Chelon - Sob o Mar da Antártica
1 Prólogo - Ratos, Hamsters e James Cook
Notas iniciais
Prólogo – Ratos, Hamsters e James Cook
Era grande a comoção daqueles que haviam se aglomerado na Piccadilly Circus, onde primeiro anunciaram. Naquela manhã o governo proclamou por meio de um memorando de sua majestade, a rainha Vitória, que o comodoro Harry Edwin Lockhart lideraria uma expedição britânica ao circo polar antártico. Isso por si só era motivo de grande agitação entre os londrinos, mas a cidade entrou mesmo em polvorosa quando surgiram boatos de que um novo tipo de navio estaria sendo testado em segredo, e que não deveria ser revelado ao público em hipótese alguma.
O comodoro Harry Edwin Lockhart era um condecorado oficial da marinha britânica, que já havia servido em meia dúzia de postos e embaixadas ingleses espalhados pelos quatro cantos do globo. Fora promovido a capitão bem jovem, quando lutou e defendeu sua posição bravamente contra os otomanos na Batalha de Navarino, e desde então chefiava grupos de patrulha no sul do Mar da China, sendo respeitado e temido pelos piratas da região. Por muitos anos fora o homem forte da coroa inglesa no leste asiático, sempre cumprindo diligentemente suas obrigações com excelência e precisão ímpares.
Sendo um oficial bem recomendado, competente, com um histórico limpo e razoavelmente conhecido em solo inglês, viúvo de um membro menor da corte e com propriedades espalhadas tanto na Escócia como na Irlanda, Harry Lockhart pareceu uma escolha óbvia para chefiar tal empreitada. O corpo de almirantes da marinha foi adamente em indicá-lo, e a rainha apenas teve de assinar seu memorando para selar o destino do ex-capitão, que era agora promovido a comodoro.
Harry estava ancorado em Macau quando soube da notícia. Foi com um misto de alegria, espanto e admiração que recebeu o documento escrito em punho por Vitória, da casa de Hanôver, felicitando-o pela promoção e o convocando a solo pátrio com máxima urgência, pois o reino necessitava de seus serviços em uma missão de grande importância.
Fazia muito tempo que James Cook havia posto os pés na costa sul da Antártica, mas a viagem de Fabian Gottlieb, empreendida pelos russos, despertou novamente a curiosidade inglesa em relação ao inóspito e inexplorado continente gelado. Alguns dos membros da alta burguesia e outros tantos da nobreza há muito queriam financiar uma nova expedição ao extremo sul da Terra Australis, mas a falta de apoio da família real freava quaisquer iniciativas. Afinal, mesmo que se formasse uma expedição privada, o apoio da frota inglesa e sua logística eram vitais para o sucesso da empreitada.
Foi então que Hugh Hunley, escritor, cientista, e biólogo apaixonado por roedores bateu às portas do palácio de Buckingham carregando os papéis de sua revolucionária invenção. O audaz inglês afirmava ter inventado uma embarcação que poderia submergir, e após certo tempo, retornar a superfície intacta. Durante anos havia sido motivo de risos entre os membros da Associação de Biologia e Ciência do Reino Unido, mesmo que suas publicações fossem reconhecidas em outros países da Europa. Por esse motivo, quando finalmente terminou a construção de seu protótipo, o qual inaugurou triunfalmente num profundo lago situado em suas terras, procurou imediatamente a família real para expor os resultados de anos de dedicação e trabalho duro.
- Uma máquina como essa – disse ele com audácia para a rainha, diante de toda a corte enquanto transcorria sua audiência – multiplicaria em muitas vezes o poderio da vossa marinha real, erigiria aos cinco continentes a bandeira inglesa mais alta do que todas as outras, onde ao seu lado tremulará sempre a flâmula da casa de Hanôver.
Embora muito eloquente no discurso, Hugh Hunley não conseguiu tudo o que queria. Naquela tarde concederam-lhe um título de nobreza e o direito de patente sobre aquela nova máquina ainda não nomeada. Prometeram-lhe muitas coisas, porém, como ouro e uma cadeira no parlamento, mas o que mais lhe instigou foi o cargo de presidente da Associação de Biologia e Ciência do Reino Unido, composto por muitos daqueles que o fizeram motivo de chacota por meia década.
Acertou-se que Hunley construiria, em conjunto com a coroa, mais um exemplar dessa formidável máquina, e que uma viagem inaugural seria necessária para colocar a nova embarcação a teste. Todo o assunto foi mantido em segredo, e durante dez meses Hugh trabalhou incansavelmente no estaleiro de Porto Stanley, na companhia dos melhores empreiteiros ingleses, modelando a nova versão de seu navio em espelho ao pequeno protótipo. Quando por fim terminou, reuniu-se com cartógrafos, geógrafos e especialistas náuticos para traçar uma rota confiável e segura até um ancoradouro que não fosse muito distante da costa da Inglaterra.
O local escolhido foi Shetland, um pequeno porto situado ao norte do arquipélago inglês, a meio curso da Suécia. O alto comando da marinha aprovou e a rainha Vitória deu a benção real à expedição. No dia 26 de junho de 1836 Hugh Hunley partiu a bordo de seu submarino rumo ao gelado Mar do Norte, acompanhado de doze tripulantes e seus dois hamsters, James e Cook. Realizou com êxito e nenhuma baixa todo o seu percurso, sem encontrar quaisquer problemas no desempenho da maquinaria e retornando a Porto Stanley dois dias antes do previsto.
Seu sucesso foi tal, qual tornou-se difícil manter em segredo a existência daquela nova embarcação. Dado o retorno, o submarino foi entregue aos cuidados da marinha, para ser escondido em algum estaleiro até segunda ordem. Já o antigo protótipo continuou sob sua posse, mas era a toda hora vigiado por oficiais de confiança da família real.
Hugh Hunley transformara-se numa lenda, mas uma lenda que ninguém conhecia, e isso ele trataria de remediar. Não demorou muito até que a rainha encomendasse um submarino digno de sua estirpe, que fosse capaz de comportar 100 homens e pudesse cruzar muitas milhas náuticas sem a necessidade de reabastecer, viajando a tantos nós quanto às engrenagens mais modernas suportassem.
Hunley empenhou-se como nunca no novo projeto, pois via aquela como sua grande chance de entrar para a história. Agora que a coroa sabia da eficácia dos submarinos, certamente empregá-los-iam em diversas viagens para disseminar a força da Inglaterra pelo mundo, e precisariam de homens da ciência capazes de manejar habilmente as novas embarcações. Por isso, enquanto construía sua obra prima, Hugh treinava e capacitava toda uma dúzia de oficiais da marinha no manejo dos submarinos.
Demorou um ano para que a Fortaleza Europa ficasse pronta, a maior das embarcações já feitas pelo homem até então. Com capacidade para 130 tripulantes, duplo revestimento de placas de aço, engrenagens e propulsores que a colocariam em pé de igualdade com os mais rápidos navios da Prússia e França, o novo submarino era uma obra de arte tanto física quanto estruturalmente.
Hunley estava sentado numa confortável cadeira de camurça em sua biblioteca, com a bússola na mão e traçando possíveis rotas inaugurais para o submarino. Um quadro de James Cook jazia pendurado sobre a lareira, sua sombra projetada à luz do fogo. Foi quando a ideia veio-lhe à mente, e ele lembrou-se de que prometera divulgar a bandeira da Inglaterra aos cinco continentes.
Viajar para a Antártica seria o maior dos desafios, o teste mais difícil imposto a qualquer submarino. Além disso, o que poderia ser mais grandioso do que anunciar ao mundo e à Inglaterra sua invenção, retornando como herói numa expedição aos confins do planeta, na terra mais inóspita e inexplorada já vista pelo homem?
Hugh, cheio de receio, anunciou para o corpo de almirantes sua intenção, que foi calorosamente recebida por opiniões diversas e que dividiu o alto comando da marinha inglesa. Alguns oficiais diziam ser uma viagem demasiadamente perigosa para uma embarcação que ainda não havia enfrentando condições verdadeiramente hostis, enquanto outros alegavam que era necessário expor o submarino a ambientes inóspitos para testar a veracidade de sua eficácia. A decisão coube ao almirante sênior, Lorde Narfiine, um sueco naturalizado inglês que tinha pouca paciência e muito menos prudência, e deu sua aprovação sem muitas explicações.
A rainha Vitória concedeu a expedição o direito de viagem, e todos em conjunto concordaram em anunciar o submarino ao povo inglês no exato dia do retorno, quando ancorassem novamente em Londres. Em questão de semanas foi composta uma equipe de 100 marinheiros, especialistas náuticos, cientistas, cartógrafos, geólogos, cozinheiros, historiadores, oficiais altamente condecorados e os mais bem treinados membros da marinha real britânica.
Todos sabiam que fariam parte de uma grande empreitada, mas ninguém tinha ciência da existência do submarino, nem mesmo o homem escolhido para chefiar a expedição, Harry Lockhart.
O dia escolhido fora 17 de agosto de 1838, uma quinta-feira comum como qualquer outra, mas que no futuro seria considerada uma importante data para o povo inglês e para os anais da história. O inicio daquela que seria a mais audaciosa viagem já empreendida.
Fale com o autor