Cher Maître
3 Vicente: deseje, mas não toque
Notas iniciais
Estava absorta em meus pensamentos quando fui surpreendida pelos ácidos comentários de minhas amigas.
— Repare em como a Catarina olha para o professor Vicente — Clarice sussurrou. — Ela parece querer comê-lo com os olhos.
Odiava fofocas daquele tipo, mas não pude evitar de olhar para a ruiva, que realmente mantinha os olhos atentos no loiro que chamavam de professor. Ele, por sua vez, estava preso em seu mundo intelectual onde provavelmente discutia a existência humana com Descartes. Talvez até mesmo com Platão, quem poderia saber?
Minha relação com nosso professor estrangeiro, que naquela altura já havia descoberto ter sido criado no interior do Rio Grande do Sul, só tinha piorado. Se antes não gostava dele, agora o odiava verdadeiramente. Seu comportamento comigo? Ele basicamente aproveitava todas as deixas para fazer com que eu falasse na frente da sala inteira. Nessas fatídicas ocasiões, sempre recebia elogios irônicos como “boa retórica”, “você fala muito bem, Rebeca”.
— Amores platônicos… Quem nunca teve um? — Luíza se meteu no assunto.
Pobre Catarina! Como pôde cair em tentação logo por Vicente? Além da relação nunca poder acontecer por motivos óbvios, ele nunca olharia para ela. Não do jeito que ela olhava para ele. Vicente deveria ser do tipo que tinha várias namoradas, seu celular sempre tocava e ele sempre se desculpava. Até aquilo me irritava. Por quê não colocar o telefone no silencioso logo? Quem sabe ele não queria que fizéssemos suposições sobre sua vida pessoal.
— Eu nunca tive um — Monalisa afirmou. — Isso é coisa de criança.
Mordia a caneta quando fui beliscada.
— Perdeu a língua, Beca? Por que está tão quieta? — Luíza perguntou.
— Minha língua está bem aqui — Mostrei a língua. — Só não acho de bom tom ficar tomando conta da vida dos outros. Se ela tá afim do idiota, deixe que ela vá em frente!
Minhas amigas entreolharam-se e deram aquele sorrisinho idiota que só elas sabiam dar, em seguida todas apoiaram os queixos em suas mãos e me olharam.
— Você está com ciúmes, Rebeca? — Luíza perguntou, segurando o riso.
— Já imaginávamos que todo esse ódio sem motivo era por isso… — Clarice foi ainda pior.
— É realmente estranho que você odeie o melhor professor de Filosofia que já tivemos a troco de nada… — Monalisa completou.
Não respondi. Aquilo era basicamente a teoria mais ridícula que já tinha ouvido em minha vida. Eu jamais seria capaz de sentir qualquer coisa por um ser asqueroso como nosso professor de Filosofia.
— Não sejam estúpidas! — As repreendi. — Não seria nojenta a esse ponto.
Luíza olhou para Monalisa, que olhou para Clarice.
— Nojenta? Nós te entendemos. Ele é um gato! — A loira declarou.
— Ele não é feio… — Concordei. — Mas não faz meu tipo, além disso ele é velho.
— Ele não é velho, ele só tem vinte e oito anos! — Clarice argumentou.
Corei. Não sabia o porquê, mas a breve imagem de Vicente fora da escola me causou uma sensação estranha. O que estava acontecendo? Minhas amigas eram malucas. Era isso. Elas eram completamente doidas.
— Vocês podem parar com isso? É completamente inadequado “shippar” a amiga com o professor, ainda mais um professor que ela odeia! — Revirei os olhos.
Meus olhos voltaram à Catarina. Ela parecia derretida, coitadinha! Tudo bem que não é sempre que você tem um cara tão bonito te dando aula, mas tudo tem limites! Quem seria idiota a ponto de gostar de um cara assim? Ele era do tipo que vinha com aviso prévio: deseje, mas não toque.
— Rebeca!
Ah, não! De novo não!
Levantei a cabeça devagar, até que finalmente encarei o objeto de nossa conversa idiota.
— Percebi que está animada hoje! — Ele afirmou. — Por que não vem até aqui e explica para os seus colegas o que é o conhecimento?
Pronto. Todos me olharam, queria sumir. Por que ele insistia em fazer aquilo? Por que eu? Catarina estaria muito lisonjeada em mostrar para todos o quanto ela estudava, mas eu? Eu tinha verdadeira fobia de falar em público. Minhas mãos começaram a suar automaticamente, eu o odiava com toda intensidade possível.
— Não me sinto apta, professor Vicente — Respondi cordialmente.
— Eu insisto, Rebeca — Um sorriso brincava em seus lábios rosados. Por que eu tava reparando na cor dos lábios dele? — Quero que mostre o porquê de sua nota ter subido tanto de um bimestre para o outro!
Cerrei meus punhos.
Com uma vergonha absurda e uma vontade ainda maior de simplesmente morrer, me dirigi ao centro da sala.
— Conhecimento é todo o saber que adquirimos de forma racional ou empírica — Falei, quase gaguejando.
— Muito bem, Rebeca! — Elogiou-me. — Agora diferencie um conhecimento empírico de um conhecimento racional.
Lancei-lhe um olhar gélido. Seria possível odiá-lo mais?
— Um conhecimento empírico é adquirido através de nossas experiências, nossas vivências e nossas observações, enquanto o conhecimento racional é adquirido unicamente através de nossa razão e raciocínio lógico.
O loiro sorriu. Dessa vez parecia um sorriso verdadeiramente genuíno.
— Muitíssimo bem! É exatamente isso… — Ele disse. — Agora você pode se sentar.
— Obrigada.
*/*
Graças aos céus, a aula de Filosofia já havia acabado, pelo menos por aquele dia. No entanto, minhas amigas insistiam com suas insanidades.
— Acredita na gente, Rebeca!
A nova teoria de conspiração de minhas idiotas propriamente ditas era de que entre eu e Catarina, Vicente preferia à minha pessoa. Totalmente infundado? Totalmente infundado.
— Vocês são malucas, sério! — Finalmente declarei. — Se eu fosse mesmo a aluna predileta dele, por que ele tentaria me humilhar em todas as suas aulas? Isso é completamente insano.
— Pensa comigo — Monalisa pronunciou-se. — Ele pega no seu pé porque quer que você melhore e por que ele quer que você melhore? Para que você seja a melhor da sala! Ele se preocupa com você, é por isso que age assim com você.
Estava chocada. Até Monalisa, a mais sensata entre nós, estava concordando com aquela maluquice. Aonde já se viu ser maltratada pelo professor sendo que você é a sua aluna predileta? Não faz sentido. É uma tese sem sentido.
— Me admira que até você esteja participando disso, Lisa! — Reclamei. — Como vocês podem ser tão doentes?
Clarice estreitou os olhos castanhos, como se estivesse profundamente irritada.
— Você que é louca de não perceber! Ele te olha aula toda e você fica como? Com essa cara de mosca morta que você adquiriu depois que ele chegou? O que tá acontecendo com você, Beca? Cadê a garota que discutia com os professores e fazia eles se contradizerem? Morreu com a chegada do francês? Ele te desarma, Rebeca! E você é a coisa que ele mais adora irritar!
Não sei se ficava mais chocada pelo que Clarice disse ou se ficava chocada pela capacidade dela de formar frases sem erros de Português. Pensei em fazer piada sobre isso, mas mantive minha boca fechada. Aquelas garotas eram malucas. Eu não havia mudado em nada com a chegada de Vicente, continuava a mesma. Tudo bem que não conseguia mais impor minha presença como antes, mas isso não tinha nada a ver com a presença de Vicente. Eu só não me sentia tão confiante quanto antes, a retomada do primeiro lugar por Catarina tinha acabado comigo.
— Vocês vão mesmo perder o precioso tempo do intervalo me dizendo coisas como essas? — Indaguei. — Como diria meu amigo: BULLSHIT!
— Não adianta correr! — Monalisa começou.
— Não adianta se esconder! — Clarice continuou.
— Ele chegou e nhac! Abocanhou seu intocado coração! — Luíza concluiu.
Sem falar nada, gargalhei. Minhas amigas eram realmente doentes mentais.
*/*
— Boa tarde, tenham um bom dia! — Cumprimentei os porteiros, finalmente poderei ir embora.
Poderia, já que fui impedida por uma praga conhecida: meu irmão mais velho.
Ricardo Garcia era a personificação do demônio. Era uma praga, mas não era só uma praga, era uma praga rica e bem-sucedida. Meu irmão mais velho tinha vinte e quatro anos, três carros importados e uma mulher cara de se manter. Sim, ele namorava uma subcelebridade do naipe de ex BBBs e afins.
— Rebeca, minha pirralha!
— E aí, praga? Cadê o projeto de panicat? — Impliquei.
Não, eu não gostava da namorada de Ricardo. Ela era fútil, chata e interesseira. Tudo bem que meu irmão não era um cara de aparência ruim, ele era até bem bonito — e desejado por Monalisa, mesmo que secretamente —, mas era tão claro que ela estava com ele por dinheiro. Bruna Borges era o nome da perua. Ela media exatos 1,76, altura que ela gostava de se gabar, possuía longos cabelos platinados, olhos castanhos e um corpo com mais plástico que brinquedo de criança.
— Você é mesmo muito impertinente, né? — Meu irmão riu. — Como vão as coisas?
— O mesmo de sempre, só que agora com algumas complicações…
— Garotos?
— Não, garotos não fazem e nem farão parte dos meus problemas.
Ricardo sorriu como se não estivesse acreditando.
Por mais que amasse meu irmão, ele tinha alguns defeitos irredutíveis. Ele adorava se gabar de sua gorda conta bancária, de suas qualificações, do fato de — diferente de mim — ter estudado a vida inteira em escola pública e ainda sim ser rico hoje em dia. Coisas quase tão fúteis quanto sua namorada.
— Talvez a ausência deles seja o problema, maninha — Ele mexeu em seus cabelos negros idênticos aos meus. — Está indo para a casa, certo?
— Sim! Vai me dar uma carona?
A esperança de que sua resposta fosse sim me inundou. Odiava ter de caminhar até o ponto de carona para pedir um Uber, já que não passavam táxis por ali. Minha casa, diferente da escola, não ficava na área nobre.
— Infelizmente não posso, mana! Acabei de sair de casa, tenho que ir para Belo Horizonte ainda hoje…
Meu irmão era muito atarefado, isso era fato. Sua companhia de publicidade crescia cada dia mais e eu era muito feliz por isso, mesmo que isso implicasse na nossa quase inexistente relação de irmãos.
— Tudo bem então! — Sorri forçadamente. — Boa viagem!
Ele me abraçou.
— Passei aqui só para te ver, mas cada dia mais reparo que essa escola é ótima! Queria ter tido a sorte de estudar aqui…
Ele tinha que começar com aquele assunto, era inevitável. Ele parecia gostar de jogar na minha cara o quanto eu era mais mimada que ele.
— Não, você não queria.
— Claro que sim! Eu, diferente do que ouço de você, tentaria aproveitar a chance e o esforço dos nossos pais.
Tá, aquela doeu. Eu não fazia o esforço dos nossos pais valer a pena? Eu estudava para todas as provas, tentava ser aplicada e era assim que era recebida?
Percebendo que vacilou, Ricardo mais que depressa mudou sua postura.
— Foi mal, irmãzinha, não foi o que quis dizer…
— Tudo bem, Ricardo, sério… — Tentei acalmá-lo. — Talvez você esteja certo.
— Não, eu não estou! — Ele disse. — Sei que você é muito inteligente!
— Mas não tão esforçada como você? — Retruquei.
— É, tem isso… Mas você não precisa se esforçar como eu, seu talento dispensa esforços — Ricardo não era bom em puxar saco, ele deixava tudo muito óbvio.
— Boa viagem, Ric — Cortei o assunto. — Espero que você tenha um ótimo dia!
— Tchau, maninha — Ele pareceu ter entendido o recado.
Assim meu irmão entrou no carro, me deixando cheia de questionamentos e com a autoestima ainda mais baixa.
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