Charlotte

2 I need you.


Notas iniciais
>>> Olá pessoal! Vou dar um pequeno aviso aqui. Não será possível a minha historia seguir o estilo da série de Sherlock da BBC, então não serão apenas quatro capítulos. Mas também todos os capítulos serão relativamente grande, então não serão muitos, mas serão mais de quatro com certeza. >>>Quero agradecer as meninas que comentaram o Prólogo da historia, isso me motivou a continuar. Peço que não me abandonem, por que esse é um projeto no qual eu sei que o leitor vai se sentir viciado e vai querer saber o que vai acontecer no capitulo seguinte. Comentem. >>>Boa leitura!

Paris — França — 27 de Outubro de 1974 — 07:12a.m

Amanheceu na grande capital francesa, o horário de ponto da cidade fazia com que seus habitantes saíssem de suas casas para seus respectivos trabalhos, fazendo as ruas ficarem lotadas e movimentas, os carros começando a chegar no tráfego parisiense e os comércios abriam para dar inicio a mais um dia de trabalho. Em algumas ruas podia se escutar musica tocando. Françoise Hardy era o que mais se ouvia no momento. Mas, os franceses não deixavam de ouvir a sua boa e velha musica clássica e era essa música que invadia a Rua Saint-Jacques, uma das mais antigas de Paris que se encontrava na margem esquerda do Rio Sena. A noite passada havia sido de chuva, uma forte chuva, porém o dia tinha chegado com um intenso e brilhoso sol a beijar a cidade, haviam poucas nuvens no céu e não havia previsão para outra chuva naquele dia.

O carteiro, um velho conhecido da vizinhança por entregar as correspondências a mais de trinta anos agora fazia as entregas como um passa-tempo, já havia se aposentado e não queria deixar o trabalho que a tantos anos lhe tinha dado o que comer e vestir, tanto a ele quanto a sua numerosa família. Ele se locomovia com uma bicicleta vermelha de guidões pretos e aros de aço. Sorriso no rosto, sentia o vento tocar em seus restantes cabelos grisalhos até chegar a ultima casa da Rua Saint-Jacques, casa de numero 250, próxima a um pequeno museu e ao lado de um terreno baldio sem moradias para dar acesso a próxima rua. Ele parou na frente da pequena calçada da casa de traços coloniais. Era antiga, mas parecia conservada. Só haviam duas pessoas que moravam ali dentro de acordo com os registros dos moradores de Paris, e como um carteiro, ele conhecia quase todas as pessoas da cidade. Desceu de sua companheira de trabalho e andou até a porta de madeira rustica com maçaneta dourada, um pouco descascada, e com o numero 250 ao lado da porta. Bateu duas vezes, sem muita força, apenas para chamar os moradores. Enquanto esperava, deu uma breve olhada na casa, era de fato uma moradia muito bonita, de uma família com boas condições, tinha primeiro andar e a calçada estava bem limpa, eram bons moradores, perfeccionistas. Apos aguardar por alguns minutos, finalmente a porta se abriu. O velho carteiro sorriu e acenou com a cabeça.

–Bom dia Brigitte. -cumprimentou a mulher que sorriu, segundo a visão do carteiro, era uma moça bonita, esbelta, com uma estatura um pouco alta, tinha cabelos igual a chocolate mas os prendia com um coque bem levantado. Suas roupas eram pouco chamativas, porém elegantes. Ela vestia uma saia longa e branca enquanto a parte de cima se cobria com uma blusa de mangas longas acinzentada.

De todas as mulheres que ele já havia visto, aquela era a mais bonita. E de longe parecia amigável. Bela, charmosa, formosa, o sonho de qualquer homem. Seus olhos verde-esmeralda apertados pareciam o encarar como os olhos de uma onça, ficavam abaixo de um par de sobrancelhas retas sem expressividade, deixando o rosto da jovem com um ar de sinistro e sem emoção, sem tirar sua beleza. O rosto dela era harmonioso. Sua postura era ereta e esbanjava confiança. Parecia que isso era boa obra de sua genética, pois conheceu os pais da bela moça, e ambos eram bonitos.

–Oh, bom dia Sr. Chevalleire. -respondeu-lhe a jovem com uma voz doce.

–Recebi essa encomenda ontem a noite, está designada para a sua casa. Pelo visto, é um presente para sua irmã.

O bom humor da moça morreu ali. Seu rosto passou de alegre para sério. O velho carteiro Chevalleire estranhou a atitude dela.

–Um presente? -perguntou Brigitte. -Quem diria...

Estendeu as mãos para receber a encomenda, olhou a embalagem e o laço, achou cafona e sem muita importância, deveria ser só mais um agrado que ofereciam a sua irmã caçula. Forçou um sorriso e agradeceu o serviço do senhor. Não tinha muito mais a falar e também não queria estender conversa. Tinha muito o que fazer ainda. Respostas curtas, o melhor meio de dizer indiretamente que não está afim de conversar. Então após a saída do velho, Brigitte entrou novamente em casa e observou com cuidado a caixa embrulhada em papel vermelho e com um laço amarelo, tinha como ser mais cafona? Não tinha a menor ideia de quem poderia ter mandado aquele presentinho barato, mas com certeza não era uma pessoa que conhecia bem a sua irmã.

Olhou o pequeno papel que estava colado a ponta do laço, e viu o nome escrito a mão, pela letra, era um homem que havia escrito.

–Charlotte. -leu calmamente o papel e revirou os olhos.

Não estava interessada em saber o que havia ali dentro, mas queria saber quem havia mandado tal presente. Apressou-se a subir a larga escada de madeira que levava ao primeiro andar da casa. Em passos largos ela chegou ao primeiro andar, dando de cara com um extenso corredor, onde só havia um jarro de flores porém haviam muitos quadros, até mesmo de artistas famosos. A casa não era muito iluminada. Na verdade, a casa parecia muito com uma toca de morcegos. O piso era escuro e as paredes tinham revestimento em lambris. A porta que queria era a terceira a direita. Colocou a mão na maçaneta e escutou barulhos de coisas sendo jogadas do outro lado da porta

Entrou sem aviso. Deparou-se com um mar de livros pelo chão. Abertos, fechados, rasgados, amassados, pisoteados e completamente sem nenhuma importância maior por estarem ali. Respirou pesado e tentou manter a calma. Brigitte havia entrado da na antiga biblioteca da casa e ao se deparar com o estado em que ela se encontrava diria que realmente ninguém mais havia colocado o pé ali dentro, bom, talvez apenas uma pessoa, a responsável por tamanha esculhambação. E também, havia forte odor de mofo pairando no ar.

–Você não sabe bater na porta? -a voz fina invadiu os ouvidos de Brigitte, mas ela não conseguia ver ninguém pois a biblioteca estava bem escura, iluminada apenas por uma fenda aberta na janela quebrada.

–Devo supor então que você encontrou um novo divertimento para tamanha destruição na biblioteca do papai. -respondeu-lhe a mais velha ao dar mais alguns passos adentro do local.

Avistou, no fundo da biblioteca, onde a luz do sol não conseguia chegar, alguns fios de cabelo cor de mel, ondulados porém desgrenhados. Entortou a boca e encarou o teto, as vezes aqueles costumes corriqueiros lhe tiravam a pouca paciência que tinha. Tantos anos morando na mesma casa e aqueles velhos hábitos despreocupados e extremamente relaxados ainda a perturbavam.

–Não. Apenas estou fazendo uma limpeza por aqui.

–Limpeza? -Brigitte sorriu de forma debochada.

–É, você sabe como é. Muitos livros imuteis, historias sem fundamento e sem importância, camadas e camadas de papeis que ninguém se importaria se fossem jogados na lareira.

A mais velha arregalou os olhos.

–Oque? -surpreendeu-se.

–Se bem que, cheiro de papel queimado não é tão agradável...

–São os livros do papai, Charlotte, você enlouqueceu? Vai queima-los assim mesmo? -a mais velha se irritou.

–Bom, eu não os leio e certamente não irei ler. -a irmã caçula levantou-se do chão fechando o livro que analisava se valia a pena deixar inteiro ou não, o colocou de volta na prateleira e se virou para Brigitte.

Como sempre, só pensava nela e no que faria. Charlotte se aproximou um pouco de onde a irmã estava, pisou em alguns livros mas pode ficar em um lugar onde Brigitte pudesse vê-la por completo. E o que ela viu não agradou nem um pouco.

A mais velha não queria deixar a mostra, mas ver a irmã naquele estado a deixou um pouco curiosa. A encarou firme.

–A quanto tempo você está aqui exatamente? -perguntou Brigitte.

–Quase o suficiente. -Charlotte foi direta. -Pretendo terminar isso tudo antes do anoitecer, e você está atrasando meu trabalho.

–Não chamaria isso de trabalho e sim de perda de tempo, que pelo visto você tem de sobra para ficar aqui, brincando com livros empoeirados.

–Chame do que quiser, o que você pensa não me importa. -sua irmã mais nova era fria e as vezes egocêntrica, as vezes não, sempre.

–Está aqui desde a noite passada. Dá para ver o cansaço em seus olhos. Mas me perguntou por que você passaria a noite feito um rato de biblioteca vasculhando livros que não irão ter mais nenhuma utilidade. -Brigitte conhecia muito bem a irmã com quem conviveu a vida inteira, sabia quando Charlotte cansava, e ela estava cansada, só não queria admitir isso para a irmã mais velha.

Os olhos azuis acinzentados de Charlotte a irritavam com sua inexpressividade, e ela por sua petulância. Mas sabia os pontos fracos da caçula, e como sabia.

–Você não viraria a noite fazendo isso, precisava de algo mais motivador para lhe tirar da cama e te trazer para cá, ainda mais vestindo esses centímetros de tecido que você chama de roupa de dormir. -Brigitte provocou. Ela tinha analisado bem a situação. E depois, Charlotte estava quase nua vestindo apenas uma curta camisola de cetim de cor marrom. -Não está aqui fazendo apenas uma limpeza não é?

Arqueou uma das sobrancelhas, tinha acertado em cheio, pela expressão inquieta que a irmã demonstrou viu que ela estava naquela biblioteca por um motivo maior. Como aquilo irritava Charlotte, a sua irmã mais velha não tinha uma observação tão boa mas ela conhecia seus gestos e seus costumes, assim como conhecida cada canto daquela casa, enganar Brigitte nunca era fácil.

–E eu presumo que você não tenha vindo aqui apenas para ver oque estou fazendo e como estou. -mas a caçula sabia como irritar a irmã também, sabia seus pontos fracos até mesmo sem ela demonstrar nada. Brigitte mordeu o lábio inferior. Aquelas duas pareciam duas cobras em um cesto, uma pronta para atacar a outra na primeira oportunidade.

–É claro que não. Não entraria nesse lugar sem uma razão. -estendeu o pacote embrulhado em direção a Charlotte que apenas observou seus movimentos com calma. -Isso. Chegou hoje de manhã, tem seu nome.

Charlotte observou o pacote de embrulho vermelho e laço amarelo nas mãos de sua irmã. Como era feio. Observou bem aquilo ali, sabia exatamente quem havia mandado aquele presente e o que era aquele presente. Sentiu orgulho de si mesma. Cada dia a mais o seu dom desabrochava como uma rosa na primavera. Tudo com ela era mais simples, bastava ver e observar.

A irmã mais nova sorriu.

–Um vestido preto de mangas longas, com alguns detalhes prateados no decote discreto, não é tão longo mais fica um pouco abaixo do joelho, é colado no corpo e de de acordo com todas essas características ditas é um vestido da marca Coco Chanel da coleção de outono de 1973 edição limitada. -falou Charlotte despreocupadamente enquanto encarava o presente fingindo que sua irmã não existia.

Brigitte a fitou, havia uma mistura de irritação e surpresa dentro dela. Charlotte havia feito aquela coisa novamente, coisa que Brigitte não sabia o nome mas a deixava completamente curiosa. Sua irmã podia dizer coisas que ninguém mais podia, ela tinha a capacidade ver ver o que ninguém mais via e de falar calmamente algo que nunca poderia saber se não fosse lhe dito. Antes, eram coisas pequenas e sem importância, como saber o trabalho de alguém só por olhar a figura da pessoa. Mas, com o passar do tempo, ela foi desenvolvendo mais ainda aquela capacidade incrível de observação, e começou a apontar fatores que realmente uma pessoa comum jamais veria, e além disso, Charlotte sabia deduzir coisas absurdas que no final sempre acabavam sendo verdades. Aquilo deixava Brigitte assustada mas ela não demonstrava isso. Charlotte sempre foi inteligente, a melhor aluna da classe e da escola, porém não quis fazer nenhuma faculdade, decidiu seguir algo completamente diferente e que poucos conheciam e que só havia ela de mulher no tal ramo. Pelo menos, até onde Brigitte sabia.

Mas aquele novo hobby de sua irmã caçula a irritava, pelo simples fato de que Charlotte se sentia superior a todos quando o usava.

–Como você sabe isso? -perguntou-lhe a mais velha intrigada, seus braços já estavam cansando de tanto segurar o pacote.

Charlotte deu os ombros e dessa vez levou o seus olhos a encarar os olhos de sua irmã, já tinha conseguido o que queria, novamente, deixa-la curiosa sobre seus novos dons, assim chamava sua capacidade de observação.

–Apenas olhei. -respondeu-lhe fazendo Brigitte cerrar os dentes. Como ela era irritante. Mas, Charlotte via a curiosidade pingar dos olhos de sua irmã, resolveu então explicar tudo que havia dito anteriormente.

Suspirou.

–Quando você me estendeu o pacote eu pude observar pequenas linhas negras e prateadas bem debaixo do laço, o que significa que o vestido foi deixado em cima do papel antes de ser colocado na caixa e assim ser embrulhado, a cola usada para colar a fita amarela ajudou os fios a permanecerem no local, são pequenos mas consegui enxerga-los perfeitamente. O tamanho da caixa deixou claro de que era uma roupa grande, mas não era uma blusa de frio ou um casaco por causa dos fios, então só poderia ser um vestido. E em relação a saber que ele é uma edição limitada da Coco Chanel é só ler mais revistas e você saberia facilmente, só existem dez desses vestidos no mundo e um deles está ai dentro. É um bom presente. Realmente o que dizem é verdade, o presidente sabe como agradar uma mulher quando tem vontade.

A jovem de camisola andou até a porta da biblioteca demonstrando que iria sair do local, mas Brigitte a chamou, colocou o presente em cima de uma pequena pilha de livros no chão e a fitou inquieta.

–Espere um pouco. Presidente? Mas que presidente? -Brigitte perguntou temendo a resposta que viria.

–O presidente da França, é claro. Valéry Giscard d'Estaing. Quem mais seria? -Charlotte indagou.

A mais velha apertou a ponta do nariz com os dedos para buscar paciência, Charlotte se metia em tantas coisas que ficava difícil de acompanhar e saber o que ela fazia. Se meter com o governo não era uma boa ideia, nunca seria.

–Charlotte Villeneuve...-falou com uma voz firme e séria. Ela voltou a olhar a irmã mais nova. -O que foi que você fez? O que o presidente da França tem haver com esse vestido? -apontou para a caixa logo atrás arqueando uma das sobrancelhas.

Charlotte revirou os olhos, aquele jeito da irmã de agir com se fosse a mãe delas a deixava irritada. Cruzou os braços e torceu a boca, sem pressa.

–Foi um caso. -respondeu Charlotte. -Uma suspeita inútil de sequestro, a filha não voltou para casa depois da escola e a policia não estava conseguindo encontra-la, então o presidente entrou em contato comigo para que eu encontrasse sua filha até então supostamente sequestrada. Mas na verdade tudo não passou de birra adolescente da garota, ela queria namorar, o pai não deixou, então ela fugiu com o namoradinho.

–E foi por isso que o presidente te contratou? Para procurar a filha rebelde que havia fugido com o namorado? -Brigitte debochou sutilmente.

–Nenhum pai quer ver sua princesinha com um cara qualquer.

Charlotte deu um sorrisinho sem humor algum, agora sim ela tinha um motivo para descer do primeiro andar, a campainha da casa tocou novamente. Mais cartas? Brigitte franziu o cenho enquanto observava sua irmã sair da biblioteca quase nua com aquela camisola e se direcionar a porta principal da casa. A caçula se encontrava descalça e enquanto descia as escadas ela tentava deixar seus cabelos mais apresentáveis com as mãos. Brigitte desceu logo depois, não acreditando que Charlotte iria abrir a porta daquele jeito, mas nada disse até chegar ao chão.

Charlotte colocou a mão na maçaneta e abriu a porta, deparando-se com um velho conhecido seu. O encarou.

–Delegado Dumont, não esperava ter que olhar para sua cara tão cedo desde o caso dos três cegos. -falou friamente enquanto via o homem de casaco preto, e boina xadrez dava um contraste diante tanta cor escura que o delegado vestia. Ele fitou Charlotte e cresceu um pouco os olhos, ver uma mulher naquele estado, com roupa de dormi e ainda mais sendo tão curta não era algo comum, mas parecia que a Villeneuve não se importava com isso.

O delegado precisava dos serviços de Charlotte, por mais que não quisesse admitir novamente uma mulher na frente de um caso, dessa vez, ele realmente precisava dela. Mas sabia que não seria fácil convence-la a entrar na investigação depois do que ocorreu no caso anterior, no caso dos três cegos, onde ele e Charlotte não se entendiam e pior, não se respeitavam. Mas após a noticia de que ela havia sido contratada pelo próprio presidente da França para resolver um caso particular, Charlotte começou a ser mais bem vista entre a policia francesa e seus membros, e isso incluía o delegado, que para não cometer erro algum, estava disposto a cooperar com a investigação particular da jovem Villeneuve naquele novo caso.

–Charlotte, precisamos conversar. -respondeu-lhe o delegado Dumont.

–O que eu tenho para conversar com você? -Charlote respondeu friamente. -Tudo o que você me disse no caso anterior não era mentira, e você sabe muito bem disso.

Dumont torceu a boca. Tinha sido muito duro com a jovem moça e na realidade não esperava que ela fosse esquecer de suas palavras tão rapidamente. Charlotte não demonstrava raiva, mas dava para notar o desprezo dela pelo dito cujo.

–Precisamos de você. Certos acontecimentos repetiram-se e a policia não está conseguindo solucionar. Não somos suficientes e...-ela arqueou a sobrancelhas, o que restava para conseguir faze-la pensar em aceitar o caso seria amaciar o ego dela. E isso, Dumont sabia fazer perfeitamente bem, quando a ocasião necessitava é claro. -Não somos tão bons quanto você.

Charlotte quis gargalhar, e como quis. Ele achava mesmo que ela iria acreditar naquela atuação fajuta? Uma perda de tempo sem tamanho, mas a jovem gostou de ver que o delegado, mesmo mentindo, ou não, admitiu que suas capacidades lógicas são bem superiores as dele e de seus marionetes da delegacia.

–É realmente uma comédia ver que o senhor acha mesmo que acreditarei em suas palavras, mas é bom vê-lo tentar. -debochou a Villeneuve mais nova.

O delegado suspirou irritado.

–Mesmo que tudo isso que falei seja mentira, acha mesmo que eu estaria aqui pedindo a sua ajuda se o motivo não fosse algo sério?

Charlotte analisou a expressão que o delegado demonstrava naquele momento. Ele estava suando mais que o normal, suas mãos inquietas dentro dos bolsos do casaco, seu olhar nunca havia a encarado como a encarava, era um ótimo exemplo de quem tinha pressa para realizar algo ou para pedir algo. Mas, ela não se considerava uma pessoa tão bondosa a ponto de esquecer tamanhas difamações que recebeu de sua visita. Não esqueceria assim tão facilmente. Ela sentiu o cheiro forte do perfume de sua irmã se aproximando dos dois e revirou os olhos.

–Oh, delegado Dumont, que surpresa mais agradável. -disse Brigitte.

–É claro que não é agradável. Não precisa se fazer de boazinha sempre Brigitte, sua cara já entrega que é uma pessoa sem um pingo de boa vontade dentro de si. -respondeu a Villeneuve mais nova.

–Olá Brigitte, é bom te ver também. -O delegado Dumont respondeu a Villeneuve mais velha, como se Charlotte não estivesse logo a sua frente.

–Irmãzinha, seja educada e convide o delegado para entrar. Não vai querer resolver assuntos pendentes com ele do lado de fora e...-ponderou Brigitte. -Vestida desse jeito.

Charlotte revirou os olhos demonstrando frustração, porém, fez o que a sua irmã lhe pediu, deu espaço entre a porta e sinalizou com a cabeça para que o delegado entrasse. O senhor entrou e a porta foi fechada. A jovem andou até o centro da sala de visitas, onde haviam dois sofás, um grande e outro pequeno, ambos tinham a coloração bege com detalhes em marrom escuro. O tapete era vinho, cobria boa parte da sala. Haviam poucos vasos de flores, as mesmas estando mortas ou secas. A sala era iluminada pelas janelas abetas por Brigitte logo cedo. Duas estantes de livros ocupavam lugares sem importância, apenas, talvez, só para decorar a sala, e a lareira se encontrava na parede a direita, apagada no momento. A casa era fria, um ambiente que se igualava a casas antigas sem nenhum morador, corriam até boatos que aquela mesma casa era assombrada pelas pessoas que já haviam morado lá e que morreram tragicamente. Bobagens, puras bobagens, Charlotte só conseguia achar engraçado o modo que as pessoas criavam historias do desconhecido. Morou lá a vida toda, nunca viu fantasma algum, mesmo que quando mais nova tenha tentado realiza as velhas brincadeiras de invocar espíritos com a ajuda de dois primos, mas sem sucesso.

O delegado Dumont adentrou mais ainda na sala e se sentou no sofá maior, logo após um pedido educado de Brigitte para que ele se sentisse a vontade.

A Villeneuve mais nova encostou-se na parede que dava acesso a cozinha da casa. Cruzou os braços e encarou o velho. A mais velha fitou a mais nova por alguns minutos e quando realmente notou que ela não se incomodaria com seu olhar reprovador, decidiu abrir a boca e quebrar o silencio.

–E você? Vai continuar assim?

Charlotte não olhou para Brigitte quando escolheu responder sua pergunta.

–Assim como? -rebateu com outra pergunta. A Villeneuve mais velha colocou as mãos na cintura ainda olhando para a mais nova que permanecia encarando o delegado, a sua paciência estava se esgotando.

–Vestida desse jeito, Charlotte! Suba e fique mais apresentável para poder ter a sua conversa com o delegado Dumont. -ordenou Brigitte.

–Gosto de ficar desse jeito. -respondeu-lhe a mais nova sem cerimônia, direta como sempre.

Paciência era uma virtude precisa, e Brigitte sabia disso. Não iria, de forma alguma, começar uma discussão habitual com sua irmã mais nova na frente de uma visita, mas também não queria deixa-la semi-nua na frente de um velhote de quase 60 anos de idade que não disfarçava seus olhares masculinos em direção ao corpo de Charlotte. Nojo, ele dava nojo.

As garotas Villeneuve eram bem conhecidas por suas belezas hereditárias, isso era um fato em toda a Paris. Dumont não perdeu a oportunidade de contemplar tal monumento em sua frente. A mais jovem das irmãs, mesmo sendo mais nova do que ele uns 20 anos, não deixava de despertar pensamentos inapropriados em muitos homens, e naquele momento, despertara os dele. Curvas que muito provavelmente jamais foram percorridas, pele branca e macia, olhos tão azuis quanto a mais cristalina água e cabelos que mais pareciam cascatas acastanhadas pelos seus ombros. Era extremamente estranho ver que uma jovem tão bela não fosse comprometida com alguém.

–Eu não me importo se ela quiser ficar assim. -disse Dumont. Charlotte quase sentiu seus dentes quebrarem de tão trincados que estavam. O velho delegado não tinha vergonha na cara. Ela sabia que era uma mulher atraente, mas atrair aqueles tipos de olhares de velhos babões a deixavam enjoada.

–É claro que não se importa. -Brigitte notou a irritação camuflada da irmã mais nova. -Charlotte, anda, vá se vestir adequadamente.

A jovem encarou a irmã com uma sobrancelha erguida, não acreditava que Brigitte queria demonstrar poder sobre ela na frente daquela visita. Mas sabia rebater aqueles excessos de autoridade da mais velha. Era só demonstrar que não importava com ela, isso deixava Brigitte louca da vida.

–Irei, sim, me trocar. Mas não por que você está pedindo minha cara irmã, mas sim por que estou sentindo frio. Adoecer não seria tão bom. Preferiria morrer ao ter você como enfermeira. -respondeu-lhe a mais nova dando as costas e subindo as escadas para se trocar.

Brigitte apenas cruzou os braços, não iria perder a paciência com Charlotte naquele momento. Não era o mais adequado e não iria valer a pena.

–Não dê importância para o mau humor da minha irmã, delegado, ela passou a noite em claro na biblioteca do nosso pai vasculhando alguns livros, enfim, uma noite sem sono prejudica o lado sociável dela. -sorriu a mais velha. -Gostaria de tomar alguma coisa, delegado Dumont? Chá? Vinho? -ofereceu com educação.

–Não, obrigado Brigitte. Eu estou bem. -respondeu o delegado. -Seu pai foi um homem muito honrado. Um grande soldado que soube defender sua pátria. Ele amava muito a sua família, tive o prazer de conhece-lo, foi realmente um grande homem. -deu uma breve pausa. -Apesar das nossas desavenças, eu tenho que admitir que precisarei realmente da Charlotte nesse caso.

–É um caso tão complexo assim?

O velho deu um suspiro desanimado.

–A policia vem fazendo de tudo, e com nossos melhores homens para resolve-lo, mas o que aconteceu ontem foi uma prova de que, infelizmente, não conseguiremos fazer nada sozinhos. Sua irmã, é como se fosse a nossa lupa de ouro, só a usamos em casos específicos, não é todo caso que podemos confiar nas mãos de uma pessoa qualquer. Charlotte tem algo a mais que nenhum dos meus melhores detetives consegue ter. Isso os irrita, para falar a verdade.

–Eu compreendo delegado. Admito que as vezes esse estilo que ela adotou para si mesma também me irrita. Mas não se iluda. Charlotte pode ser muito inteligente, mas não sabemos até onde ela pode ir com sua inteligencia. -Brigitte sentou-se em uma das poltronas ao lado do sofá maior. Cruzou as pernas. -Tudo em excesso vira veneno.

O senhor franziu o cenho ao encarar a jovem.

–O que está querendo dizer, exatamente, Brigitte?

A Villeneuve mais velha sorriu despreocupada. A poucas horas o seu rosto era sério e frio, porém, sem a presença momentânea de Charlotte na sala fez o ambiente ficar mais leve para ela.

–Nada importante, delegado. -mentiu. Porém, sabia que a sementinha da desconfiança e da preocupação havia sido plantada na mente do velho Dumont com exito. Se não iria se intrometer, pelo menos iria tornar as coisas mais "divertidas" para sua irmã caçula.

Alguns minutos se passaram e Charlotte ainda não havia descido. O silencio dominava a sala. Brigitte havia encontrado um livro que lhe chamara a atenção na pequena estante e o lia calmamente. O delegado Dumont apenas esperava, observando cada pontinho daquela sala para poder passar o tempo, mas uma pergunta lhe veio a mente e não demorou a faze-la a Villeneuve mais velha.

–Brigitte, poderia me responder uma pergunta?

A mulher não tirou os olhos do livro para responder ao senhor.

–Tecnicamente você já esta fazendo uma pergunta, delegado Dumont. -falou diretamente. -Mas pode perguntar o que quer saber.

O homem ponderou bem se seria bom perguntar o que tinha em mente, mas uma perguntinha não faria mal algum.

–Quantos iguais a Charlotte existem? -perguntou. -Digo...

Dumont tentou explicar, mas ouviram passos descendo as escadas. Charlotte já estava devidamente vestida. Vestia uma blusa de manga linga preta sem nenhum detalhe, a saia ia até acima do joelho e também era preta e bem ajustada ao corpo da Villeneuve mais nova. Usava meia-calça preta e por fim colocou uma boca de cano longo preta, salto agulha e ponta fina. Seus cabelos estavam devidamente penteados e jogados para o lado direito de seu rosto. Ela estava tão bonita quanto antes.

–Nenhum. -disse a moça. -Apenas eu. Claro, nem todo mundo tem dons tão aparentes e alguns nem se preocupam em desenvolve-los, mas eu não os culpo, é verdade que na nossa cultura muitas coisas são mais relevantes do que a inteligencia, mas eu fiz um esforço.

–Tão modesta. -debochou Brigitte.

–Não. Modéstia não é da minha natureza. -respondeu-lhe Charlotte aproximando-se da pequena adega de vinhos que se encontrava no lado oposto da lareira. Analisou bem qual escolheria, não havia se alimentado aquela manhã e nem na noite passada.

Precisava de algo para mantê-la de pé durante todo o dia que com certeza seria cansativo. Uma garrafa de vinho. Cháteau Beychevelle, da safra daquele mesmo ano, era um vinho novo, porém era o tipo que ela gostava. Pegou uma taça logo ao lado, abriu o vinho sem pressa e derramou um pouco da bebida dentro dela. Estava servida.

–Então, pode começar a falar. -disse Charlotte.

–Você não vai se sentar? -perguntou-lhe o delegado.

–Eu estou bem assim.

–Deixa ela. É melhor aproveitar o seu tempo delegado Dumont. -falou Brigitte sem tirar os olhos do livro, mas a mais nova sabia que aquilo era apenas encenação da mais velha, ela iria escutar toda a conversa e assim analisar por si só.

–Bom, tudo bem. -disse Dumont. -A pouco mais de um mês ocorreu um assassinato próximo ao metrô, não encontramos o assassino por mais que tivéssemos tentado, ele não deixou pistas, não deixou nenhuma coisa para que pudéssemos usar para talvez pensar numa possibilidade de investigação. Ele matou e sumiu.

Charlotte começou a andar lentamente pela sala, ouvindo atentamente o que sua visita lhe contava e armazenava tudo em sua mente. Depois de um tempo ela procuraria esquecer as coisas sem utilidade. Com o copo de vinho na mão, a Villeneuve mais nova encarava o nada, como se estivesse em uma espécie de paralisação, sua face não demonstrava nenhuma expressão e ela se perdeu nos pensamentos.

–Depois desse assassinato ocorreram outros três assassinatos, da mesma forma. O assassino fez a mesma coisa, matou e foi embora. Sem deixar nada. É como se ele fosse um fantasma que viesse apenas na intenção de matar alguém.

–Como ele matava? -perguntou-lhe Charlotte.

–Asfixia. -respondeu o delegado.

–Com as mãos?

–Não. Com um objeto. As marcas eram bem nítidas nos corpos das vitimas. -era claramente um caso comum de assassino em série. Charlotte se sentiu atraída pelo caso, mas não o bastante, precisava de mais motivação para entrar nele.

Um assassino que matou quatro pessoas asfixiadas não era o que ela chamava de "ótimo caso". Mas, o delegado Dumont ainda não havia terminado.

–Só que, ontem ele voltou a matar. Aconteceu em um beco próximo ao Museu de Orsay. Porém, antes ele não deixava nenhuma pista, dessa vez, ele deixou uma marca. Literalmente uma marca. -respondeu o velho. -No peito da sua ultima vitima, ele cortou um L. Bem desenhado, parecendo que o assassino queria mesmo mostrar que a brincadeira iria começar de verdade. Nós não temos ideia do que possa significar aquele L. O corpo da vitima ainda não foi retirado do local, o achamos a poucas horas atrás. Antes de te procurar Charlotte.

A jovem, naquele momento, havia decretado mentalmente que entraria no caso. Um assassino que matou quatro vezes e que na quinta vez deixou uma marca, uma pista, um bilhete a convidando indiretamente para procura-lo. Sentiu-se animada. Realmente o tempo que aquele velho passou na sua casa valeu a pena. E o melhor, o corpo foi deixado no local do crime para que ela mesma fosse examina-lo. Estava ficando muito bom.

Não era comum uma jovem gostar de cenas sangrentas e até mesmo as vezes nojentas, mas Charlotte não tinha medo, pelo contrario, ela gostava.

–Um assassino que some e depois deixa uma marca...-murmurou para si mesma. Deu um único gole novinho, secando a taça. Virou-se para o delegado e o encarou mesmo ele estando de costas para ela.

–Por isso queríamos que você entrasse no caso, Charlotte. Só você irá conseguir investigar essas mortes e chegar ao assassino. -disse o delegado.

A Villeneuve mais nova já sabia o que iria fazer.

–Delegado Dumont, pode ir. Pensarei bem a respeito dessa sua proposta. -Brigitte lançou um olhar irritado para Charlotte, sabia que a irmã mais nova iria entrar na investigação, mas se irritava quando ela se fazia de difícil só para ser bajulada. Na maioria dos casos, ela conseguia bajulação sem complicar nada, apenas pelo o que sabia fazer.

O delegado levantou-se do sofá e encarou a jovem Villeneuve. Ele colocou as mãos nos bolsos do casaco e falou:

–Pense bem, Charlotte, pode parecer um caso pequeno e sem importância, mas as vezes são nesses casos em que cachorros grandes são capturados. -disse Dumont indo até a porta da casa. Brigitte se levantou para abri-la, sabendo que a irmã mais nova não sairia do lugar de onde estava, resolveu mostrar que os Villeneuve ainda tinham um pouco de educação. Embora, não achasse necessário. Mas quis fazer. Andou um pouco mais rápido do que o delegado para chegar a porta primeiro e abri-la para ele sair. Antes de sair, o delegado olhou para a mais velha. -Por favor, tente convence-la a aceitar o caso. Brigitte.

–Prometo que tentarei delegado. -respondeu-lhe.

–Tenham um bom dia. -o velho cumprimentou com a cabeça e depois saiu.

A porta foi fechada lentamente. A Villeneuve mais velha cruzou os braços encarando Charlotte, esperando alguma reação dela. Por sorte, a reação não foi negativa como a irmã demonstrou minutos atrás.

–Isso! -comemorou a moça. -Cinco assassinatos iguais e com uma marca! Era isso que eu estava esperando! Perfeito!

–Pensei que não tinha se agradado. -comentou Brigitte voltando a se sentar na poltrona, mas sem tirar os olhos de Charlotte.

–Como não iria me agradar? Um assassino que mata da mesma forma e no final deixa uma letra no peito da ultima vitima é quase que um convite para mim. -sorriu a Villeneuve mais nova pegando o casaco que estava pendurado desde a semana anterior em uma das cadeiras da sala de visitas particulares. Era um casaco vinho, sem muitos detalhes, vestindo-o e andando em direção a porta. -Nada de crianças fugitivas ou cegos que matavam sem saber, estamos procurando um assassino de verdade, que sabe quando e como vai matar, ah, isso é musica para meus ouvidos, um assassino em série!

–Se eu fosse você não me animaria tanto. Pode ser que nada saia como você esteja planejando, irmãzinha. -comentou Brigitte ao abrir o livro que lia novamente.

Charlotte não se importou. Abriu a porta da casa e se virou para fitar Brigitte.

–Ah, minha cara irmã, como você me cansa. Mas não se preocupe, sua onda de pessimismo não irá diminuir a adrenalina que tomou posse do meu corpo. Eu tenho um caso em mãos, e ele é bem interessante. Se eu fosse você, não me preocuparia tanto com oque faço e iria voltar a trabalhar naquele seu projeto tão importante para a pátria francesa. -imitou o estilo de voz da irmã mais velha, e isso irritou Brigitte profundamente. Charlotte não sabia do que estava debochando, mas cedo ou tarde, ela descobriria. -Levante-se e vá trabalhar, Brigitte, o jogo começou!

Saiu e fechou a porta. Era a hora de voltar com o seu trabalho e Charlotte estava entusiasmada. Mostraria para aqueles soldadinhos de chumbo que era a melhor detetive da cidade. Mas antes, precisaria de algo para leva-la até o local do crime, não poderia ir a pé com aquele salto enorme...

–Táxi!

Notas finais
>>>O que acharam? Preciso melhorar ou assim está bom? Comentem por favor. >>>Até o próximo. Beijinhos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.