Charlotte

1 Capítulo 1 — CARMESIM


Notas iniciais
O nome de todos os capítulos serão baseados em palavras dentro do contexto da cor "vermelha" por conta do tom do batom da Charlotte.

Eu nunca trabalhava no turno da noite, acho que foi o destino mesmo – não que eu, realmente, acredite no destino. Eu acho que é só uma desculpa pra deixar as coisas acontecerem ao invés de fazer com que elas aconteçam – porque a Susan, a menina do turno da noite, trocou o turno comigo pra sair com o namorado universitário. Então, limpando o banheiro do Joe’s, encontrei um batom vermelho tomate, uma cor marcante. Qualquer garota fresca, como eu geralmente era, teria guardado o batom no caso da dona voltar pra buscar, ou teria jogado no lixo mesmo. Vai saber à quem pertencia aquele batom… Mas no estado de cansaço que eu estava, só queria devanear um pouco. Passei o batom vermelho com todo o cuidado, do meio da boca para a esquerda, depois do meio para a direita, pressionei o lábio superior no inferior e me olhei no espelho, aquele vermelho realçava o verde dos meus olhos, pensei em usá-lo sempre. Liguei o meu iPod, fechei os olhos e comecei a fazer a minha melhor performance de Courtney Love cantando Teenage Whore enquanto limpava o chão, embora eu achasse que ela não era uma boa cantora, gostava da letra dessa música.

Enquanto dançava que nem uma doida com uma camiseta preta dos Strokes pensava na minha vontade de estar em Londres e esbarrar com uma linda prostituta chamada Linda Ashby. Ela ficaria com pena de mim, uma pobre adolescente de 16 anos que não tinha onde ficar e havia fugido de casa… Aos poucos e ainda de olhos fechados eu comecei a ouvir barulhos de carros, buzinas e pessoas gritando, risadas altas. Tentei abrir os olhos, mas foi uma tentativa frustrada, parecia que algo forçava os meus olhos a ficarem fechados, desobedecendo assim aos meus comandos. Eu sabia que minha imaginação não era tão poderosa assim, à ponto de ter efeitos sonoros tão reais.

Quando finalmente consegui abrir os olhos, eu não estava mais no banheiro do Joe’s, eu estava numa rua… numa rua com um certo movimento. A maioria das pessoas tinha cabelo armado e usava roupas de couro. Me senti mais esquisita que o normal com a minha calça jeans velha e um Oxford preto. Estava frio, as ruas estavam meio molhadas e eu só de camiseta… estava tremendo. Tudo o que eu queria saber era onde eu estava, a única coisa que eu sabia é que não era mais no banheiro do Joe’s.

Ouvi uma voz de mulher dizendo:

– Ei, não fale assim comigo… já dei tudo o que você queria! Quero o meu dinheiro.

Me virei e vi uma morena de cabelos lisos e curtos saindo de um carro, um carro antigo, pra falar a verdade. Ela estava toda maquiada e usava roupas de couro e botas que mais pareciam do exército do que de uma mulher bonita, como aquela. Eu invejei sua pele tão branca que na noite era muito fácil de ver.

– Eu trato você como eu quiser, sua vagabunda inútil…

Agora era uma voz de homem que vinha de dentro do carro e a mulher de cabelos sonhadoramente negros, cuja qual eu me encantei com a pele impecavelmente branca, estava sendo empurrada de dentro do carro. Ela veio cambaleando pra perto de onde eu estava parada, quase congelando, acendeu um cigarro e disse:

– Ei, garota… Nunca saia da casa dos seus pais.

Eu fiquei a olhando com os olhos arregalados, aquele rosto não me era estranho, vendo agora de perto. MAS ONDE EU ESTAVA?

– É o que eu mais quero – respondi de um jeito entusiasmado.

– Não faça isso, você irá se arrepender. Quer um cigarro? – ela perguntou me passando o cigarro, eu assenti com a cabeça negativamente e ela continuou fumando ali perto de mim.

– Você pode me dizer onde nós estamos? – eu perguntei, já estava começando a ficar assustada.

– Londres. Quer saber o ano também? 1973. Depois diz que não fuma… deve estar chapada, isso sim. – ela falou isso rindo sarcasticamente e olhando para mim.

– JURA? – eu perguntei surpresa – COMO ASSIM 1973? LONDRES? HÁ DEZ MINUTOS ATRÁS EU ESTAVA EM MASSACHUSETTS LIMPANDO O BANHEIRO SUJO DE UMA LANCHONETE E IMITANDO A COURTNEY LOVE E AGORA ESTOU EM LONDRES! – eu disse isso histericamente e com os olhos arregalados de uma forma que parecia que eles iam saltar do meu rosto à qualquer momento.

– Ei, calma… já lidei com gente assim. Qual seu nome e quantos anos você tem? – ela me perguntou de uma forma calma, desconfiei que ela estive tirando uma com a minha cara, mas no estado de desespero eu nem pensei muito nisso.

– Charlotte Jones e eu tenho 16 anos… e não sei como vim parar aqui – eu disse com um certo desespero disfarçado na voz.

– Linda Ashby, prazer – estendeu a mão para me cumprimentar.

– COMO ASSIM? VOCÊ É LINDA ASHBY? – eu perguntei mais histericamente do que na última vez. Não estava acreditando, isso não estava acontecendo. Devia ser um sonho, só isso. E daqui a pouco eu iria acordar e ver que nada era de verdade. Mas se ela era Linda Ashby… ela morava com o Sid, meu Sid… É, o Vicious, esse mesmo. E ela era uma prostituta e… não importa. Talvez seja só um sonho mesmo, mas por que não aproveitar isso? Última tentativa antes de aproveitar, eu disse:

– Me belisca só pra ver se eu não estou sonhando?

– É cada doido que me aparece… – ela me beliscou com força até e se divertiu com o meu grito de dor. – calma, nem foi tão forte.

– Ei, você pode me ajudar porque eu não sou daqui, eu não conheço nada… eu estou perdida e desesperada! – eu disse isso quase chorando, tudo bem que eu estava tentando tirar um proveito da situação, mas se isso fosse alguma brincadeira… NÃO TINHA COMO SER BRINCADEIRA, não era coisa da minha cabeça, não era um sonho e eu não sabia o que estava acontecendo.

– Olha, eu posso levar você para o meu apartamento. Mas já aviso, eu moro com dois amigos loucos e o lugar é pequeno… – ela me ofereceu e já me alertou de onde eu iria me enfiar.

– Pra quem não tem nada… isso é lucro. – eu respondi com os olhos brilhando, ter um lugar pra ficar era um bom começo pra quem estava EM OUTRA DÉCADA!

– Vamos lá… o expediente acabou por hoje mesmo – ela disse e colocou o braço em volta de mim, me guiando pela rua escura e enquanto passávamos por uns caras esquisitos, Linda os cumprimentou, confesso que fiquei com medo.

– Expediente? – perguntei isso mesmo já sabendo a resposta.

– É, eu sou prostituta e, às vezes, trabalho como dançarina em boates. E não, eu não me envergonho de falar isso. – Linda falou isso com a maior tranquilidade.

– Não me importo com isso… mas você deve ganhar um bom dinheiro – eu argumentei para mostrar que não dava a mínima, afinal… eu sabia que no futuro ela iria virar uma pessoa famosa, pelo menos, por nome. Já que foi intermédio crucial para o casal mais influente da história do Punk Rock surgir.

– OK… vou fingir que acredito. Mas me conte como você veio parar aqui, se é que você lembra, é claro – Linda pediu pra eu explicar e eu sabia que ela não acreditaria na história de verdade.

– Bem… primeiro: você acreditaria se eu dissesse que eu sei o que vai acontecer até o ano de 2013? – eu perguntei.

– Se for aceitável… até acredito. Tá, conta logo. – ela me puxou e nós sentamos no cordão da calçada de uma rua meio escura, lá não era muito movimentado e eu comecei:

– OK… até uns minutos atrás eu estava limpando o chão do banheiro da lanchonete onde eu trabalho, ou trabalhava, né… no Cape Cod, Massachusetts. E então, eu liguei meu iPod e fiquei imitando a Courtney Love, de olhos fechados e fingindo ser uma superstar. Mas eu comecei a ouvir barulhos estranhos e quando consegui abrir os olhos, porque eles pareciam estar colados, eu estava onde você me encontrou. Tá, pode dizer que não acredita. – eu falei isso rápido e comecei a ficar meio irritada com a expressão do rosto dela.

– Eu não disse que não acredito. – ela riu.

– Ah, esqueci… e também quando eu fui limpar a bancada do banheiro, antes de começar a imitar a Courtney Love, eu encontrei um batom vermelho e passei nos lábios… depois disso, vim parar aqui! – eu disse com lágrimas nos olhos, eu estava realmente confusa.

– Então, você acha que você pode ter vindo parar aqui por causa do batom vermelho, é isso? – ela perguntou disfarçando um riso.

– Talvez… – eu disse com sinceridade.

– Toma – ela pegou um batom vermelho de dentro da bolsa e me entregou – passe e vamos ver se você consegue voltar pra sua década – ela riu.

Eu passei o batom… muitas vezes com todo o cuidado do mundo, do meio pra esquerda, depois do meio pra direita, pressinei um lábio no outro… Fechei os olhos, muitas vezes, mas nada fez eu voltar para o banheiro do Joe’s. E aos poucos, eu fui deixando de ficar preocupada porque, afinal, tudo o que eu sempre quis estava acontecendo, mesmo que umas quatro décadas antes, mas por que não aproveitar?

– Olha… eu não vou dizer que acredito em você, mas também não vou dizer que não acredito. Enquanto você não se lembra das coisas e não acha um jeito de voltar pra casa, eu deixo você ficar no meu apartamento. Eu sou uma prostituta de bom coração e o resto arregaçado – Linda disse isso e nós duas rimos amigavelmente.

Eu aceitei o convite, aliás, eu estava louca pra que isso não acabasse e eu simplesmente descobrisse que foi um devaneio muito real, parecido com aqueles sonhos super reais que todos nós temos e quando acordamos até ficamos procurando as coisas do sonho, mas não passou de um sonho.

Mesmo estando perdida umas três décadas antes da que eu estava minutos antes, eu me sentia feliz… havia conseguido sair do Cape e deixado pra trás tudo o que, ao meu ver, não me pertencia. Naquele momento eu, finalmente, podia viver minha vida. Como diria o Sid: viva intensamente, morra jovem.

– O que é um iPod? – Linda me perguntou isso confusa.

– É tipo um… mini rádio que você pode levar pra qualquer lugar – eu expliquei rindo da expressão do rosto de Linda, ela parecia confusa.

– E quem é Courtney Love? – ela perguntou mais confusa ainda.

– Digamos que se você estiver viva até lá, e vai estar, ouvirá muito o nome dela na década de 1990 quando o Nirvana, a banda do cara que casou com ela for famosa demais, mas ele vai morrer com um tiro e todos vão acusar ela. Ela vai ter uma banda também, então… é isso. – eu expliquei como se isso fosse manjado, aliás, pra mim isso era manjado.

– Er, ok. Se isso acontecer, vou poder dizer pra todo mundo que eu já sabia que isso ia acontecer e ganhar uma grana… – ela ria do meu relato sobre o Nirvana – E esse Nirvana é punk? Sabe como é, hoje em dia o punk domina as ruas… – Linda me perguntou entusiasmada.

– Sabe, você ainda tem muitos gêneros musicais pra conhecer, não vou estragar a surpresa. – dessa vez era eu quem me divertia com os meus relatos.

Levantamos dali e seguimos para o apartamento dela...

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado desse primeiro capítulo e que continuem acompanhando. Vou tentar postar diariamente e se não quiserem esperar, já até até o capítulo 8 lá no meu blog (http://oitentinha.wordpress.com). Se gostarem, comentem! É ótimo saber a opinião de vocês.

Beijinhos,

Ingrid
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.