Meu sábado foi muito interessante, como todos os outros. Comprei o presente de Pete, o novo cd do Four Year Strong, e fiquei jogando Halo o resto do dia com o Lawrence. Ele me fez milhões de perguntas sobre a festa, o que me irritou um pouco. Lawrence sempre foi muito mais tímido do que eu e eu sei bem o que é tentar começar um assunto e não conseguir dizer nada com nada. Quando nossos pais se casaram, ele mal olhava pra mim. As coisas melhoraram com o tempo, claro, mas ele nunca agiu como um irmão mais velho, de fato. Depois de um tempo, subi para o meu quarto e tirei o violão de dentro do armário. Peguei meu caderno de rascunho debaixo da cama e comecei a tocar algumas das melodias que eu tinha terminado. No acústico, nem parecia grande coisa, mas se eu tivesse outros instrumentos, com certeza iria ficar melhor. Joe me ligou 40 minutos depois, querendo saber o que comprar para Pete:

- Eu comprei o cd novo do FYS. Porque você não compra aquele dvd que saiu do Blink?

- Blink 182? Eca. Por que eu não posso dar você pra ele? Com certeza ele iria gostar... E tem bastante fita vermelha aqui em casa.

- Cala a boca, Joseph — Deixei o celular no viva-voz e afundei a cabeça no travesseiro. Não acreditei quando ele disse aquilo — E o presente é pra ele. Você não tem que gostar.

- Tá. Ai, eu vou até a sua casa e a gente vai junto pra lá, né?

- Claro.

- Hm... Então tchau. Eu vou comprar o dvd. Até amanhã.

Desliguei o telefone e toquei todo o meu "setlist" mais algumas vezes. Depois, larguei tudo no chão e fiquei jogando Pokémon Ruby até dormir.

Acordei tarde no dia seguinte e fiquei trocando os canais da tv até que comecei a ficar com fome. Todos tinham saído pra algum lugar, então fiz dois ovos e bacon e assisti três episódios repetidos de House. Depois, fiquei no meu quarto escolhendo o que iria vestir. Eu não ligava muito para moda e a coisa mais fashion que eu tinha era uma camisa promocional da Comic Con do ano passado. Decidi por uma camiseta azul e jeans e peguei emprestado um dos casacos antigos do Lawrence. O tempo estava meio nublado. Joe apareceu duas horas depois, vestindo quase a mesma coisa que eu e ficamos jogando Yugi-Oh no chão da sala até as seis, quando meus pais e o Lawrence chegaram.

- Que horas é a festinha de vocês? Vão querer carona?

- Às oito, Will. E não, a gente vai a pé mesmo. Não é tão longe.

- Tem certeza, filhão? — Quando ele chegava a esse ponto, eu sabia que ele queria era distância de mim.

- Eu o Joe vamos ficar no meu quarto, tá? — Puxei-o pelo braço e tranquei a porta assim que subimos. Joe me olhou irritado, mais pelo fato de termos deixado a partida pela metade lá embaixo.

- O que tá rolando com a sua família?

- Nada, é só que eles ficam me enchendo o saco com a história do Pete e tudo mais...

- Sei... Pensei que eles já tinham se acostumado com você gostando de garotos.

- Parece que não... Olha, vamos ficar aqui até dar a hora, tá? É melhor.

- Tô de boa.

Saímos de casa às oito e quarenta e cinco e pegamos um táxi até o lugar da festa. Joe pagou a corrida. Estava mais frio que de manhã. Chegamos e Pete estava lá, na porta, recebendo os convidados, lindo. Vestia jeans escuros, tênis e um dos seus característicos hoodies coloridos. Quase morri quando ele acenou para nós e nos cumprimentou.

- Você veio! — Ele me abraçou e eu fiquei completamente sem reação — Oi Joe.

- E ai, cara? Feliz aniversário — Joe estendeu a caixa verde com nossos presentes e ele abriu na hora, sorrindo ao descobrir o que era.

- Obrigado. Venham, todo mundo já chegou!

Entramos no grande salão de festa e Pete nos deixou na mesma mesa em que estavam nossos colegas da escola. Joe começou a conversar qualquer coisa de judeu com Gabe e eu fiquei sobrando. A decoração do lugar não era muito chique e tudo mundo estava vestindo jeans e camiseta por baixo dos grossos casacos. Uns três casais dançavam na pequena pista ao lado da piscina e, do lugar onde estávamos, dava pra ver o começo de um jardim, iluminado por vários postes. Pete andava pra lá e pra cá, rindo alto e abraçando todos no lugar. A música que ecoava por diversos auto-falantes era bem conhecida: Basket Case do Green Day. Não resisti e fiquei batendo o pé no ritmo até o final.

Pete voltou à nossa mesa, dessa vez acompanhado. O garoto ao seu lado era tão alto quanto eu e vestia roupas não tão diferentes das dos demais. Ele sorria meio tímido e ajustava os óculos toda vez que Pete falava o quão bom ele era na bateria. Seu nome era Andy.

- Então... Você tem uma banda? — Joe perguntou, quando Gabe e Travie saíram para ficar com Pete por aí.

- Não... Quer dizer, o Pete tem essa ideia de montar uma banda, mas ainda não temos nem guitarrista nem vocalista.

- Eu toco guitarra e tô no mercado. O Rick aqui tem algumas composições que são muito boas também. E ele canta... Muito bem.

- Não é nada demais...

- Não precisa ser. Também não somos grande coisa. Vai que funciona? O Pete tem que saber disso.

- Por que você não vai procurá-lo, Patrick? Pergunta o que ele acha.

- E-eu?! — Joe balançou a cabeça e Andy concordou.

- Tá...Levantei e comecei a procurar por ele. Ouvi risos vindos do jardim e fui até lá. Pete estava com Gabe e, quando me viu, correu até mim e me abraçou forte. Dessa vez eu não congelei e o abracei de volta. Ficamos uns 30 segundos assim.

- Eu vou... Pra lá — Gabe voltou para a festa, deixando nós dois sozinhos lá.

- Olha, o Andy... Ele disse que você tem uma banda e... Bom, eu e o Joe... Er, queríamos saber se podemos entrar.

- C-claro, vai... Ser ótimo.

- É... — O assunto era aquele. Eu não sabia mais o que falar e ele continuava a me olhar como se eu realmente fosse interessante — Acho que eu vou...

- Não, fica. E-eu queria falar com você...

- Fala...

- É que eu não sei como te dizer isso... — Ele tirou o hoodie e o amarrou na cintura, deixando a camiseta preta do Metallica à mostra. E os músculos também. — Eu... Hm...Ele se aproximou de mim e agarrou meus braços, me puxando, fazendo nossos lábios colidirem. Conforme ele me puxava, o beijo se aprofundava. A boca dele era doce, quente e urgente. Ele soltou meus braços, agarrando minha cintura e eu simplesmente voei no seu pescoço. Aquele beijo, aquela intimidade era tudo o que eu mais queria na vida e eu sentia meu coração bater cada vez mais rápido e todo o meu corpo pulsava. Como a vida nunca é justa e comecei a ouvir Joe gritando por mim. Ele entrou no jardim e eu empurrei Pete, os pulmões ainda vazios e o rosto quente.

- Er... Minha mãe ligou... Vamos?

- Gah? - Ótima resposta, Patrick. Bravo.

- Hm... Feliz aniversário, cara — Ele se aproximou e apertou a mão de Pete. Depois, se virou para mim — Vem, Rick.

- E-e-e-u...

- Vem, Patrick — Joe me puxou pelo braço e assim saímos da festa. Ele perguntou o que tinha acontecido e eu contei sobre o beijo. Ele me zuou até eu chegar em casa. Abri a porta devagar e vi Lawrence deitado no sofá, roncando e com a tv ligada no canal de luta. Desliguei a tv e fui até o quarto dele buscar um cobertor. Depois de cobrí-lo, tirei o casaco, deixando no braço do sofá, e subi as escadas. Na porta do meu quarto, tinha um envelope colado com fita adesiva. Tirei o envelope e o abri, tirando um pequeno pedaço de papel escrito com a letra que eu facilmente reconheci como a de Lawrence. O papel era minúsculo e continha apenas "Eu + Você = Assunto Importante" escritos com caneta esferográfica. Fiquei uns bons minutos sem entender o que ele queria dizer, até que uma luz se acendeu na minha mente. Era só palpite, mas...

- Lawrence...

- Que é? — Ele estava bem ali na minha frente, o cobertor enrolado no braço e o casaco amarrado na cintura. Pulei de susto e deixei o papel cair no chão. Não abaixei para pegá-lo.

- Q-quer um abraço? — Eu não sabia exatamente o que fazer, mas sabia que tinha que faze alguma coisa.

- Depois. É tarde. Vai dormir.

Ele se fechou no quarto e eu me fechei no meu. Tomei banho — Quente, claro — e fiquei pensando um pouco na situação de Lawrence. Coloquei o pijama e deitei na cama. Lembrei de tudo que tinha acontecido e sorri. Ainda dava pra sentir o gosto da boca dele na minha e eu me senti tão feliz, tão vivo. Era a melhor sensação de todas.