Cheerleading
2 My Ninja Dance
A banca de juízes era composta de duas garotas e um garoto.
Nina Merquinez era uma linda espanhola, com cabelo castanho e olhos cor de mel – parecia malvada e prestes a te destruir em duas tiradas. Patt Carol tinha cabelo loiro escuro, e um rosto fino – estava sempre sorrindo. E Ben Anderson era forte como um touro, cabelo raspado até o crânio, mas sentimental como uma manteiga derretida.
Percy entrou no ginásio, com os juízes e todo o grupo de torcida. Cerca de sete garotos e garotas, vestindo uniformes e olhando para Percy com desgosto. Havia também um grupo de garotos emos, vestindo preto e com franjas, brincando com armas ninjas nas arquibancadas.
Percy não era muito popular em Goode. Não tinha nenhum amigo a não ser Noah, e ele estava na aula de artes nesse momento. Poderia precisar do encorajamento. Se pegou pensando em Annabeth, e nos seus amigos semideuses novamente. Gostaria que eles estivessem aqui.
Mesmo que fossem para rirem e fazerem piadas bobas.
Percy andou até o meio do ginásio, de frente para a mesa. Largou sua mochila em um canto e os encarou.
“Bem, olá. Qual é o seu nome?” Patt perguntou com um sorriso ansioso. Ela tinha um caderno rosa a sua frente. Percy apostava que seu nome estava naquele caderno, e ela só estava tentando quebrar o clima pesado que havia se instalado no lugar.
Os garotos emos que haviam parado para olhar para Percy, voltaram a brincar com seus achados.
“Percy Jackson. Vim fazer o teste de torcida.”
Ben sussurrou algo para Patt, fervoroso. Percy escutou um trecho.
“... ele vai estragar tudo!”
“Todos merecem uma chance!”
Nina continuava encarando Percy de um jeito desconcertante, mas o garoto não se sentiu muito intimidado. Depois de enfrentar Gaia você não tinha muito medo de garotas do colegial – a não ser que fossem monstros. Percy devolveu o olhar e prometeu a si mesmo que ficaria de olho nela.
A discussão terminou abruptamente.
O resto do time ficou esperando.
“Muito bem, Percy. Nos mostre o que você sabe fazer.”
Percy conseguiu evitar fazer uma careta. Ele deu um passo para trás e olhou em volta hesitante. Que porcaria era para ele fazer? Dançar?
Nina tentou segurar um riso de escárnio, que outros garotos não seguraram. Percy conseguiu sentir o rosto dele se aquecendo. Sabia que numa situação de emergência, é sempre melhor jogar pelas suas forças. Mas quais eram suas forças nessa situação?
Olhou para os garotos na arquibancada e uma ideia surgiu na sua cabeça. Quando Patt parecia que ia dizer algo, ele levantou um dedo.
“Só um segundo.” E correu para lá.
“Que ele está fazendo, caramba?” Alguém falou as suas costas.
Percy tirou vinte dólares do bolso e mostrou para o garoto que segurava os nunchaku e pediu a arma emprestada – dois bastões ligados por uma corrente de metal. O garoto deu de ombros e entregou para ele, pegando a nota.
Percy voltou correndo e deslizou com os pés pelo chão, a arma na mão. Como aqueles sem noções entraram na Goode com aqueles brinquedos, só Hades sabe.
A banca de juízes olhou para aquilo com uma mescla de divertimento e horror.
“Beleza, prontos?” Percy perguntou.
Ninguém assentiu.
Percy respirou fundo e começou.
Ele fez uma série de acrobacias com os nunchakus, os enrolando ao redor do corpo e passando os por baixo da perna sem nunca cair ou se machucar – perfeita demonstração de equilíbrio. Depois, sem parar de mexer os braços, fez uma cambalhota complicada (os bastões ainda girando) e se levantou reto.
Correu pelo ginásio, fez uma estrelinha de lado e se levantou com os pés plantados juntos. Como líder de torcida, aquilo não era mole de fazer enquanto se empunhava um nunchaku na mão.
Andou para o centro novamente, girou o nunchaku ao redor do pescoço e jogou ele no alto – e enquanto a coisa girava várias vezes, Percy fez uma abertura com as pernas. Depois se ergueu rapidamente e o pegou no ar.
Fez uma reverência e olhou para sua platéia.
Os únicos sons eram o de sua respiração pesada no ginásio quase vazio.
Eles o olhavam vidrado. O ato inteiro deve ter durado dois minutos. Percy tinha suor escorrendo de seu pescoço.
Nina se virou para Patt e começou a sussurrar com ela e Ben. Os outros adolescentes olhavam para o filho de Poseidon como se ele fosse alguma estranha criatura que eles não entendessem.
“Posso ter isso de volta?” O garoto emo perguntou. Pegou seu brinquedo e foi se juntar aos amigos.
Depois de vários minutos de murmúrios onde todos os juízes olharam para Percy várias vezes – que tentava sorrir e parecer confidente – eles tomaram uma decisão.
“Bem, Percy...” Patt começou sorrindo. Aquele maldito sorriso abobalhado. “Nós discutimos como capitã e co-capitães, e tomamos uma decisão.”
Percy se forçou a sorrir, ansioso. Ele não gostou do olhar calculista de Nina (como se ela o dissecasse), ou da expressão fria no rosto de Ben. Esperou.
“Você entrou no time!” Patt alargou seu sorriso.
Agora o sorriso de Percy foi genuíno.
“Você vai ter que treinar quatro dias por semana. Vamos ver o quão forte você é e trabalhar na rotina de dança. Isso não é brincadeira, Jackson.” Nina se dirigiu a ele pela primeira vez.
“Eu entendo. Obrigado.” Percy não conseguia parar de sorrir.
O ginásio se esvaziou lentamente, e apesar de nem todos concordarem com essa decisão, Percy se sentia muito satisfeito.
Ao chegar à cantina, ele se sentou em sua mesa habitual à frente de Noah. O garoto era um modelo bonitão – de pele escura, olhos azuis elétricos e braços musculosos. Seu cabelo era todo cacheado e a maioria das garotas no colégio tinha uma queda por ele.
Mas ele partia o coração de todas elas – estava numa relação à distância com um garoto francês pela Internet.
“Ouvi que você virou líder de torcida?” Noah comentou, abrindo sua Coca-Cola.
“Isso mesmo. Fiz o teste hoje, mas você estava na aula.”
“Deveria ter me dito antes. Eu teria matado aula só para ter ido ver. Como foi?”
Percy pensou.
“Arrasei. A maioria do time não gosta de mim apenas porque não me conhece. Assim que eu começar a trabalhar com eles, vão mudar de opinião.”
“Beleza. Fez todos aqueles pulos e giros?” Os lábios de Noah se esticaram.
“Usei um nunchaku.”
Noah começou a rir e espirrou toda sua Coca-Cola na sua camiseta. Algumas garotas mais jovens passaram e ficaram o encarando.
“Cara! E você não me chamou?”
“Não, foi mal. Mas o treino começa na terceira aula, então não posso me atrasar.” Percy disse, engolindo sua pizza.
Quando a terceira aula chegou, Percy entrou no vestuário masculino e encontrou Nina o esperando na porta. Ela ainda tinha um olhar desconcertante, mas tinha parado de dissecá-lo. Estava segurando uma calça preta apertada, e uma camiseta azul e roxa collant com glitter nas mangas e as iniciais GD (Goode) no peito.
“Isso é para você. E vai precisar de tênis atléticos.” Nina disse, o entregando as roupas.
Percy a agradeceu e foi se trocar.
Os outros caras ficavam o encarando por causa das cicatrizes dos monstros. Do Tártaro. Provavelmente pensavam que ele sofreu abuso ou algo parecido, esse era o rumor ali na escola, mas Percy já estava acostumado.
Saiu para o ginásio vestido e foi se juntar aos outros. Quando se aproximou do grupo de torcida, notou que as garotas estavam olhando para ele com uma expressão estranha no rosto. Não paravam de encarar.
Percy se assustou.
“Tem algo no meu rosto?” Ele perguntou bobo.
Patt riu.
“Não, não é isso. É... é o uniforme. Ficou bom.” Ela corou um pouco. As outras garotas evitavam olhar para ele ou só tinham olhos para ele.
Percy devia estar corando muito também.
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