Cher Maître
15 Berço da Filosofia?
Notas iniciais
O vestibular tinha sido mais fácil que o esperado, tinha certeza que passaria com uma média espetacular, mas ainda me perguntava qual curso fazer. Vicente não era mais meu professor, ele havia pedido licença de minha turma com a desculpa de ter outros compromissos no horário. Eu e minhas amigas sabíamos que era mentira, já que desde nossa discussão na sala de aula ele nunca mais havia dado as caras e evitava me ver em qualquer que fosse o lugar.
No entanto, o destino estava prestes a nos juntar novamente. Não, não é juntar do tipo ficar realmente juntos, é juntar do tipo nos colocar no mesmo recinto e nos deixar com cara de tacho. O francês estava mais bonito desde a última vez que o vi, agora ele tinha o rosto bonito com a barba mais espessa e os cabelos um pouco maiores. Os olhos verdes brilhavam com a mesma intensidade, porém pareciam mais serenos desta vez.
O auditório da escola estava vazio, fazendo com que eu e Vicente ficássemos completamente a sós. Haveria um comunicado oficial da diretora naquele dia e todos estavam ansiosos e curiosos sobre. Alguns apostavam ser algo sobre a formatura, outros sobre ela estar se aposentando e outros (mais malucos) cogitavam a ideia de Marta estar deixando a escola por descontentamento geral.
— Olá, Rebeca — Ele cumprimentou formalmente sem me olhar realmente.
— Olá, Vicente — Fiz um tchauzinho de princesa com a mão e me sentei com as pernas para cima de uma das cadeiras.
— O que está achando do novo professor? — Ele perguntou enquanto lia uma folha.
O substituto de Vicente era um bom professor, porém eu preferia o loiro. Além de mais atraente, ele era mais dinâmico em suas aulas.
— Você era melhor.
— Aposto que acha isso — Ele sorriu ironicamente.
Revirei os olhos. Por que ele insistia em se comportar daquela forma mesmo depois de todo o rebuliço causado por nosso envolvimento impróprio e imoral, segundo sua ética?
— Você sabe o motivo de terem convocado os alunos aqui? — Mudei de assunto.
— Sei sim, mas não posso falar. Agora me diga porque a senhorita chegou tão cedo?
Já que ele me provocava, eu podia fazer o mesmo.
— Queria te ver, estava com saudades — Fiz biquinho. Ele riu. — Você não?
— Você sabe que não posso responder isso e levando em conta que no nosso último encontro estávamos ambos em prantos, julgo que deveríamos mudar o assunto, senhorita Rebeca Garcia.
Mesmo com o coração chacoalhando por dentro, a presença do loiro ali me acalmava e fazia eu acreditar que algum dia poderíamos ter esse tipo de diálogo idiota, mas com tópicos mais românticos e deitados em uma macia cama na França. Talvez eu sonhasse demais, mas por ora, era o melhor a ser feito.
— Julgo sua decisão como certa, caro professor francês de sobrenome chato de pronunciar.
O loiro sorriu de lado, mas não respondeu, já que pessoas começaram a aparecer. Minhas amigas deram o ar da presença na porta e me encararam confusas, já que estava perto o suficiente de Vicente para dar margem para dúvidas.
— Oi, safada — Clarice implicou.
As meninas sentaram enfileiradas ao meu lado e logo a diretora começou seu discurso. Todos os pronunciamentos terminavam em polêmica, parecia até a Câmara dos Deputados em Brasília.
— Queridos alunos, venho aqui informar da existência de uma viagem à Grécia com um tour pela Europa com tudo pago pela escola e acompanhada de um responsável obviamente — A mulher foi direta, como se quisesse logo terminar sua fala. — Antes que se animem, só há uma vaga e esta será preenchida pelo aluno mais capaz e escolhido pelo corpo docente. A viagem enriquecerá muito este aluno e garanto que é uma oportunidade única, já que o roteiro programado só acontece a cada dez anos e exige duas semanas para ser realizado em sua totalidade. Como sabem, depois que entram no mercado de trabalho, duas semanas livres são muito raras e por isso é tão interessante ir antes desse acontecimento deprimente.
O bom humor da diretora me pegou de surpresa, assim como a expressão de Marta, que me olhou amistosa pela primeira vez na vida. Como era de praxe, os alunos ficaram muito entusiasmados com a ideia e logo começaram a discutir entre si sobre quem iria ou não.
*/*
— Eu acho que a Rebeca deveria ir! — Luíza anunciou. — Ela merece, foi a aluna mais esforçada da escola esse ano.
— Olha, se fosse por refinamento, eu que deveria ir! — Clarice implicou. — Mas como o mundo tem essa coisa de justiça e merecimento, a Rebeca realmente deveria ir. Já que ela gosta tanto de filósofos, deveria aprender a amar o berço da filosofia.
Suspirei. Minhas amigas vez ou outra zoavam da minha obsessão por Vicente. Todas sabiam que nosso breve envolvimento (é mais que breve quando não passa de uma noite, né) tinham mexido demais com meu psicológico, quase colocando-me em uma depressão, mas também sabiam que eu preferia rir da desgraça do que vivê-la.
— Eu acho que a Rebeca deveria ir também, tá na cara que vão escolhê-la! — Monalisa opinou. — A menos que a Catarina faça um drama.
Catarina. Sempre tínhamos que falar sobre a ruiva idiota que amava infernizar minha vida. Depois de pegar meu ex namorado em sua estadia na cidade, ela havia mudado sua postura: vestia roupas mais legais, usava o cabelo mais curto e olhava para todos com os olhos claros bem abertos como se quisesse meter medo em alguém. Em mim ela só inspirava pena e raiva em alguns momentos, admito.
Clarice, Monalisa e Luíza tinham opiniões bem fortes sobre essa viagem. Todas queriam que eu fosse e como eu nunca tinha saído do país devido à minha condição financeira, eu também queria no fundo. Ao mesmo tempo que achava a ideia de conhecer a Grécia incrível, um frio brincava na minha barriga. Vicente deveria dar a opinião final sobre quem iria, já que ele era o professor de Filosofia e os estudos eram voltados para essa área.
Se meu interesse pela matéria tinha aumentado? Não. Continuava achando chato na maior parte do tempo, mas tinha um método infalível para ir bem nas provas do novo professor: decorar absolutamente tudo. E nisso, eu era muito boa. Sabia exatamente o magnus opus de cada filósofo moderno importante e sua importância para a atualidade. Ia tão bem nas provas que Catarina acusou-me de colar. Se eu estava aprendendo com aquilo? Não, mas isso não faria muita diferença no meu futuro assim.
Quando se tem dezessete ou dezoito anos as coisas mudam gradativamente. Aos poucos, seus pais passam a te tratar como adulta e a esperarem certas responsabilidades da sua parte. Ainda não havia terminado o ensino médio, mas já ouvia um monte sobre como me sustentaria pelos próximos vinte anos. Meu irmão tentava aliviar minha barra dizendo que eu me encontraria, mas não vinha sendo tão fácil. No fundo, eu sabia o que fazer, mas não estava preparada para dizer para o mundo inteiro.
Ser uma boa aluna e consequentemente ter fama de superdotada é legal, mas não contam boa parte da história, a parte ruim. Cobram resultados absurdos de você, fazem você passar noites sem dormir se perguntando se é mesmo capaz, colocam seu futuro em jogo o tempo todo, acham que você é um robô e que não deve ter sentimento algum, torcem pela sua falha e sobretudo, acham que sua vitória não é mais que obrigação.
Na reta final dos estudos para o vestibular, eu quis ser outra pessoa. Quis ser aquela pessoa sem preocupações, que cursa algo unicamente por amor e é realizada com aquilo, mas infelizmente (ou felizmente, isso só o destino dirá) eu não era. Eu queria mudar o mundo, rearranjar a sociedade, quebrar correntes e estigmas, queria dar um fim a infelicidade das pessoas que mexia tanto comigo. Sabia o caminho que precisava seguir para isso.
— É, vocês tem razão — Sorri. — Talvez eu realmente deva ir nessa viagem.
*/*
Depois de pensar e repensar, fui demonstrar interesse com a diretora. Ela, por sua vez, não pareceu surpresa e sorriu a meu ver.
— Seu nome é o primeiro na lista, querida — Ela afirmou. Os olhos claros de Marta pareciam raivosos. — Por mais que eu concorde que você é a maior merecedora, a decisão final é do Vicente.
Meu coração disparou ao ouvir seu nome, em seguida o loiro apareceu na sala.
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