Chegamos na casa de Lawrence por volta das duas. Scott estava na porta, vestindo um terno cinza e com uma pasta na mão. Ele apertou a mão de Pete e beijou minha bochecha antes de ir embora com o carro. Entramos e Lawrence nos deixou na sala. Pete agarrou meu rosto e beijou minha bochecha com um estalo. Ele parecia muito feliz. Até demais.

Ele continuou atacando meu rosto até que nossos lábios colidiram. Agarrei a camisa dele e o puxei pra perto. O beijo era calmo e quase conseguia sentir o gosto do sanduíche de algumas horas atrás. Uma das mãos dele passou das minhas costas para o meu cabelo, fazendo meu boné cair.

- Arram — Nos separamos com o susto, meu coração batendo na boca — Eu pensei que vocês tinham vindo passar um tempo comigo, mas tô vendo que não, né?

- Foi mal...

- Sei. Pete, vem cá. Vou te mostrar o primeiro álbum de fotos do Patrick.

- O que? Não! — Segurei firme o braço de Pete, que já estava se levantando do sofá — Por que você está fazendo isso?

- Deixa eu ver, Rick. Qual o problema?

Soltei o braço dele e os dois foram correndo escada acima. Fiquei chateado no começo, mas, depois de alguns minutos, o tédio falou mais alto. Decidi fazer um tour pela casa, já que era a minha primeira vez lá. Comecei pela sala mesmo. O grande sofá ficava bem no meio do cômodo, nem tão perto nem tão longe da tv e da lareira. No canto esquerdo perto da porta, havia uma prateleira cheia de livros, provavelmente de Scott, e nas paredes, várias fotos em preto e branco. Me encontrei em várias delas: A maioria era da vez que comemoramos meu aniversário de 14 anos no Michigan e começou a chover do nada.

- Sabia que você iria gostar — Lawrence apareceu do meu lado e passou o braço pelo meu ombro.

- Vocês se divertiram lá em cima?

- Claro, ele adorou. Principalmente aquelas que sua mãe tirou de você na banheira.

- Como você conseguiu essas fotos?! Você nem morava com a gente ainda. Eu tinha, sei lá, dois anos!

- Você tinha um ano e quatro meses. E eu tirei cópia de todos os seus álbuns de família antes dos nossos pais se casarem.

- Maníaco.

- Fofo.

- Para com isso!

- Ai, agora é minha vez de interromper: Quando sai esse almoço? Porque eu tô morrendo de fome aqui — Pete já tinha se instalado de novo no sofá.

- Hm, cozinhar é a parte do Scott. Tudo bem se eu pedir uma pizza?

- Pizza pro almoço, Lrence? Lindo isso.

Ele deu de ombros e ligou para a pizzaria mais próxima. Pete me convenceu a subir para o segundo andar e nós acabamos deitados na cama do quarto de hospedes, ouvindo Always no meu celular. Achei que era o momento certo de perguntar:

- Pete, por que você estava chorando em Millwaukee?

- Não foi nada.

- Foi sim. Me conta.

- A gente pode fazer um acordo.

- Como assim?

- Tem umas fotos suas... Com o seu pai. Quero saber o que aconteceu.

Golpe baixo.

- Então, topa?

- Uma coisa não tem nada a ver com a outra, Pete.

- Eu só quero saber porque você é assim.

- Idem.

- Então vamos começar. Eu primeiro: Como era o seu pai? Qual é o nome dele?

- Patrick. Ele parece comigo, quer dizer, eu pareço com ele. Ele sempre me levava pra jogar basquete na quadra perto da onde a gente morava, mesmo eu sendo baixinho e gordo. E depois nós íamos nadar no Michigan até não aguentar mais.

- Que legal.

- É... Minha vez: Por que você estava chorando em Millwaukee?

- Eu-eu tava pensando... Não tem nada a ver com você. Eu fico assim às vezes.

- Como assim?

- Não, senhor. Agora é a minha vez; Por que seus pais se separaram?

- Err... Hm... Pára... — Eu tava mais segurando as lágrimas. Meu nariz começou a escorrer e eu me sentia de novo na primeira série — Pára, Pete.

Não deu mais. Eu desabei de um jeito que eu nunca tinha feito. Nem com meu psicólogo. Pete me abraçou forte e beijou minha testa. Falar dos meus pais ainda era complicado pra mim. Era difícil dizer que eu ainda sentia falta de um tempo que não vai voltar mais; Botar isso pra fora foi um sacrifício.

- Tá tudo bem agora, Patrick — Pete me mantinha colado à ele e parecia que estava chorando também.

- Tricky... — Era Lawrence. Se ele tinha ouvido tudo...

- Eu... Eu ainda quero saber — A camisa dele abafava o som e eu não sabia se ele estava mesmo me ouvindo — Como assim? O que você tem?

- Eu te digo depois, tá? Fica calmo.

--

Duas horas se passaram desde o meu "surto". Lawrence trouxe o lanche (bolo de chocolate e leite quente) e Pete não tinha respondido a minha pergunta. Eu estava me sentindo traído. Não tocamos mais no assunto e Lawrence chegou a tirar algumas fotos da parede; Eu me sentia mal. Pete tinha o braço em volta da minha cintura, mas olhava fixamente para a tv e não dizia uma palavra. Eu ainda queria saber. Precisava saber. Só assim eu poderia ajudá-lo.

- Pete...

- Hm?

- O que você tem?

Ele não olhou para mim; apenas respirou fundo e disse:

- Eu tomo remédios, sabe? Remédios fortes. E tenho que ir ao pscólogo todo mês. É tipo depressão. Às vezes eu tenho pequenos surtos, nada sério. Já foi pior.

- Como pior?

- Não sei, nunca me lembro. Costumo acordar em lugares estranhos e sem memória. Acho que não aconteceram muitas vezes...

- Hm.

- É...

- Hm — Ok.

- Meu pai tem outra família agora. Eles moram no Kansas, eu acho. E... Ele tem uma filha de 12, Susan. A gente já se falou por telefone uma vez. Ela é bem legal.

- Já quis morar com ele?

- Desde que ele foi embora. Não que eu não goste de morar aqui, mas...

- Entendo... Hm, olha: Eu sei que eu vou ser meio difícil de lidar mas, promete que vai tentar? Tipo, vai ficar e cuidar de mim?

Dessa vez, ele olhou direto nos meus olhos e eu senti todo o meu corpo derreter. Os olhos dele refletiam tudo que eu sempre procurei em todos a minha volta: Afeto, compaixão. Pete me amava, eu tinha certeza.

- Claro.