Chest Of Memories

5 Uma Escova de Cabelos


Parte – Jovem Adulta

- Uma escova de cabelo? – Perguntou Peter, retirando o pequeno objecto do baú de madeira e olhando-o confuso.

- Deveria reconhecer… Tirou muitos nós das cabecinhas das nossas filhas, ao longo do tempo… — Riu-se Luci, recebendo nas suas mãos a escova, carinhosamente.

- Vai contar…? – Perguntou o rei, divertindo a rainha com a sua extrema curiosidade.

- Porque não deveria?

***

Uma deliciosa brisa quente entrava, furtivamente, pela janela dos aposentos da Rainha de Nárnia, trazendo consigo o doce aroma do alto mar e fazendo com que as cortinas de renda branca se agitassem ao de leve. O chilrear dos pássaros, ao longe na floresta, era a única coisa audível, naquela manhã quente de Verão, tal como o som das ondas a embaterem contra a costa rochosa, onde Cair Paravel, mergulhado num silêncio único e raro, se demonstrava impune.

A custo, Luci Pevensie desviou os seus olhos verdes radiosos do horizonte, onde o sol nascente ainda beijava a superfície cristalina da água, banhando-a com o seu calor, e dirigiu-se, preguiçosamente, até à sua penteadeira. Sentando-se com cuidado no banco, encarou o seu reflexo, que lhe devolvia um sorriso simpático, e estendeu o braço para agarrar o cabo de prata da sua escova. Sem demoras, começou a pentear o seu longo cabelo escuro como ébano.

O quarto dia do Torneio de Justa começaria em poucas horas e a rainha precisaria de garantir que todos os seus filhos, sem excepção, estivessem prontos e apresentáveis na hora da partida para a arena, localizada não muito longe dali. Foi, então, com um suspiro, que Luci se lembrou do verdadeiro objectivo daquele evento tão popular entre nobres cavaleiros, mas tal pensamento foi interrompido por três toques leves na porta de madeira do seu quarto.

- Sim?

- Posso, Vossa Majestade? – Perguntou uma jovem de longos cabelos flamejantes e de grandes olhos verdes esmeralda, espreitando por entre a fresta da porta que entreabrira.

- Claro, senhorita Lily. – Sorriu, amavelmente, Luci, erguendo-se do banco. – Preciso que me ajude com o meu vestido.

Com uma vénia educada, Lily atravessou o quarto, sob o olhar vigilante da rainha, até a um alto armário de madeira de cerejeira, trabalhado em pequenos detalhes florais. Após uma rápida busca, a ruiva aproximou-se da rainha com um belo vestido azul-turquesa, bordado com finas linhas de prata e pequenos diamantes.

- Se me permite, Vossa Majestade. – Falou Lily, abrindo o vestido e fazendo-o passar pela cabeça e o corpo elegante de Luci.

Apoiando-se nas colunas da cama de dossel, Luci afastou o seu cabelo e permitiu que Lily começasse a apertar o espartilho à volta do seu tronco, revelando melhor as curvas da senhora.

- Será que estou a cometer um erro, Lily? – Perguntou Luci, após alguns segundos de silêncio, que foram os bastantes para permitir que o pensamento de outrora regressasse.

- Tal como a rainha disse, uma vez, os erros não existem… Apenas, lições de vida. – Replicou a aia, com um sorriso doce a brilhar nos lábios carnudos.

- Talvez eu tenha estado errada quando disse isso, então… — Murmurou Luci, sentindo a ruiva finalizar o nó do seu espartilho e dando um passo para trás. – Obrigada, Lily.

- De nada, Vossa Majestade. – Sorriu Lily, com outra vénia, olhando para o rosto preocupada da rainha. – De certo, que a Princesa Missy compreende a situação.

- Esse é o problema… — Falou Luci, deixando-se cair sobre a colcha fofa da cama. – A minha filha compreende demasiado bem a situação. Até age como se fosse um dever dela…

- E não é? – Perguntou Lily, enquanto endireitava os lençóis e fazia a cama, como se nenhuma presença tivesse passado por ela.

- Sim, é. É um dever de uma princesa. Mas, por outro lado, não é o dever de uma filha minha. – Falava Luci, imersa nos seus pensamentos. – Talvez tenha sido um erro organizar este torneio, na tentativa de lhe encontrar um pretendente digno para ser o seu marido… E, embora, ela o negue, ela deve sentir o mesmo…

- Percebo a sua preocupação, Vossa Majestade. – Declarou Lily, aceitando sentar-se ao lado da rainha ao vê-la a apontar o espaço vazio ao seu lado. – Depois do casamento da Princesa Giu com o Rei Rabadash da Calormania, a sua filha mudou imenso.

- Sinto o mesmo… — Sussurrou Luci, com um suspiro cansado. – Ela cresceu imenso, não cresceu? Onde está aquela criança que tinha de ter três guardas reais a vigiá-la…?

- Sim. – Riu-se Lily, recordando-se daqueles momentos fugazes do passado. – Já é uma adulta.

- Por vezes, desejo que todos os meus filhos se mantenham congelados no tempo. – Desabafou a rainha, erguendo-se do seu assento. – Desejo que eles se mantenham inalteráveis e que me acarinhem com a sua presença, dia a dia. É um desejo tolo, eu sei…

- Mas, é o desejo de qualquer mãe… – Concluiu Lily, sorrindo-lhe com os olhos.

- Tem razão… — Riu-se a rainha, abanando a cabeça ao de leve numa forma de espantar aqueles pensamentos. – Bem, onde se encontram os meus filhos? Já estão prontos para partir?

- A Princesa Nanda acordou antes da Vossa Majestade e está com o Rei Peter e o Príncipe Rick a tomar o pequeno-almoço. – Narrou Lily, também se erguendo da cama. – As Vossas Altezas Jane, Bruna e Carol também já se encontram prontas, mas foram só à biblioteca. A Princesa Amanda estava a ajudar a pequena Nini a colocar o seu vestido quando eu passei pelos aposentos delas…

- Perfeito, perfeito… — Falou Luci, olhando-se ao espelho para verificar se estava tudo no local certo. – E Missy?

- Eu bati à porta do quarto dela, mas ninguém me respondeu. – Transmitiu Lily, agora ela também preocupada.

- Começo a ficar mais convencida do meu erro, senhorita Lily. – Admitiu Luci, dando um leve menear de cabeça na direcção da ruiva, antes de sair pela porta do seu quarto.

Os seus passos elegantes e rápidos ecoaram pelo corredor de pedra vazio, à medida que se dirigia à ala do castelo onde, lado a lado, os aposentos das suas filhas se encontravam. Rapidamente, identificou a porta do quarto da Princesa Missy e, após um breve momento de reflexão, bateu, levemente, à porta. Não obtendo resposta, abriu a porta par ante par.

De imediato, inalou o mesmo aroma de maresia que enchia o seu quarto ali e procurou a filha no imenso compartimento, encontrando-a fronte à penteadeira de madeira branca, imersa nos seus pensamentos e ignorante à presença da sua mãe. Com cuidado, aproximou-se da morena, vendo que olheiras pesavam nos seus olhos castanhos avelã e nós enfeitavam o seu longo cabelo castanho ondulado, adquiridos, muito provavelmente, pelas reviravoltas que a rapariga dera na cama, sem conseguir dormir.

- Vejo que ainda não se vestiu… – Constatou Luci, com um sorriso simpático, assustando a filha, que pulou no banco.

- Mãe! – Exclamou Missy, arregalando os olhos e levantando-se, rapidamente, do banco. – Desculpe. Perdi a noção do tempo…

- Não se preocupe, querida. – Sorriu Luci, colocando uma mão no ombro da filha e fazendo-a sentar-se. – Que tal eu procurar por um vestido para você?

Com um aceno de cabeça, Missy assistiu à busca da mãe por um vestido, pacientemente, antes de a ver a aproximar-se da penteadeira com um vestido em tons de verde seco, bordado com pequenas pérolas.

- Que tal este?

- É perfeito… — Esforçou-se a dizer, levantando-se do banco.

Com a ajuda da mãe, retirou as vestes de dormir de seda e entrou para dentro do vestido, permitindo que Luci apertasse o espartilho à volta do seu tronco. Ao finalizar a tarefa, ambas olharam-se ao espelho, as mãos de Luci firmes sobre os ombros da morena.

- Como o tempo passa… — Murmurou a rainha, os olhos a brilharem de felicidade através do reflexo do espelho. – Nem posso acreditar que já tenha vinte anos…

Luci viu Missy engolir em seco e a dar um sorriso nervoso, antes de se afastar da mãe, delicadamente, e sentar-se, de novo, frente à penteadeira. Com os seus olhos verdes, a rainha viu a mão tremule da filha a agarrar na sua escova, só para a deixar cair no chão, com um estrondo seco.

- Eu apanho… — Falou Luci, prontamente, curvando-se para apanhar a escova.

Então, em silêncio, a rainha de Nárnia começou a escovar o cabelo da filha, da forma mais delicada que podia. Um a um os nós iam desaparecendo e, com eles, o esforço de Missy por esconder aquele impulso de contar à mãe o que lhe apavorava a mente. Por fim, quando o último nó se desfez, a rainha percebeu que a filha estava pronta para dizer o que lhe ia na alma e, sem esta mesmo se aperceber, as palavras voaram-lhe da boca, antes de as impedir:

- Eu não estou pronta…

Luci estacou por uns segundos, fechando os olhos. Sim, tinha sido um erro organizar tal torneio. Abrindo os olhos e vendo o rosto apavorado da filha, prosseguiu a fazer uma trança fina para prender o cabelo desta para trás.

- Eu sei… — Sussurrou ela, espreitando-a pelo espelho e vendo a expressão de confusão na filha. – Sou mãe e, principalmente, sou a sua mãe. É o meu dever saber que algo está errado.

- E qual é o meu dever? – Perguntou Missy, num murmúrio quase inaudível, desviando o seu olhar do da mãe.

- Como minha filha? Ser feliz. – Afirmou Luci, dando os últimos retoques ao penteado da filha. – Está linda, como sempre…

Missy sorriu, ao de leve, levantando-se do banco e abraçando a mãe pela cintura. Luci sentiu a filha a aninhar o rosto por entre os fios escuros do seu cabelo, como fazia em pequena, quando tinha um pesadelo ou um sentimento de culpa a conquistar-lhe o interior. Com um sorriso, a rainha devolveu o abraço, acariciando a nuca da filha e inalando o perfume do seu cabelo. A princesa poderia considerar Cair Paravel o seu lar, mas era ali, nos braços da mãe, que sentia que tudo faria sentido. Era ali que o seu coração pertencia e onde a sua infância se passara. E Luci, melhor do que ninguém, sabia-o.

- Eu sei que você e o pai querem que eu me case… — Falou a princesa, a sua voz sendo abafada pelo ombro da mãe.

- Mas, você não quer. – Concluiu Luci, afastando-se da filha e olhando-a nos olhos, constatando que lágrimas lhe afloravam os olhos. – Missy, eu sei que eu e o seu pai… e o conselho… organizámos este torneio para lhe encontrar um pretendente. Mas, nenhum de nós queremos que seja forçada a fazer algo que não quer.

- Mesmo o conselho? – Brincou Missy, enquanto a mãe lhe limpava uma lágrima que repousara na sua bochecha.

- Bem, talvez o conselho seja uma excepção. – Riu-se Luci, revirando os olhos, por impulso. – Mas, o seu pai e eu não fazemos parte dessa excepção. Só queremos que seja feliz. Logo, eu pergunto… O que a faria feliz?

Luci viu Missy se afastar até à janela, pensando para consigo na pergunta da mãe. Após um momento, que pareceu à rainha horas, a morena espreitou-a por cima do ombro, com aquela conhecida expressão de culpa que a mãe conhecia tão bem.

- Eu quero conhecer o mundo do pai e dos tios. – Respondeu Missy, mordendo o lábio inferior. – Eu gostava de ir para Inglaterra.

Um sentimento de perda começou a invadir Luci, o mesmo que a invadira quando Giu partira para a Calormania, mas, desta vez, lutou contra ele e aguentou as lágrimas. Embora não quisesse ver nenhuma das filhas partir de Cair Paravel, não queria, principalmente, vê-las infelizes num local incapaz de lhes prover a felicidade que elas tanto buscavam.

- É mesmo isso que quer? – Perguntou Luci, estudando o rosto da filha em busca de algum indício de dúvida.

- Sim, mas… se for inconveniente para vocês que eu vá… eu entendo…

- Missy. – Chamou Luci, vendo a filha a tropeçar nas suas palavras. – A felicidade é sermos felizes… Não é fingirmos perante os outros que o somos. Eu nunca permitiria que uma das minhas filhas optasse pela segunda opção… a opção mais fácil.

- Isso quer dizer que me deixa partir?

- Se é mesmo o que deseja, sim… E mesmo que não o permitisse, não faria diferença. Dentro de si, você já partiu há muito tempo. – Sorriu Luci, acariciando o rosto da filha. – Tal como disse, já é adulta e pode tomar as suas próprias decisões.

- Obrigada, mãe… — Agradeceu Missy, abraçando-a mais uma vez.

- Não tem de agradecer… — Riu-se a rainha, abanando a cabeça. – Bem, o que quer fazer, agora?

- Amh… Temos um torneio à nossa espera… – Replicou Missy, afastando-se na sua confusão.

- Passámos a semana quase toda a assistir homens a lutarem vigorosamente pela vitória. Penso que o seu pai e os seus irmãos compreenderão se faltarmos por um dia. – Gargalhou Luci, piscando-lhe o olho, jovialmente. – Para além disso, tenho a certeza que a Bruna, a Jane e a Carol entreterão os cavaleiros com o seu intelecto, a Amanda e a Nini com a sua audácia, o Rick com a sua bravura e a Nanda não deixará nada sair fora do controlo e repreenderá os irmãos caso isso aconteça.

- Que família… — Brincou Missy, juntando-se ao riso da mãe.

- Sim… Mas, eu adoro cada pedacinho dela. – Desabafou Luci, sorrindo de forma gentil à filha. – Que tal avisarmos, primeiro, o Sir Remus que não partiremos para a arena e, depois, passarmos uma tarde inteira juntas?

- Como nos velhos tempos? – Perguntou Missy, sorrindo e vendo a mãe a acenar afirmativamente. – Eu vou avisar o Sir Remus!

- Eu vou preparar os cavalos…

A rir-se, Luci seguiu Missy para fora do quarto, vendo-a a correr pelo corredor e a desaparecer na esquina. Aquele brilho de criança voltara à sua filha e ela não poderia estar mais contente por isso. E, assim que comunicou a Sir Remus o aviso de que não partiriam com a restante família para a arena, Missy encontrou-se com Luci na estrebaria real, onde Pascal e Hera estavam prontos para o que viria a seguir.

- Pronta? – Perguntou Luci, colocando-se em cima da égua.

- Prontíssima! – Exclamou Missy, antes de chicotear as rédeas e fazer com que Pascal desatasse a trotear, em direcção à praia.

- Missy Pevensie! Isso é batota! – Riu-se Luci, cavalgando atrás dela.

Missy e Luci passaram uma tarde inteira a relembrarem-se de antigas memórias, a rirem-se de velhas piadas e a surpreenderem-se por novas histórias. Missy sorriu à mãe por estar a partilhar aquele momento raro com ela e, apesar de não terem falado do assunto, sabiam, perfeitamente, que talvez aquele seria o último que elas teriam e não queriam arruiná-lo com lágrimas e despedidas desnecessárias. A princesa queria dizer à mãe tudo aquilo que nunca tivera a oportunidade de dizer antes e demonstrar o quanto sentiria a falta dela, mas, não foi preciso. Com um único sorriso no rosto de Luci, a princesa soube que a mãe já o sabia.

It’s hard to remember,
Summer or winter,
When she hasn’t been there for me.

- Lembra-se daquela vez em que a Amanda voltou do mercado com a roupa ensopada de sangue? – Riu-se Missy, caindo para trás, na areia, com a força do riso.

- Como não poderia lembrar? – Perguntou Luci, também se rindo. – Não sabia se deveria estar orgulhosa ou zangada por uma das minhas filhas ter ganho uma luta contra um rufia!

- Aposto que nem a colocou de castigo…

- Agora que me lembro, penso que não… — Murmurou Luci, pensando por uns segundos antes de cair na risada com a filha. – E daquela vez em que a Nini encontrou aquela cobra e resolveu escondê-la no quarto dela?

A friend and companion,
I can always depend on,
My mother,
That’s who I mean.

- E só nos avisar quando ela desapareceu, sem rasto?! Acho que nunca me vou esquecer! Juro que eu vi o Sir Peter quase a desmaiar quando acabou por encontrá-la nos seus próprios aposentos!

- Sabe, ainda estou desconfiada que ela fez de propósito…

- É a Nini, mãe… — Riu-se Missy, revirando os olhos.

- Mas, ela é bem parecida consigo, nesse sentido. – Brincou Luci, apontando-lhe o dedo. – Ainda me lembro do incidente do Pascal!

I’ve taken for granted,
The seeds that she’s planted,
She’s always behind everything.

- Mãe! Isso foi, claramente, sem querer! – Desculpou-se Missy, abrindo a boca em falso ultraje.

- Duvido que fazer com que o Pascal se sentasse em cima do Lord Lucca e o derrubasse ao chão tenha sido um acto inocente, Missy Pevensie! – Declarou Luci, repreendendo a filha com o olhar, mas falhando a missão ao cair na risada mais uma vez.

- Admita! Foi mais um acto de caridade!

A teacher, a seeker,
A both arms out reacher
My mother,
That’s who I mean.

- Um, dois, três… Um, dois, três… — Contava Luci, enquanto ensinava a filha a dançar valsa, descalças na areia. – Missy! Duvido imenso que isso seja um passo de valsa!

- Mãe! Iria fazer imenso sucesso!

- Nem pensar! – Riu-se a rainha, antes de ser atingida por gotas de água atiradas pela filha e rindo-se. – Missy!

‘Wish I could slow down,
The hands of time,
Keep things the way,
They are

Luci correu atrás da filha, na tentativa de se vingar da pequena brincadeira, mas, por muito que tentasse, a filha era mais rápida e escapava-se das investidas dela. Tal como Missy fugia de Cair Paravel…

- Em breve, será hora do almoço… Que tal regressarmos e pedirmos a Lily para entregar a nossa comida nos seus aposentos? – Perguntou Luci, sorrindo, tristemente.

- Sim, vamos!

Luci seguiu a filha até onde os cavalos repousavam, sentindo que bastava uma palavra e ela ficaria ali para sempre. Porém, seria egoísta da sua parte e não proferiu qualquer palavra.

If she said so,
‘I would give her the world,
If I could…
I would

Missy divertia-se a tentar acertar com bagos de uva na boca aberta de Luci, falhando ocasionalmente e fazendo a mãe rir-se quando sentia a uva ricochetear na bochecha ou na testa.

- Péssima pontaria… — Falou Luci, rindo-se da expressão que Missy fizera. – Devia ter-me dedicado mais a ensinar-te o tiro com arco!

- Deixemos essa capacidade com a Nanda! Prefiro as espadas… — Riu-se Missy, arregalando os olhos e rindo-se da ideia da mãe.

‘My love and my laughter,
From here ever after,’
Is all that she says,
That she means.

- Ele viu-nos? – Perguntou Luci, baixando-se atrás de um arbusto, após Missy ter quase acertado com uma flecha na cabeça de Sir Sirius.

- Penso que não… — Falou Missy, entre risos, espreitando por cima da folhagem e vendo Sir Sirius a abanar a cabeça em forma de repreensão, na direcção dela. – Oh, ele viu-nos!

- Agora entendo a sua aversão às flechas…

A friend and companion,
I can always depend on,
My mother,
That’s who I mean.

Com gosto, Luci ouvia Missy a tocar o cravo, enquanto cantava aquela melodia, num tom doce. Resistindo às lágrimas, sentou-se ao lado da filha e juntou-se a ela, cantando em coro.

My mother,
That’s who I mean.

- E foi assim que eu acabei por me casar com o homem que viria a ser o teu pai… — Finalizou Luci, com um sorriso.

That’s who I mean.

- Espero um dia encontrar algo assim… — Murmurou Missy, pensando alto sem se aperceber.

- Encontrar o quê? – Questionou a rainha, surpreendendo a filha.

- Alguém que me olhe da mesma maneira que o pai olha para você… E alguém que eu consiga olhar da mesma forma como a mãe olha para o pai. – Explicou a princesa, com um sorriso.

- Eu pensei que não estava preparada. – Riu-se, levemente, Luci, abraçando a filha. – Mas, agora vejo que é o contrário.

- O que isso quer dizer?

- Quer dizer, que você está preparada para se casar… Apenas, ainda não encontrou a pessoa certa para o fazer. – Falou Luci, com um sorriso triste. – E, por muito que me custe, se isso quer dizer que tenha de ir para Inglaterra para perceber quem essa pessoa é, eu não poderia ficar mais feliz… Você, realmente, já é uma adulta, Missy…

Missy acenou afirmativamente, sem pronunciar mais nenhuma palavra. Abraçando a mãe de volta, permaneceram assim durante algum tempo, deitadas na cama, até ouvirem um som do exterior.

- Ouviu isso? – Perguntou a princesa, erguendo ligeiramente a cabeça para ouvir melhor.

- MÃE! MÃE!

- MISSY!

- Oh-oh! – Exclamaram as duas, antes de sete pessoas invadirem o quarto a correr.

De imediato, Nini e Amanda saltaram para cima da cama, gatinhando até elas, ao passo que Carol, Bruna e Jane se sentaram ao fundo desta e Nanda se sentou na penteadeira, olhando para a cena em forma de repreensão. Só Rick é que foi directo à mãe, deitando-se ao lado dela e abraçando-a. Foi, então, que Missy se apercebeu que já estava a anoitecer e o sol se preparava para se despedir do mar, antes de ser substituído pelo luar.

- Nem imaginam! – Exclamou Amanda, sentando-se à frente de Missy.

- O Príncipe Caspian ganhou a penúltima prova! – Falou Nini, contente, batendo palmas.

- Sim, mas ele agora vai ter de enfrentar o filho do Lord Lucca, que é um rival muito forte. – Constatou Nanda.

- O Príncipe Caspian vai ganhar! Nanda, não seja desmancha-prazeres! – Exclamou Nini, deitando a língua de fora à irmã, ao que esta apenas revirou os olhos.

- De certeza que vais querer abandonar esta confusão toda? – Perguntou Luci, baixinho, num tom de brincadeira.

- Eu vou sentir imensa falta, realmente… — Riu-se Missy, erguendo-se da cama e abraçando as irmãs.

- Quem está pronta para uma pequena competição de espadas? – Perguntou um homem de cabelos loiros e olhos azuis penetrantes, ao entrar no quarto com um ramo de orquídeas de padrão tigre.

- É para mim? – Perguntou Luci, rindo-se e dando um leve beijo nos lábios do seu marido. – Obrigada, meu amor…

- Vamos, Missy? – Perguntou Peter, piscando o olho à filha.

- Sim, vamos! – Exclamou Missy, após uma troca de olhares entendedores com a mãe e vendo os seus irmãos todos a desaparecer do quarto. – Só um momento…

A princesa dirigiu-se, rapidamente, à sua penteadeira, agarrando na sua escova dourada. Aproximando-se, em seguida, da mãe, estendeu-lha.

- Espero que sirva para tirar muitos outros nós que possa encontrar na sua vida, mãe… — Falou Missy, dando um leve beijo na testa da mãe.

- Tenho a certeza que será muito necessário. – Riu-se Luci, limpando uma pequena lágrima que lhe surgira no canto do olho. – E eu espero que encontre aquilo que procure, Missy.

- Eu encontrarei… — Murmurou Missy, antes de fechar a porta atrás de si.

- Talvez já tenha encontrado… — Sussurrou Luci, sozinha no compartimento.

Erguendo-se da cama, aproximou-se da janela, conseguindo apanhar o último beijo que o sol dava ao mar, antes de desaparecer na escuridão e ser substituído pelo luar.

- Talvez só precise de uma última lição de vida…