Cher Maître
13 Poético, Bonito e Sensual
Notas iniciais
Músicas eletrônicas, jovens com roupas elegantes e luzes coloridas. Estávamos em uma festa, mas não era só uma festa, era a festa. Havia prometido a mim mesma que resolveria meu caso com Vicente hoje. Ele já tinha dado várias demonstrações de que estava interessado, porém ainda não estava 100% segura. De qualquer forma, eu tentaria.
Luíza e Clarice estavam radiantes como sempre. Luíza vestia um modelo midi na cor vermelha, enquanto Clarice vestia o modelo que havia experimentado, mas na cor nude. Eu, por minha vez, vestia meu tubinho preto e tinha meus cabelos presos em um penteado com cachos nas pontas. Odiava Bruna, mas ela havia servido para me arrumar.
Monalisa não havia vindo no baile, em vez disso, preferiu ficar em casa assistindo alguma de suas séries nórdicas que ninguém conhecia. Desconfiava que Ricardo fosse aparecer em sua casa assim que Bruna fosse descansar sua beleza plastificada, mas não era nada confirmado. De qualquer forma, estava mais feliz com minha amiga antissocial.
— Esses bailes me dão uma nostalgia… — Luíza afirmou. — Odeio lembrar que esse é o nosso último e dependendo do rumo que tomarmos, poderemos não nos ver mais.
A frase da loira me impactou. Sim, era verdade. Estava deixando de ser uma adolescente para entrar na vida adulta. Odiava lembrar disso, entretanto, essa era a minha realidade. Logo estaria na faculdade, provavelmente em outro estado, e dificilmente veria minhas amigas. Sabendo de minha habilidade em fazer amizades, tinha consciência de que não demoraria criar vínculos com outras pessoas.
De repente, não mais que de repente, como diria Vinícius de Moraes, a música Don’t Stop Believing irrompeu pelo salão. Não sabia exatamente a razão para tal reação, mas meus olhos encheram-se de lágrimas. Como boa representante dos que nascem em 2000, minha lembrança com a música não tinha nada a ver com a banda e sim com Glee, série que preencheu boa parte de minhas tardes.
A sensação de crescer é ótima, fato, mas traz consigo um amargo gosto de saudade da infância. Meu último baile, meu último ano na escola, meu último ano na casa dos meus pais, meu último ano com minhas amigas. Eram muitos últimos, mas eu também possuía muitos inícios: a faculdade, possivelmente Vicente, uma nova cidade, um novo estado, uma nova vida.
Não ia parar de acreditar como estava dizendo na música, não mesmo. Nada me pararia, prometi em silêncio enquanto secava as lágrimas que caíam em minha face.
Ainda não tinha visto Vicente, talvez ele não fosse vir. Havia informado minhas amigas sobre meu plano mirabolante. Elas haviam curtido a ideia, bem mais que eu, presumo. Não era uma garota insegura com muitas coisas, mas tratando-se de amor, era uma completa inexperiente. Já havia tido vários rolos, até um namoro, mas nada era comparado ao que sentia pelo francês.
Avistei a cabeça de minha paixão quando as primeiras notas de It’s My Life começaram. Essa era minha vida. Era agora ou nunca. Eu não viveria para sempre. Precisava viver minha vida enquanto estava viva. Os cabelos louros de Vicente pareciam mais claros, já que sua vestimenta era completamente negra. Até seus sapatos eram pretos. Ele parecia ocupado conversando com Soraia, que também estava incrível.
A professora de Literatura vestia calças brancas, que combinavam com uma camisa com choker da mesma cor e finalizava o look com saltos azuis. Seus cabelos, agora tingidos de preto, contrastavam com a roupa tanto quanto no exemplo de Vicente.
— Rebeca, ele chegou — Clarice declarou. — Mexa sua bunda.
— Não sei se está na hora certa — Respondi. — Deixa mais para o final.
— Viva a sua vida, Beca — Luíza sorriu. — Você sempre se preocupa tanto com a gente, acho que está na hora de você começar a se preocupar mais com você mesma.
Abracei minhas amigas com carinho. Elas estavam certas, estava mesmo na hora de eu tomar uma atitude.
Aproximei-me de Vicente e Soraia, ambos sorriram. Não sabia como proceder, não havia preparado um discurso para esse dia. Sabia o que sentia, porém nunca fui boa em demonstrar nada. Meus atos eram sempre impulsivos, impensados e esse também seria.
— Oi, Rebeca! — Soraia cumprimentou-me.
— Oi, Soraia! — Exclamei. — Tudo bem?
Dei uma gaguejada nas palavras. Estava óbvio que estava muito nervosa. A morena pareceu entender a situação inteira, já que rapidamente formulou uma frase:
— Tenho que pegar um ponche!
Era isso. Eu e ele, ele e eu. Vicente estava concentrado em mim, ainda não havia dito uma palavra. Meu sangue gelou, minha barriga revirou-se. Que sensação era aquela? Parecia mais ansiosa para aquilo do que para qualquer simulado ou vestibular da minha vida.
— Vicente, eu posso falar com você? — Apertei as mãos. Tinha conseguido falar.
— Pode, claro — Ele sorriu. Acalmei-me um pouco. — Por que não poderia?
Ah! Seu jeito filosófico! Claro que ele tinha que agir daquela forma.
— Pode me seguir? — Pedi. Minha voz falhou.
— Por que não seguiria? — Sua risada era gostosa.
Andamos lado a lado até o ginásio. Havia preparado uma coisinha por lá. As únicas luzes eram velas ornamentadas e Monalisa tinha se encarregado de arrumar-me incensos com aroma de rosas. O ambiente favorecia o romance, eu também, admito. Meu vestido era bonito, meu cabelo estava arrumado, minha maquiagem bem-feita.
— Bela arrumação — Ele observou, sentando em uma das arquibancadas depois. — Suponho que queira me dizer algo, certo?
Novamente direto. Vicente me deixaria maluca daquele jeito. Meu nervosismo podia ser facilmente constatado por contato visual. Sentia meu rosto tremer, assim como os dedos de minhas mãos e até os de meus pés. Se eu não dissesse o que precisava falar, poderia infartar ali mesmo.
— É… Sim — Declarei. — Quero que você saiba de algo que vem acontecendo.
— Tudo bem, estou aqui — Novamente direto. — Por mais que a sua presença seja consideravelmente melhor que o baile, sinto que suas amigas podem sentir sua falta.
Suspirei. Precisava reunir coragem. Fechei os olhos e mordi os lábios. Não sabia como começar, não mesmo. Pensei em vão em várias formas de dizê-lo que estava apaixonada e precisava dele em minha vida, mas nada vinha à minha mente. De repente, tive uma ideia que poderia dar certo.
Aproximei-me do loiro, que levantou da arquibancada. Subitamente puxei-o pela camisa; colando nossos corpos. Ele olhou-me confuso, porém não afastou-se. Com toda a bravura que ele havia me dito que eu tinha um dia, aproveite-me de meu salto 15 e consegui alcançar seu pescoço com facilidade. Deslizei meus dedos entre seus macios e lindos cabelos dourados e finalmente o fiz.
Puxei-o pela nuca e finalmente colei nossos lábios em um beijo apaixonado e desesperado. Rapidamente, consegui adentrar em sua boca com minha língua e finalmente me libertei de maneira que nunca pensei que fosse capaz. As mãos dele, por sua vez, foram para minha cintura, me puxando contra o seu corpo. Ele me queria, era nítido, conseguia sentir. Ele ansiava por aquilo tanto quanto eu.
Todos os dias que passei odiando-o, todas as vezes que o critiquei, todas as vezes que o desejei, tudo parecia se resumir naquilo. Filmes românticos nunca fizeram meu tipo, eu nunca fui uma dessas garotas que vê o mundo cor-de-rosa, eu nunca quis ser uma dessas garotas. Felizmente, havia mudado de ideia. O amor era algo bom, os seres humanos é que o problematizavam.
Nosso beijo parecia ensaiado, era bonito, tocante e ao mesmo tempo, necessário. As mãos de meu professor foram para meus cabelos, senti-os sendo puxados com força pelo francês. Tudo parecia poético, bonito, sensual. Nada parecia fora do lugar, tudo parecia incrível e por que não? Filosófico. Sartre dizia que a violência era sempre uma derrota, seja qual for a maneira que ela se manifesta.
Eu tinha uma tese diferente: o amor era sempre uma vitória, seja qual for a maneira que ele se manifeste. Se ele manifestar-se em um beijo apaixonado como aquele, melhor ainda. Vicente estava apaixonado por mim também? Bem, eu não poderia saber e nem queria, na verdade. Estava satisfeita por ter conseguido algo, pelo menos. A satisfação que sentia não podia ser substituída por besteiras. Estava beijando o dono da minha paixão, o dono dos meus pensamentos e desejos.
Lembrei-me de outra frase célebre de um filósofo. Kant dizia que o ser humano era produto direto da educação que recebia. Eu, por minha vez, preferia pensar que a felicidade é produto direto do amor, da paixão e bem, acho que minha tese tinha fundamento.
Nosso beijo perdurou por alguns minutos, até que percebi que havia perdido o ar. O meu sorriso devia ser tão grande que achei que poderia ser visto do salão de festa. No entanto, a expressão de Vicente não era nada amistosa. Ele parecia desolado, na verdade. Nunca tinha visto-o tão desagradado.
— Rebeca… Eu não sei o que deu em mim — Ele começou seu monólogo. — Você é uma adolescente, eu sou seu professor, isso é totalmente inadequado.
O loiro fez uma pausa, avaliando-me e mordendo os lábios em seguida.
— Por alguns minutos, eu perdi a noção de tudo e preferi acreditar que estávamos em outro lugar, que éramos outras pessoas, que isso poderia acontecer sem problema algum, mas não é assim. A vida não é assim. Você é uma garota maravilhosa, mais do que maravilhosa, acho. É capaz de encantar qualquer um, mas não, eu não. Não posso ser seu, você não pode ser minha.
Claro que aquilo tinha que acontecer! Essa era minha vida de merda! Quando acho que algo está indo bem, uma nuvem negra vem e estraga o meu dia ensolarado. As lágrimas não demoraram a se formar em meus olhos e logo, havia borrado toda a minha maquiagem.
Vicente pareceu sentir-se mal por me ver chorando.
— Rebeca, não chore — Ele acariciou meu rosto. — A culpa não é sua… Paixões na sua idade são assim mesmo, a gente se apaixona por pessoas que não deveríamos.
Sim, ele estava tratando os meus sentimentos como mera paixão adolescente. Pera aí, o que é que eu sentia mesmo? Oh, Vicente, você está enganado. O que eu sentia não era paixão adolescente, era muito mais que isso. Queria eu que fosse só a droga de um amor platônico, mas não era. Eu realmente gostava dele, gostava pra valer.
— Não tenha pena de mim — Respondi. — Não precisa disso.
A expressão do loiro foi de surpresa.
— Por favor, não me odeie — Ele implorou. — Não tive a intenção de encorajar esse tipo de coisa em você.
Aquilo era demais! A única coisa que ele tinha feito era me encorajar.
— Como não? Vicente, me poupe! Você me encorajou tanto, que aqui estou sendo humilhada e reduzida a uma adolescente apaixonada e completamente maluca.
— Eu não disse isso, Rebeca.
— Você não precisou dizer! — Limpei minhas lágrimas. — Relaxa, não sou nenhuma criança, Vicente Bordeaux.
Afastei-me.
— Sei que não é criança, não disse isso também. Tente me entender, Rebeca, você é minha aluna e é uma menor de idade.
— Não precisa pedir para que eu te entenda, já fiz isso. Só não peça para perdoá-lo por isso! — Apaguei uma das velas. — E não me diga que não gostou de me beijar, notei muito bem o quanto você gostou.
O rosto do docente ficou vermelho.
— Não me julgue, você é uma garota linda.
Não esperava por aquele elogio tão direto. Então era isso? Ele havia correspondido só por eu ser “linda”? A raiva em mim cresceu, mas não quis falar mais nada. Só iria machucar-me mais, se é que era possível estar mais arrasada do que estava. Ao mesmo tempo que esse tinha sido o melhor dia da minha vida por eu ter conseguido beijá-lo, tinha sido o pior por saber que aquele seria o último de nossos contatos.
— Não vou te julgar, fique tranquilo com isso — Respondi. — Mas por favor, não fale mais comigo. Infantilidade ou não, lidarei melhor com a situação assim.
*/*
Minhas lágrimas não cessaram. Saí do ginásio ainda chorando muito. Entrei no salão novamente, procurando por minhas amigas. Avistei-as de longe. Clarice dançava com um cara desconhecido e Luíza estava abraçada com uma garota do segundo ano. Já havia avisado Luíza sobre se envolver com garotas e garotos mais jovens, mas ela não escutava.
Meu coração estava partido. É, era essa definição clichê que definia no final. Queria arrancá-lo de meu peito e jogá-lo no lixo. Odiava a mim mesma por ter cedido, odiava-me ainda mais quando lembrava-me de que a minha primeira paixão de verdade tinha transformado-se em um pesadelo.
O dia ainda não tinha acabado.
Saí de lá, não estava com ânimo para festa. Queria ir para casa, dormir uma longa noite e lidar com as consequências de meus atos no dia seguinte. Como eu agiria daqui para frente? Flashs de meu beijo com Vicente voltavam à minha mente. Por que ele tinha que ser meu professor? Gostava tanto dele que sentia meu coração mastigado, doía em mim cada vez que lembrava de seu sorriso. As lágrimas vieram com mais força. Limpei-as de mim.
Já estava na porta da escola, quando uma cena chamou minha atenção.
Catarina estava linda. Seus cabelos ruivos estavam soltos em cachos formados, um vestido branco feito de paetês a vestia e sapatos bonitos davam mais altura à, já alta, garota. Senti vontade de elogiá-la, ela estava estonteante. A sua presença já seria chata o suficiente por si só, mas alguém estava ao seu lado. Alguém que conhecia muito bem.
Matheus tinha as mãos na cintura da ruiva, que sorria vitoriosa. Meu ex namorado me observou atentamente, como se me analisasse. Foi aí que percebi o que eles tanto reparavam, eu estava chorando. Do jeito que Matheus era idiota, com certeza pensaria que era por ele estar com Catarina. Estava pouco me fodendo para os dois, na verdade. Queria que eles fossem felizes e pronto.
— Ei, Rebeca! — Matheus me chamou.
Virei-me como a garota do exorcista.
— O que foi?
— Agora tem noção do que perdeu, né? Por isso está aí chorando, se arrastando como uma rata pelo esgoto! — Suas palavras não me feriram nem um pouco. — Eu te avisei que a vida poderia ser dura.
Poderia responder que sua afirmação era absurda, que não estava chorando por ele, que ele não significava nada para mim. No entanto, preferi manter meu silêncio. Continuei minha caminhada, até que ele chamou-me novamente.
— Descobri que você não era tudo o que eu imaginava! Tem pessoas melhores… — Dava para notar que ele estava bêbado. — Você é só uma garota de beleza mediana com boas referências que acabam dando-nos a ilusão de que você é genial, quando na verdade, não passa de uma arrogante.
Aquela me incomodou. Porque bem, eu concordava com ele.
— Matheus, aproveite a noite! — Dei-me o trabalho de respondê-lo. — É o melhor para você e para sua acompanhante.
Catarina sorriu.
— É, Rebeca… Acho que você perdeu — A ruiva afirmou. — Tomei seu primeiro lugar e agora o seu namorado.
Ela precisava tomar um chá de semancol, mas não seria dado por mim. A vida a ensinaria.
— Catarina, você sempre quis tudo que é meu — Falei. — Infelizmente, quando você as consegue, elas já não importam nada para mim. Eu como o pão, você fica com as migalhas — Pausadamente olhei para Matheus — E com os restos.
*/*
Bati na porta de casa três vezes, até que Ricardo abriu-a.
Desesperadamente, joguei-me em seus braços e esperei pelo seu abraço. Meu irmão, perplexo, passou os braços pelos meus ombros e me apertou contra seu peito.
— O que aconteceu, Rebeca? — Questionou.
— Eu não quero falar, só me abraça.
E assim ele fez.
A noite que tinha tudo para ser a melhor da minha vida, transformou-se certamente na pior de todas. Mas pelo menos, eu tinha meu irmão e minhas amigas para ajudarem-me a catar todos os caquinhos do meu destruído coração.
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