Notas iniciais
Oi, amores! CHEGUEI. Desculpem a minha demora, escola e ENEM batendo na porta dá nisso, quase não tenho tempo. O capítulo vai responder algumas perguntas feitas previamente, espero que curtam! Beijinhos e boa leitura ♥

Seus olhos verdes tinham um dom mais dourado olhados de perto e sob o sol. Como não tinha reparado antes? Nunca tínhamos estado tão perto. Suas mãos estavam em minha cintura, minhas mãos estavam em sua nuca, estávamos prestes a fazer o que eu queria há muito, muito tempo.

— Rebeca, você é linda…

Sorri e finalmente colei nossos lábios e nossas línguas dançaram, enquanto a natureza encarregava-se de cantar uma bela música que deixaria qualquer trilha sonora de Shakespeare com inveja. Tudo parecia feliz, até mesmo os passarinhos pareciam prestar atenção em nós.

Acordei assustada. Esse era, sei lá o número, sonho que tinha com Vicente. Todos eles eram assim, coloridos e felizes. Infelizmente, o meu mundo real chamava por mim todas as manhãs e eu era obrigada — pelo capitalismo, é claro — a levantar-me de minha quente e deliciosa cama e me arrumar para o inferno que chamam de escola.

Fitei-me no grande espelho de meu quarto. Vestia meu uniforme com uma calça jeans qualquer e tinha meus cabelos longos presos em um coque mal feito. Olhando para mim assim, eu parecia só mais uma dessas alunas com cara de desespero. De fato, eu não tinha chances contra Soraia, não mesmo. Enquanto ela era alta, curvilínea e de traços diferentes, eu era só uma garotinha com cara de gata molhada, como dizia meu irmão.

Desci as escadas animadamente, tinha a impressão de que teria um bom dia. Havia decidido, enquanto escovava meus dentes, que tomaria uma decisão. Eu perguntaria à Soraia se ela tinha algo com Vicente. Se ela respondesse que sim, abandonaria a ideia de tê-lo em minha vida e me limitaria a devanear sobre ele; se ela respondesse que não, eu tentaria dizer a ele o que estava sentindo e esperaria por sua resposta.

— Ei, praga! — Ricardo socou meu braço. — Quer que eu te leve para escola hoje?

Por que ele estava sendo legal comigo? Procurei pela sua Barbie com cara de ex BBB, mas não encontrei-a. Provavelmente já tinha ido embora, para a infelicidade do amiguinho de Ricardo e para meu total êxtase. Meu irmão vestia camisa social preta com calça jeans escura e sapatos de couro, que eu sabia serem italianos.

— Gostaria — Respondi. — Cadê a boneca inflável?

Meu irmão franziu o cenho.

— Você tem brincadeiras muito desrespeitosas para quem se diz feminista…

Ele era idiota. Qual era o sentido da sua afirmação? Nenhuma.

— E você tem um péssimo senso de humor para quem se diz publicitário da camada jovem.

O moreno mostrou-me o dedo do meio. Ricardo era mesmo infantil, mas odiava que colocassem sua eficiência em cheque, coisa que eu fazia sempre que podia. Amava vê-lo bravo.

— Ainda está apaixonada e não está sendo correspondida, mana? — Ele provocou.

Quem havia contado sobre aquilo para ele? Fala sério. Agora eu ando e está escrito na minha teste “ferrada”? Porque era exatamente isso o que estava parecendo. Parece que quando você está sendo trouxa há um imã puxando mais merdas para sua vida.

— Dá onde foi que tirou essa idiotice? Você acha mesmo que alguém seria capaz de não me corresponder? — Decidi fazer piada do assunto.

É aquele ditado: ria do que te machuca, mana!

— Como você é convencida, Rebeca.

— Puxei meu irmão mais velho.

— Vamos logo, tenho um compromisso agora — Ele afirmou. — Alguém aqui tem um emprego, sabe?

— Vai se ferrar, idiota — Revirei os olhos. — Para de tentar me tirar do sério, meu dia vai ser ótimo.

— Voltou com o Matheus?

Era impossível ficar perto de Ricardo sem querer matá-lo.

— Cansei.

*/*

Desfilava animadamente pela escola quando a encontrei. Sim, Soraia, o alvo de minhas perguntas. Aproximei-me sorrateiramente, ela sorriu e pôs as mãos na fina cintura. Puta que pariu, a mulher é mesmo um espetáculo. Seria pretensão demais da minha parte achar que posso conquistar Vicente com minhas coxas maiores que o ideal e meu rosto redondo de adolescente? Era uma luta injusta.

— Oi, Rebeca! — Ela cumprimentou.

— Oi, Soraia! — Respondi sorrindo. — Você está muito bonita.

Ela olhou-me confusa, como se realmente não esperasse por um elogio como aquele. Eu não era muito de elogiar as pessoas por aí, mas meu elogio tinha sido sincero. Ela era uma mulher legal e sempre me tratava muitíssimo bem.

— Muito obrigada!

Não queria que ninguém ouvisse nossa conversa, por isso verifiquei se não havia ninguém passando pelo corredor naquele momento. As meninas do segundo ano haviam presenciado meu escândalo, portanto, deviam desconfiar de algo se não fossem burras.

— Posso te perguntar uma coisa?

Ela assentiu.

— Você está namorando com o Vicente?

Esperava por uma reação diferente daquela. A mulher simplesmente gargalhou, como se eu tivesse contado uma piada realmente boa. Era deboche? Ela sabia da minha paixãozinha e estava jogando na minha cara o quanto eu era ridícula? Ela responderia que sim e perguntaria o que eu tenho a ver com isso? E se ela fizesse pior? Talvez ela já estivesse sendo mais que namorada e achou a suposição de ser apenas um namoro, idiota.

Entretanto, sua resposta fez um sorriso surgir em meu rosto, um sorriso tão grande, que não pude disfarçar.

— Não, Rebeca, somos apenas bons amigos — Ela garantiu. — Quando cheguei na cidade, não tinha onde morar e não tinha nada mais que minhas roupas e meu carro. O Vicente deixou-me morar com ele até que conseguisse meu primeiro pagamento e desde então, somos muito amigos.

Minha cara estava pegando fogo. Como eu tinha sido ridícula! Ele era melhor do que eu imaginava, afinal. Eles haviam morado juntos! Como ela conseguiu resistir? Era uma coisa meio inexplicável. Era possível resistir ao charme do francês?

— Hã… Me desculpe pela pergunta.

Ela piscou um olho, como se soubesse de algo.

— Não tem problema — Ela sorriu. — Aliás, o Vicente tem um carinho muito especial por você.

*/*

A conversa que tive com Soraia tinha transformado o meu dia de ótimo para espetacular. Ele tinha um carinho especial por mim? Meu Deus, eu precisava fazer algo sobre. Talvez, em uma remota possibilidade, ele me correspondesse! Meu sorriso conseguiria ser visto do Alasca. Eu estava radiante, sorridente, feliz e completa. Eu tinha uma chance! Uma remota chance, mas era uma chance. Ele estava livre, desimpedido e ainda tinha carinho por mim. Não tinha como ficar melhor.

Ainda muito sorridente, encontrei com o dito cujo na entrada da cantina. Ele vestia uma jaqueta jeans bonita e tinha os cabelos desgrenhados. Mais sexy? Impossível. O francês notou minha presença e lançou-me um sorrisinho. Aqueles sorrisos deviam ser proibidos, ninguém aguentava tanta beleza em uma única pessoa. Minha vontade era de arremessá-lo na parede e beijá-lo sem pensar no amanhã.

Aproximei-me dele, coisa que não costumava fazer. Geralmente, era ele quem vinha falar comigo.

— Oi, Vicente! — Meu sorriso parecia eterno. — Você tá bem?

O loiro estranhou minha pergunta. Eu não costumava falar com ele. Não pude esconder minha surpresa ao reparar que seus olhos realmente tinham tons de dourado. Meus sonhos eram úteis.

— Estou bem sim, Rebeca — Ele respondeu. — Mas não tão bem quanto você, pelo que posso notar.

— É, eu realmente estou muito feliz — Suspirei. — Obtive uma informação muito valiosa.

— Sobre sua paixão que não pode acontecer?

Por que ele era tão direto? Estava nítido que ele sabia o que estava acontecendo. Provavelmente, Soraia já tinha contado a ele sobre minha pergunta.

— Talvez ela possa acontecer.

— Fico feliz por você — Ele despediu-se com um mexer de dedos. — E aposto que a pessoa escolhida também ficará, você é uma garota incrível.

Minhas bochechas avermelharam-se no mesmo instante. Eu tava caidinha por ele, apaixonada, desarmada, derretida como manteiga.

*/*

Contava animadamente sobre minha conversa com Soraia para Clarice e Luíza, que estavam muito interessadas em ouvir. Monalisa não estava na escola. Estranhamos, ela não era de faltar muito.

— Ele claramente está na sua! — Clarice afirmou.

— Rebeca, vai com calma — Luíza aconselhou. — Não sei se é evidência o suficiente para você chegar nele.

— Cala a boca, Luíza — Clarice intrometeu-se. — Esse momento é nosso!

Luíza suspirou, balançando os cabelos louros.

— Mana, como eu disse, não sei se isso é o suficiente, mas ele te chamou de incrível! No mínimo, ele tem uma puta admiração por você. A Catarina se mata de estudar para as provas dele e o máximo que ele faz é dizer “ótimo” — Luíza argumentou. — Vá com calma, mas faça algo sobre, não sei…

Toda nossa conversa foi interrompida por Marta, que adentrou em nosso bando.

— Senhorita Mattos, me acompanhe, por favor.

Nos entreolhamos e Clarice sumiu com Marta.

*/*

Já havíamos saído e nada de Clarice voltar. Eu e Luíza estávamos realmente preocupadas com Clarice. Até onde sabíamos, ela não andava aprontando nada que justificasse uma reunião tão demorada.

— O que será que tá pegando dessa vez? — Luíza finalmente falou.

— Não sei.

Mais alguns minutos passaram. Estava com medo, admitia.

— Rebeca, Luíza — Vicente subitamente apareceu. — Sinto lhe informar que a Clarice já saiu, mas ela está bem.

A confusão me tomou.

— O que tá acontecendo? — Minha voz saiu esganiçada.

— Fica calma, Rebeca — O loiro pediu. — A Clarice não tem nada a ver com essa situação toda, mas infelizmente os filhos às vezes pagam pelos erros dos pais.

— Diga logo o que se trata! — Luíza pediu.

— Os pais da Clarice foram presos. Estamos no Brasil e esse foi só mais um caso de corrupção.

Meu queixo caiu. É, meu dia não ia ser tão bom assim.

*/*

Clarice estava com sua tia em sua casa. Pelo que conhecia de minha amiga infantilizada, ela estava em prantos. Precisávamos informar Monalisa, por isso o pai de Luíza nos levou até a sua casa.

Apertei a campainha, mas não recebi resposta. Insisti e sua mãe apareceu para nos receber. A Senhora Borges era uma mulher muito bonita assim como a filha. Tinha longos cabelos louros e cacheados e uma pele branca como a de Luíza. Sua expressão, no entanto, era quase sempre fechada.

— Oi, meninas! A Monalisa não está com vocês? — Ela perguntou.

— Não — Luíza respondeu. — Achamos que ela estaria aqui.

— Ela não foi na aula hoje? — A senhora perguntou.

Eu e Luíza não éramos burras, por isso notamos que poderíamos enfiar Monalisa em uma enrascada, caso disséssemos que Lisa havia faltado aula.

— Foi sim! — Luíza mentiu. — Mas queríamos falar com ela sobre o que aconteceu com a Clarice.

A expressão da mulher suavizou-se.

— Eu soube! Uma pena, não é?

— É sim, uma pena — Luíza abaixou a cabeça. — Se ela aparecer, diga que precisamos falar com ela. Faça melhor, diga que ela tem que ir para casa da Clarice urgente!

Saímos de lá e eu não pude deixar de pensar no que Monalisa poderia estar fazendo. Algo me dizia que eu não gostaria muito da resposta, mas por ora, era melhor focarmos em Clarice, era ela quem precisava de nós. Em meio a tantos acontecimentos, esqueci de Vicente por algum tempo, precisava criar uma estratégia que garantisse um beijo.

Chegamos à casa de nossa patricinha favorita e a encontramos chorando. Sua tia estava tentando consolá-la, mas parecia impossível. Por mais que ela fosse fútil, sempre tinha sido crítica quanto àquele tipo de coisa. Odiava a desigualdade social, odiava qualquer coisa do tipo.

— Como eles podem ter sido tão babacas? Eles são assassinos! — Ela gritou. — Estão roubando o dinheiro das pessoas que passam fome! Para eu viver dessa forma, meus pais matam uma série de pessoas inocentes. O dinheiro que eles desviam, podia ser investido em um hospital, em um monte de outras coisas.

Não imaginava vê-la tão revoltada, mas era até compreensível.

— Eu quero que eles fiquem presos por anos! Isso é imperdoável! — Continuou. — Rebeca, Luíza, vocês não estão com vergonha de mim?

Luíza respirou fundo. Entre eu e a loira, ela era a mais indicada para conversar naquele momento. Meu jeito explosivo não ajudaria em nada.

— Clarice, nós sabemos que você não sabia de nada e que a culpa não é sua. Aliás, como pode ter tão certeza de que eles são mesmo culpados? — Luíza argumentou.

O choro de Clarice cessou por algum tempo.

— Eu sei que é verdade.

É, seria realmente difícil domá-la, mas era muito compreensível.

— Clarice, tente ficar calma — Pedi. — Tudo pode mudar de uma hora para a outra.

— Claro que sim! Eles podem inocentar meus pais, esse país da impunidade! — Ela praticamente gritou. — Eu estou me sentindo traída!

Deixamos Clarice ainda revoltada e nos encaminhamos para nossas respectivas casas. O pai de Luíza, cordial como sempre, deixou-me na porta de casa.

Adentrei meu lar e não estranhei estar vazio, era sempre assim. Os sapatos de couro italiano de Ricardo estavam sob o tapete, então ele provavelmente estava em casa. Senti um cheiro adocicado de shampoo quando peguei uma das almofadas do sofá. O cheiro pareceu familiar, mas não foi nada que me fizesse ter alguma ideia.

Encaminhei-me para a cozinha e preparei um hambúrguer improvisado. Piquei o bacon cuidadosamente enquanto dançava ao som de uma música pop que era tocada em meu celular. Pensei em oferecer um hambúrguer para Ricardo, ele tinha sido legal comigo mais cedo. Não, não era necessário. Meu irmão trabalhava bastante, por isso vivia trancado em seu quarto dormindo quando estava na cidade.

Deixei a faca cair quando subitamente me imaginei beijando Vicente. Até na hora de comer eu tinha que lembrar do demônio francês? É, era isso, ele era um demônio! Quente como o próprio inferno e capaz de me persuadir a praticar os atos mais pecaminosos possíveis.

Fechei meu sanduíche cuidadosamente. Olhei para o material que havia sobrado e percebi que seria idiotice desperdiçar. O melhor seria fazer um para Ricardo, ser legal era aceitável às vezes.

Preparei o lanche e arrumei em uma bandeja, também adicionei uma de suas cervejas importadas e comecei a subir as escadas. Ele ficaria feliz. Apesar do caso de Clarice ter me esgotado mentalmente, a possibilidade de ter Vicente em meus braços me deixava profundamente feliz. Cantarolando, bati na porta do quarto de Ricardo, que percebi estar trancado.

— Abre essa porta, desgraçado! — Gritei.

Coloquei os ouvidos próximos a portas e notei algo: havia duas pessoas ali. Era impossível Ricardo mexer-se em inúmeros lugares da cama ao mesmo tempo. Percebi uma coisa no chão e abaixei-me para pegar, deixando a bandeja no chão. A coisa no chão era um laço de cabelo, um laço que eu conhecia muito bem. O lacinho vermelho era usado para enfeitar cabelos cacheados.

Sabe quem tinha cabelo cacheado e usava shampoo com cheiro adocicado? Bem, eu sabia muito bem de quem se tratava, mas preferia fingir que não. A traição era clara. Era indubitável, havia conseguido ser traída pelo meu próprio irmão e pela minha melhor amiga. Monalisa estava com Ricardo ali, eu não era burra a ponto de não saber juntar provas óbvias.

Ela estava caminhando pelo meu jardim, meu pai dissera e quando eu perguntei sobre, ela mudou sua postura. Ela odiava que falássemos sobre sua vida amorosa, odiava ainda mais que fizéssemos perguntas. Meu irmão havia despachado Bruna, Monalisa tinha faltado aula no mesmo dia. O caminho da casa de Monalisa era o mesmo da escola e sua mãe trabalhava pela manhã. Um mais um são dois. Ricardo mais Monalisa resulta em uma traição dupla. Por que eu não podia saber?

— Não dá para abrir agora, Beca — Ricardo respondeu, claramente nervoso. — Estou ocupado.

Perdi a paciência.

— Então peça para a Monalisa fazer o favor de abrir a droga da porta!

Bati a cabeça na parede propositalmente e joguei a bandeja com tudo no chão, quebrando a garrafa de cerveja e destruindo o sanduíche que tinha feito com tanto carinho para o meu irmão. A cabeça cacheada de Monalisa despontou da porta. Ela sabia que eu estava chateada, mas não fazia ideia do quanto estava decepcionada.

— Esperava mais de você! Mas é aquilo, né? Se até Jesus sofreu com filhadaputagem, porque eu não poderia?



Notas finais
Quem já pensava nessa hipótese levanta a mão!