Chicago Softcore
7 Capítulo 7
Os dias foram passando e a quinta-feira do ensaio chegou. Joe e eu trabalhamos muito com algumas faixas e já tínhamos dez quase prontas para o show. Joe me emprestou um cd do Arma Angelus, a antiga banda do Pete e do Andy e eu gostei muito das letras. Pete escreveu todas.
A casa do Andy era no subúrbio de Millwaukee, então tivemos que pegar um ônibus. Pete veio conosco e nós ficamos de mãos dadas durante toda a viagem. Chegamos na rua dele uma hora depois. Algumas crianças brincavam e corriam pela rua enquanto as mães conversavam nas calçadas. Parecia tudo calmo e católico demais para ter alguma relação com o Andy.
A casa dele era a última da rua sem saída. A fachada era clara e tinha um carro cinza estacionado na garagem. Pete bateu na porta algumas vezes e ele atendeu logo depois.
- E ai, caras? — Ele abriu a porta e nós fomos direto para a cozinha.
- Legal sua vizinhança, Andy. Você sempre morou aqui?
- Sempre.
- Ma-neiro.
- Então, vamos? Eu tenho uma ideia nova pra Growing Up — Pete estava mesmo empolgado — Eu sei que a gente tem que acabar Calm, mas essa linha de baixo é perfeita.
- Tá, dude. Já vamos. Alguém quer suco?
Descemos até o porão dele e começamos a ensaiar. Duas horas depois, tínhamos terminados todas as músicas. Voltamos a parte de cima da casa e ficamos jogando video game enquanto Pete falava com um produtor amigo seu. Ele queria que fizéssemos um álbum.
Ficamos no Andy até as quatro. Nosso ônibus chegou alguns minutos depois, mas Pete me pediu para esperar o próximo. Achei meio esquisito, mas concordei. Quando faltavam apenas 10 minutos para o ônibus chegar, Pete perguntou se podíamos ir a pé.
- A pé?! Tá maluco?!
- Não é tão longe assim, vai.
- Você tá brincando comigo, né?
- Não, eu... Eu só queria ficar um tempo com você... — Ele corou um pouco e olhou para o chão, só levantando o rosto quando o ônibus chegou — Seu ônibus chegou.
- Nosso ônibus chegou, Pete. Para com isso e vamos pra casa.
- Eu vou a pé.
- Pete, não faz isso comigo.
Ele não me ouviu e começou a andar para fora do ponto. O motorista do ônibus me perguntou se eu entraria e eu pensei porra Pete, antes de correr o máximo que eu consegui para alcançá-lo. Corri, corri e não o achei. Comecei a me desesperar porque não conhecia nada da cidade e estava completamente sozinho. Pensei em voltar para o ponto de ônibus e tentar ligar para ele, mas comecei a ouvir risadas vindas de um beco próximo de onde eu estava parado. Eu não tinha percebido ninguém ali antes e aquilo me assustou.
Segundos depois, quatro caras saíram de dentro do beco. Eles vestiam roupas pretas e rasgadas, tinham olheiras enormes em baixo dos olhos e cheiravam a cachorro molhado. Eles começaram a se aproximar de mim e meu coração veio na boca; Guardei o celular no bolso da calça e planejei um jeito de sair dali. Não que minhas ideias tivessem algum fundamentos, mas eu estava apostando em tudo.
- Oi — O mais alto e mais pálido dos quatro deu mais um passo na minha direção, sorrindo feito um maníaco. Ele tinha a barba por fazer e parecia ter uns vinte e tantos anos — O que um garotinho tão bonito faz aqui, sozinho?
- Eu-eu tô indo pra casa — Foi tudo que eu consegui responder.
- Hm... Sabia que não era daqui — O sorriso dele crescia cada vez mais e eu já tinha começado a suar — Diz ai guri, você tem dinheiro?
- N-não — Não era bem mentira. Eu só tinha o dinheiro do ônibus e uns trocados pro lanche.
- Mentira! — Ele agarrou meus braços com força e bufou no meu rosto, me fazendo sentir o cheiro do álcool. Seu sorriso tinha finalmente desaparecido e eu não sabia se isso era bom ou ruim. As unhas dele penetravam aos poucos na minha pele e eu não sabia mais o que fazer. Minha visão já estava ficando turva e a última coisa que eu queria era ficar inconsciente agora — Me diz cadê o dinheiro!
- Solta ele agora! — Quase não aguentei quando ouvi a voz de Pete ecoar pelos meus ouvidos.
- Ou o que? Sai daqui, bicha.
- Eu mandei soltar ele.
A personificação do demônio bêbado voltou a sorrir e me jogou no chão com força. Os amiguinhos dele ficaram rindo enquanto eu tentava me levantar. Nisso, Pete passou a ficar na minha frente, de cara com o bando. Quando consegui ficar de pé, notei que um dos caras tinha uma faca e outro, um taco de beisebol. Eu nunca fui religioso e mal ia a igreja, mas comecei a rezar para todos os deuses possíveis no momento. Eu estava com tanto medo, tanto, que minhas mãos estavam tremendo e parecia que minha asma tinha voltado com tudo. Nesse meu pequeno ataque, Pete continua a falar com o bando, que ria sem parar. O único não-tão-Dracula da trupe não tirava os olhos de mim, e ficava lambendo os lábios sem parar. Nunca senti tanto nojo na vida. Depois de um tempo assim, Pete me tomou pelo braço e nos viramos para ir embora. Quando atingimos a multidão do lado de fora da "bolha" que cercava o beco, Pete sussurou no meu ouvido: "Corre como você nunca correu na sua vida". E saiu correndo por entre as pessoas que passavam. Eu fiquei paralisado na hora, mas o acompanhei. Dessa vez não o perdi.
Paramos alguns metros depois, numa lanchonete. Sentamos em um dos bancos do lugar e tentamos recuperar o fôlego. Olhei para Pete pela primeira vez e percebi que seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado. A culpa invadiu completamente o meu corpo.
- Por que você não entrou na droga do ônibus?! — O rosto dele estado franzido, mas seu tom de voz estava mais para preocupação do que para raiva — Eles podiam ter... Eles... Você podia ter morrido lá.
- D-desculpa. Eu... Eu fui procurar você, mas eu esqueci que não sabia aonde estava. Millwaukee não é bem minha jurisdição. Eu devia ter te ligado.
- Eu desliguei o celular.
- Eu fiz alguma coisa? — Eu não sabia bem como perguntar, não sabia se ele queria mesmo responder — Você... Você tava chorando...
- Você não fez nada. Eu sou um idiota às vezes. Só isso.
- Tem certeza? Pete, me conta.
- Às vezes eu fico meio assim... Não é nada demais, sério.
- Hm...
- Vamos embora? Tô cheio daqui. E tô com fome.
Ri da última parte, o que fez ele rir também. Pelo menos eu não o tinha magoado. Voltamos para casa de táxi mesmo, juntando todo o dinheiro que tínhamos. Quando olhei o relógio, já eram seis horas e o céu já estava escurecendo. O taxi parou em frente à casa de Pete e cantou pneu, saindo pela via principal. Entramos e a casa estava vazia, o que me deixou meio apreensivo. Não de um jeito ruim, claro. Comemos alguns pedaços de bolo escondidos no canto da geladeira até não aguentarmos mais. Depois, ficamos vendo um filme de policial qualquer até que minha mãe me ligou. Já tinha se passado uma hora.
- Mãe?
- Patrick, aonde você está?!
- Eu estou na casa do Pete... Um amigo — Olhei para Pete, mas ele estava entretido demais com o filme para ter ouvido — Eu já tô indo.
- Já viu a chuva que tá lá fora? Aonde você se meteu o dia inteiro, filho? Você comeu alguma coisa?
- Mãe, mãe! Uma coisa de cada vez. Eu tava no ensaio da banda, pensei que tinha te falado — Me levantei do sofá e caminhei até a janela, finalmente notando a chuva, abafada pelo barulho alto do filme — E-eu não sabia que tava chuvendo... Assim.
- Como você vai voltar pra casa, filho?
- Patrick, quem é? — Pete gritou do sofá, finalmente percendo que eu não estava mais lá.
- Shhh- Mãe, eu hm, eu posso dormir aqui hoje? Como aqui onde? Eu acabei de falar que estou na casa do Pete!
- Não, filho. Vem já pra casa. Se você correr-
- Nessa chuva é impossível. Ainda acho melhor eu ficar aqui.
Demorei mais consegui convencer minha mãe de que seria melhor se eu ficasse com o Pete essa noite. Nem preciso dizer que ele surtou com a notícia, né? Ele praticamente me lançou escada acima para o quarto dele e trancou a porta. Meu queixo foi ao chão quando ele tirou a camisa e me jogou na cama, com força. Meu coração batia forte demais e eu senti todo o meu corpo ferver.
Ficamos nos agarrando por uma hora talvez quando os pais dele chegaram. Primeiro, houve um silêncio assustador e depois, a mãe dele começou a bater na porta. Eu congelei na cama enquanto ele levantava para atendê-la. Ele abriu a porta até o final e quando ela me viu deitado lá, arfando e sem camisa, senti que ela ficou constrangida. Ela chamou Pete para fora do quarto e o olhar dele quando ele fechou a porta era indecifrável.
Eu fiquei esperando por algum tempo. Pensei em sair do quarto para saber o que estava acontecendo, mas me contive. Quando Pete voltou, seu rosto era sério e eu cheguei a ficar com medo.
- O que aconteceu?
- Nada. Você pode dormir aqui.
- Você tem um colchão ou alguma coisa assim porq-
- Quê? Quem disse que você vai dormir longe de mim?
- E-eu vou dormir com você?
- Claro. Por que?
- Não, nada. É que... Sei lá.
- Calma, tá. Eu não vou estuprar você. Agora, vamos dormir, tá?
- Tá. Chega pra lá um pouco.
- Qual é? A cama é minha.
Deitamos e eu me virei para a parede, dando espaço para Pete me abraçar por trás. A respiração quente dele batia contra minha nuca, o que causava uma sensação muito boa. Não demorei muito para dormir naquele noite.
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