Acordei com o travesseiro de Pete atingindo meu rosto com força. Pulei com o susto e tudo o que eu ouvia era a risada dele. Na hora, vi vermelho e só joguei os travesseiro de volta nele, fazendo ele rir ainda mais.

- Ai, calma Rick.

- Cala a boca. Que horas são?

- Quase seis.

- Quase o quê?

- Pensei que surdez não tava no seu pacote.

- Por que me acordou antes das seis?

- Os Wentz acordam cedo. E eu fui buscar seu uniforme — Ele apontou para a beirada da cama, para comprovar o que dizia — Quer café?

- Quero. V-você foi lá em casa? E quem te atendeu?

- Sim e sua mãe... Qual o problema?

- Ah não, você não fez isso! — Peguei a camisa do uniforme e vesti, bagunçando ainda mais o meu cabelo — Você disse que era meu namorado?

- Hm, claro. O que foi?

Apenas grunhi e vesti de novo a calça jeans de ontem. Peguei o casaco e enrolei em volta da cintura. Pete me olhava com seriedade. Ajustei os óculos no rosto.

- Você tem vergonha de mim?

- Não! É que meu padrastro vai surtar quando souber. Não que já não fosse óbvio, mas eu acho que essa pode ter sido a última gota...

- Como assim?

- Longa história, depois te conto. Que horas são agora?

- Seis... E oito.

- Odeio você.

- Não, não odeia nada — Ele se levantou da cama e me abraçou, me fazendo sentir o perfume delicioso dele.

- Meninos... — A mãe dele apareceu na porta e nós nos separamos imediatamente — Desculpa, mas vocês têm que ir.

Saímos do quarto e descemos para a cozinha pegar o lanche que a mãe dele tinha feito para nós. Ele entregou minha mochila e fomos direto para a escola. Ainda nem eram sete horas direito.

- Sério, pra que tão cedo?

- Sei lá, já é costume. Vem comigo.

Ele me puxou pela mão até a parte de trás da escola, onde os professores estacionam os seus carros, e me mandou jogar a mochila por cima do muro que dava conexão com o campo de futebol. Ele fez isso com a mochila dele e começou a escalar o muro, logo caindo do outro lado e saindo do meu campo de visão. Fiquei meio chocado no momento, mas também joguei a minha. Pete gritou para que eu o seguisse, mas eu sabia que era impossível escalar aquilo.

Depois de alguns segundos, Pete voltou, se sentando em cima do muro, com os pés apontados para mim. Pulei e consegui agarrá-lo, mas quase caímos. Tentamos mais de seis vezes e finalmente passamos para o gramado. Do outro lado, pegamos as mochilas e fomos nos sentar na arquibancada. O vento frio soprava do leste e a grama dançava enlouquecidamente, de tão grande que estava. Coloquei o casaco.

- Vamos ficar aqui até o sinal tocar.

- Tá... Quando você foi falar com a sua mãe ontem... O que foi?

- Nada. Só perguntei se você podia dormir lá.

- Só isso?

- Só. Por quê?

- Eu... Não sei. Você tava chorando em Millwaukee e parecia triste com alguma coisa...

- Eu não sou feliz o tempo todo, Rick.

- Foi alguma coisa que eu fiz?

- Não, Rickster. Você não fez nada.

- Tá...

Ficamos em silêncio por um bom tempo. Ainda não estava no horário, então resolvi fazer alguns deveres de casa que eu tinha esquecido. Pete sempre dizia que lembrava dessa e daquela matéria, mas nunca conseguia resolver os problemas. Ele passou o braço pelo meu ombro enquanto eu terminava o dever de história e começou a morder a minha orelha. Aquilo era muito bom, por sinal, mas não durou muito. O sinal finalmente tocou, e tivemos que entrar. Prometi à ele que ficaríamos juntos no recreio, o que queria dizer que eu tinha que chutar Joe outra vez. Não iria ser muito difícil.

Saímos do campo direto para o vestiário que se ligava com o corredor central. Cada um foi para um lado e eu acabei encontrando Joe, no caminho para a aula. Ele parecia feliz.

- E ai?

- Fala.

- Eu te liguei ontem, sua mãe disse que estava na casa do Pete. Ai eu liguei de novo e ela disse que você ia dormir lá...

- Seu pervertido desgraçado! — É, aquilo tinha saído alto demais, mas não consegui me conter — Eu dormi lá por causa da chuva.

- Sei... Onde você dormiu?

- Para, Joe.

- Agora você vai falar — Entramos na sala e nos sentamos no fundo, como de costume. Eu não me lembrava de quem era a aula, mas peguei o primeiro caderno que vi na mochila e coloquei em cima da mesa — Anda, Rick.

- Eu dormi na cama dele, satisfeito?

- Wow.

- Cala a boca, tá? A gente não fez nada.

- Velho, eu sabia.

- Para.

Loki entrou e nós começamos a aula. Metade dela passamos escrevendo resumos e questionários para a próxima prova e a outra metade, completamente em silêncio, depois que Vicky levou uma bronca enorme e ficou sem o celular. Acho que ela estava chorando...

Weiss entrou logo depois e o clima ficou mais tranquilo. Ele passou um trabalho em grupo e, por pura sorte, consegui ficar com Joe. O resto do grupo era Nate e Alex, que eram tão nerds que chegava a doer. O trabalho era sobre alguma guerra e tínhamos até terça para entregá-lo. Marcamos de fazer o trabalho na minha casa, no domingo.

O resto da minha jornada foi bem tranquilo. Fiquei com Pete no almoço e ele disse que tínhamos uma hora no escritório da Island, na terça que vem. Comentei isso com Joe quando voltamos para a aula de artes e ele quase chorou de emoção. Joe já tinha estado em várias bandas, mas nenhuma delas conseguiu se firmar. E nós nunca fizemos um show se quer.

A última aula acabou e eu fui para casa com Pete. Minha mãe estava em casa e recebeu a gente. Ela fez um grande bolo de chocolate e nós ficamos fazendo os deveres na sala enquanto comíamos. Ela parecia gostar de Pete, como se já se conhecessem há muito tempo. Por um momento, tive esperança.

Mas como Deus parece me amar demais, toda a minha esperança foi pro ralo assim que William chegou em casa. Ele já chegou batendo a porta com força, fazendo todo mundo parar. Estávamos jogando Call of Duty e mamãe acabou se explodindo com a granada. Ele olhou para mim e depois para Pete e rosnou. O cabelo dele estava bagunçado e os joelhos da calça sujos de terra.

- O que está acontecendo aqui?

- N-nada Will — Ela deixou o controle no sofá e se levantou. Pete e eu nos entreolhamos — Só estamos jogando.

- Quem é esse?

- Meu nome é Peter, senhor.

- E você menino — Ele apontou pra mim enquanto tirava o grosso casaco. Nem fazia tanto frio assim lá fora — Não fala com o seu pai?

- Você. Não. É. Meu. Pai.

Me levantei e corri escada acima até o meu quarto. Não tranquei, apenas fechei a porta com força e me joguei na cama, já com o rosto cheio de lágrimas. Não chora, não chora, não... Argh! Pete apareceu algum tempo depois, trancando a porta e sentando na cama ao meu lado. As mãos dele corriam pelo meu cabelo e a sensação era muita boa. Tentei parar de chorar de uma vez.

- Você tá bem?

- Acho que sim... Eu-eu só hm, acho que precisava disso.

- Tudo bem.

- Ele foi embora?

- Não, eles foram jantar.

- Hm...

- Ele me disse umas coisas... Sobre er, seu irmão ou coisa assim, e não parava de olhar pra mim... Era disso que você tava falando ontem?

- É... Desculpa por isso — Sentei na cama e o abracei, secando as lágrimas na camisa dele.

- Não é sua culpa.

- Eu sou muito dramático...

- Isso é bem verdade — Ele me abraçou forte e beijou o topo da minha cabeça — Drama queen.

- Blé.

- Calma, eu quiz dizer no bom sentido.

- E existe um bom sentido?

Saí do seu abraço e voltei a deitar na cama. Olhei para o relógio na cabeceira, que já dava quase oito, e suspirei. Pete tinha que ir embora. Eu não queria que ele fosse para casa. Queria que ele ficasse aqui, me consolando. Eu precisava de carinho, de atenção. Precisava dele por essa noite. Por todas as noites, se isso continuasse do jeito que estava.

- Acho... Hm, eu tenho que ir. O jantar já deve ter saído.

- Tchau então — Afundei o rosto na cama e prendi a respiração. Sou infantil e pronto.

- Para de ser criança, Patrick. Olha, a gente se vê segunda, tá? — Me virei e olhei para ele, que sorriu. Minha respiração estava irregular e meu rosto coçava, mas não resisti e sorri de volta — Ei, fica bem, tá?

- Tá.

- Eu vou sair pela porta dos fundos. Desce lá na cozinha e come alguma coisa.

- Não tô com fome agora... — Mentira — O-o que vai fazer amanhã?

- Sei lá. Por quê? Tem algum plano?

- Não... Só perguntei...

- Sei. Eu te ligo e a gente pensa, ok? Até mais, Rick.

- Tchau.

Ele levantou da cama e saiu, fechando a porta gentilmente. Rezei para que William não o visse. Meu estômago estava roncando, mas eu me forcei a não sair da cama. Não queria ver nem falar com ele, talvez pra sempre. Pensei em ligar para Lawrence, pensei em ligar para Joe, até disquei o número de Pete, mas não sabia direito o que falar. É muito ruim quando você tem todas essas palavras na cabeça, mas nenhuma delas faz sentido quando você fala. Olhei para o relógio de novo, e agora ele marcava 08:36. Minha cabeça estava a mil e eu não conseguia me concentrar em um único pensamento. Dormir foi a única solução.

Notas finais
Urgh, me diz se existe coisa mais fofa que isso: http://25.media.tumblr.com/tumblr_m3obnr9KEJ1rsgh44o1_500.jpg