Chara

3 Consequências


Notas iniciais
E aqui está o terceiro capítulo. Este descreve o contexto em que Chara vive e como isso o afeta. Mas nem tudo na vida dele está tão ruim. Sempre há pelo menos uma pessoa disposta a ajudar.

"Chara?"

"Hein?"

— Você realmente quer estar aqui?- a psicóloga perguntou. Jessica Parker era a única psicóloga na pequena vila em que Chara vivia. Há 4 anos ele teve sua primeira consulta no consultório de Jessica. Ele passara por experiências traumáticas e se negava continuamente a conversar sobre elas.

— Mas é claro, Jessy. Sabe como eu amo falar com você! — disse Chara com um tom sarcástico enquanto cruzava as pernas na poltrona em que estava sentado. Ele estava comendo uma barra de chocolate.

— Você é realmente um chato, sabia? — disse Jessica comicamente.

— É, eu sei. — Chara respondeu audaciosamente. Porém não era mentira total, pois Chara gostava de estar no consultório de Jessica. Como ele mesmo disse era "o único local em que podia ter uma conversa inteligente" insinuando que em qualquer outro lugar ele estava cercado por idiotas. Jessica sempre o aconselhou a não pensar desta maneira de outras pessoas. Ela o aconselhara a ter uma mente aberta e fazer novos amigos. Chara na maioria das vezes ignorava este conselho ou respondia com um "meh" apático. O orfanato no qual vivia encontrava-se em um estado medíocre. Os cuidadores eram religiosos fanáticos e pareciam que nunca tinham tido uma infância. Eles puniam as crianças de todas as maneiras horripilantes possíveis caso elas desobedecessem às regras. Tinha consequências terríveis até para acidentes e comportamento infantil(?). Chara ainda era desajeitado e infantil quando chegou ao orfanato 4 anos atrás, mas isso era normal. Era o que se esperava de uma criança. Toda criança se suja de comida, tropeça ou faz coisas estúpidas por curiosidade. Mas haviam consequências até para isso. Não haviam ensinamentos, apenas consequências. Cada criança reagia de maneira diferente em resposta aos "cuidados" brutais dos cuidadores. Com o tempo Chara começara a comportar-se como adulto embora tivesse apenas 8 anos de idade. Ele andava, falava e comia como um. Ele nunca mais voltou a se comportar como uma criança pois as circunstâncias exigiam que ele não se comportasse dessa maneira.

A comida que serviam no orfanato era asquerosa. Raramente tinha carne ou legumes. Era sempre só arroz e feijão enlatado com macarrão. Eles faziam a comida de maneira preguiçosa e antiprofissional e a serviam. Comida de qualidade Chara apenas veria na escola. Mas ele tinha que comer o lixo que serviam no orfanato de qualquer jeito. No começo ele chorava e não conseguia comer quase nada mas os cuidadores o batiam até que ele terminasse de comer. Ele se acostumou com esse tipo de tratamento. A cuidadora chefe, que Chara carinhosamente apelidara de velha feia e gorda, sempre passara por ele quando ele estava comendo. Ela o perguntava com um sorriso sádico "Como está a comida?" ao que ele respondia "Igual a marca de nascença na sua cara. É nojenta mas tenho que encarar de qualquer forma." Chara achava que a surra que levara por causa disso valia à pena. Uma resposta como essa lhe custara nada menos que 10 cintadas dolorosas com um cinto cuja fivela era de ferro. Mas ele se acostumou.

— Chara, eu realmente devo chamar a polícia. Não aguento mais ver você com machucados por todo o corpo! Eles não podem te tratar assim! — disse Jessica preocupada.

— Acha mesmo que a polícia vai fazer alguma coisa? Nós tentamos ligar para eles umas 10 vezes. Na maioria das vezes eles sequer atendem e quando atendem dão risadas ou nos mandam parar com os trotes. — disse Chara sem esperança. E ele tinha razão. Ele e algumas outras crianças tentaram alcançar a polícia sem sucesso. E ainda era arriscado pois o telefone ficava no escritório de uma das cuidadoras. Uma vez as crianças foram pegas usando o telefone e as consequências foram terríveis. Cada um teve que tirar as roupas e levar cintadas.

A maioria das coisas na vila eram de má qualidade tais como as instituições públicas e o sistema de segurança. As exceções eram a escola de Chara e o hospital. Jessica, a única psicóloga da vila, sequer morava lá. Ela morava numa cidade perto da vila. Ela vinha para a vila trabalhar todo dia pois queria fazer algum tipo de diferença neste lugar.

— Bem, então terei uma conversa séria com seus cuidadores... -

— Não, por favor. — Chara a interrompeu. — Se você falar com eles não vão mais me deixar vir aqui e eu odiaria ter que passar mais horas do meu dia naquele hospício. Sem falar que eles me puniriam. Eu vou dar um jeito nisso. Um dia sairei de lá, até porque não serei criança para sempre. Os livros lá até que são bons. Eles me ajudam a passar o tempo lá.

Chara insistia para que Jessica não fizesse nada que fosse causar consequências. Ele já tinha o suficiente dessas.

— Está bem. — disse Jessica descontente. Mas no fim ela reconheceu que não deve dar nenhum passo precipitado.

— Essa situação é horrível para seu desenvolvimento mental e emocional. Estou surpresa que consegue lidar com isso com tanta facilidade. Não que fosse algo bom que tenha que lidar com isso. Nenhuma criança deveria ter que lidar com algo assim. Você precisa ter um espaço onde poderia estar livre. Precisa de um lar saudável. Mas até lá saiba que eu sempre estarei aqui à sua disposição. Sabe que pode me contar tudo. Não sou apenas uma psicóloga que quer seu trabalho feito. Sou sua amiga e quero te ajudar. — ela disse com aquele sorriso maternal que sempre tivera.

— Sei que posso contar com você, Jessy. — disse Chara, sorrindo também.