Capítulo 25

Um outro resgate.

O presidente Roger Jackson não conseguia mais raciocinar, tampouco dar uma palavra de conforto sequer à sua família presa consigo. Não via saída para aquela situação senão colaborar com os vis conspiradores liderados pelo traidor Max Craig. Esfregou o rosto, tão suado e cansado quanto suas mãos. Com a face assim tampada, levantou-se do chão gelado e caminhou em linha reta até um dos vidros da cela, suspirando baixinho e quase vertendo lágrimas... Mas não. Não podia perder o controle.

Com medo do que seus olhos veriam ainda naquele cárcere até que tudo chegasse ao fim, de maneira boa ou não, o governante moveu as pálpebras e afastou os dedos... Deparando-se, para seu espanto, com o semblante sorridente de uma jovem do outro lado da janela, seus compridos cabelos loiros presos atrás da nuca, usando um traje tático negro e tendo numa das mãos uma pistola 9mm com silenciador. Estático, o presidente transferiu brevemente a visão para o corredor em “U”, notando um dos guardas tombado sobre o piso, inerte... Uma poça de sangue rodeando-lhe a cabeça.

– Senhor presidente? – a misteriosa personagem questionou, aparentando pressa.

– Quem é você? – pego de surpresa, Jackson tinha uma expressão de total perplexidade.

– Eu vim aqui resgatar o senhor e sua família... Façam o que eu disser e, por favor, falem baixo.

Kate e sua mãe, que já haviam notado a aparição da intrusa, assentiram seriamente com as cabeças, o pai por fim também efetuando o mesmo sinal. Estava um tanto desconfiado, porém pouco tinha a perder arriscando. A moça loira moveu-se pelo corredor, sua figura sendo vista várias vezes num curto período de tempo em vidros diferentes. Logo se deteve diante de um painel, abaixando-se e ficando assim invisível aos prisioneiros durante dois ou três minutos, até que...

FRUSH!

A porta da cela, antes lacrada, deslizou para dentro de uma parede soltando uma verdadeira chuva de faíscas, pois fora danificada por um curto-circuito provocado pela invasora. As luzes do local oscilaram algumas vezes enquanto o presidente e sua família, abaixados e a avanços cautelosos, encaminhavam-se para a almejada liberdade. A jovem recebeu-os do lado de fora, arma em punho e olhos atentos. Ela sabia que mais guardas poderiam surgir a qualquer instante.

– Vamos usar o elevador? – indagou Jackson enquanto percorriam o corredor.

– Iremos subir sim, mas por outro caminho... – a salvadora replicou sem tirar o foco do caminho e os perigos que oferecia.

– E qual é o seu nome? – quis saber Kate, que vinha simpatizando muito com a loira e sua personalidade aparentemente forte.

– Queen. É um codinome.

E parou junto ao início do trajeto que levava ao elevador. Os fugitivos avistaram mais dois corpos de vigias, desviando rapidamente o olhar em seguida. Logo notaram que Queen, com as mãos na cintura, fitava a entrada de um duto de ventilação no teto, logo acima de suas cabeças...

Na sala de comando da base, os diversos subsolos e setores eram monitorados através de um grande painel repleto de telas de vídeo. Os operadores desse sistema de segurança mal prestavam atenção nelas, tão entediados e cansados como estavam, deslizando para lá e para cá com suas cadeiras de rodinhas. Nem notaram que alguns dos monitores, mais precisamente os referentes à área de detenção onde se encontrava o presidente, haviam sem explicação deixado de funcionar. Tampouco percebeu o fato o próprio Max Craig, debruçado sobre um mapa estratégico digital dos EUA disposto sobre uma mesa.

– Vai permanecer aqui ainda por muito tempo, senhor? – perguntou um dos seguranças ao comandante logo depois de um bocejo.

– Sei que estão doidos para se verem livres de mim o mais breve possível, e eu voltarei sim o quanto antes para Washington... – respondeu o conspirador com desdém. – Há assuntos que requerem minha atenção urgentemente, e acredito que Roger ficará bem distante da população e da mídia aqui embaixo, mesmo com minha ausência.

Queen ajudou Kate com os braços a subir pela borda da abertura para dentro do duto de ventilação. Agora os quatro já estavam em seu interior, a invasora acendendo uma pequena lanterna para iluminar o escuro e incerto caminho. Seus passos ecoavam metálicos pela estrutura, suas mentes temendo que guardas os percebessem. Mas poderiam ficar tranqüilos, já que aquele complexo possuía um grave problema: seus vigias o julgavam seguro demais, e por isso eram um tanto desleixados nas patrulhas e medidas de segurança.

– Onde nós estamos? – indagou o presidente enquanto subiam por uma escada de mão rumo ao subsolo superior.

– Algumas centenas de metros embaixo do deserto de Nevada! – Queen esclareceu sem delongas.

– Área 51? – Kate deduziu, um pouco empolgada com a idéia apesar da situação.

– Bem, se prefere chamar este local pelo nome popular...

– Quem diria... – riu a primeira-dama. – Que tipo de segredos eles devem guardar aqui? Você sabe, querido?

– Por incrível que pareça, amor... Eu nem fazia idéia da existência desta base!

Jackson realmente não estava mentindo. Afinal, nem todos os segredos da nação deveriam ser revelados ao presidente...

Na sala de comando, um dos operadores finalmente notou que as câmeras do setor onde deveria estar encarcerado o presidente não estavam mais ativas. Tirando os pés de cima da bancada diante do painel com os monitores, voltou-se agitado na direção de Craig, exclamando entre movimentos desconexos dos braços:

– Senhor, temos um problema!

– Que problema? – Max removeu sua atenção do mapa e caminhou na direção dos comandados com os punhos cerrados.

– As câmeras da área prisional... Apagaram!

O traidor estava no ápice da impaciência e resolveu não perder tempo com besteiras: simplesmente sacou uma pistola calibre 45 e disparou-a contra o operador que informara a violação de segurança, derrubando-o da cadeira com um buraco na testa e a vida já debandada de seu corpo. O outro passou a tremer e suar como nunca, temendo ter o mesmo destino do colega. Craig, porém, considerava-se magnânimo e gostaria que aqueles que trabalhavam para si também o enxergassem dessa maneira.

– Acione os sensores de calor! – ordenou enquanto guardava a arma.

– Sim senhor!

Uma tela em particular foi ativada, exibindo uma planta tridimensional das instalações com seus diversos níveis. Um zoom foi dado na região dos subsolos inferiores, mostrando quatro sinais térmicos humanos, bem distinguíveis na cor vermelha, deslocando-se por um sistema de dutos e escadas próximo do fosso dos elevadores.

– Eles estão subindo pelo sistema de ventilação, senhor! – falou o operador, ainda atordoado.

– Os antigos dutos seguem apenas até a área do galpão. De lá eles terão que tomar um elevador até a superfície, coisa que não conseguirão, pois todos estarão lacrados. Assim será fácil cercá-los.

– Mas o galpão, senhor... O que há nele!

– Mesmo que descubram alguns dos artefatos, eles não conseguirão sair para contar o que viram, correto?

– É, o senhor está certo...

– Muito bem!

Sem que o operador percebesse, Max já havia sacado de novo a pistola e a tinha apontada para sua nuca. Ele tentou reagir desesperado, porém o tiro foi rápido e praticamente indolor, livrando-o de qualquer tortura que poderia ter sofrido antes de finalmente morrer. Sim, Craig era mesmo magnânimo. Empurrando o segundo cadáver para fora da cadeira, tomando cuidado para que o sangue deste não sujasse seu terno, o conspirador assumiu o lugar do comandado e disse, fitando as telas com um sorriso entusiasmado:

– Deixem que eu mesmo cuide disto!

Queen e a família fugitiva logo pararam diante do final da torre de dutos: uma abertura tampada por outra grade. A intrusa iluminou-a com a lanterna e, apanhando uma pequena chave de fenda de dentro da mochila que carregava, passou a lentamente remover os parafusos que fixavam o obstáculo. Jackson, sua esposa e filha observavam a execução da tarefa com apreensão, temendo sempre a aparição de vigias ou algo pior.

Por fim a grade foi desprendida da saída, Queen removendo-a silenciosamente para o interior do duto. O caminho estava aparentemente livre, e com isso o quarteto esgueirou-se para fora da escura e sufocante passagem. O ambiente que encontraram em seguida contrastava em todos os sentidos, desde tamanho até aparência, com o apertado sistema de ventilação.

Era um local amplo, gigantesco, sua extensão a perder-se de vista. Algo como um imenso galpão subterrâneo. Todavia, estava longe de se encontrar vazio: seu interior era preenchido por um número infindável de caixas de madeira das mais diversas dimensões, algumas pouco maiores que um aparelho de televisão e outras quase se assemelhando a contêineres de navios. Estavam empilhadas sobre si, enfileiradas, algumas armazenadas com evidente desleixo, pendendo de topos de onde aparentemente cairiam com o menor esforço ou quase cedendo sob o peso de outras que pareciam conter conteúdos mais pesados. Todas, porém, tinham algo em comum: a inscrição “Inteligência do Exército” e um número de série.

– Mas... – o presidente, espantado, olhava ao redor. – Que lugar é este?

– Este, senhor presidente, creio eu, é o lugar onde seu país esconde alguns dos seus piores segredos! – afirmou Queen seguindo em frente por um dos corredores entre as pilhas de recipientes.

Os civis a acompanharam. Conforme andava, a antiga integrante do time Charlie notou algumas passarelas de metal acima do topo das torres de caixas, quase tão altas quanto as lâmpadas junto ao teto, usadas provavelmente para que guardas monitorassem o local. Sentiu um quê de apreensão logo que constatou tal fato, e quando ia parar e voltar-se para recomendar cautela aos fugitivos, uma rajada de balas revelou que era tarde demais para se usar de discrição.

– Cuidado, abaixem-se! – gritou Queen, confusa.

Uma dupla de fuzileiros navais numa das passarelas tentava alvejar o grupo com seus M-16. Eram, todavia, desprovidos de uma boa mira, e conseguiram apenas acertar e danificar algumas caixas perto de onde os verdadeiros alvos estavam. Lascas de madeira voaram pelo ar, e Queen, enquanto buscava um flanco para revidar, notou algo como uma arca dourada contendo dois querubins em sua tampa no interior de uma delas. Teve um leve instante de curiosidade em relação a saber do que se tratava, porém tinha de proteger o presidente e sua família. Estes haviam se abaixado atrás de uma fileira de caixas, mas como os guardas não pareciam muito preocupados em preservar o que havia nelas, era certo que logo suas balas os aniquilariam.

Queen apanhou rapidamente um fuzil FAL que trazia às costas e, apoiando-o sobre a tampa de uma caixa, mirou na direção dos fuzileiros. O primeiro foi atingido na cabeça e tombou para trás, sua queda amparada por um dos beirais da passarela. O outro levou duas balas na região do estômago e, berrando, caiu para frente, precipitando-se sobre uma série de caixas metros abaixo, que se espatifaram sob seu corpo morto, revelando em parte o que existia em seus interiores.

O artefato de uma delas foi lançado na direção de Kate Jackson, parando diante de seus pés. A adolescente, intrigada, apanhou o que parecia ser um caderno negro com uma inscrição em japonês na capa. Abriu-o e, logo na contra-capa, leu algo em inglês que a fez estremecer:

- O humano cujo nome for escrito neste caderno morrerá.

A jovem folheou-o por um momento, identificando nas várias páginas, entre rabiscos, nomes como “Osama Bin Laden” e “Saddam Hussein”, porém foi interrompida pelo pai:

– Largue isso, filha! Não temos tempo!

Kate obedeceu, correndo junto com os pais na direção que Queen acabara de tomar. Nas passarelas surgiam rapidamente mais fuzileiros, distribuindo ordens aos gritos. Mais disparos vieram em seguida, os quatro fugitivos abrigando-se atrás de mais caixas. A loira que viera resgatar os prisioneiros retribuiu com o FAL, mais três inimigos despencando sucessivamente rumo ao solo do galpão, seus ossos estalando com o impacto sobre o concreto. A filha do presidente, ainda muito curiosa em relação ao que era mantido naquele lugar, observava de relance o conteúdo das caixas partidas... Viu, por exemplo, uma espécie de lança romana que brilhava muito sob a luz ambiente, talvez até emitindo sua própria claridade, e junto ao cabo havia uma etiqueta com a palavra “LONGINUS”. Numa outra, grande e retangular, fitou algo como um automóvel, mas seu modelo era um tanto ultrapassado... Chamava-se DeLorean, pelo que lembrava, porém aquele em particular tinha algumas parafernálias instaladas junto ao carro que não conseguiu compreender...

Os guardas apareciam às dezenas, mas a saída do local, através de um elevador, já estava em compensação relativamente próxima. Queen continuava disparando com o fuzil na direção dos agressores, orientando a família Jackson com gestos para que aproveitasse todos os esconderijos possíveis. Mas o azar, infelizmente, logo se fez sentir: a agente não contara que teria de lidar com tantos oponentes e por isso não trouxera munição suficiente para a arma, que logo ficou vazia, todos os pentes já esgotados. Ela ainda tinha a pistola 9mm em seu coldre; no entanto, usá-la para atingir alvos distantes não seria algo muito prudente.

Até que ela viu algo caído junto a uma caixa que também fora estourada pelo descuido dos atiradores... Um revólver antigo, bonito, quase pedindo para ser manuseado. Queen aproximou-se com cautela e abaixou-se para apanhar o armamento, no cabo do qual, numa etiqueta, leu a seguinte descrição:

Patenteado por Samuel Colt, 1836. Peça original.

A combatente verificou o tambor e, notou, para sua surpresa, que estava carregado com todas as seis balas. Sorriu e apontou-o na direção do fuzileiro mais próximo, no alto da passarela. O tiro soou alto, certeiro, e o soldado tombou morto no mesmo instante, mesmo tendo sido atingido apenas no braço esquerdo.

– Mas o quê? – estranhou Queen, olhando para a arma.

Continuou usando-a: mais dois disparos, ambos acertando cada inimigo em partes não-letais de seus corpos, mas mesmo assim tirando-lhes de imediato as vidas. Assim foi até que a munição do revólver acabou, e os fugitivos conseguiram uma brecha para prosseguirem rumo ao elevador.

– Vamos, vamos! – a salvadora apressou-os ao mesmo tempo em que arremessava longe a arma de Colt.

Finalmente atingiram a saída, Queen apertando freneticamente o botão para chamar o transporte... Porém nada ocorreu, nem mesmo a luz do painel sendo acesa. O elevador certamente fora lacrado pelo sistema de segurança.

– Oh, droga... – praguejou a loira. – E agora?

– Bem, eu encontrei isto lá atrás, e pensei que talvez fosse útil... – revelou o presidente, mostrando algo que até então carregara num dos bolsos.

Tratava-se de uma pistola acinzentada, estranha, bizarra, que parecia ter saído diretamente de um filme de ficção científica dos anos 50. Seu cano, ou algo similar, era rodeado de pequenos anéis, e a região acima do gatilho continha algum tipo de mecanismo que emitia luzes coloridas. Queen apanhou o artefato com certo temor, apontando-o na direção das portas do elevador, e disparou...

Um forte laser esverdeado foi liberado pela arma, chocando-se com o metal do obstáculo em meio a jatos de fumaça. O material atingido ganhou uma coloração avermelhada, o cheiro de algo queimando sendo sentido... E pouco depois, os quatro, atônitos, viram que um buraco quase do tamanho de uma pessoa havia sido aberto na barreira, que ainda fumegava, algumas dobras de aço pegando fogo e desprendendo-se da estrutura como se fossem feitas de papel.

– Rápido, entrem! – exclamou Queen, depositando no chão a temível pistola laser e também adentrando o elevador.

Por sorte os controles do elevador funcionavam, e imediatamente o quarteto subiu por ele até a superfície, uma noite de lua prateada pendendo sobre o que parecia ser uma espécie de base aérea, a qual funcionava como fachada para o complexo subterrâneo...

Minutos depois, Max Craig, acompanhado de alguns guardas, também deixava o subsolo através de outro elevador. Caminhou na direção dos hangares próximos à saída do transporte quando percebeu, distanciando-se na direção oeste, um helicóptero Black Hawk que era insistentemente metralhado pelos fuzileiros navais no solo. Logo a aeronave, assim como o som de suas hélices, sumiram de cena por completo, o conspirador parando perto de alguns vigias frustrados e murmurando, mais para si mesmo do que para eles:

– Eles escaparam...

Continua...