Chiarascura

1 A profecia, lenda ou verdade?


Notas iniciais
AVISO DE (POSSÍVEIS) GATILHOS: Conterá menção de incesto e estupro. Não terá descrições, apenas citações. Acredito que para a maior parte das pessoas não causará nenhum gatilho grave, mas eu colocarei nas notas dos capítulos que isso for citado. As divindades criadas aqui são originais, porém contém muita inspiração do cristianismo. Se for cristão pode ser que se sinta ofendido, não sei, é de sua total responsabilidade continuar ou não a história.

Quando se levantou toda ensanguentada do chão, Allegra gritou: A primeira mulher nascida com sangue real, morrerá no dia da luta para vingar a minha morte!”

Conto: A Rainha Amaldiçoada, Livro de Profecias de Mr. Diablo

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Sensação de pânico. Era o que Chiara Battaglia sentia ao saber que quando saísse daquela sala, ela estaria prestes a presenciar um momento profético na história mundial. Aquilo poderia parecer bastante excitante para muitas pessoas, afinal, eles esperaram séculos para ver aquilo acontecer com seus próprios olhos, muitos queriam descobrir se a profecia feita pelo fundador do Império de Primazia era real ou apenas uma história inventada para entreter as pessoas. Entretanto, Chiara desejava, com todas suas forças, que aquilo fosse uma história inventada.

No passado, após as guerras e conflitos que o mundo entrou, eles precisavam de alguma arte para se apegar e esquecer um pouco da tensão e das coisas ruins que estavam acontecendo para construir uma nova civilização. Por outro lado, ela tinha um sentimento de que, sim, aquilo era real e a profecia se cumpriria naquela tarde do dia 2 de setembro.

Tinham duas profecias que poderiam se cumprir naquele dia: a primeira era uma profecia sacramentista, onde ela era Simone Morgenstern, uma das fundadoras do Império de Sacramento. Nesta lenda, contava que Simone reencarnaria em alguém muito importante do império rival para destruí-lo e trazer paz ao mundo. Isso fazia todo o Império de Sacramento — que fazia oposição ao seu império — ficar de olho nela a cada passo que dava, tentando encontrar algum sinal de que Chiara era a reencarnação de sua fundadora, com o propósito de resgatá-la e a levar para o seu verdadeiro lar.

A outra era uma profecia primaziana, onde Chiara seria a pessoa que a princesa consorte Allegra Catarina Fontana amaldiçoou. Allegra era uma plebeia e esposa do sexto rei de Primazia. Ao ser acusada de traição por seu marido, antes de ser morta, ela amaldiçoou a primeira mulher que nascesse com sangue real a morrer da mesma forma que ela e só assim ela descansaria em paz. Todos acreditaram na maldição, uma vez que, na época, haviam boatos de que ela era uma feiticeira.

Viver cercada de “porquês” e “e se?” era um carma na vida da monarca. Chiara podia ler livros escritos há milênios, ler sobre as mais diversas mitologias e até se sentia animada com a leitura, no entanto, ao ler o Livro de Profecias de Mr. Diablo, todas as palavras despertavam coisas horríveis para ela. Chiara até se fazia acreditar que era um livro qualquer, algo escrito apenas como forma de entretenimento, contudo muitas coisas que estavam escritas naquele maldito livro tinham se tornado realidade conforme os séculos iam passando, então ela pensava: se várias coisas se tornavam realidade, tudo ali podia ser questionado. Até aquela maldita luta que estava prestes a assistir, foi profetizada por Mr. Diablo. Ou melhor, William Shield, o fundador do Império de Primazia, o homem de que sua família descendia.

A Luta Gladiadora, um evento profetizado por Mr. Diablo trinta anos da sua morte. A luta acontecia quando o herdeiro ao trono completava 24 anos para o mundo conhecer quem era o plebeu escolhido por Ascian que seria o novo príncipe consorte ou rainha que se casaria com o monarca herdeiro.

Os participantes lutavam entre si e tinham que matar um ao outro e para provar que realmente era o escolhido, o último gladiador deveria lutar contra um leão, onde ele poderia sair devorado pelo animal ou com um compromisso firmado com o filho, ou filha, do rei. Tudo dependia da sorte do combatente ou de seu treinamento.

E a luta dedicada a Chiara seria naquele dia.

A princesa estava mais reflexiva e tensa do que todos os outros dias de sua vida. A mulher sabia que tudo poderia dar errado e ela tinha medo. Chiara era a primeira mulher a nascer com sangue real e havia vivido o bastante para chegar a ter uma luta dedicada a ela. Todas as outras mulheres que eram filhas do rei morriam por aborto espontâneo ou não chegavam aos quinze anos, diferente de Chiara que faria os seus 24 anos no mês seguinte. Além de ser a primeira mulher monarca a viver tanto, ela ainda era a filha mais velha, o que deixava as coisas piores, pois na lenda sacramentista, Simone Morgenstern nasceria como a filha mais velha também.

A princesa levantou-se da cadeira onde estava sentada à frente de seu laptop, onde via o rosto dos lutadores. Chiara leu a ficha de todos, porém não se importava de conhecer mais sobre o indivíduo ou se apegar a algum por suas feições ou ficha. Cinco deles já tinham a sua morte fadada e nem teriam a chance de trocar um “olá” com ela.

Uma das empregadas reais entrou na sala e pôs uma capa branca e macia em seus ombros. Por ser começo de setembro a cidade estava bem fria e ventava muito, por isso precisava ficar aquecida para assistir à luta de um camarote onde só teria membros de sua família. Martina, mãe de Chiara, estava radiante e feliz, ajudando a filha a fazer todas as coisas e ainda tentava acalmá-la para sua filha não ficar nervosa, amedrontada ou ansiosa demais. Já sua irmã mais nova, Reyna, fazia o oposto, ela provoca Chiara de todas as formas.

— A lenda da “A Rainha Amaldiçoada” conta a história de Allegra Catarina Fontana, uma princesa consorte que seria a futura rainha do Reino de Santo Francisco, hoje conhecida como Reino de Sebastião, área dominada por Sacramento. A lenda narrada é que: uma monarca nascida de berço, ao ter sua Luta Gladiadora morreria por um plebeu. Aquela seria uma vingança contra sua sogra que mandou a nora para a morte após alegar que seu filho estava sendo traído por ela — Reyna leu o que estava escrito no jornal que tinha em suas mãos.

— Calada, Reyna! — Martina exclamou e ficou irritada com sua filha. — Chiara, meu amor, não acontecerá nada contigo. São apenas lendas.

— Eu não sei se confio nestas palavras, mãe — Chiara falou, apertando suas mãos. — Sempre me falaram isso e… eu sempre acreditei que a mitologia era a parte mais verdadeira da civilização. Eles usavam isso para deixar registrado para outros sábios, eles escreviam como se fosse uma lenda para impedir as pessoas não-dignas terem acessos a essas profecias. Algo me diz que essas histórias são verídicas e hoje acontecerá algo ruim.

— Rainha Martina — um soldado chamou-a. — Vossa Majestade está chamando pelas senhoritas.

Chiara olhou para o soldado com um grande sorriso em seu rosto.

Ele tinha cabelo preto, uma pele levemente bronzeada e seus olhos eram pequenos, puxados e escuros. Ela tinha se cruzado com ele várias vezes pelo palácio e em algumas noites em suas crises de insônia, ele a fez uma boa companhia. Seu sobrenome era Bencatel, era a única coisa que ela sabia.

— Diga ao meu marido que já estamos indo — a rainha respondeu, sendo delicada como sempre.

A delicadeza de Martina era algo que irritava Chiara, especialmente porque Reyna tinha aquele jeito delicado da mãe. No entanto, Reyna forçava ser daquele jeito, coisa que sua mãe era naturalmente.

Reyna olhou para a porta e depois para sua irmã. Mesmo que eles tivessem apenas um ano de diferença, Reyna parecia bem mais velha que Chiara. Reyna se maquiava e se vestia como a rainha que tinha o dobro de sua idade, pois em tudo ela queria imitar sua mãe e fisicamente elas eram bastante parecidas, especialmente nos olhos claros e no cabelo loiro. Chiara por vezes até se surpreendia ao ver as fotos de sua mãe mais nova e ver que ela era ainda mais parecida com sua irmã.

— Certamente, ele é um dos soldados mais bonitos que temos no palácio — Reyna elogiou-o. — Não acha, Alla? — perguntou para uma das empregadas por ali.

— Se a senhorita diz, Alteza. — Alla ficou um pouco tímida.

— Para de ser tímida! — Reyna reclamou, achando Alla a pessoa mais idiota possível. — Para serem admitidas para algum emprego vocês precisam passar por um teste de timidez e quanto mais tímida, melhor?

Chiara deu um sorriso por conta da impaciência de sua irmã, enquanto era ajudada por outras mulheres a deixá-la ainda mais perfeita do que estava. A princesa estava com um vestido branco com pedrinhas de diamantes espalhados pelo tecido. Seu colar, brincos e anéis também eram feitos com a mesma pedra. A maquiagem estava tão leve que parecia não usar nenhuma e que ela era perfeita daquele jeito naturalmente. A única coisa que chamava atenção em seu rosto era o batom vermelho em seus lábios carnudos. A capa colocada para protegê-la do frio era de pele falsa e em tão branco quanto seu vestido.

Alla aproximou-se dela e entregou-lhe uma almofada de veludo vermelho e com detalhes dourados, ali tinha uma coroa que ele entregaria para o vencedor da luta. Chiara mexeu seu pescoço como procurasse por relaxamento e tranquilidade.

Martina aproximou-se de sua filha mais velha, dando-lhe um beijo em sua testa e Reyna que observava a cena ficou morrendo de ciúmes. Para Reyna, Chiara sempre foi a mais amada e mimada somente porque ela era a herdeira e futura soberana do Império de Primazia.

— Calma, Kiki — Reyna falou. — Hoje não é o dia que você morrerá… ou é — riu. — Não sabemos.

— Calada, Reyna! — Martina censurou sua filha. — Não estrague tudo! Se você estivesse no lugar dele, não gostaria dessas brincadeiras.

Reyna revirou os olhos, desaprovando o que a mãe disse. Chiara pensou por várias vezes xingar sua irmã, porém ficou quieta por conta das outras pessoas que estavam ali e desde pequena, aprendeu que todas as brigas de família deveriam ser feitas longe dos empregados.

— Vamos subir — a rainha disse, animada, olhando para as filhas. — Você decorou o nome de algum deles, Chiara? Ou você já tem um preferido?

— O que adianta? — Chiara respondeu, baixo. — Eu não poderia me apegar a nenhum deles, pois cinco morrerão.

— Ou seis — Reyna lembrou-a. — Pois o último pode ser comido por um leão.

— Porém não vai! — Martina brigou de novo com a filha.

— Ou sete… — Reyna continuou a provocar, levando um tapa de sua mãe.

Ao ver a cara de choro da irmã, Chiara sorriu de lado e saiu da sala antes que acontecesse uma briga mais séria e que ele não estava disposta a presenciar.

— Engole o choro! — Martina falou, enquanto Chiara saia do cômodo.

Chiara passou por Bencatel e ele olhou-a de cima a baixo, contemplando toda a beleza da princesa e disse:

— Quer que ajude a senhorita a subir por conta da capa? — O guarda tirou proveito da situação por conta do cumprimento das vestimentas da monarca.

— Não — Chiara respondeu sem cerimônia, olhando nos olhos dele.

Toda vez que estava próxima dele, Chiara sentia um frio na barriga. Ela sentia que o conhecia há muito mais tempo do que realmente era e não sabia se a sensação de borboletas no estômago era por algo ruim ou bom. O guarda, contrariado, sorriu sem graça. Chiara voltou ao seu percurso, subindo uma escada de quinze degraus com o maior cuidado possível para não tropeçar. A cada degrau, ela via que a grande proteção de vidro que tinha no camarote estava aberta. Com certeza, o seu pai tinha mandado abrir e, por isso, ela sentia ainda mais medo por estar ainda mais propícia a cair dali.

Por ser começo de setembro, a cidade estava bem fria e ventava muito, por isso ela não entendia o motivo de seu pai deixar aquela vidraça aberta; O local onde aconteceria a luta estava lotado de pessoas com suas apostas em um dos seis gladiadores. A arena era uma réplica perfeita do Agioliro que no passado ficava em um país chamado Cartava. Agora aquela região pertencia ao Império de Sacramento. No entanto, quinhentos anos atrás, o rei de Primazia pediu para fazer uma réplica daquela arena na cidade de Taverna, pois queria homenagear sua esposa que era daquela região.

Chiara colocou a coroa em cima de uma pequena mesa que ficava em frente de seu assento. O rei olhou para sua filha com uma expressão bem dura e chegou perto dela. Ele tocou-a no ombro e Chiara praticamente saltou para os lados, pondo as mãos em seu coração e quase deixou a coroa cair.

— Pai, não faça isso! — ela brigou com o homem, tentando acalmar as batidas de seu coração.

— Me desculpe, querida. Não foi a minha intenção — o rei desculpou-se, dando um sorriso.

— O senhor está animado para a luta?

— Claro que estou! — o rei gargalhou. — A última vez que estive aqui para ver algo com esta grandeza, eu estava vendo sua mãe lutar.

— Ela, porventura, foi sua favorita? — questionou, curiosa.

— Não — o homem negou. — Foi uma mulher da região oeste do continente — suspirou. — Entretanto, eu não posso reclamar de quem o destino escolheu para mim, pois Martina tornou-se a melhor pessoa que poderia conhecer. Ela é minha melhor amiga, uma rainha exemplar, inteligente, culta, engraçada, forte e todos os bons adjetivos que existirem.

Chiara deu um sorriso ao ouvir aquelas palavras do pai sobre a sua mãe.

— Pai, se nenhum deles ganhar, eu posso escolher a pessoa com quem quero casar? — perguntou, apreensiva por conta da possível resposta.

— Já tem alguém em mente? — O rei não pareceu gostar da pergunta da filha.

— Não — mentiu. — Só que eu acho que se ninguém ganhar, eu poderia me casar com o Adam. Ele é bem inteligente… — O rei virou o rosto para a filha, negando. — Eu queria saber qual é sua desavença com ele.

— O pai dele é um refugiado da capital de Sacramento. Uma pessoa do Império de Sacramento só entra para a família Battaglia se sobreviver à arena — o rei explicou para sua filha. — Se ninguém vencer, em novembro, nós faremos uma nova luta com outros participantes e ele pode participar se quiser casar contigo.

A monarca jogou o rosto para o lado, torcendo a boca, pois já estava cansada dessa rivalidade entre Primazia e Sacramento. Contudo, ele esperava que o vencedor não fosse de Sacramento ou algum jeito aliado a eles, senão o ganhador teria bastante problemas com seus pais e a população.