Chefe
1 One-Shot
Notas iniciais
Escrevi ♥
Espero que gostem :)
- Toph? – uma voz grossa e aveludada sussurrou enquanto eu me levantava da cama. Senti sua mão agarrando meu braço, e bruscamente me soltei.
Passei a mão por meu rosto, tirando os fios rebeldes de meu rosto.
- Onde você vai? – ele voltou a perguntar.
- Não é da sua conta.
- Toph, por favor. Você tem que parar com isso.
- Parar com o quê? Quer cuidar da minha vida também? – Eu não precisava enxergar para saber que ele estava exaltado. Posso sentir pela sua respiração.
- Você sabe. Essa sua mania de ocultar o que sente, sempre fugir de mim.
- Kanto, para. Eu tenho um trabalho muito grande para fazer.
- A polícia está indo muito bem, você sabe. Seus alunos de Dobra de Metal são brilhantes, você é uma professora brilhante e tem uma ótima equipe. Só... relaxa, ok?
- Acho que eu consegui tudo isso estando relaxada? – Me aproximei dele e disse em seu ouvido. – Se eu tivesse relaxado continuaria sendo a frágil filha cega da família Beifong.
Fechei a porta de metal atrás dele, saindo do quarto e entrando no banheiro para tomar meu banho. Após isso finalmente vesti meu uniforme da polícia usando a dobra de metal. Não ligava se Kanto ficasse no meu quarto enquanto eu trabalhasse. Contanto que eu voltasse e ele não estivesse mais ali estava tudo bem.
As vantagens de estar na minha posição era que ninguém mais me subestimava. Aang fazia bem seu trabalho de Avatar, mas ele é um só. Agora toda uma equipe de ponta preparada para lutar contra os crimes da nova Cidade República era tudo o que precisava. Não sou modesta. Sei que sou boa no que faço. Dizem que sou muito rígida na seleção dos meus alunos, mas não é isso. Finalmente tenho uma reputação, e farei de tudo para mantê-la.
- Bom dia, Chefe Beifong. – um dos meus pupilos diz enquanto entro na academia. Não preciso enxergar para ver toda a estrutura que criei, os alunos correndo, os que têm potencial, os que não suportaram mais que uma semana de treinamento. Esse é meu trabalho, essa é minha vida e nada pode me tirar do foco que é o futuro dos Dobradores de Metais.
- Quero organização imediatamente! Quem não estiver na fila está fora! – grito. Não estou interessada em ensinar fracassados. Estou interessada em aperfeiçoar talentos.
Passo por toda a fileira dos selecionados, e me aproximo de um em especial que nunca havia notado. Alto, forte e brusco, tipicamente do Reino da Terra.
- Apresente-se.
- Hu. Me chamo Hu.
- Quando chegou aqui?
- Cheguei ontem à noite na cidade.
- Idade?
- A mesma que a da senhora.
- Não acha que é velho demais para tentar entrar na academia?
- Nunca é tarde para aprender.
- Não ensino. Eu aperfeiçoo.
- Eu treino Dobra de Metal por um bom tempo já. Juntei dinheiro e só agora tive a oportunidade de ingressar.
- Compreendo. Comece a mostrar seus talentos então, rapaz. Não costumo dar segundas chances.
- Não precisará desperdiçar suas chances comigo. Não vou decepcionar.
Era claro que ele era tão orgulhoso quanto eu. Sentia que nas minhas mãos estava um desafio, um diamante a ser lapidado.
A manhã passou rápida. Dou aulas para os avançados, enquanto os iniciantes aprendem com os que um dia já foram meus alunos. É um ciclo. Alguns viram professores, outros policiais. Tem alguns que usam a dobra de metal para arte, fazendo esculturas, algo que particularmente acho inútil. Vejo o potencial das pessoas no momento em que pisam na academia, na linguagem corporal, na tonalidade da voz.
Termino de lecionar, e junto todo o metal no canto da sala com minha dobra. Sei que quando dobro fazendo formas com o metal os alunos ficam espantados, e eu quero que eles entendam a proporção da oportunidade que eles estão recebendo.
Quando estou saindo da academia, uma das professoras da iniciação, Shuzin, me abordou.
- Chefe Beifong! Tem um segundo?
Paro bruscamente e me viro para ela.
- Nosso novo aluno, Hu. Precisamos falar sobre ele?
- O que tem ele?
- Ele se mostrou melhor do que esperávamos. Dobrou com maestria todos os desafios que demos a ele na iniciação. Sinto que ele está preparado para ter aulas com você.
- Interessante. Eu confio em sua palavra, Shuzin, mas não sinto que seja possível um aluno em um dia mostrar tanta maestria na dobra.
- Acredite em mim, chefe.
- Então está feito. Avise-o que amanhã sua aula será comigo.
Saio da academia e vou almoçar no mesmo lugar de sempre comer o mesmo de sempre. Como é de se esperar, na mesma mesa de sempre está a mesma pessoa de sempre: Sokka.
- Olá, chefe. – ele diz ironicamente enquanto me sento na sua frente.
- Quieto. – digo. – Como está todo seu trabalho chato de vereador?
- Não é chato! É um trabalho cheio de desafios, se você quer saber.
- Aham, eu acredito. Você viu Katara ultimamente?
- Vi ontem, na verdade. Não sei como Katara e Aang aguentam aquela casa barulhenta! Bumi é uma criança incrível, mas minha paciência já não é a mesma depois que ele faz a mesma piada na sexta vez. Já Kya parece tanto Katara que ter uma miniatura de minha irmã é no mínimo um pesadelo. O que mais me assusta é que ela agora terá um terceiro pestinha pra me chamar de titio Sokka.
- Boa sorte. – eu quis rir, mas minha comida chegou na mesa. Eu nem precisava mais pedir, já que eles conheciam meu pedido. — E como vai Suki? – perguntei enquanto colocava um pedaço de comida na boca.
- Não sei direito na verdade. Ela viaja mais com as guerreias Kyoshi do que fica na Cidade República. Por conta de nossa personalidade forte sempre estamos brigando, mas sinto que essa última foi mais séria.
Eu queria dizer alguma palavra de consolo, mas não é como se eu estivesse realmente chateada com isso. Quero dizer, eles nunca foram um casal estável, e não seriam agora depois de tantos anos.
- Você viu como o crime na cidade diminuiu? Eu mereço um prêmio pelo favor a sociedade que faço. – brinquei enquanto comia mais um pouco. A comida não estava tão saborosa quanto a maioria das vezes, e eu estava ficando levemente com ânsia.
- Não que você possa ver, mas você está ficando um pouco verde, Toph. – Sokka me disse com uma voz estranha.
- Não é como se eu soubesse que cor é verde ou não. Isso pelo menos é bom?
- Você está bem?
- Estou em ótimo estado. É só um pouco de tontura. – me levantei da mesa, me afastando do cheiro forte da comida que me fazia querer vomitar.
- Toph, para. Eu sei que você odeia parecer fraca, mas é melhor a gente sair daqui. – Sokka também se levantou, indo atrás de mim.
- Me deixa, ok? Não me toca! – afastei a mão dele de mim, e antes que pudesse me mover mais um passo desmaiei.
Acordo e noto que estou na casa da Katara e do Aang apenas pelo barulho de criança. Um pano está encostado na minha testa.
- Que bom que você acordou. – Katara me disse, tirando o pano da minha testa. Demoro para voltar, mas então noto que estou perdendo tempo de trabalho, o que é no mínimo um desastre. A polícia não funciona sem meu apoio!
- Preciso ir para a polícia. Agora. Obrigada pela ajuda, Katara, mas estou me sentido ótim... – sinto vontade de vomitar, e então corro até o banheiro tentando não esbarrar em nada.
Volto irritada, e sinto que Katara esconde algo de mim. como a curandeira que é, sei que ela já deveria ter me curado do que quer que eu tenha.
- Porque você não senta, Toph? Vamos conversar um pouco.
- Conversar sobre o quê? Sobre seus filhos? Sobre se você vai finalmente ter um filho Dobrador de Ar? Katara, eu tenho coisas mais importantes para fazer.
- Toph, eu acho melhor você escutar o que eu vou te dizer.
- Eu estou atrasada!
- Você vai ter um filho.
O mundo desaba. O quê? Pelo tom de voz de Katara eu sei que ela diz a verdade. Somos amigas tempo o suficiente para eu saber quando ela está brincando. Agora não é o caso.
- Não. – digo mesmo assim. Negação é a primeira fase. – É impossível.
- Por que é impossível? Quem é o pai, Toph? – ela não diz de modo acusatório, mas sei que se sente traída por eu não contar com quem ando saindo.
Kanto.
O que ele pensará? Estamos juntos há dois meses. Eu nem sequer sei se gosto realmente dele! Um filho... isso nunca esteve nos meus planos. Definitivamente nunca. A academia anda muito bem, o trabalho na polícia progride a cada dia. Um filho neste momento significaria uma total mudança na minha vida, algo que não serve nesse momento de progresso.
- Eu não posso ter esse filho?
- Como assim? Toph, você sabe que pode falar comigo.
Coloquei a mão onde tecnicamente estaria a criança. Obviamente nenhum vestígio, mas não deixava de ser estranho imaginar um ser crescendo no seu corpo. E se ele for cego também? E se eu não souber ser mãe? E se Kanto não quiser?
- Eu tenho que ir, Katara. Obrigada mesmo assim.
- Toph, espere! Quando estiver precisando conversar venha até em casa. Me prometa que ficará bem! – Katara disse e eu agradeci por não perguntar mais nova sobre o pai da criança.
- Toph? – era Sokka. Pela voz senti sua dúvida em relação do que estava acontecendo. – Katara, qual o problema aqui?
- Não é nada, Sokka! Só me deixe sozinha agora. – eu pedi, quase clamei.
Estava me preparando para sair, e senti Bumi agarrar minhas pernas. Gritei de susto com o menino, e crianças naquele momento só me deixava mais assustada do que eu estava.
Voltei para casa seguindo o mesmo caminho. Minha academia, meu trabalho... Não que eu fosse perder tudo isso, mas dividir meu tempo seria um desafio. Algo crescia no meu corpo. Quão bizarro isso podia ser? Como seria trabalhar assim, cada dia maior?
Abri impaciente a porta da minha casa, e Kanto ainda estava lá.
- Toph? Chegou mais cedo.
- Tire suas coisas daqui. Vá embora. – falei sem nem me virar para Kanto.
- O quê? Não! Tínhamos combinado de ir naquele restaurante novo de noite, lembra?
- Não quero ir a restaurante nenhum. Agora pegue suas coisas.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não aconteceu nada! Só vá embora.
- Embora da sua casa?
- Embora da minha vida.
- Não... Toph, tudo estava ótimo entre a gente, qual o problema?
- Eu tenho uma academia para coordenar. Eu tenho uma força policial. Não há espaço para laços efetivos na minha vida.
- Eu não quero ficar longe de você.
- Se você não sair por bem, serei obrigada a usar a dobra contra você.
Fiquei de pé, me controlando para não chorar ou fazer qualquer outra coisa que fracos fazem. Meu mundo podia estar de ponta cabeça, mas não é como se eu me entregasse. Eu nunca me entregava.
Ouvi o barulho dele arrastando sua mala pela porta. Dele fechando a porta. Consegui sentir ele me encarando e suspirando sem dizer uma palavra.
Finalmente sozinha, me permiti desabar.
De manhã fui trabalhar. Treinei meus melhores dobradores como se nada tivesse acontecido. De fato Hu tinha talento. A arrogância dele nem era tão grande no final. Mesmo assim eu podia imaginar um sorriso estampado no rosto dele a cada golpe certo que dava.
Não levaria muito tempo para se tornar um dos meus melhores dobradores.
Na hora do almoço decidi não ir até Sokka. Fui direto para a polícia e sentei na minha mesa recebendo o relatório do dia passado de uma das minhas policiais.
Como se o mundo conspirasse contra mim, Sokka entrou na minha sala.
- Posso falar com você? – ele disse. Sua respiração estava acelerada. Dispensei minha policial, deixando-nos sozinhos.
- O que é?
- Katara me contou. Toph, quem é o pai?
- Não te interessa.
- É óbvio que interessa! É minha amiga há anos e nunca me falou de ninguém!
- Não se preocupe comigo, tudo bem? Eu sei me virar sozinha.
- Como você vai fazer isso? Como vai trabalhar na academia, na polícia e ainda cuidar de uma criança?
- Está tudo sobre controle! Eu sei o que estou fazendo.
- Nem sempre você pode abraçar o mundo, Toph.
- Então quer me ajudar? Me ajude com isso: cuida da academia enquanto eu estiver fora.
- O quê?
- A polícia se sustentará bem sem mim. Aqui tenho os melhores dobradores de metal. Mas a academia sendo uma instituição precisa de alguém cuidando de tudo. Você pode fazer isso.
- Onde você vai?
- Preciso de um tempo só meu.
- Não. Eu vou com você onde quer que vá.
- Quer parar de tentar se preocupar comigo? Sou cega, não burra!
- Não com você que estou exatamente preocupada, mas sim com seu filho.
- Ficará tudo bem. Ninguém precisa ficar especulando minha vida e de meu filho. Daqui alguns meses eu voltarei.
- Voltará com um filho nos braços? Aí que especularão.
- Eu sei o que estou fazendo.
No fim do expediente avisei que tiraria férias aos meus policiais. Pedi que Sokka avisasse a academia sobre mim, e que avisasse Katara, Aang e Zuko que estaria ausente por alguns meses. Conhecendo Katara como conheço não demoraria para ela ir atrás de mim.
Ninguém nunca teve que tomar conta de mim. Sou uma chefe. Sou a criadora da dobra de metal. Sou Toph Beifong.
Saí andando. Cada passo em lembrava de quando tinha doze anos e viajar o mundo e não pertencer se tornou minha casa. Quando cheguei onde queria, suspirei aliviada. Continuava do mesmo jeito de sempre.
O pântano me deixava em harmonia. Respirei fundo e relaxei. Seriam longos meses, mas eu estava no meu lugar favorito. Não é como se eu não soubesse superar qualquer coisa.
Fale com o autor