Capítulo 8

Um mau pressentimento.

O silêncio era total dentro da aeronave que transportava a equipe Charlie até o oriente. Todos dormiam, cansados devido à longa viagem. Até que o piloto, Jack Hamilton, informou através dos vários alto-falantes presentes no interior do jato:

–Preparem-se, pessoal! Pousaremos em Hong Kong daqui a quinze minutos!

Aos poucos, todos os integrantes do S.T.A.R.S. foram acordando. Entre bocejos, os policiais começaram a apanhar suas coisas, confusos em relação à mudança de fuso-horário. Naquele momento era noite na China, porém seria difícil dizer de qual dia. Sentindo-se exausto, o major Redferme se levantou de sua poltrona, seguindo até a cabine de comando do avião. Adentrando-a, o líder do Charlie perguntou ao agente do FBI:

–Jack, você tem certeza de que não teremos problemas ao desembarcar?

–Fique tranqüilo, major! – disse Hamilton num sorriso, observando o mar da China através das janelas frontais do jato. – O FBI tem contatos no mundo todo! Somos piores que a CIA! Seus comandados passarão sem problemas pela alfândega! Eu garanto!

–OK, então...

Redferme deixou a cabine logo em seguida, fechando a porta. Segundos depois, Hamilton ouviu um “bip”. Sem descuidar da pilotagem do avião, retirou o fone presente em seu rosto, trocando-o por outro que estava guardado num bolso. Começou então a se comunicar com alguém.

–Como vai indo? – indagou uma voz masculina.

–Melhor, impossível! – respondeu o piloto em tom traiçoeiro. – Por enquanto tudo está acontecendo como você previu, John. Espero apenas que pague o que me prometeu assim que tudo isto acabar!

–Sou um homem de palavra, senhor Hamilton. Além disso, sabe o risco que estou correndo ao apoiar o doutor Petroni. Craig não pode nem ouvir o nome dele.

–E você não faz idéia do que pode acontecer comigo se o FBI descobrir minha traição... Mas, diga-me, o que ganhará com tudo isto?

–A criação de um exército imbatível muito me interessa, senhor Hamilton. Quando Craig tomar o poder, eu criarei uma nova agência para tratar de assuntos do interesse da nação. Já pensou do que seria capaz um grupo de espiões que não pudessem ser mortos?

–Você é doido... Sabe que o estou auxiliando apenas pelo dinheiro... O salário do FBI já não é mais o que era antes, entende?

–Perfeitamente. Apenas cumpra com o combinado, entregando o pacote, está bem?

–Certo, desligo!

Voltando para junto de sua equipe, o major fitou cada um dos combatentes nos olhos. Sentiu que eles seriam capazes de enfrentar um exército inteiro se necessário. Orgulhou-se. Em seguida disse, após coçar o queixo por alguns instantes:

–Como o agente Hamilton acabou de informar, estamos prestes a pousar na China! Não se preocupem quanto à alfândega, pois os contatos dele no país providenciarão tudo! Apenas ajam naturalmente. Logo que deixarmos o aeroporto, nossa prioridade será encontrar a senhorita Chun Li Zang, chefe de polícia de Hong Kong. Com a ajuda dela, iniciaremos a investigação para descobrir onde Aiken Frost está sendo mantido!

–Não sei quanto a vocês, mas eu estou com um mau pressentimento... – murmurou Fong Ling, olhar preocupado.

–Não há o que temer! – afirmou Flag, segurando uma das mãos da jovem. – Nós nos estabeleceremos em algum hotel da cidade e então começaremos a agir! E, se mesmo assim algo der errado, considerando tudo pelo que já passamos, com certeza seremos capazes de superar mais alguns desafios!

–Concordo plenamente, capitão! – exclamou MacQueen, que guardava seu equipamento numa grande mala preta. – Seja quem for que tenha seqüestrado o Aiken, pagará muito caro pelo que fez!

–Isso eu garanto! – disse Vitória, enquanto engatilhava um par de pistolas personalizadas semelhantes às Twin Bears utilizadas por seu pai. – Ninguém mexe com a família Drakov!

Nisso, Raphael Redfield, que se encontrava sentado em sua poltrona olhando através da janela, informou, ao contemplar as luzes dos arranha-céus de Hong Kong cada vez mais próximas:

–Estamos chegando!

Estava com frio, fome e sede. Já passara por situações piores durante os tempos em que trabalhara para a KGB, mas de qualquer forma, era sempre algo humilhante, principalmente para um combatente de grande valor condecorado em inúmeras ocasiões. Aiken conhecia bem seus colegas de equipe, e naquele momento poderia afirmar, com certeza, que eles já estavam na China. Seu temor era que também fossem capturados e acabassem na mesma situação na qual se encontrava.

Observando as paredes e o aspecto da cela, o russo percebeu que já estivera naquele lugar antes. Isso sem dúvida foi uma surpresa para ele, já que antes chegara a pensar que aquela prisão não mais existia. Frost estremeceu ao lembrar-se dos velhos tempos...

Foi no início da década de 80, quando China e União Soviética não se suportavam. Aiken tinha a missão de cruzar a fronteira chinesa, liderando um grupo de agentes novatos, e roubar uma arma experimental que estava sendo desenvolvida pela nação inimiga: um caça ou algo parecido.

Porém, devido à imprudência dos iniciantes, a equipe de Aiken acabou capturada e levada para aquela mesma prisão. Não se recordava do nome, mas lembrava-se muito bem de que era conhecida como a “Lubyanka Chinesa” devido aos imensamente variados “métodos de interrogação”. Simplificando, era o lugar onde você poderia ser torturado de incontáveis maneiras diferentes, todas, entretanto, de forma incomparavelmente cruel e dolorosa.

Foram meses de agonia para Aiken e seus comandados. Um verdadeiro inferno. Entre todos os torturadores, um rosto em especial se recusava veemente a deixar a memória do russo. Tratava-se do general Xin Jenang. Um mestre na arte de arrancar palavras infligindo dor e sofrimento ao indivíduo. Muitas das técnicas aprendidas por Frost na KGB foram criadas por esse sádico chinês de sorriso amarelo...

Todos da equipe acabaram morrendo durante ou após as torturas. Apenas o pai de Vitória sobreviveu. Foi libertado por uma equipe comandada por Boris Kursknavo, o qual mais tarde se tornaria um de seus maiores inimigos. Apesar de ter escapado vivo, a passagem por aquela prisão fétida provocou em Aiken grande trauma. Às vezes, na calada da noite, ele ainda podia ouvir os gritos dos novatos sofrendo nas mãos de Jenang, sendo espancados e mutilados até a morte. Era por esse motivo que Frost não gostava de torturar alguém em troca de informações, mesmo se fosse extremamente necessário. Quando o fazia, suas piores lembranças vinham à tona, causando-lhe dor tão grande quanto aquela causada por ele na pessoa interrogada...

Mas agora havia um novo torturador. Um novo algoz disposto a fazer Aiken pagar por todos os seus pecados. O terrível homem da máscara de gás, que acabaria por matá-lo se a equipe Charlie não o resgatasse a tempo...

Naquele exato momento, o jato no qual viajavam os S.T.A.R.S. de Metro City taxiava pela pista central do Aeroporto Internacional de Hong Kong. Logo parou, ao mesmo tempo em que dois caminhões lotados de soldados chineses se dirigiam até a aeronave.

–Droga, isso não é bom! – alarmou-se Logan Devendeer, notando a aproximação dos veículos através de uma das janelas.

–Fiquem calmos! – exclamou Redferme, apanhando suas malas. – Hamilton cuidará de tudo!

Passaram-se cerca de quatro minutos. Os integrantes do Charlie puderam ouvir alguém discutindo em chinês do lado de fora. A tensão dos policiais cresceu. Leon xingou a mãe de Hamilton em voz baixa. Instantes depois, uma escada foi acoplada junto a uma das portas do avião. Alguém subiria a bordo.

–Ah, meu Deus! – suspirou Freelancer, extremamente preocupada.

–Fiquem todos quietos! – pediu o major com um gesto.

Foram ouvidos mais alguns sons. Súbito, uma porta do lado esquerdo do jato foi aberta, enquanto alguém vencia os degraus da escada a passos rápidos. Logo ganhou o interior do avião a figura de um homem idoso trajando uniforme militar. Um general. Ao vê-lo, Fong Ling sentiu seu coração disparar, enquanto dizia, totalmente incrédula:

–Mas... Não pode ser!

O chinês sorriu, prestes a falar com os estrangeiros.

Continua...