Cher Maître
1 Filósofo Iluminista Ressuscitado
Notas iniciais
Espero que gostem! Boa leitura ♥
Mais um dia chato da minha insuportável existência naquela maldita escola. Eu odiava estudar. Mas odiava ainda mais ter que ficar de recuperação em alguma matéria, por isso no terceiro ano eu era a melhor aluna da escola. Não era exagero e era comprovado, eu tinha a maior média de toda a poderosa Santa Bárbara. Porém, isso não implicava no meu comportamento. Ao passo que eu tinha notas espetaculares, meu espírito baderneiro já era tão instalado em mim, que era impossível contê-lo.
Dançava em cima de uma cadeira quando fui surpreendida.
Marta entrou pela sala, junto com sua autoridade incontrovertível e seu semblante infeliz. A mulher não devia medir mais de 1 metro e meio, mas sua postura fazia com que ela parecesse medir mais de 2 metros. Ela não sorria, seus sorrisos eram guardados para oportunidades onde sua postura militar era profundamente elogiada pela dona da escola ou quando algum aluno passava em primeiro lugar em um vestibular de Medicina. Em casos que não fossem os supracitados, seu rosto estava sempre tomado pela seriedade, que na maioria das vezes, irradiava pela sala de aula.
Os cabelos claros da inspetora brilhavam, com certeza ela devia ter saído do caríssimo salão que frequentava. Seus olhos claros estavam apertados, ela parecia com raiva. Não me surpreendi quando ela voltou seu frígido olhar para a minha pessoa.
Todos me olharam com olhar de reprovação. Inclusive minha amiga, que mais parecia preocupada comigo do que brava por eu estar em cima de uma cadeira bem na frente de Marta, o terror dos secundaristas.
— Me impressiona que a aluna mais espetacular, academicamente falando, tenha tamanho desrespeito com seus superiores! — A mulher caminhou até ficar próxima o suficiente para eu reparar na coloração branquíssima de seus dentes. — É inadmissível que a senhorita se comporte desta forma, Rebeca Garcia!
Sem responder uma palavra, finalmente saí de cima de minha cadeira e me desculpei em sussurros. Não era uma boa ideia contrariar Hitler 2.0.
— Sente-se no seu lugar, mocinha — Marta falou calmamente. — Depois conversamos sobre suas coreografias em sala de aula.
Eu podia argumentar, dizer que não estava em aula no momento, entretanto, o medo de tomar mais uma advertência e perder meio ponto por matéria me manteve em silêncio. Por mais que eu curtisse uma agitação, morria de medo de perder o meu tão suado primeiro lugar no ranking geral. Havia conseguido superar Filosofia, com certeza superaria aquele momento vexatório.
Catarina, ou descrevendo melhor, a ridícula que me odiava, parecia segurar o riso. A garota me odiava pelo simples fato de minha existência fazer com que ela sempre ficasse com o número 2. Passei bons anos à sua sombra, era justo que agora pudesse brilhar por uns instantes. Contrariando meu comportamento, Catarina era de poucas palavras, poucas reações, poucos sentimentos.
No entanto, eu era o estopim para os seus ataques de nervos. Seu ódio por mim só não era maior que sua vontade de passar para Harvard. Ela tinha um esforço invejável, invejado até por mim. Ela estudava muito, tinha objetivos claros e fazia de tudo para não errar seus alvos. Éramos muito diferentes nesse aspecto.
— Catarina, querida, você se incomodaria em ir até a secretaria convidar a diretora para essa pequena reunião?
A idiota assentiu para Marta e saiu da sala, desfilando como sempre.
Olhei para trás, na esperança de encontrar Luíza.
Minha amiga fingia estar concentrada em Marta, mas a conhecia o suficiente para saber que ela odiava a loira tanto quanto eu, talvez mais. Luíza não era dada aos estudos, odiava qualquer coisa que remetesse à escola e tinha pavor que falassem sobre faculdade com ela. Ela tinha sonhos diferentes, queria cursar música em uma universidade americana, mas seus pais jamais autorizariam. Por isso, qualquer menção relacionada aos famigerados “cursos de elite”, que eram Medicina, Direito e Engenharia, faziam seu estômago revirar.
— Beca, você é meu ídolo! — ela sibilou, sorrindo em seguida.
— Deus nos defenderá — pisquei um olho para Luíza, que não conteve seu sorriso.
Marta nos notou e logo nos reprimiu com o olhar.
— A senhorita Garcia gostaria de expor suas sábias palavras para a turma? Acho que ouvi o nome de Deus! — Marta tentou me humilhar.
O problema é que já estava a tempo demais participando de seus joguinhos para não saber como guiar meu joystique. Com um sorriso no rosto, disse:
— Posso ir aí na frente para que todos escutem minhas sábias palavras?
Ela não esperava por isso. Vi seus olhos se estreitarem.
— Por que não? — Ela respondeu, sem graça.
Luíza parecia horrorizada.
— Você é louca, Beca! — Minha amiga sibilou.
— O opressor nunca será derrotado se os oprimidos não levantarem a voz — Sussurrei, segurando o riso.
Caminhei calmamente até o lugar dos professores, consequentemente o lugar que Marta ocupava.
— A senhora se importa? — perguntei educadamente.
A loira saiu.
— Queridos amigos e colegas, estava fazendo uma prece ao senhor quando fui interrompida pela adorável Marta. Pedia que Deus nos defendesse daqueles que nos oprimem e daqueles que acham que podem nos ditar coisas que não podem, daqueles que se referem a nós como pouco mais que crianças que acabaram de sair do berço e claro! Daqueles que nos diminuem ao nosso rendimento acadêmico. Deus nos defenderá, amém! — Disse tudo com os olhos fechados, como se estivesse realmente orando ou rezando.
Não esperava por aquilo.
Todos da turma levantaram-se de suas cadeiras e aplaudiram-me.
Com os olhos furiosos de raiva, Marta me fuzilava.
— Como a senhorita é audaciosa! A diretora será informada logo que passar por essa porta.
Revirei os olhos.
Não tinha conseguido conter meu impulso, um dos meus piores defeitos era justamente esse: ser extremamente impulsiva.
*/*
Como havia sido profetizado, a diretora apareceu em minha sala.
A senhora Maria Lila Sereno não era uma mulher idosa. Ao contrário do que imaginamos quando pensamos em diretoras de escolas rigorosas como a minha, Maria Lila era uma mulher de, no máximo, quarenta anos de idade. Seu rosto não possuía ruga alguma, o que eu imaginava ser fruto de sua percebível vaidade. Tinha olhos verdes e cabelos escuros, era uma mulher bonita. Sua beleza era enorme, mas era facilmente superada pelo seu espírito competitivo.
Era inegavelmente a melhor diretora que já tínhamos tido. Havia assumido o colégio há dois anos, não era uma mulher experiente na época, mas seus mestrados e doutorados haviam garantido o cargo. Por mais que eu não gostasse dela como pessoa, tinha que admitir que sua competência era inegável. Diferente, talvez, de seu caráter.
— Boa tarde, queridos — Ela disse. Sua voz era calma. — Sei que esperavam ter três aulas de Filosofia agora, mas sinto informá-los que as aulas de Filosofia serão, exclusivamente hoje, substituídas por aulas de Matemática.
Os alunos entreolharam-se. A confusão instalou-se.
A maior parte dos adolescentes preferem Filosofia à Matemática, não são todos que gostam de números. Eu, uma estudante de Exatas nata, amava tanto Matemática que fazia cálculos por prazer. Meu rendimento acadêmico em Filosofia, no entanto, era totalmente diferente do que era em Matemática. Eu odiava Filosofia. Era a matéria que mais fazia minha cabeça pedir por pausa. Achava tudo estúpido, discordava de todas as teorias e achava Sócrates um falso modesto.
Contudo, minhas notas haviam melhorado de forma significativa. Tinha pulado de seis para oito de um bimestre para o outro e estava muitíssimo realizada com isso. A professora de Filosofia, a senhorita Rachel Bueno, era a maior responsável por minha melhora. Diferente do professor anterior que havia se aposentado — fato festejado por mim —, Rachel sabia como abordar a matéria de forma atrativa e conseguia fazer a aula não tornar-se tão maçante. Não estava gostando da matéria do amor à sabedoria, mas já a odiava menos.
— Depois de analisarmos as notas de vocês em Filosofia, comparar com as do antigo professor e observar que alunos que mal passavam no bimestre agora ostentam notas brilhantes, chegamos à conclusão de que a senhorita Bueno é uma professora fraca — Reclamações podiam ser ouvidas — Por isso, resolvemos que o melhor seria procurar por outro professor, um que fosse verdadeiramente bom e que tirasse de vocês o melhor possível. Um professor que dá notas altas não é, necessariamente, um professor bom. Lembrem-se disso.
Marta parecia eufórica. Desconfiava que ela me odiasse. Algo me dizia que aquela conspiração do universo contra mim, era na verdade, uma conspiração de Marta contra mim. Logo agora que estava entendendo a matéria, eles trocam o professor. Podia jurar que eles encontrariam um monstro para nos dar aula. Talvez conseguissem superar o idiota do Ghaleu, só talvez.
A raiva havia me tomado. Queria fugir dali.
*/*
O pronunciamento da diretora havia chegado ao fim, mas meu sentimento de revolta só estava começando. Aquilo era ridículo. Afastar uma professora porque o rendimento dos alunos melhorou? Havia coisa mais contraditória?
Diferente da maior parte dos alunos da escola, eu não era rica. Não era uma pessoa de situação ruim, tampouco alguém que passava por dificuldades, porém não tinha uma renda mensal tão grande quanto a de meus colegas. Meus pais pagavam a mensalidade de minha escola com muito suor e trabalho. A mensalidade da escola era exatamente a metade de nossa renda mensal. Nos apertávamos um pouco todo mês; algumas vezes as contas não fechavam, mas já era o meu quarto ano na melhor escola da cidade. Meus primos tinham inveja de mim, eu tinha inveja deles.
Andava calmamente pelos corredores quando avistei Monalisa, minha amiga de longa data. Ela estava junto com Luíza e Clarice.
Todas as minhas amigas eram garotas estonteantes. Me achava a mais sem sal entre elas. Luíza tinha profundos olhos verdes e marcantes cabelos loiros, enquanto Monalisa tinha um sorriso enlouquecedor, uma pele negra imaculada e cabelos cacheados incríveis. Além das duas musas, tinha também Clarice. Clarice era a mais rica entre nós. Seus pais eram donos de metade da cidade e ela havia sido criada sendo a criança mais mimada do mundo. Sua beleza também era muito chamativa. Longos cabelos castanhos com raios dourados e um corpo em formato de violão.
— Rebeca! — Clarice veio correndo a meu encontro. — Você está bem?
Clarice tinha um jeito não muito discreto de analisar as pessoas. Ela olhou descaradamente para os meus tênis, que segundo seu senso de moda, não deveriam combinar com o uniforme escolar.
— Estou bem sim — Sorri. — E esses são meus sapatos prediletos, guarde seus comentários.
— Eu não disse nada — Ela se defendeu.
— Quem será o substituto da deusa Bueno? — Monalisa finalmente abriu a boca.
Entre todas nós, Monalisa era a mais contida e eu, a menos. Ela não falava muito, mas era a melhor observadora e quando falava, tinha os comentários mais ácidos que já havia ouvido.
— Não sei, espero que seja alguém melhor que o Ghaleu — respondi.
— Vindo da dupla de demônios, espero até um filósofo iluminista ressuscitado — Luíza comentou.
— Aquelas vadias! — Clarice disse. — Como podem ser tão insensíveis?
— Elas devem ganhar a mais do dono da escola para fazerem isso conosco — Revirei os olhos. — De qualquer forma, quero logo conhecer a praga que vão nos mandar.
*/*
Acordei com muito esforço, não queria abrir os olhos.
Ouvimos comentários sobre o novo professor. Já havia sido confirmado que o cara era francês. Além disso, também tínhamos recebido a notícia de que ele era formado por Harvard e já tinha dado aula na melhor escola da capital. Podia imaginar perfeitamente o tipo de cara que ele devia ser.
Imaginei um homem de meia-idade, talvez barrigudo. Devia ter forte sotaque francês e uma didática terrível.
*/*
Estava perdida entre meus próprios pensamentos, quando aconteceu.
Um homem entrou na sala.
Nada poderia me preparar para aquilo. Nada.
Não era um homem qualquer. Um homem alto, com cabelos louros dourados esvoaçantes e hipnotizantes olhos verdes. Não quis terminar de olhar, aquilo era demais para digerir. O que um modelo da Calvin Klein estava fazendo na minha sala de aula?
Sem dizer uma palavra, ele pegou uma caneta em seu estojo e começou a escrever no quadro. Foi aí que li “Vicente Bordeaux”. Aquele devia ser seu nome, certo? Pelo pouco conhecimento que tinha da língua latina mais elitizada, sabia que Bordeaux soava Francês.
Francês.
Aquele era o professor de Filosofia, obviamente era ele.
O furacão de olhos verdes que tinha adentrado a sala era o novo professor de Filosofia.
— Boa tentativa da Maria Lila! Obviamente que nunca vamos tirar notas altas com um professor como esse nos dando aula — Clarice comentou. — Não é possível que isso esteja acontecendo.
Continuei fitando o homem incessantemente. Ele tinha cara de nariz em pé, não tinha sido simpático conosco. Reparei no resto dos alunos, faltava gente ali. Talvez fosse isso, ele estava esperando o resto da turma chegar para apresentar-se corretamente.
Depois que o resto das pessoas chegou, o compatriota de Brigitte Bardot levantou-se de sua cadeira e caminhou até centralizar-se.
— Bom dia, turma — Ele nos cumprimentou. Para minha surpresa, ele não tinha sotaque francês. Tinha um forte sotaque sulista. — Me chamo Vicente Bordeaux e sou o novo professor de Filosofia de vocês.
Não tinha muitas certezas na vida. Nunca fui de afirmar coisas baseadas apenas em uma situação, mas era fácil delinear minha trajetória a partir daquela manhã de Quinta-feira. Nunca tinha sido boa em Filosofia, ter um professor que poderia facilmente estampar campanhas de moda não facilitaria em nada meu aprendizado.
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