Cher Maître
10 Conceitos Abstratos
Notas iniciais
Luíza sempre fora a mais elétrica entre nós, enquanto eu passava horas tentando convencer alguém com argumentos, ela chegava e mandava todo mundo ir à merda. Ela era linda, fato, porém igualmente problemática. Descontava suas frustrações nas drogas e comemorava sua existência ferrada a cada trago. Luíza era um infinito de coisas ao mesmo tempo, mas nunca deixava de ser minha amiga, a irmã que escolhi para compartilhar minhas fraquezas e vitórias.
Vê-la tão deprimida estava acabando comigo. Eu já estava deprimida por mim mesma, não precisava aumentar meu próprio sofrimento. Matheus não estava lidando bem com o meu afastamento. Tinha parado Ricardo na rua e dito algumas coisas desnecessárias, que meu irmão fez o favor de me defender. Ter um irmão mais velho pode ser benéfico, afinal.
Hoje teríamos o pré baile, que consistia em um dia cheio de música e dança na escola. Por uma tarde apenas, a escola deixava a rigidez de lado e deixava seus alunos se divertirem. Estava tentando convencer Luíza de cantar um pouco, mas ela parecia irredutível. A loira tinha uma das vozes mais incríveis que já havia ouvido, pena que ela não andava utilizando-a.
— Por favor, Lu — Implorei. — Você precisa mostrar para esse pessoal o que é cantar.
A sombra de um sorriso formou-se em seu belo rosto. Sabia que ela queria, contudo ainda sentia-se envergonhada pelo episódio com as drogas e não queria ser o centro das atenções.
— Luíza, pelo amor, né? — Clarice colocou as mãos no quadril. — Deus que me perdoe, sai dessa!
Monalisa ficou em silêncio. Quando perguntei a ela o motivo de ter ido até minha casa na outra semana, ela ficou estranha. Não sabia o que era, tampouco o que estava acontecendo, mas preferi deixá-la em paz. Pressioná-la por respostas sempre deixava-a profundamente irritada.
— Vamos lá! A Marta já agendou sua apresentação! — Puxei-a, levando-a até o palco.
Ela finalmente concordou. Ajeitou o microfone, olhou para nós, suas amigas, e começou a cantar. Escolheu uma música famosa, One Last Time da Ariana Grande. A música encaixava-se perfeitamente em sua voz de soprano. Não sabia se era o momento que ela estava passando ou se era o meu próprio estado de espírito, mas peguei-me chorando com as frases que Luíza cantava lindamente.
*/*
As comemorações continuaram. Luíza estava ainda mais feliz e agora cantava músicas animadas. Eu havia nascido com habilidade para dançar. Meus movimentos eram muito bem executados e conseguia encantar bastante gente com minha capacidade. Catarina encarava-me enquanto eu me mexia ao ritmo da música. Seus pés nem mesmo saíam do chão.
— Está linda, Beca — Ale apareceu no meio dos alunos que dançavam.
— Obrigada, Ale — Sorri.
Pela primeira vez em alguns dias estava conseguindo me distrair de meus desconfortos causados pela minha falida vida amorosa. Estava, já que um par de olhos verdes muito conhecidos por mim, me lançou um olhar. Vicente estava concentrado em mim, enquanto me mexia sem parar. Meus cabelos balançavam ao ritmo da música que Luíza cantava enquanto sorria e piscava os olhos para mim.
— Parece que seu objeto de desejo chegou — Clarice sussurrou em meu ouvido.
— Ele que se dane! Estou curtindo a vibe — Afirmei. — Ele anda muito ocupado beijando a Soraia pelos corredores.
E pensando nisso, onde a morena estava? Fazia tempo que não a via.
— Você deveria, sei lá, dar um oi — Clarice insistiu. — Fala sério, ele está te devorando com os olhos.
Minha dança continuou. Fiz questão de ser o mais sensual possível enquanto mexia meus quadris e sorria maliciosamente. Vicente continuou vidrado em mim, não parecia nem estar piscando. Será que ele sabia que eu estava percebendo? O loiro enfiou as mãos no bolso e apoiou um dos pés na parede.
Vestia calças jeans escuras, quase pretas e usava uma camisa polo branca. Essa era a combinação mais informal que já tinha o visto vestindo. Com essa roupa, ele não parecia um professor. Parecia só um cara normal em uma festa normal. Se ele realmente fosse essa pessoa, poderia chegar até ele e simplesmente beijá-lo. A ideia de beijá-lo fez eu me mexer ainda mais. Eu estava queimando por dentro, precisava aliviar isso de alguma forma, mas agora não tinha mais Matheus para essa função.
— Devo te advertir que o Vicente parece estar prestes a infartar e a culpa é sua — Monalisa disse. — Acho que você deveria aproveitar o momento.
O que eu faria? Não, não dava para fazer nada.
Continuei na minha, porém sabia que meu autocontrole não duraria muito. Estava ficando quente por ali e o ar condicionado estava ligado. Meu corpo estava reagindo os olhares de Vicente da pior forma possível, comecei a sentir o calor se espalhar pelo meu corpo.
— Eu acho que vou morrer, Lisa — Sussurrei. — Estou quase entrando em combustão só de olhar para ele.
Monalisa sorriu.
— Eu não posso afirmar nada, mas meu palpite é que ele também tem lá uma quedinha por você.
Uma quedinha por mim? Acho que não. Não mesmo.
Deixei a pista de dança e fui até o bebedouro. Precisava me refrescar ou começaria a pegar fogo. Aproveitei para jogar água em meu rosto. Já estava voltando quando senti as mãos de alguém enrolando uma mecha de meu cabelo. Baixei o olhar vagarosamente e notei as grandes mãos do meu loiro predileto.
— Oi para você também — Disse.
— Você é uma ótima dançarina… Não pude deixar de notar.
Que desgraçado bonito! Hoje seu rosto tinha ganhado um quê a mais, ele estava com barba. Sua voz era igualmente sensual, estava me arrepiando pela proximidade de nossos corpos. Queria dançar agarrada com ele a noite inteira, era isso.
— Obrigada, eu acho — Mordi os lábios.
Saia de perto de mim ou vou te agarrar.
— Fiquei feliz em te ver animada hoje, você anda tão deprimida…
— Você acha? — Questionei. — Acho que estou normal.
— Não, você não está — Ele desenrolou seus dedos de meus cabelos. — Quando te conheci você era um terremoto, pronto para abalar as estruturas de tudo e todos e agora? Você não anda fazendo muitos balanços. Acho que preferia a instabilidade de seus abalos, eles sempre traziam possibilidades como tsunamis e explosões vulcânicas a qualquer momento e é com a expectativa que vivem os seres humanos.
Balancei a cabeça desconcertada. Ele ia falar esse tipo de coisa mesmo? Porque eu poderia facilmente interpretar como uma cantadinha intelectual.
— Às vezes somos presos ao chão tão fortemente, que perdemos a vontade de quebrar as correntes que nos prendem — Respondi o mais sincera que pude. — E é assim que os rebeldes se calam.
— Se você não tentar quebrar suas correntes, elas continuarão lá, a vida não é mágica — Ele mexeu nos cabelos. — Aliás, o que anda te prendendo tão fortemente ao chão?
Suspirei.
— Coisas que não posso mudar agora e não tenho certeza se conseguirei controlar ou aguardar até que sejam adequadas.
— Sabe qual é a hora adequada, Rebeca? — Ele olhou-me com seus belos olhos. — A hora que seu coração disser que é. Agora ou daqui a dez anos, não importa.
Meu Deus, que conversa era essa? Ele sabia do que eu andava sentindo? Não, não deveria saber.
— Mas e se você simplesmente não puder fazer nada sobre?
— Nós sempre podemos fazer algo. Possibilidades existem para isso e saiba, querida Rebeca, que o maior pecado do ser humano é negar sua voz para onde ele sabe que andam sedentos para ouvi-la.
Estava perplexa.
— Há coisas que nos fogem do controle, você não entende — Respirei. — A gente simplesmente não pode fazer tudo o que quer sem lidar com as consequências.
— Há poucas coisas que não podemos mudar — Ele parecia ter todas as respostas. — Uma dessas coisas é o amor, sobre ele realmente não temos controle.
— É o meu caso — Não sabia de onde tinha tirado o poder para dizer aquilo, mas estava dizendo. — Estou apaixonada, mas não pela pessoa que eu deveria. Estou apaixonada pela pessoa errada.
Ele sorriu. Um daqueles sorrisos que amoleceria qualquer coração gelado, um sorriso que fez eu me derreter todinha. Era pecado um cara daqueles ser meu professor, era pecado um cara daqueles caminhar pela terra.
— Você deve saber que os conceitos de certo e errado são extremamente abstratos, não é? — Declarou. — O que é errado para você, talvez seja certo para mim e vice-versa. Não há nada absoluto no mundo. Eu costumo dizer que em um mundo de dúvidas, a única tolice é ter certeza.
Não dava para dialogar com um filósofo, estava além das minhas capacidades. Ele sempre jogaria uma dessas lições de vida zen para mim e o que queria com ele não tinha nada de zen. Eu queria era beijá-lo, fechar os olhos e sentir cada fração de sua matéria em contato com a minha. Era isso. Minha vontade era absoluta, que eu fosse tola! Eu tinha certeza que o queria.
— A única tolice foi eu ter vindo até aqui — Revirei os olhos. — Obrigada por me aturar, Vicente.
— Por que tolice, Rebeca? — Ele me parou antes que eu saísse. — E eu não te aturo, gosto de conversar com você.
— Você não entenderia, Vicente.
*/*
A conversa que tive com Vicente não me ajudou em nada, fiquei ainda mais confusa. Por outro lado, tinha gostado de falar sobre coisas tão banais com ele. Ele era um bom dialogador, não imaginava o contrário. Minhas amigas estavam reunidas em volta de Luíza, todas nós queríamos parabenizá-la pela sua apresentação, ela tinha sido ótima.
— Que tal se a gente se reunisse lá em casa hoje? — Clarice sugeriu. — A Marlene pode fazer pizza para gente!
Marlene era a governanta, babá e confidente de Clarice. Na falta de seus pais, ela era quem dava as ordens. A mulher tinha cerca de cinquenta anos e era uma das pessoas mais doces que já havia conhecido, era também uma das poucas pessoas que realmente exerciam influência sobre Clarice. A patricinha não só a amava, como a respeitava muito.
— Por mim, ok! — Afirmei.
— Adoro pizza! — Luíza sorriu.
— Para mim não dá — Monalisa declarou. Olhamos para ela. — Tenho um compromisso hoje à noite.
Nos entreolhamos. Nosso grupinho tinha a mania de juntar-se sempre para fazer suposições sobre a vida de uma das integrantes. A vítima havia sido eu nos últimos dias, mas agora era a vez da nossa deusa da beleza africana.
— Eu seria uma mosca para descobrir o que a Lisa tanto esconde — Clarice começou.
— Monalisa, você me assusta — Luíza continuou.
— Tem certeza que você não é traficante? — Debochei.
Ela balançou os cachos em negação.
— Vocês são terríveis — Se defendeu. — Eu vou apenas na biblioteca.
Biblioteca? Tá, tudo bem, era plausível. Monalisa era apaixonada por livros e bandas alternativas, passava seus dias lendo, assistindo séries que ninguém conhecia e fazendo críticas em seu blog especializado em filmes cult.
— Sei — Luíza riu. — Nada me tira da cabeça que você tem alguém e não quer nos dizer.
— Vocês são muito bobas! — Monalisa deu um tapa em Luíza. — Por que é tão difícil para vocês aceitar que minha vida é monótoma mesmo?
— Porque eu duvido que seja! — Clarice argumentou.
A negra revirou os olhos e foi embora.
*/*
Consegui carona com o pai de Luíza, dessa forma não precisei caminhar tanto até a estrada. Isso não me impediu de ver Vicente conversando com Soraia de novo. Tentei não olhar muito, mas foi inevitável. Eles continuavam formando um par bonito. A lembrança dos dois continuou na minha mente.
*/*
Abri a porta de casa feliz, finalmente ia descansar. Ou melhor, iria, já que um ser alto com cabelos louros e peitos gigantes apareceu gritando:
— Rebeca!
Saí correndo escada acima. Não queria falar com a idiota da minha cunhada. Infelizmente, suas pernas eram maiores e ela me alcançou, abraçando-me falsamente. Ela sabia do desprezo que nutria por ela e ele era mútuo.
— Oi, Bruna! — Respondi.
— Como você tá, lindinha?
A voz dela era tão ridícula como ela mesma. Como meu irmão a suportava?
— Tô bem e você? — Fingi educação.
— Cansada, cheguei de Milão hoje e seu irmão está muito ocupado fazendo alguma coisa pela cidade! Homens são tão idiotas! Uma mulher linda como eu e ele prefere ficar fora de casa!
Não consegui esconder meu deboche e disparei a rir.
— Que foi, pirralha? Comeu bosta?
— A única bosta que conheço tá na minha frente.
O ódio passou pelo seu rosto plastificado.
— Você é uma invejosa! Vá pentear esse seu cabelo de gambá antes de falar comigo!
Gargalhando, subi para o meu quarto e tranquei a porta.
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