Chiaroscuro

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Notas iniciais
Boa noite cavaleiros e amazonas. Aqui quem escreve é a Lu. Sejam bem vindos a mais um capitulo mensal de Chiaroscuro, espero que estejam gostando de ler tanto quanto estamos gostando de produzir. Obrigada aos que esperam pacientemente pela nossa postagem, demoramos? Sim, mas é por querer trazer qualidade e espero que esteja dando certo. Bem, sem mais delongas, aproveitem o que preparamos para hoje. Beijos!

Memorial Éfyge

Domínio Restrito de Star Hill

Santuário de Athena, Grécia — Século XVIII


A paz era um estado de espírito. Ali, entre os mortos, para ela era fácil alcançar este modo. Tão natural quanto seu dom paranormal, sua habilidade de se familiarizar com os que agora estavam à sua volta. Era verdade, tinha mais afinidade com os idos do que com os que permaneciam junto à ela. Para Kálida, isso nunca incomodou, pelo contrário, se orgulhava de deter um talento exclusivo de raros guerreiros como Sage e Hakurei, e também possuía sua própria linha direta com o além. Sua própria conexão.

A menina de longas e cacheadas madeixas vermelhas, sempre bagunçadas e esvoaçantes em contraste com seu pequeno e harmonioso rosto, equipada com seu traje mirim de treino sobre a tradicional veste de seu povo, uma longa saia Kilt até os joelhos, possuía outro talento tão brilhante e espantoso quanto convocar espíritos e para este dom, um inestimável item sempre lhe acompanhava: o flautim cilíndrico e comprido. A pequena escocesa era uma exímia flautista, autodidata e hábil em executar as mais diversas canções que lhe davam vontade, desde as mais introspectivas às mais alegres. Um reflexo de sua maldição aliada à sua felicidade espontânea de criança, como a luz e as trevas.

Kálida nasceu em Falkirk, próximo à Edimburgo, como descendente de um antigo clã de nômades celtas, guerreiros galeses que lutaram contra o rei Eduardo I da Inglaterra no exército de William Wallace e que após sua derrota, foram escravizados no País de Gales pelos ingleses. Mas isto era tudo o que se sabia da menina, pois tudo o que se referia à sua origem e chegada ao templo era misterioso, enigmático e sem respostas. Nem mesmo o Grande Mestre e os conselheiros pareciam querer deixar que todos no Santuário descobrissem mais do surgimento da ruivinha, mantendo todos desconfiados, curiosos e até temerosos. Sage de fato era o único que sabia do motivo da chegada de Kálida e suas razões, bem como toda sua história.

Todo o mistério em volta da origem de Kálida aumentava a aura de fascínio ao seu redor e aliado ao seu poder de comunicação, conjuração, manipulação e total domínio com espíritos, além das habilidades extrassensoriais e psíquicas, gerava medo e uma onda de supersticiosos que a tachavam de bruxa, feiticeira, amaldiçoada, demoníaca. A garota espantava a todos apenas por adentrar recintos, querer conversar, estar nos treinos com as outras crianças e por fim, por estar puramente ali e não numa fogueira a arder como a inquisição católica desejava. O preconceito e receio eram enormes para com ela. Motivo de inúmeras contendas entre as outras meninas que não queriam fazer duplas com a escocesa, tratando-a como um mau agouro. Um gato preto ambulante.

As únicas que lhe acolheram foram três colegas de treinamento que mais tarde viriam a se tornar suas únicas e melhores amigas. Riley, Sophie e Lyu. As aprendizes aspirantes à amazonas de Cisne, Andrômeda e Dragão. Junto delas, almejava a lendária e imortal armadura de Fênix e seu mestre era o impulsivo e perigoso Kardia, o cavaleiro de ouro de Escorpião.

Impaciente, irresponsável, debochado e desbocado, imaturo e egoísta, o escorpiano conhecido por sua extrema condição de saúde que o debilitava gradativamente e o tornava violento e instável, quase sempre ignorava os cuidados básicos com sua pupila. Não se importava se Kálida era uma garota, expondo-a a treinos exaustivos e duros, ríspido sempre em suas respostas e bruto, muitas vezes colocando-a em situações arriscadas como testá-la contra alunos dez vezes mais fortes. A verdade era que Sage estava a testá-lo como mestre e lhe entregou a misteriosa aluna, a fim de dar um propósito e missão maiores do que apenas sua sede por lutas. Kardia precisava se humanizar ou ficaria irreconhecível até mesmo para seu melhor amigo Degél.

Mas para Kálida, treinar com Kardia era muito mais do que uma missão para o posto de amazona de Fênix. Era sua vida e em seu âmago, desejava que não fosse diferente, que seu professor continuasse a lhe cobrar muito, pois ela tinha o bravo e indômito sangue celta a correr em suas veias. Jamais aceitaria se acomodar e conformar-se, afinal para possuir a armadura de Fênix era necessário estar preparada fisicamente e espiritualmente, uma vez que a poderosa armadura exigiria um cosmo infernal e superior de seu detentor. Para a menina, essa era a sua maior meta. E sabia que no fundo, por mais que nunca demonstrasse, seu mestre a amava do seu jeito e jamais a deixaria morrer antes de completar seu objetivo. Kálida e Degél eram os únicos que o entendiam profundamente, pois sabiam que o amanhã poderia não chegar para o escorpiano devido à sua escaldante febre cardíaca. Tudo o que importava para Kardia era o agora.

Assim como para a pequena Kálida, ousada e destemida, a invadir os proibidos e sagrados recantos do Memorial Éfyge, nos domínios secretos da colina de Star Hill, o capitólio do Santuário onde estavam reunidos todos os documentos, manuscritos, arquivos e segredos passados de geração em geração para os Grandes Mestres que sucediam-se consecutivamente. O atual Sage confiava somente em seu maior conselheiro, Degél, para compartilhar daquele espaço restrito aos demais. Os únicos a conhecerem tal local místico.

Por ter desenvolvido sua sensibilidade espiritual junto da força física oriunda dos treinos de Kardia, a escocesa escalava os montes e utilizava sua psicocinese para ocultar seu rastro entre as pedras e enganar os guardas e cavaleiros, despistando-os e trespassando despercebida. Nem sempre era fácil quando Degél se encontrava pelos arredores ou outros guerreiros mais habilidosos como o honrado Dario, cavaleiro de prata de Lira e nomeado general dos pratas após a morte de Jaga de Órion no ataque dos três renegados. Mesmo assim, Kálida não se deixava abater pela dificuldade em acessar o memorial como uma fantasmagórica espiã a realizar um feito que nenhum inimigo de Athena tinha sido capaz até aquele momento: Adentrar o Star Hill.

O memorial Éfyge era um vasto cemitério sagrado sobre as colinas do capitólio, ao sul, em uma cordilheira diferente. Um enorme templo o resguardava e lá descansavam os corpos dos mais honoráveis guardiões e cavaleiros já passados pelo Santuário e entre eles, o lendário Itia de Libra, Grande Mestre que surgiu antes de Sage e mestre do atual, conhecido por sua traição ao se aliar à Hades e às fadas do submundo, junto de Gateguard de Áries. Itia fora velado em um mausoléu próprio e impenetrável, coberto pela barreira mística do Cuore Santo de Sage com Athena.

Se fosse flagrada por algum guarda ali, seria punida possivelmente com a morte, independente se era apenas uma criança. Mas a ruivinha possuía seus truques e um deles era conjurar uma densa névoa, uma espessa cortina que provocava ilusões e alucinações a quem estivesse sob seu efeito e utilizava das notas musicais para alterar o clima ao redor, através da melodia. Sua eterna aliada. Entre as lápides, sentia-se sossegada, pacífica e pronta para exercitar seus dons espirituais.

— Bom… Vamos lá, garota… Eu sei que você consegue! — Murmurou para si enquanto parava em frente ao mausoléu de Itia, retirando sua mochila com os pertences de escalada e os itens como o cantil de água e o suplemento de energia. Sempre uma fruta ou algo que a desse firmeza para manter seu pique, já que precisaria de seu cosmo a mil naquele momento. Secou o suor do rosto, tentou baixar os volumosos e rebeldes cachos com os dedos, retirou o traje de batalha e permaneceu com sua blusa verde musgo escura, batendo-se para desamarrotar a roupa do pó da montanha.

Paciente, puxou da mochila um fino cilindro metálico e levemente cônico, acoplando-o ao longo cano do seu flautim e sentou-se no solo a fim de concentrar. Respirou fundo. Tinha de permanecer atenta aos guardas, por isso infestou o ambiente com sua névoa ilusória que a permitiria não ser incomodada por um determinado tempo. Era hoje que sua tentativa lhe traria algum sucesso.

Kálida sempre conversou com espíritos, desde pequena. Um dom só seu. Através de sua inteligência, calma, carisma e atenção já ajudou muitas almas a encontrarem descanso quando as mesmas eram conflitantes em deixar o plano físico, apegados à alguém, à algo ou à um sentimento. A ruivinha era prestativa e solidária com as almas de cavaleiros idos e até crianças de sua idade, mulheres e anciãos. Além disso, sua música os cativava como uma doce hipnose.

Mas estava cansada de se comunicar com espíritos comuns e sua ambição era contatar a alma de um Grande Mestre para que pudesse ter a rica experiência de falar com um, de conhecer a fundo a história do Santuário e de Athena e mais da dita alma. Através deste contato, conheceria o Hipermito, a origem da primeira era mitológica e dos irmãos Zeus, Poseidon e Hades na luta contra Cronos, muito antes da primeira guerra santa de Hades contra Athena. Tal conhecimento era restrito apenas a cavaleiros de ouro, sacerdotes, escribas, conselheiros e os Grandes Mestres.

Nem Sage, Degél, Kardia, as sacerdotisas do templo ou até o bibliotecário responsável pelos escritos lhe cederiam alguma informação. O jeito era contar com o além e o espírito do lendário Itia para que o Hipermito lhe fosse contado. Respirou fundo e pousou os finos lábios sobre o bocal do cilindro, preparando-se mentalmente para começar seu ritual. Seu coração. Sua alma. Que Itia a escutasse, em nome de seus deuses celtas pagãos, de Zeus e sua filha Athena, de tudo o que lhe era mais sagrado! Ele a ouviria e a atenderia!

Uma doce e introspectiva melodia começou a soar, lenta e crescente, a preencher o ambiente de lápides e quebrar suavemente a mórbida paz. “Call of the Ancients”, uma antiga canção de suas terras galesas, proveniente das lendas indo-européias de antigos guerreiros celtas, entoava harmônica, bela e simples. Mesmo em meio ao seu nevoeiro e ao cenário de descanso, era como se um sopro de vida pairasse bravo, a causar uma sonora e lírica rebelião. A chama da vida. Aquele era o seu fogo e com ele se entendia com os mortos. Naquela ocasião ela faria tudo ainda mais especial para receber a nobre alma de Itia. A intensa melodia estava a refletir em místicas ondas, colidindo contra a barreira cósmica que a separava do mausoléu.

(...)

De repente, o ambiente ao seu redor começou a esfriar. O ar gélido sobrepôs a sua névoa mística e não demorou ao vento se solidificar em granizo, caindo bruscamente a temperatura. Kálida bafejou sobre as palmas, interrompendo sua melodia. Quando a temperatura caía daquela forma, era um sinal de que espíritos estavam prestes a visitá-la, aproximar-se dela. Um contato por vezes esperado… Ou não. Jamais tinha testemunhado uma queda tão rápida e brusca de clima, o ar estava palpável e era possível até apanhar flocos cristalinos entre a densa brisa. Aquilo a encheu de expectativa, temor e um frio no estômago. Afinal podia significar apenas uma coisa: Um espírito super poderoso estava para aparecer. Podia ser o grande Itia! Não estava acreditando que seu “chamado dos antigos” tinha surtido um efeito tão poderoso. Pôs-se rapidamente de pé. Guardou o flautim e preparou para emanar seu cosmo, lutando para disfarçar sua emoção, trêmula e ansiosa.

— Lendário Mestre Itia de Libra… — Iniciou Kálida, tímida enquanto energizava seu caloroso cosmo. Não sabia o tom que deveria usar, se deveria bradar ou sussurrar, se prostrar ou manter-se erguida. Se Itia a confrontaria… Ou a aceitaria como reivindicante de sua presença. — Grande Mestre do Santuário nos tempos idos do século 16, senhor de nosso atual líder e guardião do valor de Athena… Eu, Kálida Maeve, peço gentilmente uma audiência com o senhor, forte em meus alicerces da minha base celta e do…

Uma súbita gargalhada a interrompeu, abrupta. A divertida risada ecoou espontânea pelo local e lhe tirou da concentração enquanto a escocesa cessava seu cosmo e procurou com o olhar, espantada. Aqueles risos eram familiares, já escutou antes. Atenta, Kálida reduziu sua névoa para enxergar melhor, mesmo entre a neblina provocada pelo repentino gelo. O hilariante som vinha da entrada do templo e se continuasse, poderia chamar a atenção dos guardas. Precavida, Kálida ligeiramente concentrou seu cosmo na palma da mão e emanou uma fraca esfera flamejante, lançando-a como uma lanterna para dispersar o vasto véu alvo, em direção ao local das gargalhadas.

Não demorou à uma figura surgir, sentada sobre o solo enquanto ria convulsivamente. Uma menina de cabelos loiros e mal penteados, de tamanho proporcional ao dela, trajando um uniforme mirim de combate sobre uma grossa manta de pura lã, couro e pele de um felino escuro, em contraste com a calça apertada e as botas marrons de pêlos, contorcia-se a debochar da ruiva em risos escandalosos. Kálida não escondeu sua frustração e principalmente, sua fúria. Avançou contra a aprendiz de Amazona de Cisne, agarrando-lhe pelo braço.

— Por Taranis! Riley, sua maluca, o que está fazendo aqui? — Murmurou a escocesa, contendo-se para não fazer ainda mais fiasco e alertar os cavaleiros.

— Ah, olá cabecinha de fogo! — Zombou Riley, lutando para cessar sua hilariedade. — Você… Você tinha de ver sua cara! — Tossiu seca, buscando imitar o tom de voz da amiga. — Oh, Mestre Itia, Oh, quanta honra, eu, Joana D'arc das planícies pagãs, exijo sua presença antes que o infernize com músicas infantis! — Trocista, tentava se livrar do aperto de Kálida. — Olhe, acho melhor parar antes que tenha o mesmo fim que o dela!

— Foi você que conjurou esse gelo todo, não foi? — Indagou Kálida, furiosa a machucar o braço de Riley. — Miserável, me fez acreditar que estava entrando em sintonia com Mestre Itia! Eu deveria te esfolar!

— Estou certa de que fará isso, já que vim por esse propósito!

— Como é? — Questionou a ruiva, atônita.

— Vamos treinar? — Convidou Riley, animada enquanto se desvencilhava do aperto. — Estou entediada demais!

— Espere… Você escalou o Star Hill, passou pela segurança, adentrou o Éfyge e me atrapalhou no meu ritual apenas porque está entediada?

— É isso mesmo! — Devolveu Riley, piscando marota. — Você é a única que sempre me dá uma boa luta dentre todas as meninas e meninos, preciso extravasar, vamos lá?

— Não passou pela sua cabeça que pode ser morta por invadir este lugar sagrado, mesmo sendo aluna do Senhor Degél? — Retrucou Kálida, ríspida. — Não pensou no desgosto que dará à ele quando for flagrada aqui? Ainda mais por um motivo tão besta?

— E o mesmo não vale para você? Somos iguais, bruxinha! Não pense que por ninguém saber de sua origem está segura de suas ações. Conhecendo o Senhor Kardia, ele vai pirar quando souber que você está vindo aqui para atazanar os mortos!

— Eu não atazano nenhum morto e… Ah esquece, não tem nenhum rival para bater e me deixar em paz?

— Já espanquei todos os meninos… — Bufou a loirinha, inconformada. — Não dão nem pro cheiro, nem chego a suar! A Lyu só quer saber de se enfiar nas aulas do Senhor Dohko, Sophie não aparece e o Mestre Degél me mandou ler! Vê se pode isto? Ler é muita perda de tempo… E de treino!

— Ler é fundamental! — Ralhou Kálida, impaciente. — Quer acabar como serva? Aposto que a última coisa que já leu foi aqueles bilhetes que os meninos deixam sempre na casa de Aquário com…

Parou, intuitiva. Riley odiava que tocassem naquele assunto. Era um crescente tabu. Por sempre ser agressiva, impulsiva, desleixada e brigona, Riley era o terror dos garotos que treinavam em coletivo com as outras turmas na arena. Quando os combates eram lecionados pelos professores, mesmo diante de suas vistas e principalmente por trás, a loirinha agredia seus oponentes com brutalidade e força, impaciente e cega por lutas. Surda às lições. Daria uma ótima aluna para Kardia ao invés do reservado Degél que sofria com suas encrencas, tendo de livrá-la sempre.

Já que os garotos não a venciam nunca pela força, a tática era humilhá-la para o templo e os alunos. Como Riley era descuidada com sua aparência, quase sempre desgrenhada e suja pela areia da arena, pelo jeito bruto e rude de lidar com todos da sua idade, e pela única amizade com Sophie, Lyu e Kálida, fora tachada de que gostava de namorar garotas. Meninas como ela. Falsos bilhetes eram espalhados pelo Santuário e em massa pela casa de Aquário, incomodando Degél que tinha de se incomodar com Riley.

— Se não treinar comigo agora… contarei ao Grande Mestre das suas constantes visitas ao Memorial Éfyge e sua invasão aos domínios de Star Hill! — Chantageou a loira, num sorriso sarcástico.

— Você não iria tão longe…

— Será…?

— TUDO BEM!!! — Exasperou Kálida, irritada e aborrecida. — Quer treinar? Pois vou fazer você engolir minhas chamas! Espero que esteja pronta para apanhar!!!

— Assim que se fala, bruxinha! — Animou-se Riley, ajudando-a a recolher seus pertences. — Dure o suficiente para me entreter! Se eu ganhar, terá de me contar a sua origem!

— Coitada… — Zombou Kálida, divertida. — Nem bateu a cabeça e já está a imaginar possibilidades…


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Arena de treinamento

Santuário

Se aos olhos do mundo, os cavaleiros de ouro eram considerados como verdadeiros deuses, inatingíveis, imponentes, misteriosos e fascinantes, na arena de treinamento do templo era o local onde as lendas se desmistificavam. Sem suas armaduras reluzentes, sujos de poeira, desgrenhados e suados em seus trajes típicos de treino, livres de qualquer pose mais reservada e austera como quando têm de cumprir missões em suas respectivas unidades, cada dourado de Athena podia ser visto ao seu natural naqueles momentos. Juntos de vários aprendizes, lecionavam cada um de uma forma, conforme sua personalidade e crença de como doutrinar um futuro cavaleiro.

Desde o generoso e inteligente Shion de Áries que roubava as atenções para si com seu ensino sobre as técnicas psicocinéticas aos seus alunos, passando por Hasgard de Touro e seu bom humor espalhafatoso ao rir de seu melhor aluno Teneo entre sua turma. Aspros, Degél, Albafica, Asmita e El Cid eram os mais discretos para com seus pupilos, mas igualmente adorados, enquanto que Dohko, Manigold e Kardia garantiam a diversão durante os exercícios por suas personalidades espontâneas. Os únicos a não receberem alunos foram Sísifo de Sagitário e seu sobrinho, Regulus de Leão.

Regulus era demasiado novo para instruir a próxima geração. Tinha apenas 15 anos de idade e um gênio imaturo e convencido. Narcisista, o belo rapaz se desconcentrava fácil, era vaidoso demais e muito brincalhão, além de sempre atrair a atenção das servas do templo e isto sempre acabar em confusão. A verdade era que os treinos eram o pretexto perfeito para muitas largarem seus afazeres para cobiçar os dourados durante as lições, mas como todos já eram homens adultos e experientes, o novato Regulus era um frescor entre a forte virilidade e chamava a atenção por ter uma idade compatível à delas.

Sísifo era o único liberado por Sage para não lecionar por um bom motivo: Tinha de botar seu sobrinho nos eixos. Continuar com a educação rígida e metódica de Ilias e seguir de onde seu irmão parou. Após sua morte, Regulus foi condecorado como sucessor da armadura de seu pai, se tornando o próximo cavaleiro de leão. Mas mesmo após a vida florestal no exílio de onde jamais saíra, o garoto descobriu um novo mundo no Santuário, descobriu oponentes, banquetes, servos para o servir, muito ar livre e principalmente, mulheres. Tornou-se um galã em pouco tempo e seu tio tinha sempre de corrigi-lo pesadamente quanto à sua postura e atitudes.

Para o Sagitariano, não era nada fácil. Regulus era completamente desajeitado e desatento. Tinha um dom nato para a cosmo energia e sua infância junto de seu pai no exílio lhe garantiu uma força física esmagadora e como todo bom cavaleiro leonino, uma velocidade acima do impossível, superando até mesmo seus colegas. Mas sua ingenuidade era tremenda. Além dos intensos treinos, Sísifo o obrigava a cavalgar junto de si pelas montanhas e vales da cidade de Atenas para respirar ar puro e manter-se sempre saudável. Seu medo era de que Regulus viesse a contrair tuberculose, a mesma doença que enfraqueceu Ilias. O tio impôs a si próprio esta missão assim que o sobrinho chegou ao Santuário, pedindo para Sage deixá-lo sob sua guarda. Era o único elo entre ele e o irmão que tanto amou… Mas que não soube valorizar.

Além disto, Sísifo foi designado por Sage como principal e exclusivo guardião da menina Sasha. Todos os 12 cavaleiros eram responsáveis por esta missão, suas vidas eram para isto, mas Sísifo era o eleito para estar mais próximo da garota e auxiliar em sua educação e treinamento como Athena, como seu braço-direito. Tal objetivo exigia alguém cem por cento devoto e claro, forte, habilidoso e inteligente. Sage pediu para que Degél e Shion o ajudasse na parte intelectual, enquanto que o melhor amigo El Cid lhe puxava nos testes físicos. Juntos dos corcéis Delphos e Nínive, combatiam na lendária mata centauriana. A pressão sobre o sagitariano era enorme e desigual se comparada a fundo com os outros dourados.

(...)


Aquela era uma tradicional manhã de lições na arena, tanto para os alunos quanto para Regulus. Junto de Sísifo, executava coordenados ataques em sequência. A intensa lição lecionada há mais de uma hora foi interrompida por uma das servas pessoais de Sasha, Galadriel, que surgiu aflita e ofegante por entre a arena e desafiando a ordem das sacerdotisas. Era proibido a entrada de servos na arena durante os treinos para evitar que se machucassem em um repentino golpe disparado acidentalmente. Isto já ocorreu algumas vezes antes.

Cansada, alcançou Sísifo que a fitou chegar exausta, numa expressão atônita. Com um sinal, pediu para Regulus cessar os golpes enquanto acudia a garota.

— Srta. Galadriel! — Exclamou o Sagitariano, surpreso. — Sabe muito bem que não pode estar aqui durante as aulas!

— Senhor Sísifo… M-me perdoe… Mas é uma emergência! — Respondeu a jovem, recuperando o fôlego enquanto notava que muitos alunos estranhavam sua presença ali. Recompondo-se, voltou. — A Senhora Sasha desapareceu!

— Como assim desapareceu? — Indagou Sísifo, perplexo. — Ela não está no seu quarto, praticando o desjejum à esta hora da manhã como sempre?

— Bom, comumente é o que ela sempre faz neste horário, eu mesma levo o alimento aos seus aposentos… Mas hoje pela manhã ela não estava lá! Eu, Labá, Lissa e os outros servos estamos a procurar por todo o templo, dormitórios, refeitório, jardins, biblioteca e até nas doze casas com a autorização do Mestre Dario de Lira e estamos nessa busca há um bom tempo… Até agora nem um sinal.

— Pediu para alguma sacerdotisa ou cavaleiro rastrear o cosmo da menina? — Questionou Sísifo, intrigado.

— Mestre Dario ordenou que alguns cavaleiros de bronze ajudassem na busca, rastreando o cosmo dela. As sacerdotisas estão incomunicáveis, sob conjuração do Cuore Santo, não podem ajudar agora.

— Informou ao Senhor Sage?

— Ainda não… — Confessou Galadriel, titubeante. — Por isso vim falar com o senhor antes de reportar à ele… Para que nos auxilie já que é o dourado mais próximo de Sasha. Desculpe minha repentina intromissão, se o senhor não puder…

— Está tudo bem! — Afirmou Sísifo, preocupado enquanto chamava por Regulus. — Tome um banho, coma uma boa refeição e estude na biblioteca de Degél, mais tarde irei retomar algumas lições escritas com você e quero-o afiado! Lembre-se: Nada de passear pelos corredores, ouviu garoto?

— Sim, senhor Sísifo… — Bufou Regulus, levemente irritado.

— Agora vamos, Srta. Galadriel… — Apressou-se o Sagitariano. — Enquanto isso, quero que me conte sobre a noite anterior da menina Sasha, se houve algo fora do comum…

— S-sim senhor Sísifo… — Concordou a serva, evitando olhar para a piscadela malandra de Regulus para ela, deixando-a nervosa e corada. — B-bem… Já faz uma semana que ela não tem se alimentado direito, mal sai do quarto e recusa-se a comparecer às aulas de etiqueta, de aprendizagem com o Senhor Degél, de combate, na reunião com as sacerdotisas e até na presença do Grande Mestre. Não fala com ninguém e está a chorar muito ultimamente, alegando apenas que deseja muito voltar para a Itália.

"Uma semana…?", refletiu o dourado, enigmático. "O ataque dos três espectros foi há uma semana, quando ela presenciou tudo aquilo… Estará traumatizada demais? Sem dúvida de que sim, preciso encontrá-la antes que algo lhe aconteça"! Apressado, Sísifo acompanhou Galadriel. Naquela manhã procuraram Sasha por todos os cantos, além do templo em direção às montanhas, uma direção improvável para uma criança sem preparo físico mas devido aos inúmeros atalhos e trilhas, era uma possibilidade. Discreto, pediu para El Cid o ajudar, cavalgando pelos desfiladeiros ao redor de Star Hill. Utilizando seu cosmo, Sísifo também partiu para os locais onde poderia supor que Sasha preferiria estar para fugir das atenções dos servos. Conhecendo-a… mesmo que tão pouco devido à barreira imposta por ela, acreditava que estaria em algum lugar que lembrasse seu lar no orfanato. Junto de Galadriel, cavalgou pelas encostas do mar de Mármara que beirava os rochedos, próximos à uma praia. Enquanto isto, os outros cavaleiros rastreavam próximos ao templo.

A manhã se passou depressa e com ela os nervos aumentaram. O dourado não queria que alarmassem Sage. Não queria que o Grande Mestre pensasse que não tinha controle sobre sua proteção à Sasha, mesmo que estivesse apavorado a procurá-la e cogitando em sua mente os apuros que a futura Athena estaria passando. Quando percebeu que teria de intensificar a busca, deixou Galadriel no templo e disparou com seu Delphos para o único lugar onde não havia procurado até então: Os poços de Perséfone.

Os poços de Perséfone era uma cadeia intrincada de crateras ao sul do Santuário e da cidade de Atenas, o caminho para a península do Cabo Sunion. O pior lugar para qualquer infeliz que tivesse o infortúnio de cair lá. Os poços eram caminhos ocultos por entre túneis subterrâneos que alagavam conforme a cheia da maré do Egeu, afogando constantemente os aventureiros nas galerias. Além disto, havia inúmeras armadilhas pelo caminho, câmaras de enxofre e gases naturais, rotas falsas que destinavam à calabouços, criaturas que se alimentavam dos restos de criminosos descartados entre as rochas e o constante frio da costa, congelante. Um caminho digno para a prisão sobre o templo de Poseidon, o destino dos piores criminosos. Um local abandonado pelo próprio Zeus e misterioso até para o próprio Santuário que raramente enviou incursões para o Cabo Sunion através dos poços. Porém o que agonizava Sísifo era de que a entrada para as galerias assemelhava-se à um pequeno paraíso de árvores frondosas e uma usina de carvão próxima de Rodório, um lugar acolhedor para uma criança fugitiva. Se Sasha adentrasse os poços… Nunca mais a veria.

Pressionando o exausto corcel, o Sagitariano forçava seu cosmo absurdamente, igualmente cansado. O sol à pino, o corpo dolorido pela dura cavalgada sobre as pedras e a sede já o afetavam. Num trote lento, parou nas entradas dos poços e desceu, alerta. Caminhou lentamente pela floresta a examinar cada canto, cada relva, cada detalhe daquele lugar. Fitou a usina ao longe. Andou determinado, sentindo seu cosmo lhe alarmar levemente. Cumprimentando os trabalhadores, perguntou por Sasha e foi guiado por uma idosa até um armazém, um antigo celeiro onde o carvão era estocado. Sorriu, aliviado e fatigado, desabando sobre os joelhos. Notou Sasha a devorar afoita biscoitos e frutas, bebendo com urgência um copo de leite servido por uma jovem mineradora. Estava suja e desgrenhada, com seu vestido abarrotado e um ar sapeca a agradecer a garota. Porém, ao notar que Sísifo a observava atônito, a violácea engoliu em seco. Largou tudo e se pôs a correr, aflita, em direção aos fundos onde havia um portão de saída.

— SASHA! — Berrou Sísifo, exaurido. Levantou-se depressa e correu para alcançar a menina. Agarrando-a pelo braço, teve de suportar a fúria contida da pequena deusa a batê-lo e lutar para se desvencilhar.

— ME SOLTE, SEU MONSTRO! — Exclamou Sasha, alterada. — EU QUERO VOLTAR PRA CASA!

— Você… Já está em casa, Sasha! — Respondeu Sísifo, cauteloso ao não machucar a criança enquanto a impedia de fugir novamente. — Por que fugiu do templo? Por que deixou a todos preocupados?

— Preocupados? Vocês só querem me enfeitar, polir, manipular e ajustar para servir seus propósitos, para no futuro eu ter de me envolver… NAQUILO!!! — Referenciou o episódio em que testemunhou a invasão dos renegados, emotiva, levando as mãos à face para esconder as lágrimas. Ela estava profundamente marcada pela violência. — Não quero matar pessoas, causar destruição e espalhar caos, vocês e seus deuses que se entendam! E-eu… sou apenas uma criança! Quero voltar para Alone, Tenma, Irmã Beatrice, Padre Magno e os outros órfãos, quero minha família de volta, minha terra de volta!

— Sasha, precisamos conversar! — Argumentou Sísifo, percebendo a fragilidade da menina e que não correria mais. — Aquilo que você testemunhou… Bom… Aquilo que você… Naquele momento em que El Cid… Bem, quando ele lançou aquele ataque que… — Percebeu que estava sem palavras para relatar o momento em que El Cid retalhou o espectro Theo com sua técnica, despedaçando-o sobre ele e a garota. Nervoso, respirou fundo enquanto fitava o olhar questionador de Sasha. Suando frio, tomou fôlego para continuar. — Que acabou… Fazendo aquilo com o inimigo na nossa frente e… Bom… — Lembrou que não tinha jeito para falar com crianças. Tentando gesticular, encarava tenso a expressão aborrecida de Sasha. — A questão é que estávamos…

Um repentino toque no ombro o despertou, alertando-o. A idosa que o levou até Sasha lhe ofereceu um assento e sinalizou para que os empregados trouxessem mais frutas e água para saciar o cavaleiro. Um caridoso e voluntário gesto em prol daquela iminente conversa. Calada, a senhora sorriu para Sísifo e pousou a mão em seu peito, mencionando o coração, apontando para Sasha. Uma clara sugestão de que era hora dele se abrir para ela, revelar o que há em seu âmago. Com um olhar, o dourado agradeceu, percebendo que a idosa era muda e lhe reverenciou lentamente. Um ato recíproco. Após receberem mais da farta refeição, foram deixados a sós. Era o momento em que a fé precisou ser silenciada.

— Bom… A verdade é que nunca estamos preparados para tudo isso… — Iniciou o Sagitariano, sentando-se para comer enquanto pedia para a criança o acompanhar no pequeno banquete. Riu ao perceber que a violácea desarmou-se, sentando tímida ao seu lado mesmo com um olhar relutante. Respirou fundo e preparou-se para ser franco como não fazia há anos. — Nunca se está, mesmo com a experiência de batalhas adquirida, mesmo com as habilidades dominadas e mesmo que a cosmo energia chegue à um nível superior. Nunca há a certeza de uma redenção, de paz e dias melhores onde possamos ser menos cavaleiros e deusa… Para sermos propriamente "Sísifo e Sasha", você entende?

A menina concordou, titubeante. Sísifo imaginou que teria de desenferrujar seu italiano há tempos adormecido para conversar direito e se fazer bastante claro. Bebeu para limpar a garganta e aplacar a sede. Voltou a falar, desta vez no idioma de sua deusa.

— Há muito tempo atrás eu tinha um irmão… Seu nome era Ilias, mais velho e forte, uma referência sólida para mim. Bem, era meu meio-irmão e fui apresentado à ele quando era um pouco mais velho do que você já é hoje, no meus 13 anos pelo senhor Sage. Ilias já era o cavaleiro da casa de Leão e possuía uma gloriosa fama dentre o Santuário. Dias depois de um incêndio criminoso provocado dentro do templo, Ilias seguiu as pistas deixadas por traidores e chegou sozinho ao templo de Poseidon onde Zaphiri de Escorpião estava prestes a libertar o deus dos mares. Lá estava o poderoso Rugonis de Peixes, a quem derrotei no teste final para receber minha armadura de Sagitário, e os dois cavaleiros estavam a lutar. Meu irmão com apenas seu pleno controle das forças da natureza impediu a morte de Rugonis e fez Zaphiri reconhecer seu crime, sendo auxiliado depois por Krest de Aquário para velar o corpo do escorpiano que se suicidou com seu próprio veneno. Após isso, Ilias foi condecorado como herói e a pressão sobre ele começou. Ninguém desconfiava que por trás daquele grande homem… Existia alguém inseguro, frágil, doente, desajeitado e intimidado. Quando descobri sobre sua enfermidade… — Cessou por um instante, bebendo um longo gole de água para se acalmar. Aquele assunto sempre lhe aterrorizava. Sasha estava atenta, sinal de que seu italiano estava afiado o suficiente para manter a conversa com a menina. — J-já estava em um nível avançado e… Ele quis omitir isto de todos! Principalmente de Sage e Hakurei! Fez-me prometer que não contaria a ninguém enquanto permanecesse a lutar pelo Santuário!

— Escondeu de todos que seu irmão estava doente? — Questionou Sasha, atônita. — Mesmo que fosse um pedido dele, por que não o confrontou e disse a verdade para o Grande Mestre? De onde venho… Me ensinaram que a verdade é mais importante do que tudo!

— E você está completamente certa… — Completou Sísifo, surpreendido pela sinceridade da pequena. Pela forte convicção da verdade doutrinada pela Igreja. Ela tinha fé, mesmo que ainda muito nova. — Devemos sempre ser verdadeiros, honestos e justos conosco e com os demais. Mas infelizmente… Neste mundo em que vivemos e onde você se encontra agora… Nem sempre a verdade salva. Muitas vezes até condena… Pela verdade se tem matado, trucidado, abandonado e desprezado, coisas horríveis têm sido cometidas em busca da verdade. Escondi a doença de Ilias por quatro motivos: Para protegê-lo do turbilhão que foi a rebelião do Mestre Itia, para não expor sua fraqueza e ferir seu orgulho perante os inimigos, para que pudesse continuar com a sua relação com a ninfa Arkhes e principalmente, porque eu era sua única família. Ele defendeu a verdade até o fim de seus dias, mas também era um homem, um ser humano digno e honrado de ter seus próprios sonhos, de lutar pelo que acreditava e de querer formar uma família. A verdade é uma espada de dois gumes, minha pequena… — Discerniu o dourado, mordendo uma maçã. — Quem realmente a usa de modo adequado, se torna um sábio. Sempre lembre disto!

— Seu… Irmão morreu depois desta doença? — Perguntou Sasha, refletindo longamente após o conselho de Sísifo.

— Sim, mas não propriamente por ela, a enfermidade apenas foi mais um fator que decidiu seu destino, após um dos três juízes do inferno o encontrar e atacar no exílio, longe dos olhos do templo. Meses antes, Ilias estava transtornado. Eu… — O Sagitariano parou, introspectivo enquanto mirava a leve chuva que se iniciava lá fora. Respirou fundo, continuando num tom de pesar profundo. — E-eu nunca o vi como um herói! Como um nobre guerreiro! Para mim ele era um completo hipócrita e mentiroso, sempre ausente e quando estávamos juntos, sempre brigávamos por ele teimar em ser duro demais comigo nos treinos e pela pressão que eu sofria pela indiferença dele quanto aos meus resultados. Ilias era ainda mais fechado do que El Cid é atualmente… E naquele tempo eu era arrogante, imaturo, ingênuo e rebelde demais para aceitar as suas lições, além de que todos no Santuário me desacreditavam, zombando de mim. Eu e ele tínhamos muitas diferenças… Até o dia de meu teste final contra Rugonis, onde eu ainda não escutava o dom da natureza como ele ensinou. Então Sage e ele me enviaram ao Oráculo de Delfos e lá fui testado tanto por sua esposa Arkhes como pelo próprio Ilias, que lutou mortalmente contra mim e assim que nossa batalha o satisfez, me revelou toda a verdade sobre sua doença, sobre seu amor por Arkhes e pelo filho que estavam esperando… Revelou-me que em breve já não teria mais forças para continuar no Santuário e que seu objetivo dali em diante seria amparar o pequeno Regulus e treiná-lo. Aquele… — O dourado não percebeu seus olhos marejarem. —… Foi seu primeiro adeus para mim. Logo ele que tanto me cobrou, treinou, exigiu e poliu até me tornar o que eu sou hoje e então percebi que aquele era o seu jeito de me amar, de me fornecer poder e proteção para esta nova guerra santa que está iniciando. Ele sabia dos tempos negros que hoje nos cercam! Sabia que ao mesmo tempo em que tinha de me corrigir na vida, não podia abandonar o templo sem deixar alguém em seu lugar, tão forte quanto ele. Bom, na sua despedida… Ele me falou isto que acabei de falar à você… "Você já está em casa!". Me pediu para manter a minha fé e viver este momento, o agora, não o amanhã! A verdade é esta!

Um repentino temporal desabou sobre o armazém, indicando que teriam de permanecer por mais um tempo ali. Mas a torrente afora não se comparava à interior de Sísifo, que não conteve as lágrimas. Pela primeira vez em anos, se abriu. Sasha o escutava inerte, absorta, sem ao menos piscar.

— Refleti muito até entender o que ele disse com "você está em casa"... Significava que eu já havia encontrado uma missão de vida, meu lugar no mundo e meu centro de fé. Meses depois, Sage apareceu-me com Regulus no templo, da mesma forma como fui apresentado ao meu irmão, e revelou que Radamanthys de Wyvern havia assassinado Ilias e que Regulus tinha de ser treinado para sucedê-lo. Foi seu segundo e súbito adeus para mim, o derradeiro. Deixou-me Regulus como sua herança e o poder de dominar as forças da natureza como um presente, além de seu legado para mim. E hoje estou aqui com você, contando tudo isto por apenas uma razão: Para que possamos, eu e você, vivermos somente o agora, sem planos para o amanhã! Sasha, esta é a sua casa, e como você está em seu próprio lar, pode moldá-lo e amá-lo à sua maneira e sermos uma família, um a proteger o outro. Quero muito ser um amigo pra você e ser seu aliado, seu defensor e acima de tudo, ser seu confidente. Se você não tem fé neste exato momento, eu posso ter por nós dois, o que acha? — Sorriu Sísifo, lutando para limpar o semblante corado de lágrimas.

— E-eu… Não vou conseguir… — Estremeceu a criança, nervosa aos prantos.

— Nós conseguiremos, juntos!

— E se eu falhar?

— Então falharemos juntos e vamos virar vendedores de queijo na Sicília, o que me diz?

Sasha riu, divertida, entre soluços. A alegria espontânea contagiou os dois e ambos não entendiam se estavam a rir ou chorar tamanhos ruídos anasalados.

— M-mas deuses podem vender queijo? — Indagou, brincalhona e intrigada.

— Tá brincando? — Gargalhou o sagitariano, humorado. — Deuses podem criar o queijo! Deuses são deuses, nada é impossível para um deus!

E assim Sasha baixou suas defesas e se pôs a comer na companhia de seu mais novo amigo, aliado, defensor e futuramente aquele que viria a ser seu único e importante confidente. Ela não tinha fé alguma em si mesma e em tudo que estava prestes a representar, mas soube que poderia depositar sua fé nele. Justo ele, o homem da fé. Sísifo de Sagitário.


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Casa de Aquário

Escadaria dos doze santos

Templo maior de Athena


A melhor qualidade de Degél era sua paciência. Sem dúvida a sua conduta íntegra e pacífica era facilmente confundida com complacência. O verdadeiro lado era revelado durante um combate mortal. Longe disto, o aquariano era tão reservado e calmo que irritava seu melhor amigo, Kardia de Escorpião, sempre agitado e impaciente. O completo oposto. Por mais que o escorpiano incitasse discussões, brigas e um mau humor de estragar qualquer momento, nada abalava a ponderância de Degél. O dourado sabia que por mais infantil e impulsivo que Kardia fosse, era seu estilo de viver pois para o amigo, a qualquer momento seu coração poderia parar e viver intensamente era o seu lema.

Kardia sofria de uma rara e degenerativa doença febril que super aquecia seu coração e aumentava sua temperatura corporal, muitas vezes levando-o ao delírio e loucura durante treinos e combates, alimentando sua personalidade maníaca e impetuosa. Pouquíssimos o aturavam devido ao seu linguajar vulgar, seus modos nada ortodoxos para com a postura perante Athena, sua brutalidade sanguinária e a falta de piedade. Se os cavaleiros de ouro de Athena eram conhecidos por sua superioridade e nobreza em campo, quem visse Kardia imediatamente mudaria de opinião. Os únicos que o suportavam eram Degél, Kálida e Sage, cujo qual o escorpiano sempre nutriu antipatia. Degél era muito mais que um amigo, era seu médico particular que semanalmente reforçava os antibióticos naturais para reduzir o avanço excessivo da febre e reforçar o poder do sangue de Athena presenteado pelo lendário Krest de Aquário nas veias do escorpiano. Devido ao intenso tratamento, as principais técnicas de Kardia lhe eram restringidas para uso. As Agulhas Escarlates e sua variação final, Antares, continham consigo a febre escaldante do cavaleiro que ao atingir o adversário, o contaminava também como um poderoso vírus. Mas o efeito colateral ricocheteava no usuário, desfazendo as células de Athena, derrubando a medicação de Degél e voltando a lhe ferver o coração.

Mas segundo Degél, Kardia era o cavaleiro mais sincero e incompreendido de seu tempo. Quando o dourado satisfazia-se com a presença de alguém, este demonstrava um grande afeto através de piadas e brincadeiras, longe da terrível imagem de louco. Quando um oponente estava à sua altura, era sinônimo de honra e compromisso para ele. Quando se sentia triste, visitava os velhos campos de Bluegraad para matar a saudade de Krest, no túmulo do antecessor e mestre de Degél e o homem que o salvou quando criança. Quando precisava de um bom ombro, o inseparável aquariano não lhe julgava. Kardia era um livro aberto e detestava que o complicassem.

Naquela tarde, o ritual costumeiro se repetia. Degél manipulava as injeções no braço do amigo enquanto o mesmo mastigava uma maçã. Maçãs eram seu inexplicável vício, constantemente visto comendo uma. Cansado, o aquariano bateu no ombro de Kardia, quieto, sinalizando que a medicação já estava ministrada.

— Diga-me… — Iniciou Degél, seco. — É pedir muito que não utilize suas agulhas durante simples treinos? Estava lutando contra quem?

— E desde quando se restringe uma única técnica de luta da sua constelação? — Devolveu o cavaleiro, ácido. — Eu estava aperfeiçoando, criando um novo padrão de ataque que reduza o número de agulhas e tenha um maior alcance planejado! Preciso da sua permissão para isso também, "enfermeira"?

— Não me culpe se o seu estado piorar! — Bufou Degél, massageando a nuca. — A cada dia os antibióticos estão surtindo menos efeito para retardar a febre e chegará um momento em que contará apenas com o sangue de Athena dentro de suas veias. O uso acelerado das agulhas está aumentando o ritmo de sua condição.

— Então é melhor que providencie outro tratamento rápido, ou vou morrer e voltar como estes espectros bostas para puxar seu pé à noite! — Exclamou Kardia, ríspido. — Vai ver preciso de uma serva bem apetitosa para me medicar ao invés de você, seu astrônomo metido! Uma com um belo par de seios grandes!

— Como aquela que você espantou ontem apenas porque sua refeição estava fria? — Riu Degél, zombeteiro. — Ou aquela da semana passada que o flagrou sentado no trono do mestre Sage na ausência dele? Ou até mesmo aquela que você tentou beijar e descobriu que era uma sacerdotisa, depois cometendo o sacrilégio de obrigá-la a aceitar suborno para ficar calada? Ah sim, não podemos esquecer daquela que lhe trouxe um…

— Você tá cheio de graça hoje, não é seu rato de biblioteca? — Cortou Kardia, impaciente. — Me pergunto até hoje como aquela vadia de sacerdotisa não me entregou para o velho manda-chuva?

— Eu arrumei a sua bagunça, se isso chegasse ao Grande Mestre, seria um escândalo! Mais uma para sua infinita conta comigo.

— Deixe de ser avarento, seu metido! Somos amigos, é dever de amigos ajudar uns aos outros!

— E quando foi que me ajudou em algo? — troçou Degél, voltando à sua mesa, sob pilhas de livros.

— Bom… — Refletiu Kardia, pensativo, fazendo caras e bocas. — Foram tantos momentos que creio que a sua soberba inteligência possa ter esquecido!

Neste instante, a pequena Riley adentrou a biblioteca, mais ferida e machucada como habitualmente, e sempre indiferente quanto à sua condição. Ao notar que tanto seu mestre quanto Kardia a fitavam surpresos, estagnou junto da porta. Estaria em sérios apuros. Engoliu em seco, forçando um amistoso sorriso.

— B-boa tarde… M-mestre Degél… Senhor Kardia! — Reverenciou a loirinha, temerosa. Evitou o contato visual com os dois professores. Mas sua intuição lhe alarmava que de nada adiantariam cenas, caras e bocas: Estava diante de dois homens, dois guerreiros experientes e vividos, duas lendas. Nem mesmo Zeus era capaz de alterar suas convicções! Cogitou correr para dentro da Casa de Aquário e se refugiar nas dependências de seu quarto, mas certamente seria parada por Degél.

— Onde estava, srta. Riley? — Questionou Degél, estarrecido. — O que houve com você? Está mais deplorável do que sempre costuma estar, menina! Que ferimentos graves são estes?

— E-estava… Treinando com alguns garotos e um deles era bem forte! — Mentiu a garota, fingindo zanga.

— E esse garoto por acaso tem longos e desgrenhados cabelos ruivos, uma veste galesa, toca uma flauta irritante, é uma bruxa e domina o fogo? — Incitou Kardia, ríspido, surpreendendo Riley que o encarava estupefata.

— N-não estou entendendo, senhor Kardia… — Desconversou a aprendiz, suando frio.

— Sinto o cosmo dela emanando de suas queimaduras, mesmo que fraco! Esse fogo-fátuo de coloração rubra não me engana em lugar algum e pelo que sei, está emocionalmente abalada e não está "mentindo com clareza", o que houve? Aquele golpe fantasma te acertou em cheio e sacudiu sua convicção? — Ironizou Kardia, abrupto, intimidando a aluna. Era verdade, Riley não se intimidava nem mesmo por Degél e para a garota apavorar-se daquela forma, era porque algo de errado mexera em seu âmago. Comum para alguém cuja mente, alma ou corpo foi arrebatado por brutais técnicas espirituais, um esperado efeito colateral. Em breve a brutalidade da loirinha voltaria.

— Você! — Apontou Degél para sua pupila, firme e seco. — Já para a enfermaria, agora! Não quero ouvir uma palavra! E quanto à você… — Dirigiu a Kardia, direto. — Fique calmo aí! Não adiantará nada você estourar com ela! É uma criança acima de tudo!

— Vim aqui pedir seu tratamento, não sua opinião! — Respondeu o escorpiano, dando as costas. Riley passou ligeira pelos dois, sem olhar para lado algum.

— Você está pressionando demais sua aluna! — Chamou Degél, enfático. — Deixe que Kálida aprenda consigo mesma também!

— Cuide da sua aluna problemática que eu cuido da minha! — Virou-se o dourado, rígido. — Você por acaso tem ideia do poder contido dentro da armadura de Fênix? Do estrago que pode fazer com o espírito e o corpo daquele que não estiver preparado para trajá-la? Somente aquele que possuir um cosmo infernal e superior pode aguentar a carga de ódio proveniente da armadura!

— Sei bem das lendas… Mas Kálida está passando por momentos difíceis aqui no templo, recebendo discriminação por seus dons extrassensoriais… Por que apenas não conversa com ela?

— Não se preocupe, eu sempre bato e assusto nos que mexem com minha bruxinha! — Concluiu Kardia, brusco. — Somente eu posso chamá-la assim… E mais ninguém!


○◎◉◌○◎◉◌

Tireless, embarcação marítima

Grécia para Itália

As missões sagradas passadas pelo Grande Mestre do santuário tendiam ser diversificadas, desde averiguar a ação dos espectros, recrutar novos aspirantes a cavaleiros a até mesmo trazer garotas com cosmo e pureza acentuadas aptas e dispostas a serem sacerdotisas, não se poderia esquecer também dos servos que eram muitos e escolhidos a dedo por comprometimento, discrição e prestatividade. Para ser um servo do Santuário era muitas vezes preciso ser cego, surdo e mudo, mas não era bem assim que as coisas funcionavam na realidade e mesmo com a rígida seleção o sagrado local não deixara de ser palco para fofocas, intrigas, invejas, romances, traições. Humanos sendo humanos, pois se até os deuses tinham suas contendas, o que esperar de seres tão pequenos.

De forma bem humorada Dohko refletia sobre a vivência no Santuário, muitas decisões tomadas pelos mais velhos, ele não estava de acordo, mas acatava. Viajar em uma missão tão delicada com Sophie era uma delas. Isso o fez lembrar, e a castanha? Ela só parava de tagarelar quando estava adormecida e ao mirar a cama da cabine que compartilhavam naquele modesto navio, só avistou um caderno de capa de couro, adornado com fitilho rosa, uma pena bem gasta e um pequeno pote tinteiro. Piscou algumas vezes se repreendendo por ficar tentado a abrir aquelas páginas e se deliciar com as pérolas que saíam daquela cabecinha sonhadora, mas se forçou a pular para fora de sua cama e sair a procura da pequena.

Dohko sentia cheiro de encrenca no ar, mais acentuado que o perfume das donzelas a bordo que ambicionavam seduzir um marido. Forçou seus sentidos para encontrar o cosmo da menina e assim seguir para o local correto. Não demorou a encontrar Sophie cercada por curiosos a ouvir as mais diversas interrogações sobre sua máscara. Os curiosos julgavam que a garota tivesse alguma deformidade congênita, outros perscrutavam sobre a possibilidade dela ter sobrevivido a um incêndio e seu rosto fora afetado. Como devota leal a sua deusa, em sua inocência infantil, a menina fez justo o que o dourado temia e, sem filtro algum se pôs a explicar seus motivos sagrados por cobrir a face, com toda empolgação, ganhando um numeroso público.

O cavaleiro bufou espalmando a testa. Pelos deuses, uma missão sagrada requer antes de tudo, discrição e aquilo estava virando um circo. Mal apercebeu-se de que chegou até a castanha na velocidade da luz e tapou-lhe a boca por cima da máscara.

— Meus cumprimentos senhoras, senhores. — sorriu mostrando os dentes, enquanto Sophie tentava se soltar. — Vejo que minha irmã está a perturbá-los com suas parolagens. Não deem atenção, a pobrezinha ficou ruim da cabeça desde que perdemos nossos pais. Imaginem que ela pegou uma máscara que fazia parte da decoração e começou a usar inventando que é uma guerreira.

Entre murmúrios decepcionados, as pessoas foram se dissipando paulatinamente. O libriano arrastou sua companheira de viagem para a cabine e lhe passou um belo sermão sobre não sair contando sobre Athena e o Santuário para o mundo, como tal atitude poderia atrair atenções indesejadas e até perigosas.

— O senhor disse para aquelas pessoas que sou louca. Como pôde? Nunca fui tão ultrajada! — resmungou ofendida, sentando-se em sua cama em um ato dramático. — Justo eu, que escolhi me dedicar a servir Athena de todo coração. — cantarolou chorosa. — Meu relato estava emocionando os ouvintes.

— Sophie, você não prestou atenção no que eu disse? E se em meio aquelas pessoas estiver um Espectro de Hades? — pontuou severo e ela tencionou a postura. — Com certeza ele chamará reforços e nos impedirá de cumprir a missão.

— M-mas o senhor é um Santo de ouro e eu não sou tão fraca, podemos lutar!

— E colocar as vidas de pessoas inocentes em risco? Você percebe que neste navio tem famílias, pais e filhos, recém casados, trabalhadores. Um confronto com espectros poderia acabar em um massacre massivo.

— Isso é tão injusto. — choramingou apoiando os cotovelos sobre as pernas e apoiando o queixo entre as mãos. — Lutamos em prol da gloriosa Athena para defender esse mundo e somos como Coelho da Páscoa e Papai Noel? Poxa, as pessoas precisam saber que tem heróis!

— E assim saberiam também que tem vilões.

— É… Não pensei por este lado.

— Pois é, Sophie, tem mais algumas coisas importantes que precisamos conversar, primeiramente sobre o uso da sua máscara. — coçou o queixo constrangido.

— O que há de errado com ela?

— Ela chama muito a atenção, você viu. E bem… Para essa missão vamos precisar que você a retire. — o pedido saiu forçado.

— O QUE? QUER QUE EU TIRE? QUE EU TIRE NA SUA FRENTE? SABE O QUE ISSO SIGNIFICA?

— Na-na-não menina, espera aí. — ergueu as mãos em rendição, sacudindo-as freneticamente. — Não leve as coisas para esse caminho.

— Não me leve a mal, mas eu não quero ficar presa neste tipo de relacionamento com o senhor! — assim que as palavras desaforadas e espontâneas saíram, a resposta veio como um cascudo instintivo do mais velho.

— Ora, mas tome tenência menina!

— O senhor é até bem aparentado, charmoso e carismático. — continuou, enquanto esfregava o local em que ganhara o cascudo. — Mas realmente eu…

— AGORA CHEGA! Céus, como Asmita consegue aguentar? Você tem a irritante mania de ser insistente, ignorar o que eu digo e continuar com suas idéias fixas. Não quero que tenha amor e devoção eterna a mim, preciso que tire essa máscara horrorosa para cumprir a missão para qual foi designada. Ninguém sentou contigo e lhe explicou o que deverá fazer?

Ela levou a mão ao queixo, pensativa.

— Explicaram sim, eu acho…

— Você acha?

— Sim, é que assim que me disseram sobre a Itália e a missão eu surtei internamente e comecei a imaginar as diversas possibilidades, lindas paisagens, a comida, valsa, pinturas, obras de arte…

— Está dizendo que ficou distraída durante as instruções? — vociferou tão alto e irritadiço que gotículas de saliva dissiparam-se pelo ambiente.

— Senhor Dohko, não precisa cuspir em cima de mim. Talvez eu tenha me distraído um pouco... — juntou os indicadores dando leves batidas.

Uma coisa ele não podia negar, a menina era graciosa ao extremo. MAS QUE RAIOS A GRACIOSIDADE PODERIA AJUDAR NUMA MISSÃO SÉRIA DAQUELAS? Os deuses só podiam estar a troçar do pobre libriano, por que os conselheiros não designaram a centrada e obediente Lyu para o acompanhar? Respirou fundo, reuniu toda a paciência que ele sabia que ainda lhe restava nos recônditos de seu ser.

— Menina Sophie, sente-se aqui. — sentou-se em sua cama, dando leves batidas sobre o colchão.

Um tanto receosa da bronca se intensificar, Sophie hesitou por instantes, mas recebeu um sorriso gentil e encorajador do santo de Libra e acatou ao pedido.

— Menina, seu mestre não te alertou sobre nada?

— Diretamente não, mas agora que o senhor falou, Asmita realmente estava agindo estranho comigo desde a conversa com o Grande Mestre.

Dohko fez uma careta engraçada ao ouvir a forma informal com que a garota tratava seu mestre. A verdade era que Asmita não tinha muito a simpatia dos habitantes do Santuário, jamais se socializou e muito pouco se sabia sobre o virginiano que permanecia enclausurado em sua casa e nunca nem sequer saia para as missões. Aos olhos do libriano, a aluna e o mestre eram uma combinação um tanto pitoresca.

— Defina estranho. — pediu calmamente.

— Bom...— fez uma pausa pensativa. — Acontece que… É que, normalmente eu sempre o abraço. — acanhou-se com o relato.

— Ah, isso… não tem do que se envergonhar, mestres e pupilos são o mais próximos de família uns para os outros no Santuário. Somos guerreiros, mas somos humanos em primeiro lugar, é compreensível que nos apeguemos.

— O problema é que, Asmita sempre fingiu indiferença às minhas demonstrações de afeto, mas… — ela ponderou preocupada. — Não dessa vez… Dessa vez ele retribuiu o abraço e me questionou se eu não tinha prestado atenção em nada do que foi dito e eu admiti que não, pois fiquei eufórica.

— E o que houve depois?

— Ele me fez um cafuné nos cabelos e disse que era melhor assim, que quanto menos eu soubesse, mais naturalmente agiria, que dessa vez todos precisam que eu seja eu mesma. — sorriu como se tivesse compreendido o que acabara de dizer. — Mas eu não entendi nada. O que será que deu nele? Até cogitei que em vez de fazer viagem astral para o inferno, ele aceitou meu conselho e foi conhecer os Elísios e paquerou umas ninfas por lá, daí voltou de bom humor! — ergueu o indicador informativa.

Uma gota se formou na cabeça do dourado ao imaginar a cena.

— Ai Sophie… Asmita está certo. Escute bem… Vamos para um local cheio de pessoas religiosas e supersticiosas e sua máscara pode assustá-las e defendê-las, entende? Podem associá-la a bruxaria e até iniciarem uma caça para jogá-la na fogueira. Sei que valoriza as tradições acerca das amazonas, mas quero que saiba que isso não tem a ver com mostrar o rosto ou não, tem a ver com o valor que você leva no seu coração.

— É mesmo muito importante, então… Eu concordo em tirar a máscara para essa missão, mas o senhor deve prometer nunca falar sobre isso para ninguém.

— Tem minha palavra.

Ela levou a mão sobre a trava da máscara e a desarmou. Lentamente o objeto foi retirado e revelou o belo rosto arredondado, cujos olhos grandes e a boca pequena passavam a impressão de pertencerem a uma boneca de porcelana. Bom, Dohko tinha para sí que essa lenda das máscaras surgiu para que rostos magníficos como aquele não fizessem os cavaleiros perderem o foco. A castanha era incontestavelmente linda, só não tanto quanto Lyu. Repreendeu-se internamente pela tola comparação. Fora tirado de seus devaneios com os olhos castanhos o olhando em expectativa.

— Então, o senhor não tem nada a dizer? — irreverente, apontou para a própria face.

— EU? Dizer? — pigarreou constrangido. Era difícil uma situação chegar a constranger o eloquente libriano. — Ah, bem… — pigarreou. — Obrigado por me ouvir e parabéns por sua coragem e honradez a missão.

— Não estou falando disto. Parece Asmita falando todo formal assim... — baixou a voz ruborizando. — Estou falando sobre o meu rosto.

— Ah, sim… — coçou o queixo. — É bem bonito Sophie.

— Escute bem, senhor Dohko. — chamou severa apontando o indicador. — Vê se não vai se apaixonar por mim!

O comentário caiu como uma enorme âncora na cabeça do dourado, que acabou afundando o chão com o tombo.

— Definitivamente não irei! — resmungou ultrajado.

Ela se levantou e saltitou feliz pelo quarto.

— Então, se já viu o meu rosto, acho que tem mais coisas que posso te mostrar.

Dohko sentiu como se a âncora que caíra sobre sua cabeça pesasse ainda mais. Levantou-se célere a fim de deter seja lá qual fosse a loucura que aquela cabeça de vento tinha em mente, mas fora surpreendido. Sophie pois-se a exibir as páginas do livro que deixara sobre a cama. Desenhos de todos os cavaleiros e alguns habitantes do Santuário estampavam as folhas, contudo, Sophie exibia tanta habilidade quanto uma criança de quatro anos.

— E esse é um dos meus segredos. — cantarolou. — Tenho grande talento para desenho. — caretas se formavam na face do dourado a cada página passada. Até Albafica de Peixes saiu completamente deformado. Dohko continha o riso, até que...— E esse é o senhor!

“O QUE? EU NÃO SOU TÃO FEIO!” Vociferou em pensamentos. É… Com certeza seria uma longa viagem ao lado daquela pestinha.



Notas finais
Você está esperado e não apareceu nada sobre seu gold preferido ainda? Calma, clama, não estamos praticando goldfobia e nem preferencialismo, todos terão seu lugar ao sol, tenham paciência, mesmo os capitulos sendo gigantescos, não tem como trabalhar com tantos personagens rapidamente, não é? Mas pegue sua pipoca e seu refri e fique conosco, pois logo seu gold do core irá brilhar por aqui. Nosso homenagiado do dia é ele TAM TAM TAM TAMMMMMMMMMMMM O charmoso e genioso Kardia de Escorpião Origem do Nome Do grego, significa Coração. Kardia possui uma semelhança incrível com seu sucessor Milo. Kardia tem longos cabelos azuis marinhos e um olhar afiado azul, quando utiliza sua técnica "Agulha escarlate" sua unha do dedo indicador (tanto esquerda quanto direita) se torna um vermelho profundo, semelhante a ponta da cauda de um escorpião. Ele é um rapaz de porte físico forte, comum a quase todos os cavaleiros. Kardia aparenta ser orgulhoso, assim como Milo. Contudo, o cavaleiro de Escorpião do século 18 é impaciente, imaturo e um fissurado em combates, achando chatas todas as coisas que não envolvam ação. Segundo ele próprio, sua razão de existir é abater suas "presas", como ele chama seus inimigos, sem pensar duas vezes. Ele também é muito sarcástico, gostando de caçoar de coisas engraçadas. Segundo Dégel de Aquário ele é muito sincero. os dez anos, Kardia fora abandonado em um hospital devido a sua frágil saúde, causada por uma doença a qual fazia seu coração aquecer excessivamente. Ao ouvir que viveria por apenas mais um ano, o garoto fugiu da instalação pois, segundo o mesmo, não iria usar o tempo que lhe restava sendo cauteloso, ao invés disso, aproveitaria sua curta vida ao máximo. No entanto, o esforço demandado pela fuga prejudicou ainda mais seu coração. Enquanto agonizava em meio a ruínas de um templo, Kardia é encontrado por Krest, antigo cavaleiro de Aquário, que estava numa missão de volta à Grécia, passados 100 anos ausente. Após uma breve conversa, o ancião chegou à conclusão de que a vida do menino possuía um grande potencial e o ofereceu o sangue de Atena que corria em suas próprias veias, como forma de mantê-lo vivo e amenizar seu mal do coração. Kardia aceitou com a condição de que não viveria para sempre, mas ao máximo de si. E teremos mais de Kardia por aqui? É claro, só aguardem. Agradecimentos especiais ao @lipheedws pela linda recomendação e por todo apoio. Galera obrigada pela leitura, favoritos e comentários, a participação de vocês é muito importante. Beijos e até breve. E você, já sentiu seu cosmo?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.