Charlotte's Web
2 Um caso de Déjà vu
Notas iniciais
“porque... hoje não...” ela se levantou sonolenta e atendeu o celular que já estava incomodando.
– alô? Quer dizer, Sidl...-
– temos uma emergência! - Brass falava serio ao telefone.
– o que foi? — Sara não estava muito preocupada. Naquele momento voltar pra sua cama quente com seu marido era a emergência.
– temos um corpo, eu preciso que você venha ate aqui.
– aqui onde? — Jim lhe passou o endereço e se despediu.
Ela suspirou e desligou o telefone.
Olhou para a cama e viu Grissom sentado nela, se espreguiçando. Ele sorriu para ela antes de perguntar:
– era outro caso, não era?
Sara assentiu. Andou na direção dele e se sentou ao seu lado. “Brass disse que era uma emergência, acho que não posso faltar.”
– quer que eu te leve?
– não, eu vou sozinha... — ela olhou para o relógio e viu que já passava da meia noite. — E você precisa dormir.
Ele se deitou de novo na cama bocejando. Ela deu um beijo no alto de sua cabeça “prometo que volto viva”. Já de olhos fechados ele sorriu.
Sara foi se aprontar. Antes mesmo de ir embora, ele já havia adormecido.
~
A casa estava cercada de vizinhos e repórteres. Também alguns curiosos que passavam por ali. Viaturas do departamento completavam o caos que ocupava o quarteirão todo. Foi difícil encontrar um lugar pra estacionar.
Mais difícil foi passar pela multidão.
Quando finalmente ultrapassou a fita amarela, Sara foi procurar alguém que lhe informasse a situação.
Não havia ninguém do lado de fora além dos policiais, então entrou na casa.
No principio não parecia uma cena de crime. A casa estava arrumada, sem nada quebrado e o principal: um corpo. Considerou um sequestro, enquanto ninguém provava o contrario.
Continuou andando, passando por um banheiro, a cozinha, um quarto vazio... E parou. Voltou e examinou-o melhor.
Aquele quarto era estranho. Simples e pequeno, mas mesmo assim estranho. As paredes não estavam pintadas, tinham muitas rachaduras nelas e no teto.
Só tinha uma cama de solteiro, uma cômoda e encostado na parede, um armário velho. Sobre a cômoda havia um relógio despertador e um abajur. Parecia um quarto de adultos, não tinha nenhum brinquedo.
Sara viu que não tinha nenhuma lâmpada no teto, mas mesmo assim tinha um interruptor na parede.
“ou esse é o quarto de alguém que a família odeia...” Sara não percebeu que Finn estava ali. “ou é um quarto de hospedes de alguém que não gosta de hospedes.”
“você não tinha visto isso antes?”
“quando cheguei Nick me levou direto para o corpo, não tive tempo de ver o reto da casa...” ela apontou a lanterna para o quarto, o observando “e é isso o que vou fazer agora”.
Antes dela sair, Sara a chamou “ espera, cadê o Nick?”
“esta lá em cima, não tem erro. Vai ser fácil saber em qual quarto aconteceu um homicídio”. Ela sorriu para Sara, que ficou sem entender, e foi ver o resto da casa.
Antes de sair do quarto, algo chamou sua atenção debaixo da cama. Ela se aproximou e pegou.
Era uma boneca. Um pouco velha, mas bem cuidada. Aquilo estava bagunçando sua mente. Um quarto vazio, uma boneca, um homicídio... Precisava que alguém lhe dissesse logo que diabos estavam acontecendo ali. Então foi procurar Nick.
Andou mais um pouco e achou as escadas. A parte de cima da casa era menor, só tinha dois quartos. Talvez fosse por isso que Finn disse que seria fácil encontrar. O primeiro dos quartos não surpreendia. Estava bagunçado, cheio de caixas, coisas velhas e poeira.
O segundo quarto a deixou de queixo caído. Sangue pelas paredes, pelo chão, pelo teto e pela cama, onde estava o corpo de um homem esfaqueado.
“ah, você chegou!” Nick estava ali fotografando uma faca ensanguentada no canto da parede. “eu insisti que Brass não te acordasse, mas ele não me ouviu.”
“ninguém ainda me disse o que aconteceu, você sabe?”
“não é complicado, uma mãe esquizofrênica mata o marido que abusava dela, e fim... quem é sua amiguinha?”
Sara não notou que ainda estava com a boneca na mão. “na verdade... espera aí, você disse mãe esquizofrênica? Ela tinha uma filha?”
“exatamente, Jim a levou pra fora a um tempo, vão ver se ela tem um parente pra ficar com a guarda. Isso deve ser muito ruim, ela estava aqui e viu tudo...”
“e a mãe? Tem nome?”
“sim”.
“qual é?”
“eu não sei”
“mas disse que ela tem nome!”
“isso é obvio Sara, todo mundo tem nome”.
Ela encarou Nick que se segurou para não rir. Resolveu ignorar as gracinhas dele e voltou ao assunto. “achei essa boneca lá em baixo em um quarto muito estranho...”
“estranho como?”
“eu não sei, não dá pra descrever...” Sara parou um pouco para pensar. Aquela historia era um déjà vu. Mãe esquizofrênica? Pai esfaqueado? Criança sem os pais?
Ela podia ver como aquilo ia atormenta-la. Principalmente por saber como essa “garota” se sentia, e não poder fazer nada pra ajudar. Ou podia?
“Nick, pode terminar aqui, por favor, eu tenho que fazer uma coisa...”
“vai procurar a garota, não vai?” ele olhou com um sorriso amigável para ela, que apertou os lábios e olhou para o chão sem responder.
Nick assentiu. Sara já estava saindo, mas parou. Se virou e pediu a ele:
“an... pode... guardar isto aqui pra mim?” ela estendeu o braço segurando a boneca para Nick que agora estava perto dela. Antes de pegar ele recuou.
“é evidência ou vai guardar pra devolver ao dono?” A encarou fingindo que era uma pergunta séria.
Ela sorriu. “acho que a dona sentirá falta.”
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Do lado de fora da casa, o volume já estava menor. Mesmo assim as câmeras e flashes incomodavam. Sara estava indo em direção ao seu carro, mas antes mesmo de ultrapassar a fita encontrou o que procurava.
A garota, de cabelos curtos e castanhos estava ali, sentada no meio fio abraçando as pernas. Usava uma calça e uma blusa de manga comprida. Nos pés, um tênis velho e gasto. Ao seu lado um policial grande parado como um soldado da rainha da Inglaterra. Ela mirou sua lanterna para a menina, e pode ver que ela soluçava.
Se aproximou dos dois e perguntou ao homem: “o que esta garota faz aqui?”
Ele apenas olhou para Sara sem mover um músculo: “ela mora na casa. Esta esperando o carro chegar pra leva-la pra laboratório.”
Sara olhou novamente para a menina, andou em sua direção e se agachou em sua frente.
“eu...” ela não tinha ideia do que dizer. Já havia passado por aquilo e sabia que não era fácil. “meu nome é Sara Sidle, sou da policia... como você se chama?”
A garota apenas levantou o rosto. Ela tinha olhos castanhos, iguais aos de Sara. Ela ficou calada, então o policial tomou frente.
“Charlotte Harrison, 10 anos.” Ela olhou espantada para aquele homem por ele saber aquilo sobre ela.
“Charlotte... é um belo nome...” Sara percebeu que isso não estava ajudando em nada, então agiu como gostaria que agissem quando isso aconteceu com ela. “ouça Charlotte, aconteceu uma coisa muito ruim com seus pais aqui, algo que ainda temos que descobrir como e por que; eu preciso que me diga o que você viu pra me ajudar a entender.”
Charlotte e o policial se espantaram com o modo como ela falou. Ela apenas suspirou, enxugou uma lagrima e finalmente falou:
“vocês pensam que eu não sei o que houve, mas eu sei. Posso ser só uma criança mas entendo muito bem que minha mãe finalmente matou meu pai. Você não e diferente das outras pessoas que falaram comigo como se eu fosse um bebe, mas o que vocês não sabem é como é estar agora no meu lugar.”
Sara se surpreendeu. Esperava que ela fosse pedir a mãe ou o pai, então ela teria que contar a parte mais difícil da historia. Mas Charlotte sabia muito bem e que aconteceu, e Sara também sabia como ela se sentia.
“eu sinto, Charlotte. Sinto exatamente a mesma coisa. Quando eu tinha um pouco menos do que a sua idade minha mãe matou meu pai no meio da noite enquanto ele dormia. Minha vida nunca mais foi a mesma desde que eu fui para um orfanato onde todos me tratavam como uma esquisita. Eu não estou querendo mostrar como você vai ser infeliz daqui pra frente, só quero dizer que você não esta sozinha. Eu te entendo.”
A garota ficou feliz e ao mesmo tempo surpresa por ouvir aquilo. Já ia dizer algo quando foi interrompida pelo policial.
“o carro chegou, tenho que leva-la ao laboratório.”
Elas olharam para a rua, onde um carro estacionava e de dentro dele saia uma mulher loira de roupa social acompanhada por um homem sério.
“me chamo Lucy Herchel, eu vou cuidar da procura pelo guardião legal da garota.”
Sara se levantou e a cumprimentou. “Sara Sidle, sou do CSI.”
Lucy assentiu. Depois olhou para Charlotte e automaticamente um sorriso enorme surgiu em seu rosto. “oi queridinha, eu vou te levar para um lugar mais legal pra gente conversar sobre isso, ok?”
Ela e Sara se entreolharam. Estavam a tratando como bebe de novo. Mesmo assim Charlotte se levantou e entrou no carro.
Sara ficou ali olhando ela ir embora. Ela poderia ir junto, mas voltou para dentro da casa.
Nick estava saindo de dentro da casa segurando sua maleta e dois sacos de evidencias. Sara apareceu correndo e esbarrou nele.
“hey, cuidado, onde é o incêndio?”
“Nick, era você mesmo que eu estava procurando, eu preciso da boneca.”
“aqui.” Ele entregou a ela um dos sacos “achou a dona? Onde ela está?”
“indo para o lab. agora, eu preciso ir.” Ela saiu em disparada e já um pouco longe gritou “AVISE O JIM!”
E ele gritou de volta “ok, BOA SORTE, HEIN!”
Antes de terminar a frase, ela já estava ligando o carro. Nick sorriu.
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