Notas iniciais
Boa leitura!

Não foi fácil admitir que também gostava de meninos, era estranho.

Inaceitável.

Eu jogo futebol, gosto de vídeo game, mando bem no skate, ouço rap, meus amigos são héteros. Curto grafitar.

Achava que não pertencia ao “padrão gay”, eu não gosto de pop, não uso calça apertada e não sou afeminado.

Então, na minha cabeça não fazer essas coisas não me tornava gay.

Demorou muito tempo até que eu entendesse que não existia o “padrão gay”.

E que eu poderia gostar de skate e garotos.

Conheci Eurico com treze anos, e ele sem dúvida teve grande influência na minha autoaceitação.

Eurico. Nome engraçado. Era um cara descolado. Tinha 16 anos na época, e ele diferente de mim era assumido.

Eu o conheci no curso de inglês, ele fazia aula comigo. Era popular na turma, todos gostavam dele — isso incluía os garotos e os professores.

Era inteligente e cheio de virtude.

A convivência com ele só fez aumentar as qualidades. Ele era completamente espontâneo. Não demorou até que nos tornassemos próximos.

Não me incomodava saber que Eurico era gay.

Na verdade, eu até gostava de ouvir suas histórias. Sobre seus ex namorados. Sua descoberta. Por vezes eu me via em seu lugar. Como seria se eu fosse gay. Mas era uma especulação da juventude. Nunca acreditei que algo assim poderia acontecer.

Se passaram alguns meses e não demorou até que o desejo surgisse.

Claramente foi Eurico que deu o primeiro passo.

“Char, acho que quero te beijar”

Essas foram as palavras que ele usara. Estávamos voltando para casa.

Fiquei surpreso.

Tentei demonstrar indiferença.

Dizer que meu negócio era garotas, mas aquilo não pareceu convencê-lo.

Dois dias depois estávamos nos beijando em seu quarto. Ele acariciava meu rosto, e eu percebi que gostava do seu toque.

Eurico e seu cabelo negro perfeitamente penteado ao melhor estilo James Dean.

Não demorou até que nosso “lance” se tornasse algo mais sério, e também não demorou até que meus pais descobrissem a verdade sobre mim e Eurico.
Foi no natal, meses depois de estar saindo com ele.

Meus pais e eu sempre passávamos o natal na casa de parentes no interior de São Paulo, mas naquele ano eu não queria participar do amigo secreto com primos retardados e tios inconvenientes. Inventei uma desculpa.

Uma viagem com o pessoal da escola. Meus pais acreditaram e então convidei Eurico para dormir comigo.

Era a nossa primeira noite juntos e a nomeamos como a noite oficial. Transamos. Bebemos. Tudo foi perfeito.

Mas então imagine, meus pais chegaram antes do esperado. Encontraram eu e Eurico na cama, nus. Não houve como negar os fatos. Ou simplesmente dizer que não era o que imaginaram.

Eles me encararam incrédulos. E naquele momento eu sabia. Eles me matariam.

Meus pais sempre aceitaram bem a orientação sexual de outras pessoas, na verdade, sempre tiveram amigos gay. Mas é o que sempre dizem, quando é com a nossa família é diferente.

Eurico foi embora, não tive coragem de encará-lo nos olhos, estava envergonhado demais. Não deveria ter acontecido.

Naquela noite pensei em mil e uma desculpas para dizer para meus pais, algo que não me rotulasse gay, mas que também não me esquivasse da culpa. Era a casa deles e eu havia desrespeitado.

Mas o que aconteceu na manhã seguinte me deixou completamente surpreso, e talvez me sentindo uma pessoa completamente preconceituosa.

Comigo mesmo.

Meus pais me chamaram para temida conversa. Fui preparado, tinha argumentos. Bons ou ruins eu tinha algo para dizer. Estava pronto para o bombardeio.

Mas eu fui pego de surpreso. Fiquei completamente desarmado.

Meus pais me encararam, minha mãe usava camisola, seu cabelo negro estava preso no alto da cabeça com uma presilha. Meu pai já estava vestido para o trabalho.

Ele sacou uma cartela de camisinhas.

Enrubesci.

“Primeiramente, prevenção.”

Eles se olharam e me ofereceram um sorriso sincero, do tipo que dizia “Pode confiar, nós te amamos.

“Querido, é normal você ter curiosidade. Vontades. Mas você não deve se sentir culpado.”

Era minha mãe dizendo, sua voz era doce e serena.

“ Sim. Você tem que sempre se lembrar. Com quem você vai se deitar na cama não vai definir seu caráter.”

Meu pai disse.

“Não importa sua orientação, gay, bi, hetero entre outras. O que importa é seu caráter. Sua essência. Nunca deixe que o preconceito do mundo te impeçam de ser quem você é.”

Minha mãe me ofereceu um abraço.

Achei tudo muito exagerado. Mas não posso negar, estava emocionado.

Sempre soube que meus pais eram livres de preconceitos, mas nunca imaginei que eles me dariam uma lição de aceitação ao próximo.

Nos abraçamos. E naquele momento em diante eu tive certeza que jamais deixaria de ser quem eu era.

Continuei com Eurico por mais alguns meses. Mas éramos opostos. Ele adulto demais e eu imaturo. Ele queria um relacionamento monogâmico e eu apenas curtir.

Acabamos. E nunca mais nos vimos.

Óbvio que minha condição como bisexual me afastou de alguns amigos.

As garotas não pareceram se importar, mas a maioria dos meus amigos levaram para o lado pessoal.

Ninguém chegou e disse “Cara, não queremos mais você aqui.”

Mas eu percebi. Não sou bobo.

Os telefonemas foram parando, ninguém respondia minhas mensagens, não era chamado para festas, nem para o futebol. Eles me colocaram em uma situação constrangedora.

Agiam como se eu tivesse alguma doença.

Isso me marcou.

Foi nessa época que conheci Cecília. E ela me mostrou o verdadeiro significado de amizade.

Sem preconceitos.

Óbvio que continuei fazendo as mesmas coisas de sempre, sem Pop ou calças justas, ainda curtia rap e grafite. Mandava manobras com o skate. A única diferença é que tinha mais opção de quem beijar nas baladas ou festas.

Notas finais
Eai, o que acharam?