabelo loiro de Maslow.

– Bem-vindo, cara – disse ele. Parecia ter mais ou menos dezessete anos, e tinha um cordão no pescoço com umas seis pedrinhas coloridas.. – Meu nome é Rupert, sou o conselheiro do chalé de Hermes. Entre!

Maslow passou pela porta e deu um sorriso sonolento, pousando sua mochila arrebentada em cima de uma cama que ele escolheu aleatoriamente. Rupert e Quíron continuaram a conversar mais um pouco, mas Maslow não aguentou esperar. O sono falou mais alto. Em poucos segundos, estava dormindo profundamente.

O garoto acordou horas depois e o chalé estava vazio. Ninguém ousou acordar o garoto novo, talvez Rupert houvesse dito que Maslow chegou de madrugada e que não conseguiria fazer nada naquelas condições se não tivesse uma boa noite de sono. Depois de se trocar com uma camiseta laranja com Acampamento Meio-Sangue escrito na região do peito, o garoto abriu a porta e saiu pelo campo do acampamento. Um amontoado de crianças com camisetas iguais a dele brincavam e conversavam, produzindo um burburinho quando Maslow saiu pela porta do chalé de Hermes.

Confuso, Maslow sorriu para algumas garotas, que retribuíram risinhos sarcásticos.

– Então você é o garoto novo? – perguntou um garoto de mais ou menos um metro e oitenta de altura, com uma estatura atlética e esguia, por mais que alguns músculos se manifestassem nas regiões de seus braços.

– Sim – murmurou Maslow.

– O sátiro Dean disse que você sobreviveu a um Touro de Colchis – continuou o garoto, quase que em um tom desdenhoso. Maslow não entendeu muito bem o porquê de todos estarem daquele jeito, o encarando com pena ao perceberem que aquele garoto alto falava com ele.

– Não foi bem assim – respondeu Maslow, um pouco mais alto do que pretendia. – Quíron nos salvou e me levou ao chalé de Hermes. Ele foi gente b...

– É amigo do Rupert? – o garoto o interrompeu, pareceu dizer aquele nome com tanto ódio que seus olhos praticamente pegavam fogo. Maslow sentiu seu rosto se avermelhar de raiva. Todo o burburinho parou para assistir à cena, e ele continuou a não a entender o porquê.

– Conheci ele ontem – respondeu Maslow. – Parece ser legal.

– Quem acha o Rupert legal – disse o garoto em pausas – tá na minha lista negra.

Os punhos do garoto se fecharam e ele agarrou uma lança do chão. Começou a se mover na direção de Maslow como se fosse perfurá-lo com a lâmina, mas algo o interceptou. Era uma garota de cabelos negros e ondulados, seus olhos eram azuis e brilhavam como jóias. Porém, sua expressão era imparcial como a de uma juíza. O seu cordão, assim como o de Rupert, tinha seis pedrinhas, e eles balançavam contra o seu peito enquanto o garoto alto tentava se desvencilhar da mão da garota, segurando o braço dele com força.

– Me solta, vadia!

– Do que você me chamou? – A garota entortou a mão dele e a empurrou ao pulso até ele gritar. Da sua bainha, tirou uma faca pequena, porém afiada, raspando no pescoço dele em ameaça enquanto fazia um mata leão. Todos ali presentes colocaram a mão na boca, e o garoto começou a ficar sem ar. Quando ela o soltou em misericórdia, um garoto de cabelos loiros até o ombro a imobilizou pelos braços, enquanto o menino esguio que apontara a lança para Maslow, estremecendo, apontou a sua arma para a garota.

Mas Maslow não podia deixar a garota que o salvou ser perfurada por aquele babaca.

Foi rápido. A única coisa que Maslow fez foi largar um chute com a sola do tênis bem na costela do garoto, que gritou muito mais alto do que quando a garota o entortou a mão. O menino loiro que a segurava ficou tão neutralizado ao ver o amigo levar um chute nas costas que a garota teve a chance única de girar pelo braço do garoto e o finalizar com uma joelhada na barriga.

– Obrigado – disse Maslow.

– Obrigada – disse a garota quase que no mesmo segundo, sem tirar sua expressão indiferente do rosto. – E, a propósito, de nada. Sou filha de Nêmesis, e prego a justiça nesse acampamento de ignorantes. – Só assim que mostrou uma expressão, mas desta vez um único sorrisinho de soberba, quase que imperceptível, mas mesmo assim Maslow não conseguiu tirar seus olhos da garota por um único segundo.