Chara
8 Adeus
Notas iniciais
— Psiu, Chara. -
— Hein? -
— Você sabe a resposta para o exercício número 6? — Amy perguntou para Chara durante o teste de biologia. Ela não gostava de estudar, porém Chara era apaixonado pela leitura. Ele podia ler praticamente qualquer coisa então estudar para ele não era um problema. Chara rolou os olhos. Ele odiava quando pessoas lhe perguntavam sobre exercícios. Era tudo que pessoas queriam com ele. Este era praticamente o único motivo pelo qual as pessoas chegavam nele. Embora estivesse irritado ele tentou responder. Ele estava preparado para sussurrar "C" quando a professora falou:
— Quietos aí senão vou tirar as provas! —
Chara decidiu então ignorar Amy para não ser pego passando cola.
Três meses se passaram depois daquele incidente com Amy e ela ainda tentara chamar a atenção de Chara. Eles se falavam de vez em quando, mas era uma socialização superficial. Ele tentara evitá-la na maioria das vezes. Ele não queria se envolver com essa criança mimada que Amy demonstrara ser. Uma vez que Amy percebeu que não havia como ganhar Chara de volta ela começou a fazer comentários passivo-agressivos a respeito dele quando alguém o mencionava. Ela aproximou-se de todos os meninos da sala para tentar provocá-lo. Mal sabia que Chara não se importava. De fato, ele achava patético. Nas semanas que se passaram Chara se esforçara ainda menos no seu tratamento. Ele passou a ter cada vez menos contato com pessoas tirando sua psicóloga, Jessica. Ela era a única pessoa quem ele considerava uma verdadeira amiga. Ele tinha uma semi-socialização com os outros órfãos, mas ele tentava não se apegar a eles para não se sentir mal quando eles fossem punidos. E obviamente ele tentava ficar o mais longe possível dos cuidadores. Ele ainda estava lendo aquele livro, porém com menos entusiasmo. O livro tinha aproximadamente 1000 páginas. Ele deixou o marcador entre a página 549 e 550 onde iniciava-se capítulo "A guerra entre os humanos e os monstros". Ele estava tão depressivo que deixara de praticar seu hobby favorito.
Na escola as coisas não estavam muito melhores. Devido a sua popularidade, Amy conseguiu convencer quase todos a antipatizar com Chara. As crianças tentavam zoá-lo sem sucesso. Mesmo deprimido sua autoestima ainda era a mesma de sempre. Ele sempre conseguira rebater cada zoação e jogar todos os insultos contra seus autores. Ele praticamente humilhava cada pessoa que tentava arrumar confusão com ele. Certa vez Amy juntou uma turminha. Eles se posicionaram em volta de Chara e o insultaram. Até tentaram machucá-lo. Chara riu de cada um deles e os socou. Cada um dos envolvidos na briga recebeu castigos. Os professores não contataram os cuidadores de Chara por motivos óbvios. Tudo isso aconteceu num espaço de tempo muito curto. Ele mudara assim como as pessoas ao seu redor. Logo perceberam que não valia à pena arrumar confusão com Chara. Eventualmente as coisas voltaram a ser como eram antes de Amy falar com ele. Ele estava sozinho, seus colegas o evitavam e a vida no orfanato era uma droga.
Certo dia a cuidadora chefe se aproximou de Chara no jantar e lhe deu notícias sensacionais:
— Boas novas para você. Tem uma pessoa solicitando sua adoção. Ugh, inacreditável, não é?
Chara ficou boquiaberto e o macarrão que estava comendo caiu de sua boca. A cuidadora o olhou enojada.
— Q-qu.... — ele gaguejou de tanto espanto.
— Sim, é exatamente assim que eu reagi também. É inacreditável. Essa pessoa vai se arrepender dessa decisão. Já sinto muito por ela. Quem iria querer adotar um moleque perturbado como você? Ha ha ha... — debochou.
— Mas... qu-quem? Posso vê-la? Quem é?! — Chara gaguejou.
— Aparentemente uma jovem chamada Jessica Parker é corajosa o suficiente para aceitar esse desafio. Hahaha eu quase neguei, mas sinceramente, ela me faria um favor em te levar daqui. -
Chara paralisou.
— Sim, você me ouviu certo. É sua psicóloga. Estou surpresa, pensei que ela te conhecia depois de todo esse tempo. — disse ainda debochando.
— Onde ela está?! — ele levantou-se bruscamente, mas a cuidadora o empurrou rudemente fazendo ele cair em sua cadeira.
— Senta nesse traseiro ou vou fazer com que nunca mais consiga sentar. Termine de comer primeiro senão vou negar sua adoção e vou mandá-la embora. — disse asperamente. Chara ignorou a maior parte do que ela disse. Ele só ouviu "termine de comer primeiro" e o resto eram resmungos incoerentes em sua cabeça. Ele rapidamente engoliu o que sobrou de seu jantar. Quase vomitou, a comida estava nojenta como sempre.
Depois que terminou ele apressou-se para o escritório do orfanato. Era verdade. Jessica estava sentada ali. Ela estava diferente. Seu cabelo estava solto, ela estava usando maquiagem e vestia um vestido rosa. Ela quase parecia uma adolescente. Ela realmente está aqui. Chara ficou parado ali, admirando-a, sem saber o que dizer. Nada mais importava. Isso era extraordinário.
— Vo-você... você está louca, né... Você perdeu totalmente o bom-senso... — disse emocionado.
— Porque diria isso? — disse Jessica alegremente.
— Você-você...está... ME ADOTANDO?! EU? SÉRIO MESMO? A criança mais perturbada que podia conseguir? -
— A psicóloga com seu paciente louco, não é a família perfeita? — disse com um sorriso enorme.
— Você é a louca aqui... — disse Chara. Jessica levantou-se e Chara correu em seus braços. Ele finalmente estava sendo adotado e por ninguém menos que a sua psicóloga. Sua única amiga nos últimos 4 anos. Seus olhos com as íris de cor vermelha estavam brilhando. O orfanato, os cuidadores, seus colegas idiotas, Amy e essa vila maldita, ele nunca mais tornaria a vê-los. Jessica vivia em uma cidade que ficava por perto, o que significava que ele ia se mudar dessa vila. Ele detestava essa vila com todas as fibras de seu corpo. Ele não conseguia acreditar que ele finalmente estará longe desse lugar.
Os cuidadores fizeram Jessica assinar vários documentos. Entrementes Chara foi para seu quarto e jogou seus pertences em uma sacola plástica. Ele não tinha muita coisa. Apenas 3 camisas, 2 calças e algumas cuecas. Ele também colocou na sacola aquele livro dos monstros que pegara na biblioteca. Era improvável que o orfanato ia sentir falta de um livro velho desses. Ele correu pelas escadas para a sala principal onde Jessica estava aguardando. Como despedida a cuidadora disse com um sorriso malicioso:
— Só um aviso: você vai se arrepender dessa decisão, Srª. Parker. –
— O único arrependimento que eu tenho é de não ter tomado essa decisão mais cedo. É você quem vai se arrepender. Seu trabalho é medíocre assim como esse orfanato. A vida vai lhe ensinar como tratar crianças adequadamente, mas acredite, ela não vai te poupar. Adeus. — disse Jessica friamente
— ADEUS SENHORA VERRUGA NOJENTA! — Chara berrou, mais alto que nunca, sentindo prazer em cada sílaba que pronunciava. Ele entrou no carro e olhou para seu antigo lar. Jessica ligou o motor e começou a dirigir. A figura de sua cuidadora na entrada do orfanato diminuía ficando cada vez mais distante. A vista das casas passando enquanto Jessica dirigia pela vila, o pôr do sol, tudo isso o encheu de determinação.
Fale com o autor