Chara

11 Pesar


Notas iniciais
Aviso: palavreado chulo.

Havia muitos pontinhos e brilhos amarelos. Lentamente as partículas desfocadas se fundiram. Eram flores. Flores douradas. Havia um canteiro de flores no final da vila bem ao lado do orfanato. A rua terminava bem ali.

O carro parou. Chara odiava a vila, mas havia algo que ele não podia negar: a vila era muito bonita. O que faltava nos moradores da vila, as flores tinham de sobra: a beleza de sua inocência.

"Jessica, eu nunca te falei, mas...."

— Vamos, garoto. Eu sei que é difícil, mas não há outro jeito. —

Ele sentiu alguém o puxando gentilmente. Ele desembarcou lentamente do carro. Lá estava aquela casa e aquela mulher, sua antiga cuidadora. Jessica lhe disse que ele nunca mais precisaria ver esta mulher de novo.

— Oh Chara! Eu sinto muito pelo que houve! Coitadinho! — disse com voz forcada. Ela estava falsificando suas emoções de maneira tão óbvia que fez Chara sentir náuseas.

Mentirosa.

— SENTE MUITO? VOCÊ NÃO SENTE NADA! EU PREFIRO ESTAR MORTO A TER QUE VIVER PERTO DE VOCÊ NESSA JOÇA QUE VOCÊ CHAMA DE ORFANATO! — Chara berrou sem pensar duas vezes. Ele queria muito machucá-la. O vazio no estômago ardia. Queria culpar alguém pela morte de Jessica.

— Chara, que horrível! Eu sempre me esforcei para que se sentisse em casa aqui. Eu sei que você está agindo assim pela sua perda, mas vai ficar tudo b... -

— Desculpe interromper, mas não estamos aqui somente para deixar Chara no orfanato. Temos um mandato de prisão para você e suas colegas por maltrato de menores. E também temos um para uma de suas colegas que nós identificamos como uma das radicais que incendiou o manicômio. — disse o policial alto.

Chara ficou vermelho e sua visão ficou embaçada. Ele sentiu como se o coração tivesse subido para a garganta. Nunca sentira o coração bater tão rápido. Nem um segundo passou e Chara já estava em cima da sua ex-cuidadora, batendo em seu rosto com toda força. Um dos policiais o tirou de cima da mulher. Ela estava com os lábios inchados e com manchas rochas na testa. Foram necessários dois homens para prender o menino enquanto outro colocava algemas na mulher.

— Isso é ultraje! Deveriam prender este menino nojento! Não conseguem ver? Ele se tornará um psicopata! Era o que eu sempre estive tentando evitar! — berrou.

Colocaram a mulher dentro do carro. Logo outros carros de polícia chegaram. Quatro policiais saíram destes e entraram no orfanato para prender os outros cuidadores. Chara continuou a lutar para se livrar dos policiais que o seguravam. Ele não se importava que não fosse ela quem estava envolvida no crime. Ele só precisava soltar tudo aquilo que estava mantendo preso dentro de si nos últimos quatro anos. Cada cintada que ela lhe dera, cada insulto que precisou ouvir dela, ele precisava devolver.

Logo os policiais saíram do orfanato com os cuidadores algemados. Uma cuidadora ria de maneira perturbadora. A mulher tinha cabelos negros, pele pálida e olheiras.

— Fui eu! Eu matei todas aquelas abominações do inferno! Agora estão todos perecendo no fogo por toda eternidade! -

Os policiais olhavam para a mulher curiosamente sem perceber que Chara se desvencilhara de suas mãos. Ele pegou uma pedra que achou no chão e correu em direção à mulher. Os homens o seguraram novamente antes que pudesse fazer alguma coisa. A mulher parecia satisfeita em vê-lo nesse estado.

— Você é o próximo! Logo você vai se juntar a eles, sua aberraçãozinha! HAHAHAHAHAHA—

— EU VOU TE MATAR! VOU TE MATAR SUA PUTA DESGRAÇADA! ME SOLTA. —

Um policial pegou Chara e o levantou. A mulher continuou a rir. Agora que Chara finalmente tinha achado a culpada não podia fazer nada contra ela. Isso o fez sentir ainda pior. Bem à sua frente estava a pessoa que matou Jessica Parker, a mulher que tinha sido muito mais que sua psicóloga, muito mais que sua mãe adotiva. Ela tinha sido sua melhor amiga. A única pessoa a quem Chara verdadeiramente amava foi lhe arrancada por maníacos. Perder alguém era mais rápido e inesperado que poderia imaginar. Ele nunca se imaginou sentindo pesar pela perda de alguém. De um dia para o outro sua vida foi colocada de cabeça para baixo. Sentiu como se o chão de baixo dele desaparecera, como se fosse cair por toda eternidade. Chara perdeu seus movimentos. Ele ficou parando mirando o chão com a expressão vazia.

"Jessica, o que eu queria dizer é que... eu me importo com você. Eu me importo muito com você. POR QUE EU NUNCA DISSE ISSO ANTES?!"

Seus olhos grandes e verdes e seu sorriso quente, Chara jamais tornaria a vê-los. Ele jamais tornaria a ouvir sua risada melódica e sua voz calmante. Tudo isso se foi para sempre. Há um dia ainda estava lá bem à sua frente e agora nunca mais retornaria.

Os cuidadores foram levados embora. Ouviu os carros atrás dele ligarem o motor e começarem a andar, mas ele não olhou. De repente ele ouviu vozes que nunca ouvira antes. Alguém estava falando com os policiais. Pessoas, que pareciam ter saído do nada, entraram no orfanato. Sentiu a mão de alguém tocar em seu ombro.

— Nunca mais você verá essas pessoas de novo. Nós somos os novos cuidadores. — ele ouviu uma jovem dizer. Ele não se importava. Continuava a encarar o chão sem esperança.

— Vai precisar ter paciência com ele. Algo terrível aconteceu com o moleque hoje mesmo. — ouviu o policial dizer.

Dois meses se passaram. Tudo havia mudado drasticamente. Algumas coisas continuaram como antes, mas tudo ainda parecia muito novo. Ele estava vivendo no orfanato que agora estava pelo menos dez vezes melhor que antes. Ele e as outras crianças finalmente comiam comida de qualidade. Havia um monte de atividades novas e não existiam mais surras. Os novos cuidadores eram legais. Mas isso ainda não era motivo o suficiente para Chara se socializar. Ele também retornara à sua antiga escola. Seus colegas estavam sendo estranhamente gentis com ele como nunca antes. Ele preferiria se todos simplesmente o ignorassem.

Ele se isolou. No intervalo ele sempre ficava na sala de aula lendo aquele seu livro "História dos Humanos e Monstros". Ele estava na página 978. De repente ele ouviu passos. Alguém acabara de entrar na sala. Chara abaixou o livro e olhou na direção da porta. Ali estava ela, a menininha loira de olhos azuis.

Amy estava receosa, mas ela superou seus medos e deu um passo à frente. Chara a encarou sem expressar emoções. Por alguns segundos eles ficaram se encarando ali. Ela fechou suas mãos em punhos, como para dizer que ela superara todos os seus medos, e andou na direção de Chara. Ela pegou uma cadeira, colocou-a ao lado dele e então se sentou. Chara deixou escapar um suspiro.

— Sempre estive curiosa sobre esse livro misterioso que você sempre lê. — disse Amy.

— Contos para crianças, nada demais. — disse Chara.

— É mesmo? Não sei se notou, mas eu sou uma criança. E alguém precisa te lembrar de que você também é uma criança. — disse sorrindo.

— Hum. –disse sacudindo os ombros.

Chara continuou lendo como se ela não estivesse ali. De certa forma ele não estava se sentindo desconfortável perto dela. Por mais que as lembranças que ele tinha em relação a ela não fossem as melhores, ela era a única outra pessoa com quem ele se socializara no passado. Pensar nisso o fez lembrar-se de Jessica. Ele sentiu seu coração apertar. Sentiu-se novamente como se seu coração tivesse subido para sua garganta. Doeu muito. Sentiu seus olhos ficarem úmidos e então não conseguiu mais segurar. Ele desabou em lágrimas. Esta era a primeira vez que ele chorava depois de Jessica ter partido. Antes ele estava cheio de de fúria e ódio. Agora ele apenas sentia tristeza. Um pesar sem fim. Ele chorou como se estivesse purificando seu coração de todo ódio que sentia. Era como se, a cada lágrima que derramasse, ele ficasse cada vez mais vazio por dentro. Tudo que desejava era sentir os braços de sua mãe adotiva em volta dele.

E, de fato, ele sentiu os braços de alguém. Ele chorou ainda mais sabendo que não eram os braços de Jessica. Mas mesmo assim, ele devolveu o abraço.