Chara

2 O homem do desenho


Notas iniciais
Atenção: este capítulo contém violência.

— EU NÃO PEDI POR NADA DISSO! — um homem berrou. Ele era alto, pálido e tinha cabelo castanho. Debaixo de seus olhos das íris de cor vermelha haviam olheiras. Ele era desajeitado e parecia que poderia desmaiar a qualquer momento

— Eu também não mas você precisa perceber que nós temos uma responsabilidade agora! Você precisa arrumar um emprego! Não podemos só depender do meu dinheiro, não é o suficiente! — disse uma mulher de cabelo loiro e olhos castanhos. O casal tinha tido um menino 4 anos atrás. Ele estava escutando a discussão entre os pais.

— Seus pais poderiam nos dar mais dinheiro, sabe. Eles sequer se importam com a gente! Eles não se importam com Chara! E eu tocomeçando a me perguntar se eu me importo. — o homem urrou.

— Como poderia dizer uma coisa dessas? Ele é seu filho!

Lembranças voltaram à cabeça de Chara enquanto ele estava desenhando no consultório de psicologia. Ele desenhou algo que hoje em dia ele desejara esquecer mais que nunca. Ele queria esquecer que teve pais algum dia. Ele tentava não pensar, mas mesmo assim, a única coisa na qual ele conseguia pensar era aquele homem, o próprio pai.

Chara sempre via o pai fumando substâncias estranhas e até injetando-as nele próprio. Muitas vezes Chara estava confuso, olhando para o pai e tentando descobrir com quem o homem falava quando claramente não havia ninguém ali. Ele também tentava entender algumas coisas que seu pai dizia totalmente fora de contexto e que pareciam não fazerem sentido algum. Mas no final Chara estava cansado de se importar. Uma hora ele apenas desejava que este homem sumisse de sua vida. Muitas vezes sua mãe o deixara sozinho com o pai. Mal sabia o que acontecia na sua ausência.

"Se você contar para mamãe vou machucá-la e vou machucar você mais que já machuquei em toda sua vida." Chara sentiu algo pontudo e frio penetrando sua perna. Logo sentira mais um monte deles por todo seu corpo. Com as drogas a mente do seu pai se deteriorara aos poucos. Logo ele se tornou um homem completamente perturbado.

— Pa-papai. Por favor, para. Mãããe! Eu quero mamãe! — Chara implorava para o homem que o olhava com malícia. Ele o machucava de várias maneiras diferentes e o fazia sentir sensações mais que desagradáveis. Chara mais de uma vez perguntava o motivo de tudo isso mas sempre recebia a mesma resposta: "É divertido."

Mas um dia ele foi longe demais. Um dia o homem perdeu por inteiro o restante da sanidade que lhe restara. Ele deu uma surra na mãe de Chara bem na sua frente após ela ter descoberto o que acontecia quando ela estava ausente. Depois de vários socos a mulher caiu no chão inconsciente. O homem se virou para Chara o encarando com um sorriso perturbador. Ele queria se divertir um pouco mais com o filho. Ele andou em direção ao menino que estava aterrorizado, incapaz de se mover. A mãe acordou e levantou-se. Achou que, se tivesse bastante cautela, poderia alcançar a gaveta com as facas sem que o marido percebesse. Mas o plano falhou. Assim que ela pegou uma das facas o homem virou-se e andou em sua direção. Ele arrancou a faca da mão dela e a esfaqueou repetitivamente. O estômago, o peitoral e finalmente a cabeça. Então ele vagarosamente virou-se e caminhou em direção ao filho, mas o menino ganhara os movimentos de volta e já estava correndo em direção à porta do quarto. Ele era muito pequeno para alcançar a maçaneta. Tudo o que podia fazer era gritar o mais alto que pudesse. Ele chutava e socava a porta com toda força que seus membros de criança permitiam. De repente a porta da casa escancarou-se e vários homens entraram.

— Parado! — um dos homens bradou apontando sua arma para o pai de Chara que estava coberto de sangue. Ele estava tão alucinado que não percebia o que estava acontecendo e simplesmente correu na direção do policial com intenção de esfaqueá-lo. O policial atirou bem entre os olhos do homem e ele tombou para trás. O que acabara de acontecer nenhuma criança deveria testemunhar. Um dos policiais andou cautelosamente na direção de Chara. O garoto amedrontado deu passos para trás.

— Ei amigão, tá tudo bem! Não vou te machucar. Estamos aqui para ajudar! — o policial falou.

"Vai ficar tudo bem."

"Vai ficar tudo bem."

"Chara, está me ouvindo?"

Ele escutou a voz de uma mulher trazendo-o de volta à realidade. Ele acordou de seu devaneio e encontrou-se no consultório de sua psicóloga.

— Um dia terá de enfrentar seus medos. Todos sabemos o que aconteceu com você, mas um dia terá de falar sobre isso. Terá que parar de fingir que não aconteceu. Um dia terá de falar sobre o que te incomoda senão os pensamentos negativos irão envenenar sua mente. — a psicóloga disse.

— Talvez um dia, Jessy. — disse Chara enquanto mastigava sua barra de chocolate.