Cher Maître
7 Quente e Frio
Notas iniciais
Estava tensa. Queria muito poder acompanhar Luíza até a delegacia, mas eu não poderia. Ligaram para seus pais, que chegaram na escola com cara de poucos amigos. Achava que se tivesse pais como os dela, já teria fugido de casa. A criação de Luíza tinha muito dinheiro envolvido, mas nenhum amor. Seus pais não falavam muito com ela, a não ser quando queriam cobrar algo da garota. Até controlar seu futuro eles tentavam, ela não deixava.
— Não sei como a Luíza não pirou ainda… — Clarice comentou. — Os pais dela parecem carcereiros.
— Ela já pirou, Clarice — Monalisa argumentou. — Trazer maconha para a escola é uma piração e tanto, não é?
Concordava com Monalisa. Luíza estava totalmente errada. Não era certo por motivos óbvios, o ambiente escolar nunca fora nossa casa.
— O que será que vão fazer com ela? — Clarice perguntou. — Ela tecnicamente não pode ser presa, não é?
— Não. Além dela ser menor, a quantidade que ela trouxe se enquadrava em consumo, não em venda. Portanto, ela não vai ser presa, mas pode ter que cumprir algum tipo de serviço voluntário — Respondi. — Espero que ela saia ilesa dessa.
A mãe de Luíza, senhora Helena Bragança, era uma mulher bonita. Tinha cabelos loiros e olhos azuis como os da filha, mas era extremamente mais elegante. Andava com seus saltos que aumentavam sua já grande estatura e tinha os lábios sempre pintados com seu marcante batom rosé. Por mais que fosse bonita, todas nós sabíamos de sua pouca habilidade com a maternidade.
Luíza não era filha única, ela tinha um irmão mais novo. Seu irmão era criado por babás, já que sua mãe cuidava de seu ócio visitando inúmeros cabeleireiros e dermatologistas pela cidade. Eu e a senhora Helena compartilhávamos um desprezo mútuo, ela me achava má influência para Luíza e eu achava-a péssima mãe.
— Boa tarde, meninas — Nos cumprimentou. — Que bela tarde estou desperdiçando, não é?
Revirei os olhos.
— É sim — Clarice respondeu.
— Clarice, sua mãe ainda está em Brasília? — Helena questionou.
— Está sim.
Os pais de Clarice eram políticos, ambos. Seu pai era deputado e sua mãe, sua assessora. Eles ganhavam bem, porém eram pouco presentes. Quase nunca estavam na cidade e quando estavam, tentavam atender às demandas populares. Gostava deles, eram muito divertidos e não possuíam a postura engessada de políticos comuns.
Depois de agradecer, a mãe de Luíza finalmente se afastou. Suspirei aliviada, ela me tirava do sério.
*/*
Escutava minhas músicas indie estranhas em meus fones de ouvido quando avistei um conhecido carro preto com vidro blindado que eu conhecia. Logo o veículo parou do meu lado e os vidros abaixaram-se, revelando belos cabelos louros, uma boca extremamente desejável e profundos olhos verdes.
— Posso falar com você, Rebeca? — Ele perguntou.
— Claro — Respondi amistosa.
Eu sentia uma necessidade gigante de abraçá-lo e agradecê-lo por ter me ajudado com Luíza, mas sabia que seria inadequado. Ele podia interpretar errado e no fundo, sabia que minhas motivações iam além do agradecimento. Eu queria abraçá-lo porque eu simplesmente queria, não tinha exatamente um motivo específico.
Vicente saiu do carro e sentou na beirada da calçada. Não conseguiria imaginá-lo fazendo algo tão informal se não estivesse vendo. Olhando-o de cima, ele continuava magnífico. Era impossível vê-lo menos que incrível algum dia. Era sempre tão bonito, tão charmoso. A forma que ele tentou cruzar as pernas foi engraçada, já que ele não conseguiu. Pernas muito longas para um lugar muito baixo.
Ao contrário dele, não tive problemas em cruzar as minhas e logo olhei-o com um olhar divertido. Ele sorriu de volta, pude notar uma covinha formando-se em seu belo rosto. Tinha como ser mais bonito? Acho que não. Não o ataque, Rebeca.
— Vantagens de ser baixinha — Comentei.
— Não há muitas vantagens em ser alto, eu acho — Ele respondeu. — A não ser debochar de tampinhas como você.
Suspirei. Até ele estava implicando com minha altura? Aquilo era sério?
— Pernalongas! — Gritei. — Mais um pouco e você bate a cabeça no céu.
Ele riu. Não apenas um sorriso, mas uma risada gostosa ecoou em meus ouvidos. Até sua forma de rir era bonita. Meu Deus (insere-se aqui o emoji da garota batendo na própria testa), o que eu tava pensando da vida? Desde quando pensava coisas tão melosas?
— Não sou nenhum gigante, sou apenas um cara alto.
Jesus, até a voz do babaca era sexy. Comecei a devanear sobre como seria tê-lo sussurrando em meus ouvidos. Ele não era só um cara alto, ele era um cara alto, bonito, charmoso e inteligente.
— Um cara alto, que é discípulo de Sócrates, certo? — Debochei.
— Não sou muito fã do pai, meu filósofo predileto se chama Jean Paul Sartre, o homem foi fantástico.
Jean Paul Sartre. Eu conhecia-o e por mais estranho que pareça, eu gostava e respeitava sua obra. A esposa de Sartre, Simone de Beauvoir, era uma das maiores filósofas de todos os tempos. Suas obras traziam duras críticas ao machismo e ela ajudava inúmeras mulheres a entenderem sua própria identidade. Fiquei tão absorta em meus pensamentos errados sobre ele que acabei não falando nada. Ele me observou, parecia curioso. Eu sempre fui de adentrar meu próprio mundo, mas a situação estava intensificando-se
— Que foi? — Perguntei divertida. — Estava filosofando, estou tentando aprender.
E aí ele sorriu novamente. Aquele sorriso roubador de corações. Senhor, ele era bonito demais.
— Então minhas aulas andam fazendo efeito… — Debochou.
— Mais do que você imagina — Falei em tom que eu mesma percebi ter soado cheio de segundas intenções.
Minhas bochechas avermelharam-se e o rosto dele corou. Meu Deus, como eu tinha feito aquilo? Parabéns, Rebeca, você tinha acabado com a conversa amigável que tinha se iniciado depois de semanas de ódio.
— Rebeca, eu vim aqui porque eu tenho que te pedir desculpas pelo meu comportamento na primeira semana de aulas.
Eu não esperava por aquilo nem em um milhão de anos. Ele me pedindo desculpas? Fala sério, não precisava daquilo.
— Não se preocupe com isso, eu não era exatamente comportada também — Tentei tranquilizá-lo. — Você não me deve nada.
— Claro que devo! Eu me deixei levar pelo que me disseram sobre você e agi impulsivamente.
Imaginava que as pessoas não dessem as melhores informações sobre mim, mas não sabia que a coisa era assim tão feia.
— Já disse que não há problema.
— Há muito problema sim! — Ele começou. — Você é uma garota muito diferente do que imaginei, é incrivelmente inteligente, cuidadosa e extremamente corajosa, não consigo me perdoar pelo que te disse.
Novamente senti meu rosto corar. A forma como ele estava falando, o jeito que mexia os lábios, parecia que tudo havia parado. Eu queria eternizar aquelas palavras na minha cabeça de modo que nunca pudesse esquecê-las. Minha vontade de abraçá-lo aumentou ainda mais. Sabia que não podia fazer aquilo, mas parecia um ato tão inocente…
— Obrigada, eu acho — Sorri. — Você também é tudo isso.
— Ah, não! Eu não sou corajoso como você, nunca fui…
Senti um pesar em sua voz.
— Como não? Você enfrentou aqueles caras tanto quanto eu e foi por sua causa que eles soltaram a Lu.
— Eles a soltaram por causa do meu papel na escola, não por minha bravura. A única corajosa ali foi você, poucas pessoas fariam o que você fez, Rebeca.
Tudo bem, eu admitia. Ele era mesmo um ser humano evoluído. Lindo daquele jeito e ainda era cordial assim. Eu estava pirando, morrendo, precisava desse homem na minha vida. Sabia que era mais do que errado, era profano, mas nada me impedia de imaginar aquelas mãos no meu rosto.
— Rebeca? — Ele me tirou de meus devaneios.
— Oi, é… Muito obrigada.
— De nada, apenas a realidade.
Olhei dentro de seus olhos. Eles pareciam mais claros hoje. Ele desviou o olhar, parece que de propósito. Em seguida, abaixou a cabeça e enfiou os dedos dentro dos próprios cabelos. Ele parecia nervoso com alguma coisa, não entendi. O que era?
— Vou no carro pegar uma coisa — Anunciou e saiu.
Voltou com um livro de capa preta e grossa em suas mãos, com a cabeça ainda baixa. Ele estava realmente nervoso.
— Essa é uma edição de colecionador de A Mulher Destruída, uma obra-prima de Simone de Beauvoir — Ele explicou. — Quero que você leia, acho que a leitura irá te agradar.
Ele estava me dando um presente? Tudo bem que era uma forma de incentivo ao estudo de Filosofia, mas mesmo assim, era um presente. O objeto de meus sonhos mais indiscretos estava me presentando! Será que ele gostava de mim? Não, claro que não. Aquilo era idiotice e ingenuidade demais, ele não podia gostar de mim. Vicente era um homem de vinte e oito anos, bonito, charmoso, podia ter a mulher que quisesse.
Eu era uma adolescente de dezessete anos, não era bonita, tampouco charmosa e não possuía nenhum tipo de vida amorosa. Poderíamos ser mais diferentes? Éramos opostos. Eu era quente, ele frio, eu era dos números, ele era das letras. Impossível funcionarmos juntos, mas espera aí, a gente não tinha funcionado mais cedo?
Não devia fazer tanto caso por causa de um presente, mas era mais forte que eu.
— Muito obrigada, Vicente — Sorri. — Não esperava por isso.
— Nem eu, na verdade — Ele mordeu os lábios. — Você quer uma carona para casa? Já te atrasei bastante, preciso recompensar.
Não precisei pensar muito para responder. Óbvio que eu queria. Qualquer desculpa para ficar perto dele era válida, e ter uma visão de seu rostinho concentrado no volante era um atrativo a mais.
*/*
— Não entendo porque se incomoda em me levar em casa, você mora tão longe… — Afirmei.
— Não é nenhum incômodo, gosto de dirigir — Ele respondeu.
Comecei a pensar e cheguei a conclusão que sabia muito pouco sobre meu professor de Filosofia. Além de seus diplomas e sua nacionalidade, não sabia muito mais sobre ele.
— Vicente — Chamei-o pelo nome. — Seus pais moram no Brasil?
Ele levantou uma sobrancelha. Pareceu surpreso com minha questão.
— Não, moram na Áustria — Respondeu. — Faz dez anos que eles não vem ao Brasil.
— E por que você decidiu lecionar por aqui?
— Acho que o Brasil precisa mais de educação do que qualquer outro país no momento, por isso escolhi dar aulas aqui — Ele sorriu. — Preferia que eu estivesse na Áustria com meus pais?
Ele estava me provocando? Eu poderia muito bem dizer o lugar que eu queria que ele estivesse, mas ele me expulsaria do carro. Seria uma enorme falta de respeito dizer que queria que ele estivesse na minha cama e mais precisamente…
— Não — Respondi rapidamente. — Queria que você estivesse na escola.
Ele olhou novamente para mim, sorriu de lado e continuou dirigindo. Tá bom, qual era a dele?
*/*
Ele estacionou o carro bem na frente do meu portão e eu ainda não tinha sacado a dele. Ele parecia saber exatamente o que eu queria dele, mas ao mesmo parecia inocente na situação. Sem pedir licença, envolvi seu pescoço em meus braços e o abracei. Suas mãos foram até minha cintura, me apertando de leve contra si. Era só um abraço sem maldade?
— Obrigada pela carona e pelo livro — Disse quase sussurrando.
— Não foi nada, Rebeca — Ele respondeu no mesmo tom de voz. — Espero que seu interesse pela Filosofia aumente.
— Ele já aumentou, te garanto — Sorri maliciosa. Não foi proposital.
O rosto de Vicente fechou-se, como se ele finalmente tivesse caído em si sobre o clima que havia se instalado. Ele me queria também? Não, era improvável.
Ficamos nos encarando por alguns segundos, ele com sua expressão imparcial e eu com um sorriso que parecia não ter fim. Sem aguentar a pressão que era estar dentro de um carro com ele sem poder fazer nada, finalmente abri a porta.
— Tchau, Vicente — Me despedi. — Obrigada por tudo, mais uma vez.
— Disponha — Ele respondeu sério. — Adeus.
E assim ele acelerou o carro e se foi.
Meu dia havia sido recompensado pelos momentos que passei com Vicente, então estava me sentindo feliz e realizada. Achava que nada poderia aumentar minha euforia, mas estava enganada.
Matheus, meu ex namorado que havia se mudado para São Paulo, estava sentado na frente da porta de minha casa. Ele era um garoto bonito, porém não era justo compará-lo ao furacão francês. Seus cabelos escuros continuavam os mesmos, mas estavam mais compridos, chegando aos seus ombros. Seu corpo levemente malhado também não havia mudado muito e seus olhos avelã continuavam brilhantes como sempre.
Não sentia nada por ele, nada além de uma forte atração e um carinho que ainda durava. Não havíamos terminado de forma traumática, eu havia entendido sua necessidade de mudança e a amizade manteve-se.
Sem dizer nada, ele me puxou e me abraçou.
— Senti tanto a sua falta, Beca — Ele me apertou. — Você está ainda mais linda.
Sorri. Por mais que estivesse feliz por vê-lo, me sentia mal em notar que sua empolgação era muito maior que a minha. Ele não me causava nada perto do que Vicente andava causando.
— Também senti a sua! — Respondi. — Quer entrar?
*/*
Da porta da sala à porta do meu quarto foi um pulo. Eu andava com necessidade de beijar alguém e como ele estava disponível, não hesitei em atacá-lo e ele não pareceu achar ruim. Suas mãos passeavam pelo meu corpo, enquanto eu mordiscava seus lábios.
— Você sempre foi uma ótima namorada, mas você está mais quente… — Ele comentou. — Andou ficando com alguém?
Pudera eu. Minha vida amorosa era inexistente.
— Não.
— Você está diferente, Beca.
— Impressão sua — Suspirei enquanto levantava de minha cama. — Estou perfeitamente normal.
Matheus apoiou-se sobre seus braços e sorriu.
— Me engana que eu gosto, Rebeca!
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