Charmed
9 Capítulo 8
Capítulo 8
Tatsuha
Não sei por que fiz tanto alarde diante da ideia de Ryuichi Sakuma passar uma temporada no templo. Convenhamos: é o meu sonho de vida ter uma oportunidade como esta. Mas no momento em que ouvi Mika sugerindo que a melhor ideia de atrair o Caçador para fora de sua toca era a de treinar Ryuichi e usá-lo como isca, a sugestão não me agradou tanto assim. Eu queria ter o meu ídolo adorado perto de mim, como todo adolescente normal gostaria de ter, mas não a esse custo. Ryuichi já estava ganhando traumas em relação a magia, que com certeza seriam difíceis de superar, e viver sob o teto deste templo não ajudaria na causa dele.
Com um suspiro, enterrei os dedos nos fios do meu cabelo, abaixando a cabeça e a escondendo entre os meus joelhos. A minha mente era um turbilhão de contradições. Em um momento eu o queria perto de mim, este era o meu lado de fã histérico falando. Em outro eu o queria bem longe, e era esse outro lado que me assustava. Eu queria protegê-lo, mais do que jamais quis proteger qualquer Inocente, e ao mesmo tempo não queria, porque protegê-lo implicava conviver mais com ele, afundá-lo ainda mais em meu mundo. Um mundo do qual ele não queria fazer parte.
E então a cena da cozinha voltou à minha mente. A estranha cena da cozinha. Sabe aqueles filmes românticos que nós vemos por aí, onde ocorre aquela cena de silêncio e tensão entre o casal principal quando eles se olham nos olhos? Pois então, eu poderia jurar que isto aconteceu mais cedo. O problema era: isto não era um filme, por mais elementos surreais que tivesse, Ryuichi e eu não éramos um casal e por mais que eu declarasse aos quatro ventos a minha adoração sobre ele, não queria dizer que eu o amava.
Isso mesmo senhora e senhores, eu não amava Ryuichi. Se vocês pensavam que Eiri era o único com problemas nesta família, estão redondamente enganados. Eiri tinha um problema que a psicologa dele definiu como “incapacidade temporária de permitir aproximação sentimental de novas figuras em sua vida”. Resumindo em miúdos, depois do que passou com Kitazawa, Eiri ainda era inseguro sobre permitir-se amar e ser amado de novo. Eu, eu tinha o que a psicologa definiu como “problemas de perdas e incapacidade de amar”. E não, não pensem que eu era um idiota de coração de pedra, eu apenas era um idiota que não conseguia permitir que ninguém se aproximasse de mim, fosse família, fossem amigos, fossem relacionamentos.
Eu havia mencionado mais cedo que dividir a minha vida entre passar de ano e lutar contra demônios me impedia de ter amigos. Apenas esqueci de mencionar que eu também era incapaz de manter qualquer tipo de amizade. Ryuichi era o meu porto seguro, a minha adoração não material. Enquanto eu seguisse dizendo a todos e a mim mesmo que a minha vida seria dedicada somente à ele, eu estava seguro. Afinal, quais eram as chances de algum dia eu chegar perto do famoso Ryuichi Sakuma, ou ter algum tipo de relação com ele? Nenhuma, óbvio.
Mas então veio uma visão, veio Eiri nos chamando às pressas e veio aquele infeliz ataque que mudou tudo. Agora para qualquer canto que eu olhava, lá estava Sakuma. Fosse em um outdoor, uma capa de revista ou em carne e osso na minha frente. E agora Mika e Eiri queriam que ele ficasse aqui? Sob este teto, por tempo indeterminado? Não era um sonho, era um pesadelo. Vê-lo esporadicamente era uma coisa, vê-lo diariamente era outra. E assim como Ryuichi, eu queria que isto tudo acabasse rapidamente para voltarmos as nossas normalidades. Ele lá longe, em seu mundo musical estrelado onde eu poderia apreciá-lo, e eu aqui, em meu mundo mágico conturbado cuja expectativa de vida não chegava a casa dos trinta.
- Tatsuha? — pulei de susto, erguendo as minhas mãos em um gesto instintivo e parando a tempo o ataque quando vi grandes olhos azuis me mirarem com surpresa e apreensão.
- Não faça mais isso. — rosnei contrariado.
Eu vivia em alerta, vinte e quatro horas do meu dia, e qualquer pequeno barulho sempre era razão para eu explodir primeiro e perguntar depois. Meu pai sabia disso, havia aprendido a nunca me pegar de surpresa, e por isso aprendeu a ser silencioso dentro de casa, assim como sempre arrumava uma razão para não ficar na mesma. O templo era o seu refúgio e ele sentia-se mais em paz dentro dele do que nas paredes daquela velha mansão que continha lembranças nada boas para a nossa família.
- Desculpe. — me pediu, sentando vagarosamente no chão da varanda que levava ao pátio dos fundos.
- Mika e Eiri?
- Já foram. Mika foi falar com Tohma e Eiri voltou para casa. — rolei os olhos.
Claro, típico! Eles voltaram para as suas vidas, deixando esse problema nas minhas mãos, como sempre. Tinha vezes que eu sentia inveja deles. Quando queria, Eiri e Mika poderiam esquecer o que eram e viver normalmente. Eu não tinha esse privilégio. Os demônios ainda consideravam este lugar o refúgio dos Encantados e por isso era o primeiro local onde nos procuravam e sem o Poder dos Três sob o mesmo teto, às vezes ficava complicado combatê-los. E eles também não tinham noção de decoro. Invadiam a hora que bem entendiam, no dia que preferiam, não interessava se era madrugada e eu tivesse que acordar cedo no dia seguinte para uma prova que valia a metade da nota do trimestre.
- Típico. — murmurei, apoiando o queixo no joelho e fixando o meu olhar ao longe.
- É sempre assim por aqui? — olhei para ele de esguelha, com as sobrancelhas franzidas em uma pergunta muda. — Tão... Quieto? — quis rir, quieto normalmente não era, mas vez ou outra o silêncio era tanto que chegava a oprimir e me fazer desejar por um ataque.
- Quando não tem ataques, geralmente sim.
- Onde está o seu pai? — comprimi os lábios firmemente diante da pergunta. Para alguém espiritualmente evoluído como o meu pai, que entendia como ninguém sobre morte e perdas, a morte da minha mãe não havia sido bem recebida por ele. Embora ele nos apoiasse e tivesse nos guiados por todos esses anos sem ela, creio que ele se sentia tão desorientado quanto nós às vezes. Assim como sei que o motivo dele se manter afastado era porque se sentia inútil.
Ele tinha três filhos, três crianças que eram consideradas as criaturas mais poderosas do mundo mágico, e ele não podia fazer nada para ajudá-las. Ele não era mais imortal, não mais curava, não tinha mais poderes. Ele era agora o nosso ponto fraco por ser um simples humano e acho que isto o enfurecia. Ao mesmo tempo em que ele não se arrependia de ter desistido de tudo por nós, ele também não se conformava de não ter outra maneira mais efetiva para nos ajudar contra os demônios.
- Em uma convenção em Yokohama. — um silêncio desconfortável caiu sobre nós por algum tempo.
- Então... O que exatamente é ser um dragão? — o olhei surpreso, percebendo que os olhos claros estavam largos, dando a Ryuichi a expressão genuína de uma criança curiosa, e não pude evitar a gargalhada que brotou do fundo da minha garganta.
- Verdade. — consegui dizer assim que parei de rir, com Ryuichi ainda me olhando esperando por resposta. — Com toda essa confusão, você descobrindo sobre magia, os ataques e descobrindo o porquê de estarem atrás de você, ainda não tivemos tempo para explicar todos os pormenores. Um dragão é exatamente isto o que você acha que é.
- O quê? Um lagarto alado que solta fogo pelo nariz?
- Basicamente.
- Dragões são dragões, não têm forma...
- Aí que você se engana. — o interrompi. — Na cultura chinesa os dragões eram conhecidos por serem criaturas mágicas poderosas, equiparando-se a deuses, e capazes de assumirem as formas que assim desejarem, inclusive a humana. Muitos tinham o controle sobre algum tipo de poder específico. Sobre o clima, sobre a criação, sobre a natureza... no caso da sua família: sobre o tempo.
- Eu posso controlar o tempo? — a expressão incrédula dele me deu vontade de rir, mas consegui me controlar.
- Basicamente. Se tivesse permanecido com os seus poderes, se os mesmos não tivessem sido selados, creio que aquele Caçador teria levado uma coça e você não precisaria da nossa ajuda. Como isto não aconteceu, está vulnerável e ao mesmo tempo seguro.
- Como?
- Vulnerável porque os demônios que descobrirem sobre a sua existência virão atrás de você. Faz parte da natureza deles querer eliminar representantes da magia boa. Seguro porque para o Caçador não interessa matá-lo enquanto os seus poderes ainda não estão desenvolvidos.
- Então não vamos desenvolvê-los e eu permanecerei seguro. — sugeriu e eu sacudi a cabeça em uma negativa. Se fosse tão fácil assim, eu o mandaria de volta para casa sem pensar duas vezes.
- Não é tão fácil assim. Mika estava certa, o Caçador continuará mandando demônios atrás de você para obrigá-lo a manifestar os seus dons, você não terá uma vida normal. Conosco, ao menos, estará seguro até nós o eliminarmos.
- E depois?
- Depois? Selamos os seus poderes como o acordado e você não terá mais ninguém na sua cola, porque não será radar de caçadores e não terá interesse nenhum para os demônios. — ou ao menos era o que eu esperava em teoria. O vi desviar o olhar do meu rosto, mirando o horizonte pensativo e enquanto ele ponderava não pude deixar de notar alguns detalhes curiosos.
Ryuichi tinha um rosto jovial, com expressivos olhos claros, pele alva e raras marcas de expressão. O corpo sob as roupas coloridas parecia ainda em forma, assim como a energia dele nos palcos dava a sensação de ser eterna, e eu não pude deixar de pensar se estes fatos eram porque Sakuma era alguém que cuidava bem da saúde ou por causa da genética. Dragões do Tempo, pelo pouco que lembrava deles da minha época de Escola da Magia, também tinham a fama de serem imortais.
- Parece justo. E como... — ele hesitou e eu esperei pacientemente para que continuasse a pergunta. — e como vamos treinar os meus poderes? — o mirei longamente, piscando várias vezes, até respondê-lo:
- Não faço a mínima ideia. — e Ryuichi gargalhou.
Ryuichi
A expressão perdida dele ao me dar a resposta realmente me fez rir, assim como me fez me sentir mais leve em semanas. Acho que o estresse da morte da minha avó adicionado com os segredos recém-descobertos da minha família me fizeram esquecer, por um breve momento, as coisas simples da vida. As pequenas coisas que eu gostava de apreciar com aquele meu jeito infantil e irresponsável de ser. Aquele jeito que eu disse à Tatsuha que ao mesmo tempo era uma criação para evitar as críticas sobre as minhas atitudes, mas também era parte do que eu era.
Suspirei, apreciando também a brisa do final da tarde que soprou, varrendo as últimas folhas do outono e desalinhando as mechas negras do cabelo de Tatsuha, criando um contraste entre a pele clara e os fios escuros, o fazendo parecer uma pintura bem bolada.
- Talvez... — quando ele se virou para me olhar, senti o meu coração parar no peito e as minhas bochechas esquentarem, ainda mais que ele se calou ao perceber que eu o admirava feito um idiota. — devêssemos começar pelo básico. — continuou depois de uma pausa extremamente longa para os meus nervos que estavam começando a perder as estribeiras, levantando-se em seguida e indo até a árvore de cerejeira praticamente morta por causa do inverno que se aproximava, recolhendo do chão perto dela uma das folhas amareladas que havia caído de seu galho. — Concentre-se em algo e tente pará-lo.
Pisquei confuso, não compreendendo exatamente o que ele quis dizer com isso até que o vi soltar a folha, observando a mesma cair vagarosamente em direção ao chão. E então, em um sacudir de dedos, a mesma congelou no ar em sua trajetória. Fascinado, levantei-me também da varanda e fui até Tatsuha, observando com interesse a folha parada em pleno ar. Até mesmo a gota de orvalho que escorria dela estava imóvel sobre a sua superfície enrugada.
- Fascinante. — murmurei. Agora que tinha um momento para apreciar a magia, sem as bolas de fogo, sem os demônios e sem as explosões, não podia negar que a mesma era fascinante. — Mas você tem a vantagem de que tem esses poderes desde criança... — a risada dele me interrompeu.
- E você acha que desde de criança eu sabia controlá-los? Mamãe me dizia que perdeu as contas de quantas vezes, em um ataque de birra, eu congelei o meu pai sem querer. E os poderes explosivos só adquiri quando tinha uns onze anos. Mika, Mika tinha a mania de orbitar cada vez que espirrava e Eiri quando bebê era só chorar que expandia a sua empatia para todos, os fazendo chorar também.
- Mentira. — falei desacreditado. Eles pareciam tão seguros de si, tão certo do que faziam, tão sobre o controle de seus poderes.
- Não. — ele fez outro gesto com as mãos, liberando a folha que continuou o seu percurso até tocar o chão. — O que eu estou dizendo é que mesmo nascendo com poderes mágicos, não nascemos sabendo como usá-los. E você é como nós agora, um bebê na magia que com o tempo irá amadurecer. Mas, para isso, precisa praticar. — e com isto ele se abaixou, recolhendo uma pedra do chão, e afastou-se alguns passos de minha pessoa.
- O que você vai fazer com essa pedra? — perguntei desconfiado e ele me deu um sorriso maroto.
- Instintos ativam os poderes também. Eu ainda tendo a congelar ou explodir coisas por acidente, ainda mais que nossos poderes estão ligados as nossas emoções. Creio que o mesmo aconteceu com você no último ataque. Logo, vamos ver se acontece de novo. — e sem aviso ele arremessou a pedra em minha direção. Arregalei os olhos quando a vi vindo em uma velocidade considerável contra o meu rosto e a minha única reação foi a de virar a cabeça e cobrir a mesma com as mãos para me proteger. — Ryuichi! — o tom de repreensão me fez abrir um olho, temeroso, vendo de esguelha que a pedra estava congelada no ar. — É para você usar os seus poderes, não se esconder!
Fiz uma careta sem graça para ele, não contendo a curiosidade e cutucando a pedra com a ponta do dedo, vendo que ela deu uma tremida no lugar, mas permaneceu estática no ar.
- Pensei que você congelasse as coisas. — falei com as sobrancelhas franzidas.
- Moléculas em movimento, eu paro moléculas em movimento. Eu parei a movimentação da pedra... — nisto ele aproximou-se de mim e fechou o punho entorno da pedra, a retirando de sua suspensão em pleno ar. — Mas não quer dizer que eu parei todo o sistema ao redor dela. — fiquei mais confuso ainda e ele suspirou. — É... cientificamente complicado. Magia é complicada de se explicar em termos profissionais. Agora voltando ao assunto, era você que deveria parar a trajetória da pedra, não eu.
- Fácil para você falar Sr. “Eu consigo explodir um vaso com um sacudir de mãos”. — soltei irônico e ele riu, o que fez aquela sensação de revoar de asas retornar ao meu estômago.
- Certo. Tente então isto: quando a pedra estiver indo em sua direção, imagine ela parando, imagine o tempo a sua volta estagnando.
- É isso o que você imagina quando quer congelar algo?
- Basicamente. — e então, sem aviso, ele lançou a pedra de novo na minha direção.
Desta vez combati a vontade de me proteger do propenso ataque e permaneci imóvel no lugar, vendo o pedaço de rocha se aproximando cada vez mais e imaginando, imaginando que a velocidade dela estava diminuindo, como em câmera lenta, diminuindo até parar completamente, e quando eu pisquei e dei por mim, a pedra estava literalmente parada.
- Muito bom. — Tatsuha soltou, aproximando-se de mim e avaliando o meu trabalho.
- Fui eu? Não foi você? — ele arqueou ambas as sobrancelhas e fechou o punho sobre a pedra, tentando movê-la mas fracassando imensamente.
- É, foi você. Literalmente. — e com isto fez um gesto ao nosso redor e eu pude ver que não somente a pedra, mas a folha que caía da árvore, o grilo em pleno voo, os sinetes sobre a porta que se moviam com a brisa, tudo estava estagnado. — Só precisamos melhorar a sua mira. Não podemos tê-lo parando completamente o tempo.
- Oh... — falei abobado ao perceber o que tinha feito e ficando fascinado diante disto. — E como eu faço tudo voltar ao normal?
- Bem, no começo, comigo, meus poderes se sustentavam durante alguns segundos. Hoje ficam o tempo que eu desejar. Entretanto eu não quero testar essa teoria com você. Acho então que assim como você imaginou a pedra parando, imagine ela movendo. — voltei a minha atenção para a pedra, fazendo exatamente o que ele sugeriu, a imaginando se movendo novamente e tendo a certeza de que fui bem sucedido quando a maldita me acertou em cheio no meio da testa, o que fez Tatsuha rir histericamente ao meu lado.
- Qual é a graça?
- Aniki fez o mesmo comigo quando eu era criança.
- O quê?
- A pratica com a pedra. Já passei por isso.
- Você sabia que isto poderia acontecer?
- Era uma possibilidade. Considere isto a sua iniciação na magia.
- Tatsuha! — gritei ultrajado, sentindo um latejar começar na minha cabeça no local que eu sabia que amanhã estaria roxo, mas ele somente continuou a rir.
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