Cher Maître
17 Ares Gregos
Notas iniciais
Vicente mantinha o olhar firme na janela do avião.
Sim, estávamos viajando rumo à Grécia e ele havia trocado poucas palavras comigo. Por medida de segurança, nossos assentos deveriam estar, necessariamente, lado a lado. Ele pareceu desagradado com a imposição, porém tentou parecer simpático.
Da notícia de que eu seria a aluna até a viagem foi um pulo. Eu tinha escolhido, estrategicamente, as roupas mais bonitas que tinha. Cortei o cabelo acima dos ombros, assim como mudei a cor levemente a fim de iluminar minha pele. Eu precisava desse momento com Vicente e precisava, ainda mais, estar preparada para alguma coisa interessante.
O loiro vestia um sobretudo vinho e uma calça escura. Sua barba estava espessa, não havia sido feita nos últimos dias. Seus olhos continuavam lindos, mas ainda não conseguiam me encarar. Ele lia um livro grosso em alguma língua que não quis perguntar sobre. Entretanto, eu tinha hobbies menos cultos: jogava Candy Crush em meu celular,
— Rebeca — Vicente disse.
Retirei os fones de ouvido e o encarei.
— Você já foi à Grécia?
— Não — Respondi e recoloquei o fone.
— Será uma viagem muito empolgante — Ele comentou.
— Com toda certeza — Ironizei.
*/*
Chegamos no hotel em que ficaríamos hospedados por volta das quatro da tarde. Estava exausta, mas claro que ainda perderia bastante tempo devaneando sobre Vicente. Eu o queria. Ele era o cara que eu gostava. Estávamos em outro país. Ninguém nos conhecia. Eu poderia, facilmente, entrar no quarto dele. Eram condições muito favoráveis ao “amor”.
Ri sozinha enquanto acomodava-me em meu quarto. Eu estava empolgada por estar em um outro país, isso era óbvio, mas estava mais preocupada em lidar com o senhor filósofo gostoso do quarto ao lado. Internamente, desejava que ele abrisse a porta do meu quarto, dissesse que me ama e que vamos nos casar. Não, casar seria um pouco demais. Talvez namorar. Quem sabe morar junto em uma casinha em Paris, criando gatos franceses.
É, eu estava um pouco afetada.
Tomei um banho, tomando cuidado para não beber a água, já que não é o recomendável. Suspirei enquanto secava meu cabelo, que agora precisava ser domado com o vento quente ou virava uma vassoura pelo novo corte. Após secar minhas madeixas, utilizei a chapinha de forma rápida e deitei-me.
Depois de algum tempo de sono, fui acordada por batidas na porta. Sem importar-me com estado de minha cara amassada, minha roupa curta ou minhas olheiras, atendi a porta.
— Ei, Rebeca — Vicente falou.
O loiro encarou-me. Vicente vestia calças jeans despojadas e uma camisa de linho cinza. Ele sempre parecia bem-vestido. Ao perceber minhas pernas nuas, seu rosto ganhou um tom rosado. Segurei o riso e continuei a encará-lo. Sabia exatamente o que ele estava pensando e gostava de saber que fazia-o pensar assim.
— O que foi, gracinha? — Perguntei sorrindo em seguida.
— É que precisamos comer — Ele afirmou. — E acho que você vai gostar do lugar que conheço.
Pera aí. Ele tava me chamando para sair? Tudo bem, essa viagem pode ser beeeeem interessante.
— Eu preciso me vestir — Disse fechando a porta.
Como se estivesse em um jogo de vida ou morte, tirei todas as roupas que havia trazido. Nada parecia apropriado. Tudo casual demais. Socorro, o que eu faria? Continuei procurando pelas roupas que agora estavam na cama. Suspirei. Por que não tinha pensando nessas oportunidades? Eu tinha uma noite pela frente com ele.
Já me enfiava em uma calça jeans quando notei a minha salvação: um vestido vinho de seda. Sem pensar no que isso implicaria, o vesti rapidamente, fazendo uma maquiagem às pressas e prendendo o cabelo em um coque. Olhei no espelho. Eu estava bonita para caramba. Se eu fosse o Vicente, eu me pegaria.
— Tô pronta — Anunciei.
O rosto de Vicente não poderia estar mais vermelho. Ele parecia prestes a dar um ataque. Eu sabia que ele me achava bonita e resolvi usar isso contra ele. O vestido era curto, minhas pernas fariam companhia durante todo o passeio. Meus brincos dourados também tinham destaque, já que meu cabelo estava preso.
— Você está parecendo uma italiana — Ele riu.
Revirei os olhos. Maldito.
— Isso foi um elogio? — Olhei em seus olhos e pisquei várias vezes.
— Não sei se você gosta da Itália, então depende.
— Eu não sei como é a Itália — Declarei. — Então você pode me explicar.
Vicente pegou em minha mão. Estranhei. O que ele tava fazendo? Um homem estranho passou por nós, me encarando descaradamente. Vicente parecia possesso.
Não me aguentei.
— Ah, o senhor está com ciúmes? — Não contive o riso.
— Claro que não estou com ciúmes. Eu sou seu professor e aquele idiota parecia querer te devorar com os olhos. Totalmente inapropriado.
— E você não quer?
— Rebeca, pare. Não estrague o que está sendo tolerável até agora.
— O que? Eu sou tolerável? Vá te catar!
Soltei nossas mãos.
Continuamos caminhando lado a lado, mas em silêncio.
Vicente era insuportável. Como pude me esquecer de seu comportamento impertinente no começo do ano? Estava ali o motivo de ter começado a odiá-lo: ele era um desses caras arrogantes.
— É por aqui, Rebeca — Ele sibilou.
— Tudo bem, senhor guia turístico!
Ele riu. Desgraçado bonito.
Chegamos a um local diferente. Algumas cadeiras em uma mesa comum, mas as cadeiras tinham cintos de segurança. Não entendi nada. Deveria ser alguma coisa estranha do Senhor Estranho. Tentei não perguntar nada e aproveitar a Grécia. Algumas pessoas começaram a sentar nas cadeiras. Continuei parada.
— Vou ali e já volto. Fique aqui — Vicente disse.
— Fique aqui — Imitei fazendo uma voz engraçada.
Ele riu novamente.
*/*
Nós nos sentamos nas cadeiras estranhas com cintos de segurança. Nós estávamos tão perto, poderia aproveitar-me dele facilmente. Mas eu não faria isso, obviamente, eu não poderia molestar uma pessoa. Mesmo que essa pessoa fosse o cara mais gostoso do universo.
— Cadê o cardápio? — Sussurrei.
As outras pessoas da mesa pareciam prestar atenção em nós.
— Não tem.
— Como posso escolher o que vou comer sem um cardápio? — Aumentei o tom de voz.
— Você não vai escolher.
Dei um leve beliscão em seu braço. Ele riu ainda mais.
— Pare de rir de mim, ridículo.
— Me desculpe, é que você é muito engraçada.
Fechei o rosto. Idiota.
Quando já estava achando tudo um saco, uma coisa sinistra aconteceu. A mesa, assim como nossas cadeiras começaram a subir. Sim, nós estávamos subindo. Fiquei apavorada, obviamente. Olhei para Vicente incrédula, ele continuava rindo sem parar. Minhas pernas estavam bambas, estávamos suspensos no alto.
— O que significa isso, Vicente? — Minha voz saiu alta.
— O melhor jantar da sua vida. Olhe a vista.
Então fiz o que ele disse. Sim, a vista era maravilhosa. Podia ver vários pontos lindos de Atenas. Sorri pela primeira vez depois de muitos minutos.
— É, realmente lindo — Limitei-me a dizer.
*/*
Já tinha comido várias coisas que jamais comeria em outra situação, como carneiro em alguma coisa que eu não sei o nome, salmão com coisas verdes sinistras e esse tipo de comida de gente rica.
— Quando eles mandam a conta?
— Eu já paguei, Rebeca — Ele respondeu.
— Você não vai pagar a minha parte!
— Eu não vou pagar, eu já paguei — Ele piscou um dos olhinhos verdes. — E ocupe-se em comer.
— Então é essa sua estratégia? Encher minha barriga para eu não te encher o saco?
— Digamos que você não fala de boca cheia.
— Desgraçado! — Gritei.
— Pare de gritar, as pessoas vão achar que você é louca.
— Cala a boca!
— Respeite o seu professor! — Ele debochou.
— Você perdeu o respeito quando me beijou — Disse.
— Você que me beijou.
— Você beijou de volta.
— Você gostou que eu beijei de volta.
— Você também gostou. Deu para perceber.
Ponto para Rebeca! Vicente estava vermelho.
— Não deveríamos falar sobre isso — Ele concluiu, enquanto bebia outra taça de vinho.
Hum, parecia que o filósofo gostava de beber. Ele não era tão perfeito.
— Eu acho que você tá bebendo demais.
— Não perco um vinho mediterrâneo por nada — Ele sorriu.
— Quando isso desce?
Ele olhou nos meus olhos, mordendo os lábios em seguida.
— Daqui uns 5 minutos.
*/*
Vicente estava bêbado comigo na Grécia. Ele parecia outra pessoa sob efeito de bebidas.
— Rebeca, você é muito chata.
— E você é insuportável.
— Você me ama — Ele garantiu.
Eu gelei. Ele ia mesmo falar disso.
— Sim, eu amo. Você me ama?
Ele começou a rir. Caramba, o que tinha naquele vinho? Cocaína da Colômbia?
— Claro que… eu não vou te dizer isso. Vamos para o hotel.
Ué. O efeito do vinho tinha passado?
Vicente chamou um táxi e fomos em direção ao hotel.
*/*
Estávamos quase nas portas de nossos respectivos quartos quando Vicente tropeçou em um tapete e caiu no chão. Jesus, eu era a babá dele agora? Que irresponsabilidade para alguém tão rígido.
— Levanta, seu otário — Tentei, em vão, levantar seu corpo muito maior e mais forte que o meu.
Em um rápido movimento, Vicente puxou-me para o chão e eu caí também.
— Seu filho da puta! — Estava começando a xingá-lo quando ele aproximou seu rosto do meu.
Vicente pôs meu rosto entre suas mãos e aproximou seus lábios dos meus. Mesmo sabendo que ele estava bêbado, não consegui não beijá-lo. Nossas bocas se encontraram, assim como nossas línguas em seguida. Ele tinha gosto de vinho na boca. Suas mãos foram para o meu cabelo e as minhas para o seu. Estávamos no chão de um hotel em Atenas nos beijando. Eu e o cara que eu gostava.
Mas não parecia certo. Eu estava me aproveitando do seu estado vulnerável.
Foi ele que te beijou. Meu inconsciente disse.
Vicente parou nosso beijo, olhou em meus olhos e me deitou. Enfiou-se no meio de minhas pernas, beijando-me em seguida. Suas mãos passearam pelas minhas pernas. Eu enfiei as mãos embaixo de sua blusa, sentindo sua barriga. Senhor, ele era muito gostoso. Não conseguia me segurar. Nosso beijo estava esquentando, acabaríamos fazendo coisas obscenas ali mesmo.
— Eu adoro seda — Ele disse, subindo suas mãos pelo meu vestido. — Você é tão linda, Rebeca, eu passaria a minha vida te beijando.
Eu não podia continuar com aquilo, mas era tão bom. Toda vez que eu recuperava minha sanidade, alguns beijinhos pelo meu pescoço faziam eu continuar minha aventura libidinosa. Eu precisava resistir. Não era para ser assim.
Como se eu fosse a adulta da situação, fugi dos braços do loiro e levantei-me.
— Vamos, Vicente, para o seu quarto — Tentei novamente levantá-lo. Dessa vez, ele cooperou.
— Por que você não vem comigo?
Suspirei. Em outra ocasião, eu iria sem nenhuma dúvida, mas não podia. Ele não estava consciente dos seus atos.
— Porque não. Entra agora.
— Não quero — Ele me puxou novamente. — Vamos lá, eu sei que você quer.
— Não é certo.
— Dane-se.
— Você está bêbado.
— Claro que não. Estou totalmente consciente do que estou fazendo.
Meu Deus! Ele estava se comportando como um adolescente!
Sem cerimônia alguma, procurei pelas chaves de seu quarto em sua calça e o empurrei porta adentro. Tentei dirigi-lo para sua cama, mas ele era resistente.
— Anda logo, deita, eu não vou conseguir te obrigar.
— Claro que não, você é uma borboletinha perto de mim — Ele não conseguia parar de rir.
— Quer saber? Fica aí que nem um retardado!
Saí de perto dele. Ele puxou meu braço. Não adiantava, ele era mais forte.
— Dorme comigo.
— Não posso, sou sua aluna, é errado — Comecei a rir. Eu estava usando as desculpas que ele usava comigo.
— É, você tem razão. Mas eu não dou a mínima, você dá?
Minha gargalhada saiu alta. Vicente bêbado era uma piada ambulante.
— Sim, solta o meu braço. — Ele soltou. — Agora você vai dormir e eu vou para o meu quarto rir de tudo isso.
— Você é tão bonita, me deixa louco lembrar que não posso te fazer ser minha…
Era tudo muito complexo. Eu não sabia quando ele tava falando o que queria falar e quando estava falando por efeito da bebida. Tudo estava me deixando maluca. Eu precisaria de tratamento psicológico depois daquela situação toda.
— Boa noite, Vicente.
Saí e bati a porta.
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